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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Repatriamento de acervos sonoros de Madagascar

O repatriamento de acervos sonoros de Madagascar

Texto: Lígia Dutra

Edição: Luiz H. Garcia

O repatriamento de acervos tornou-se um tema constante nas últimas décadas, principalmente quando se trata da restituição dos diferentes tipos de acervos sob o domínio dos países europeus para os países africanos. De acordo com os autores Karine Lima da Costa e Kimberly Terrany Alves Pires, esses movimentos em torno da repatriação tornaram-se expressivos nos últimos 50 anos, devido à percepção sobre a importância da cultura material de variados povos. Diante desse clima e em conjunto com a data comemorativa criada pela UNESCO para destacar a importância do Patrimônio Audiovisual, a Academia Austríaca de Ciências resolveu restituir acervos fonográficos fruto da coleta e pesquisa da diversidade sonora de Madagascar, realizada pelos etnólogos da Universidade de Viena, como August Schmidhofer, Gerhard Kubik, Lotte Schomerus-Gernböck, e Michael Weber, ambos com interesse na musicalidade da cultura africana [aqui para ler mais sobre o projeto].

Madagascar é um país situado próximo à costa sudeste da África, possui um panorama musical bastante diferenciado, talvez devido a diversidade de etnias, dialetos, crenças e culturas, que podem estar conectadas pela música e os objetos que a reproduzem. E depois deste contexto, que tal desfrutar um pouco da rica sonoridade coletada por estes pesquisadores? Os áudios a seguir são das regiões de Província de Fianarantsoa e Província de Toliara produzidos sob o estudo da Lotte Schomerus-Gernböck e através do link do site worldmusicstore, sinta-se livre para fruir os diferentes tipos de informações sobre a musicalidade malgaxe como as variadas cerimônias, rituais e instrumentos tradicionais classificados por August Schmidhofer, como maravony (cítara de caixa), gorodo (acordeão) e bandolim. Por fim, quem tiver o interesse, comente abaixo quais foram suas sensações, lembranças e percepções após a fruição desses arquivos sonoros.



Título Música: Convocação para a luta [para ouvir, clique]
Projeto: Schomerus-Gernböck: expedição a Madagascar 1961
Região: Província de Toliara
Conteúdo: Peça instrumental; Canções do Mahafaly com acompanhamento instrumental
Instrumento (s): Amponga2 (cilindro de cone) ; Sodivina1 (flauta longitudinal)
Execução de vogal: Cantor principal (solo vocal) ; Coro feminino (coro) , duas partes
Arquivo: B 7562 (trecho)
Duração (hh: mm: ss): 00:00:20

Título Música: Música de premiação e parabéns [para ouvir, clique]
Projeto: Schomerus-Gernböck: expedição a Madagascar 1961
Região: Província de Fianarantsoa
Conteúdo: Canções do Betsileo
Instrumento (s): Lukanga (cuspir alaúde, cancelado)
Execução de vogal: Cantor principal (solo vocal) ; Canto masculino (grupo de canto) , duas partes
Arquivo: B7568 (trecho)
Duração (hh: mm: ss): 00:00:20

Para consultar os arquivos de áudio:https://catalog.phonogrammarchiv.at/ausgabe_laender.php?sortieren=0&action=uebersicht&vonBis=0-9&id_land=28&art=alphabetisch&anfangsb=m

 
Mireille Rakotomalala and August Schmidhofer (Antananarivo, 26 September 2012)
Imagem de Arquivo sendo repatriado
Fonte: site iasa-web
Disponível em: https://www.iasa-web.org/phonogrammarchiv-repatriates-madagascar%E2%80%99s-acoustic-heritage


 
Imagem de encarte Gravado por August Schmidhofer do Instituto de Musicologia da Universidade de Viena.
Fonte: site worldmusicstore
Disponível em:https://www.worldmusicstore.com/collections/africa/products/mcm-3011

 

Referência:

COSTA, Karine Lima da; PIRES, Kimberly Terrany Alves.Repatriação e Restituição de bens culturais: caminhos possíveis. Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, V. 6, ed. especial, p. (1-12), mar. 2020.


 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Museus em alta

Acompanhei a matéria na tv mais cedo, deste mesmo órgão de mídia. O aumento do público em si é fato relevante e suscita bons debates. Mas cabe ir um pouco além dos números. Tem hora que eu gostaria que o WB estivesse errado, mas "Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie"(a quem quiser se aprofundar, indico esse texto curto de Jeanne Marie Gagnebin).
Convido à reflexão, e a título de incentivo, vamos fazer uma enquete depois e o melhor comentário ganhará créditos bárbaros com o professor. Prometo considerar a opinião do público rsrs. 




quarta-feira, 4 de julho de 2018

O Cine Teatro Brasil enquanto patrimônio cultural [Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus 2018]

Disciplina: Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus
Alunas:  Eliana Rodrigues, Jéssica Tôrres, Letícia Zignago, Maria Celina Machado, 
Viviane Ferreira
Prof.: Luiz H. Garcia


O Cine Brasil foi inaugurado em 1932, possuindo arquitetura no estilo art déco, muito difundido no período. Ir ao prédio era um evento por si só, já que era a construção mais alta da cidade e o terraço permitia o vislumbre de toda a Serra do Curral. Acompanhou a grande revolução cinematográfica do cinema mudo para o falado, do preto e branco ao colorido. O espaço foi concebido para receber várias formas de arte, como a ópera, música, teatro e o “carro chefe”, o cinema. Este tinha salas de espera e muito luxo em todas as instalações. Espaço importante de sociabilidade e tornou-se ponto de encontro e recebia até mesmo bailes de carnaval. Frequentar um cinema era um acontecimento social, e não somente diversão, era fonte de conhecimento. Celina Albano diz sobre a assiduidade dos freqüentadores: “Em bando, assistíamos à maioria dos filmes em cartaz, bons e ruins. Nós víamos o mundo por meio do cinema. Ele era nossa religião.” (ALBANO,  2008, p.51).

A pesquisa histórica nos permite conhecer e refletir sobre as relações da História com o tempo, com a memória e com o espaço, ampliando possibilidades para a construção do conhecimento, nesse caso, de um bem cultural, que engloba além da pesquisa, a preservação e a comunicação. No texto “Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico” o autor Garcia cita Mario Chagas, propondo os seguintes questionamentos:




“O que fazer com o objeto preservado? A preservação por si só não lhe confere, ou mesmo não lhe restitui, o caráter de documento. A preservação não justifica a si mesma, ela é um meio e não um fim. É necessário que ao lado da preservação se instaure o processo de comunicação. (...) Em contra partida, o processo de investigação amplia as possibilidades de comunicação do bem cultural e dá sentido à preservação. A pesquisa, compreendida como produção de conhecimento.” (p.24)


Podemos direcionar todas essas questões para o Cine Brasil enquanto patrimônio cultural: Por que preservá-lo? O que fazer com um monumento preservado? Em qual contexto social, político, econômico e cultural ele foi construído e utilizado? Qual relação que manteve com as diversas conjunturas sociais? Para conduzir essas interrogações, Garcia diz que a cidade, seu tempo e espaço devem ser problematizados. Um bem cultural tem valores culturais, simbólicos, financeiros e estéticos. O Cine Teatro Brasil é um monumento histórico local, um testemunho vivo, um “lugar de memória”. Faz parte de uma herança cultural da cidade, na época áurea do cinema de rua. Foi muito representativo para a sociedade belorizontina, “dos bons costumes” e ao mesmo tempo foi um espaço de diferenciação social, e não de inclusão. Faz parte de uma memória coletiva, e segundo Le Goff (1990), a memória é a propriedade de conservar informações a partir de um conjunto de funções psíquicas que nos permitem acessá-las e reinterpretá-las. Essas informações não são nada menos do que nossas lembranças.

 “O historiador, ocupado em compreender e fazer compreender, terá como primeiro dever recolocar em seu meio, banhados pela atmosfera mental de seu tempo, face a problemas de consciência que já não são exatamente os nossos” (BLOCH, 2001, p.64).


O Cine Brasil é um monumento histórico local, um “lugar de memória” que guarda uma herança cultural da cidade e da população belo horizontina. Faz parte de uma memória coletiva, que, conforme Le Goff, é constantemente reinterpretada e ressignificada. Assim, é certo que tanto o uso quanto a importância do prédio mudaram para a sociedade contemporânea, mas é inegável a história dos cinemas de rua de Belo Horizonte que o Cine Brasil carrega.


“Para interpretar os raros documentos que nos permitem penetrar nessa brumosa gênese, para formular corretamente os problemas, para até mesmo fazer uma ideia deles, uma primeira condição teve que ser cumprida: observar, analisar a paisagem de hoje. Pois apenas ela dá as perspectivas de conjunto de que era indispensável partir. Não, decerto, que se trate — tendo imobilizado, de uma vez por todas, essa imagem — de impô-la, tal qual, a cada etapa do passado sucessivamente encontrado, da montante à jusante” (BLOCH, 2001, p. 67).















Fontes

ALBANO, Celina. “Cine Pathé”. Belo Horizonte; Conceito, 2008.

BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CHAGAS, Mário de Souza. Em busca do Documento Perdido: a problemática da construção teórica na área da documentação. Novos rumos da Museologia. In: Cadernos de museologia. Lisboa: Centro de estudos de Sociomuseologia. U.L.H.T.v.2.1994, pp.29-47.
GARCIA, Luiz Henrique A. Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico. Cadernos de Pesquisa do CDHIS. Uberlândia: UFU, V. 23, N. 1 , 2010, pp. 23-39.

Site do Cine Brasil: https://cinetheatrobrasil.com.br

quarta-feira, 16 de maio de 2018

100 anos de Athos Bulcão


Estive agora há pouco no CCBB conferindo a exposição "100 anos de Athos Bulcão" [informações gerais]. Fique agradavelmente surpreendido com o que vi. Se não há nada propriamente impressionante, em termos de pesquisa ou expografia, também não cai nas espetacularizações baratas ou lapsos graves que às vezes encontramos por aí. É, a meu ver, um trabalho correto, que não complica, não enche linguiça - fazia tempo que eu não sentia tanto a amplidão das salas do CCBB, invariavelmente preenchida por mobiliário expográfico em excesso para disfarçar a escassez de obras, o que desta vez não seria preciso - e consegue apresentar ao público um bom panorama retrospectivo da obra do artista, cumprindo o que se propõe numa exposição para celebrar esse tipo de efeméride. Sai-se particularmente bem em mostrar a diversidade de materiais e linguagens com que Athos Bulcão trabalhou, claro que inevitavelmente destacando a integração entre arte e arquitetura, com as obras para prédios públicos e o vínculo com o projeto modernista brasileiro. Claro que há um destaque para a azulejaria, mas talvez a promoção da mostra não esteja a contento, e ao centrar fogo nela, não consegue dar a ver antecipadamente ao público a multiplicidade de objetos e expressões que dispõe ao longo das salas. Além de obras acabadas que incluem pinturas, desenhos, fotomontagens, esculturas com finalidade acústica e até vestuário, maquetes, estudos, plantas e projetos deixam ver o processo de forma mais completa e esclarecedora. Combinado com depoimentos muito bem pinçados do artista - o que revela uma pesquisa competente - e com a alternância entre cinza e cores fortes nas paredes que conversam com o acervo exposto, esse material todo oferece ao público um bom ponto de partida para entender como Bulcão pensava e dava forma à sua criação, inclusive contando com a colaboração inadvertida dos operários da construção civil na colocação dos azulejos. Mas isso poderia, inclusive, se houvesse ousadia para tal, suscitar perguntas sobre autoria, colaboração e reconhecimento onde as fronteiras entre arte e trabalho, invenção e reprodução, entre outras, se borram. Nesse ponto esta e tantas outras exposições de arte silenciam, apesar de terem sido os próprios artistas os primeiros a brincarem com esse fogo.





Além disso, se é legítimo trazer obras de outros artistas para mostrar diálogos e repercussões em produções posteriores, faltou algo mais que mencionar os nomes destes em legendas. Agora, escorregada mesmo foi o aparato de interação, bobo, previsível, sem maiores opções para impulsionar a criatividade do público ou dar algum entendimento prático do trabalho do artista. Dispensável. Finalmente, se a exposição nos situa bem quanto a forte presença da criação de Bulcão no espaço público de Brasília, para outras cidades em que ela se apresenta nem tanto. Caberá provavelmente ao programa educativo compensar a falta de ênfase ao laço dele com BH, como mostrou muito bem a reportagem de Gustavo Werneck no Estado de Minas.  No geral vale a pena dar uma conferida, para ver, além das obras, claro, uma exposição bem realizada acima da média, sem se complicar.
Ah, tem também uma de curta duração "Dragão Floresta Abundante", fruto da residência do artista Christus Nóbrega na China. Muita coisa é clichê mas não deixa de ser oportunidade rara de ver material vindo de lá. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Museólogo, guerras simbólicas invisíveis [Tipologia 2016]



disciplina: Tipologia de Museus (2º semestre 2016)
professor: Luiz H. Garcia
Alunos responsáveis: Rosiane da Silva Nunes; Maria Celina Machado ; Ana Luiza Dias

Museólogo, guerras simbólicas invisíveis.

Qual a função do bem cultural e/ou obra de arte? São inúmeras as tentativas de respostas. No entanto, proponho realizarmos algumas reflexões. Será a arte tão dispensável? Napoleão em suas invasões saqueava testemunhos da história (objetos de obras de arte) levava para França com uma das finalidades, ‘educar’ a nobreza. Consideramos a empenho de Adolf Hitler em destruir obras de arte, durante o ‘Terceiro Reich’ na Segunda Guerra Mundial, como ato displicente e perca de tempo? Será que Hitler não sabia o que estava fazendo? E o governo Temer, primeiro Ministério a ser desconstituído, Ministério da Cultura, redução de custos?




(https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=IH%2fL1kyK&id=61B2E8D6ECF9FACDE8234D3D861F8FFD90CCC030&q=europa+saqueada+a+influ%c3%aancia+nazista&simid=607996636929067093&selectedIndex=165&ajaxhist=0)


A institucionalização e democratização da Cultura no Brasil é um trabalho incansável. Desde o movimento modernista até os dias atuais passou por recorrentes tentativas de esfacelamento ou mesmo de apagamento. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo_no_Brasil )

Observa-se que o Museu, consciente de sua função social, que possibilita informar, formar e influenciar pessoas e pode ser uma ferramenta para governos voltados para interesses difusos.

Pergunto, qual o papel do Museólogo, sendo ele ciente do seu compromisso social? Segundo Lourenço (1999:37) os Museus geralmente carecem de tudo (ou quase tudo) , principalmente de pesquisas e remuneração a altura dos profissionais, que geralmente são altamente qualificados. Os salários são simbólicos e o pessoal dedicado, os salários são equivalentes às dificuldades, trabalho “só pode ser entendido como extrema paixão, vontade de mudar, idealismo, sonhos e espírito público, pois, não há compensação material”.

(https://www.facebook.com/MuseologiadaZoeira/photos/a.870082809689479.1073741829.870030003028093/922952264402533/?type=3&theater)



Enfim, os Museus são espelho da sociedade, as instituições modernas/atuais refletem o legado herdado e a complexidade dos conflitos ideológicos e de interesse pessoais, de determinado grupo ou do Estado que está inserido. Ser museólogo de um museu ligado ao poder público, seja ele municipal, estadual ou federal, além das dificuldades diárias de escassez de tudo (especialmente desinteresse em resolver problemas estruturais) é estar à mercê de diversas negociações, onde muitas vezes, vêm de cima para baixo.

No Brasil, acreditar no poder transformador da Cultura democrática é trabalhar contra diversas forças e com isso, as vezes travar guerras simbólicas inimagináveis.



Bibliografia


LOURENÇO, Maria Cecilia França. Museus acolher moderno. São Paulo: EDUSP, 1999.293p.

NICHOLAS, Lynn H. , Europa Saqueada: o destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial; São Paulo: Companhia das Letras.

BALDASSARRE, Maria Isabel. As origens do colecionismo de arte pública e privada e, Buenos Arires. In: Souza, Eneida Maria de; MIRANDA, Wander Melo (Orgs.). 2008, vol.16, n.2, pp.131-173.

COSTA, Helouise. Da fotografia como arte à arte como fotografia: a experiência do Museu de Arte Contemporânea da USP na década de 1970.An. mus. Paul [online] 2008, vol 16, n.2, pp. 131-173.

HERNÁNDEZ, Francisca. Manual de Museologia, Madrid.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Do livro em códice ao mundo digital: historiadores pensam as transformações da forma, da técnica e da cultura

Assisti hoje no SESC Palladium ao evento da série Literaturas: questões do nosso tempo, com Robert Darnton (EUA) e Roger Chartier (FR), mediado por Guiomar de Grammont. Historiadores de peso, das mais importantes referências para a história cultural e os estudos sobre livro, edição e leitura, ambos com vasta obra e carreiras coroadas de mérito, dispensando maiores apresentações. O formato da mesa me pareceu bastante interessante, um respiro ante o que estamos acostumados. Ao invés de falas razoavelmente longas seguidas de debate, algumas perguntas lançadas pela mediadora, que ambos responderam com concisão sem perder densidade, por vezes complementando e pontuando a fala do outro, embora de fato tenha sido a pergunta comum o principal modo de atar a conversa. E qualquer historiador sabe o valor de boas perguntas para estabelecer os rumos de uma reflexão histórica. As questões lançadas giraram em torno das mutações da cultura escrita no mundo ocidental: Devemos enfatizar as continuidades fundamentais ou as rupturas radicais, e qual o efeito de eventos como o nascimento do códex, a invenção da imprensa, as inovações nas práticas de leitura ou a alfabetização universal? Resistirá o livro, ante as inovações tecnológicas como o kindle, o e-book? A digitalização favorecerá a salvaguarda dos registros do conhecimento, ou seu modus operandi facilitará seu esquecimento num infindável e indiferenciado mar de bites? Qual o peso da intervenção da censura sobre a produção de um texto? O conhecimento histórico é útil para compreender mais acuradamente as transformações do nosso tempo? Pode o historiador ser objetivo? Qual a pertinência atual de conceitos de autoria, direitos autorais e propriedade intelectual? Quais as responsabilidades de pesquisadores, instituições e cidadãos ante esse quadro atual?

É digno de nota que Chartier tenha tomado antes a palavra para, em claro português com talvez algumas pitadas de portunhol, fazer, em seu nome e também no de Darnton, uma declaração contundente diante da grave situação política no Brasil. O público lançou um Fora, Temer, talvez de forma até bem tímida, o que considero preocupante se levarmos em conta que a maioria, sem muito medo de errar, era composta por estudantes universitários das áreas ligadas às Humanidades, Letras e Artes. Eu entre os que gritamos, logo a seguir nos deleitamos com uma linha de Chartier sobre motivos a temer que foi claramente seu modo de insinuar o próprio Fora, Temer.
Não tenho, nesse momento, como transcrever e aprimorar todas as notas que tomei durante as falas. Na medida do possível e do horário, espero trazer aqui uma síntese orientada pelas questões que são de recorrente pauta deste blog, aproveitando também um ou outro apontamento que me ocorra, considerando que hoje mesmo a aula da disciplina Memória, Sociedade e Informação que leciono na pós tratou justamente das interseções entre História, Literatura, Narrativa e Memória a partir da obra de Walter Benjamin, que aliás acabou sendo alvo de uma menção muito rápida numa fala de Darnton.
Tudo isso tem muito a ver com o modo como os historiadores interpretam a mudança, inclusive quando se trata de aspectos tecnológicos. Lembrando aqui a velha discussão entre apocalípticos e integrados proposta por Umberto Eco, a história nos dá perspectiva para ficar fora dessa dicotomia. Como assinalou Darnton, fala-se em era da informação mas toda "era" tem "informação", ainda que os suportes sejam outros. Da mesma forma quando falamos em tecnologia é preciso ir além do senso comum e compreender que historicamente as sociedades sempre transformam o mundo que habitam usando diversas tecnologias. Paralelamente, Chartier apontou que se o livro resiste e coexiste no atual cenário de digitalização profunda - inclusive das relações sociais - entre permanências e mudanças constatamos mortes quando certos objetos desaparecem - ou eu poderia acrescentar, são deslocados para outros espaços sociais, como as máquinas de escrever que vão para os acervos dos museus. Aqui pontuo que Benjamin, no verbete sobre o colecionador no trabalho das Passagens, já percebera a operação colecionadora que desligava o objeto de suas funções originais para inseri-lo em outra relação.
A posição crítica ante ante esse novo cenário, que cumpre ao pesquisador da História adotar mediante um trabalho rigoroso e as regras que definem um método a partir do qual ele (re)apresenta o passado no presente, representa um ganho na medida em que permite superar leituras esquemáticas, simplificadoras, em que é perdida a natureza mesma das mudanças e de seu complexo entrelaçamento. Chartier sistematizou muito bem uma análise tipológica das mutações em torno do texto, do livro e da leitura, separando as mudanças de ordem morfológica (que dizem respeito ao suporte do texto), tecnológica (recursos de edição e reprodução), e cultural (modos de leitura e circulação). Ao distinguir, nos modos de leitura, a mudança na relação entre fragmento e totalidade do texto, quando se passa da forma manuscrita ou impressa, em que a forma material impõe uma percepção tátil da totalidade à qual pertence qualquer trecho que lemos, para o formato digital em que o fragmento se autonomiza, talvez ele não estivesse muito longe das discussões propostas por Benjamin sobre declínio da experiência, perda da aura, ou mesmo entre a narração e a informação. São tópicos a serem desenvolvidos ainda. Também seria indispensável pensar aí proposições de estudiosos latino-americanos como García Canclini e Martín-Barbero, tão atentos aos gestos de descoleção e recoleção, às mediações dos meios e papel ativo dos ditos receptores. Chartier e Darnton, mesmo sem aprofundar, foram enfáticos em reconhecer a diferença da experiência histórica das gerações mais novas que já se formam como "nativos digitais" [alguns desses apontamentos nessa entrevista de Chartier ao jornal Hoje em dia]. Mesmo quando não mudam necessariamente os livros, mudam os leitores e as práticas de leitura. Nesse sentido, as últimas considerações de ambos me pareceram bastante inspiradoras para pensar as práticas no contexto próprio dos museus. Darnton concentrou sua fala na democratização da riqueza cultural e do conhecimento, alertando para os perigos da censura nos regimes autoritários e da comercialização desenfreada da sociedade de mercado. Chartier destacou o papel das políticas públicas na formação de um cidadão leitor e de um leitor cidadão - o que igualmente é válido para o cidadão público de museu - e condenou o equívoco de se estabelecer qualquer equivalência entre as diferentes formas de escrita, constatando sua convivência e possível complementariedade. Seria de bom alvitre que os profissionais do campo da Museologia incorporassem esse raciocínio para pensar a política de acervo e os programas de exposições das instituições, pois o que enseja é o entendimento que o digital e as manifestações da cultura material de épocas as mais diversas não são mutuamente excludentes ou se sucedem numa ordem cronológica e evolutiva, mas coexistem historicamente e cumpre ao museu prover inclusive as evidências que permitam compreender essa coexistência. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano

Este semestre ofertarei a disciplina optativa Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano, às sextas. Fugindo um pouco do padrão, ela está estruturada a partir da leitura completa do seminal livro Culturas Híbridas, de Néstor García Canclini. A partir das formas de entrar e sair da modernidade, como ele mesmo diz, estabeleceremos roteiros possíveis para pensar sobre as implicações da história latino-americana para o cenário museológico no continente e no mundo, as relações entre história, tradição e memória contextualizadas pela dinâmica cultural híbrida, a questão do(s) lugar(es) da cultura popular considerando o fenômeno da globalização e a emergência de objetos culturais híbridos, buscando entender como são produzidos e circulam, como seus sentidos são disputados e transformados, como são escolhidos os monumentos e colecionados os acervos, e como finalmente, podemos entender melhor nossas complexidades e atuar em cenários institucionais ou informais, desenvolvendo políticas culturais nas áreas da museologia e do patrimônio condizentes com os desafios que essas complexidades impõem. 


Uma amostra da bibliografia proposta para auxiliar as discussões. A intenção é abranger diferentes temas, tipologias museológicas e contextos locais, na busca de uma disposição panorâmica que possa complementar o roteiro de leitura do livro e permitir aprofundamento em questões específicas.






P.S. 2018
Após 2 anos vou novamente ofertar a disciplina Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano (código TGI061 - TOPICOS EM INFORMAÇÃO E CULTURA D  ) às sextas-feiras no 1ºsem. de 2019. Acho que poderei fazer muitos incrementos em relação à primeira edição, em razão das viagens a trabalho que me permitiram colher material relevante em Havana, Montevidéu e Buenos Aires, do aproveitamento de pesquisas, especialmente aquelas que venho realizando junto com o grupo ESTOPIM, das disciplinas que ofertei na pós-graduação (em que cheguei a aproveitar textos que descobri montando esse programa aqui também) e do atual investimento que vamos fazendo em internacionalização para participar do Programa Print proposto pela CAPES. Mas sobretudo porque a distância no tempo da perspectiva para pensar o que foi bem sucedido e o que não, além de trazer as urgências dos contextos em transformação. Dentre os planos para estimular os trabalhos incluo realizar uma exposição sobre arte e engajamento político na América Latina, provavelmente tendo como carro-chefe a obra do uruguaio Joaquín Torres Garcia, autor, entre outros, de América Invertida (1943).



Bibliografia auxiliar

BERRÍOS, Pablo Salvador. El arte latinoamericano a través de la curadoría: políticas de representación y modos de inserción. PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, n. 9, 2015.

BIALOGORSKI, Mirta. Artesanías y patrimonialización en el Museo de Arte Popular José Hernández: el Banco de la Memoria del Campo Artesanal. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 31, 2004.

BURÓN DÍAZ, Manuel. Los museos comunitarios mexicanos en el proceso de renovación museológica. Revista de Indias, v. 72, n. 254, p. 177-212, 2012.

CARNOVALE, Vera. Memorias, espacio público y Estado: la construcción del Museo de la Memoria. Estudios AHILA de Historia Latinoamericana, v. 2, 2006.

COUSILLAS, Ana. El ciclo De la Feria al Museo: notas sobre la expe-riencia de exposiciones de artesanías urbanas curadas por artesanos en el Museo de Arte Popular del GCBA. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 47, 2004.

DE CARLI, Georgina. Vigencia de la Nueva Museología en América Latina: conceptos y modelos. Revista ABRA, v. 24, n. 33, p. 55-75, 2004.

ISE, María Laura. Arte Latinoamericano en los ochenta y noventa: una mirada desde algunas exhibiciones y catálogos. Nómadas, n. 35, p. 31-47, 2011.

LLOSA, Vargas. El Perú no necesita museos. El Comercio, March, v. 8, 2009.

NAVARRO, Óscar. Museos y museología: apuntes para una museología crítica. Museología e historia: un campo de conocimiento, XXIX Encuentro Anual del ICOFOM/XV Encuentro Regional del ICOFOM LAM, v. 5, p. 385-394, 2006.

PONCE, Ariel Guillermo. LA INFLUENCIA DE LOS CONTEXTOS INTERCULTURALES EN UN MUSEO DE LA ARGENTINA. Revista del Centro de Investigaciones Precolombinas, p. 63.

SABATÉ BEL, Joaquín et al. De la preservación del patrimonio a la ordenación del paisaje: intervenciones en paisajes culturales en Latinoamérica. 2011.

SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.

SERVIDDIO, Fabiana. Ser latinoamericano: lo precolombino como herramienta del discurso latinoamericanista en los años setenta.

SUESCÚN POZAS, María del Carmen. Los museos de Arte Moderno y la reconfiguración de lo local a través de lo foráneo: Transformando a Colombia en un País" abierto". Memoria y Sociedad, v. 3, n. 6, p. 135-142, 1999.

TAGÜEÑA, Julia. Los museos latinoamericanos de ciencia y la equidad Latin American science museums and equity. História, Ciencias, Saúde–Manguinhos, v. 12, p. 419-27, 2005.

VIÑUALES, Rodrigo Gutiérrez. Museos y espacios para el arte contemporáneo en Buenos Aires. Notas de actualidad. In: Museología crítica y arte contemporáneo. Prensas Universitarias de Zaragoza, 2003. p. 351-373.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Acervos públicos, sentidos do patrimônio e interpretação da História

A notícia de que o atual governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mandou retirar do gabinete de governo o quadro "Alegoria da morte de Estácio de Sá" (Antônio Parreiras, 1911), alegando que a mesma traz má sorte ou está "carregada" (palavras que teriam sido ditas pelo músico Jorge Ben Jor), produz espanto e uma série de inquietações. Antes de tudo,  assombra um gesto público dessa natureza, da parte de um político ocupando uma cadeira importante, que intenta criar algum tipo de distração ante problemas de gestão e finanças do estado que governa, apelando para esse tipo de interpelação pela irracionalidade, superstição. Ao mesmo tempo, tal gesto absolutamente criticável faz pensar também sobre os diferentes sentidos do patrimônio e as possíveis interpretações da História das quais participam. Retrato alegórico da empreitada colonial, com toda sua violência e imposição de modelo civilizacional, a pintura, figurava no gabinete do governador como elemento integrado à construção simbólica de identidade, inicialmente do Estado-Nação, uma vez que encomendada pelo então Prefeito do o Rio de Janeiro Inocêncio Serzedelo Corrêa no tempo em que a cidade era a Capital Federal. Nesse sentido é como o atestado de que o embate entre "civilização" e "barbárie" teve nos colonizadores os vencedores, dos quais o moderno estado brasileiro se colocava como continuador. Estácio de Sá, desse modo, apresenta-se como mártir da conformação de um Estado Nacional do qual não teve em vida a menor ciência. Posteriormente podemos considerar que a obra foi ressignificada para compor a narrativa iconográfica que constrói a identidade do Rio como estado sem deixar de afirmar sua centralidade para a nação brasileira. Mas, em algum momento, surge a dúvida:  que sentidos alegorias como essa, que demandam uma atitude contemplativa e conhecimento de certos códigos culturais, podem ganhar, nos tempos em que o oculocentrismo combinou-se à circulação acelerada de imagens no espaço público, nas múltiplas mídias e nas redes internéticas? Quão público é o gabinete do governador - o que implica perguntar - quem ultimamente olhava esse quadro?
O deslocamento da pintura - indiferentemente da motivação aparentemente irracionalista ou calcada numa pueril tentativa do governador de angariar a simpatia do eleitorado supersticioso que ele acredita representar, ou eventualmente de desviar o debate público no momento em que se questiona justamente sua capacidade de governar - acaba por paradoxalmente lançar a mesma na rede e nas mídias, talvez reacendendo um potencial de ressonância que estava adormecido enquanto estava na parede enquanto cumpria uma função residual se comparada à que exerceu nos tempos em que certos artefatos significavam muito nesse tipo de espaço através do qual se narrava uma certa história e se afirmava uma dada forma de poder. Se por um lado um motivo patético traz o quadro à baila, por outro às vezes só assim o que esquecido se coloca novamente no horizonte de nossas atenções.
Hoje nossa interpretação da colonização é bastante diversa daquela do início do século XX, e por aí podemos tomar certamente "Alegoria da morte de Estácio de Sá" desde um ângulo crítico que revela a lógica de violência e imposição, as contradições e assimetrias nas quais se ergueu a Colônia, e as implicações disso na formação do território e da nação brasileira nos séculos seguintes. A pintura portanto pode representar um testemunho relevante dessa história, e ao mesmo tempo instigar reflexões sobre temas e tensões distintivas e intestinas de nossa sociedade. Se o governador a retira da parede e esconde numa sala ainda menos frequentada do palácio de governo, parece, sintomaticamente, um gesto produtor de amnésia. Se decidir transferi-lo a algum museu, acena a possibilidade de torná-lo acessível a um público maior. Nesse último caso, me coloco favorável, desde que seja feitas a pesquisa e comunicação museológica condizentes para que a trajetória do quadro seja considerada elemento chave para pensar seu sentido contemporâneo.
  






terça-feira, 13 de outubro de 2015

A exposição versus a indiferença - o museu como espaço político

"Pela primeira vez, um grande museu de arte recebe uma exposição que tem como tema a prostituição. Estamos falando da “Splendour and Misery: Pictures of Prostitution, 1850-1910″, em cartaz desde o dia 22 de setembro no Musée d’Orsay, em Paris, que explora o sexo por dinheiro através de obras criadas entre o anos 1850 até 1910 por grandes artistas." [matéria completa, aqui] 

A repercussão em torno dessa exposição motivou artigo publicado na RHBN: Em tempos de avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo, exposições temporárias do Museu d’Orsay evidenciam o potencial político da arte. Eneida Quadros Queiroz [completo, aqui]



Sem tempo para uma reflexão mais longa, deixo apenas a convicção de que os museus constituem espaço político e a sociedade só tem a ganhar quando eles se reconhecem enquanto tanto e partem daí para propor exposições e outras ações cujo efeito rompe a indiferença e provoca o debate com o objetivo de ampliar nosso entendimento sobre fenômenos diversos que compõem a vida social, como no caso a prostituição. Fica o convite para os leitores das matérias deixarem aqui algumas considerações sobre o assunto.


domingo, 26 de julho de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Museus, culturas, antropologias

Repassando o texto Museus, culturas, antropologias da coluna Sentidos do mundo (Ciência Hoje), mantida desde fevereiro de 2011 pelo antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [completo, aqui].


"Ao lado das instituições tradicionais, de disposição mais universalista, como os museus ‘nacionais’ e os de ciência, proliferam atualmente importantes iniciativas de valorização e legitimação dos modos de vida, das culturas, de segmentos dominados ou desfavorecidos das sociedades modernas.
Quer se trate de culturas indígenas, de comunidades periféricas urbanas, de enclaves rurais ou de atividades artesanais ou alternativas, a disposição em registrar, objetivar, sistematizar testemunhos físicos, estáveis, dessas experiências identitárias parece tornar-se um recurso importante para a autoestima e para as lutas políticas de todos esses atores da cena pública moderna. Um bom exemplo é o do Museu da Maré (RJ), que se apresentou naquele seminário.
 
Essa é uma das muitas características dinâmicas que atravessam atualmente a relação entre museus, culturas e antropologias. A mesma tensão entre instituição e vida social se apresenta no desafio de tornar os museus mais ágeis e eficientes na comunicação com os saberes que representam e com as populações que desejam influenciar.
Num momento em que a própria objetivação excessiva do conceito de ‘cultura’ é motivo de crítica no pensamento antropológico, a luta por representação e expressão ‘cultural’ dos grupos minoritários cresce na agenda circundante, impondo intensa reflexão e cuidadosa participação dos antropólogos na assessoria a tais iniciativas.
Grandes desafios para nossa museologia, amparada pelo ativo Ibram, mas sempre oscilando, como nossas classes populares, na linha intermediária entre a dura miséria e alguma digna pobreza.