Procuro fazer nessa postagem a melhor compilação possível de material para que não se perca a memória sobre o impacto do incêndio, mas também pensei numa forma de promover a reflexão e a valorização do conhecimento já produzido sobre a instituição museológica Museu Nacional, sua história e seus diferentes acervos. Sendo assim peço aos leitores que espalhem o máximo possível essa postagem e o convite para que quem desejar contribuir deixe nos comentários textos críticos e rememorações que estão circulando no calor do momento, mas também as referências que conhecer de pesquisas [monografias, dissertações, teses, livros, artigos em periódicos] que abordem os temas marcados. Façamos o maior esforço coletivo possível para reunir aqui esse material, que me comprometo depois a incorporá-las à postagem para sua melhor difusão. Todos serão mantidos da forma que me chegarem e expressaram, obviamente, a perspectiva de seus autores.
Para dar o pontapé inicial escolhi a excelente entrevista concedida por Eduardo Viveiros de Castro, um dos nosso mais conceituados antropólogos, autor de vários livros e do conceito de perspectivismo ameríndio [teoria a partir da visão ameríndia do mundo], e professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicada pelo Público, de Portugal.
Um destaque, só como aperitivo:
"Certamente as pessoas que estão passando fome e estão desempregadas não
diriam que a cultura é a coisa mais importante mas a ideia de
que o povo despreza a cultura não é verdadeira. Quem despreza a cultura
é a burguesia, o agro-negócio, os deputados ruralistas, os que estão
interessados em devastar o país para produzir soja para vender para a
China."
Também insiro o relato tocante de Aparecida Vilaça, também antropóloga e professora do mesmo programa, publicado pelo jornal Nexo. [como o site não permite cortar e colar, recomendo abrir e fazer a leitura]
Recolhi ainda alguns textos de pessoas que me são próximas e por quem nutro admiração e respeito intelectual. Agradeço a elas imensamente a contribuição a este esforço.
***
Por Regina Helena Alves da Silva, historiadora e professora do Depto. de História e das Pós-Graduações em História e Comunicação da UFMG.
Pronto, a questão dos acervos, museus, espaços de ciência pelos quais
tanto lutamos ganhou relevância no país e no mundo. A custa do que? de
que? das nossas almas...
Hoje
fiquei vendo as repercussões do incêndio que destruiu o Museu
Nacional.... tem muito tempo que muita gente diz do perigo disso
acontecer.... acontecer onde aconteceu e acontecer em centenas de outros
lugares pelo país.
Uma comoção nacional ver as imagens do fogo, de repente muita gente entendeu que o Museu existia, o que era ele.
Mas ai comecei a ver a partidarização imbecil que nos domina discutir
de quem é a culpa do incêndio. Vou resolver essa parte de uma vez: é
nossa.
Vi coxas acusando o PT, vi bolsominions perguntando pra que
museu e dizendo que tudo é culpa do PT, vi petistas dizendo que tudo é
culpa dos tucanos, do golpe e claro... do PSOL...
Enfim, em um
momento tão doloroso pra todxs nós que passamos a vida com a História, o
patrimônio cultural, a memória, a ciência e a produção do conhecimento,
ficamos a mercê da imbecilidade que domina o país com as explicações
medíocres e toscas dos últimos tempos.
Sim todos temos culpas nessa área, todos nós.
A "terceirização" dessa área começou com a Lei Rouanet em 1991 no governo Collor, que vingou nos governos FHC. Desde então tudo é Lei
Rouanet, acabou a gestão publica da cultura no país e tudo virou Lei
Rouanet.
Hoje o sinistro da Cultura deu uma coletiva dizendo que a
Lei Rouanet estava disponível e perguntou porque a UFRJ não a usou....
Nós que ja fomos gestorxs de espaços culturais sabemos muito bem o que
virou a politica cultural no país... virou uma política de editais, uma
política onde lugares da importância do Museu Nacional tem que fazer
projetos pra concorrer com shows, eventos, viagens, festivais, e sei la
mais o que.
Professores da universidade assumem esses lugares e descobrem o mundo da infinita falta.
Todos absurdados porque não tinha "um moderno sistema de combate ao
incêndio", alguém ai sabe quanto custa isso? quanto custa o projeto pra
fazer o sistema? sabem quanto custa um seguro pra um lugar desses? claro
que não.... mas vai você gastar com alguma desses coisas pra ver....
caem todos de pau dizendo que esta jogando dinheiro publico na lata do
lixo.... e ainda riem....
Passei por tudo isso por 4 longos anos... e
como me recusava a transformar um espaço da universidade em galeria de
exposição paguei um preço alto por minhas escolhas para impedir que o
prédio que administrei não pegasse fogo.... eu e muita gente passamos
por isso.
Vimos os espaços públicos de cultura, de acervos, de
pesquisa serem reduzidos a lugares de luta cotidiana para manutenção do
que é de todos nós.
Vi um monte de gente dizendo: privatiza.... Não
dá nem pra responder quem tem uma saída dessas pra esses lugares como o
Museu Nacional... privatizar um lugar desses é solução dada por quem não
sabe nada de nada e não consegue sequer entender a importância da
Historia de onde habita.
O Museu queimou, foi a crônica de um
desastre anunciado. Agora todos querem achar culpados, já disse, somos
todos nós. Os tucanos que acham que tudo tem que ser privatizado e não
sabem administrar a coisa pública. Os petistas que transformaram tudo em
política de editais. O desgoverno golpista porque é constituído de
canalhas que agora vêm a público dizer que "iam" fazer alguma coisa, mas
não deu tempo.
Pra completar, em nome da tosquera que é esse
desgoverno golpista, votaram uma PEC que diz conter gastos públicos....
só rindo de tamanha imbecilidade. Quem quer governar deveria no mínimo
saber como faze-lo e não dizer que é melhor ferrar tudo porque não sabem
como administrar seus gastos.
Fiquei ontem aqui sentada no sofá da
minha casa, com meus filhos do lado, chorando..... eles não entendiam
porque e olhavam as chamas na televisão tentando saber porque a mãe
deles chorava. Consegui dizer que era porque estava queimando tudo
aquilo pelo qual vivi minha vida inteira e que agora eu não poderia mais
leva-los pra conhecer Luzia, pra ouvir cantos indígenas que não existem
mais, pra conhecer um acervo africano que não existe em outro lugar do
mundo.
Mas, principalmente, disse a eles que essas coisas estavam
naquele lugar pra nos lembrar sempre que não podemos congelar a vida de
quem nos constituiu, que Luzia era nosso começo e que, nossos índios, os
africanos eram a memória do que o Estado português e brasileiro foi e é
com seu povo e com os outros povos que subjugou e dominou. Disse a eles
que lugares como o Museu Nacional são importantes porque guardam tudo
que vamos nos tornando como povo, absolutamente tudo que fizemos. E que
isso é importante principalmente para não apagarmos a memória do que já
destruímos e de tudo que criamos e inventamos.
Disse a eles que
muitos desses lugares guardam a história de quem nos dominou mas que
isso era importante porque assim saberíamos sempre como eles foram e
como eles guardaram nossas historias derrotadas ou não.
Mas
principalmente disse a eles que eu chorava porque nunca mais poderia ir
la com eles pra que eles entendessem o tamanho do que fomos e somos e
que isso é fundamental pra que eles continuem......
Enfim, textão de novo porque a tristeza é tão profunda que não sei o que fazer
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Por Rita Lages Rodrigues, historiadora e professora da Escola de Belas Artes da UFMG.
Tive a infelicidade de entrar no Museu do Amanhã em julho deste ano. Meu
filho desejava ir ao Museu. Ao ver o fogo no Mseu Nacional pela tv,
pensava: por que não o levei ao Museu Nacional? Arrependimento. Entre
aparatos tecnológicos de pobreza conceitual, fiquei estarrecida com o
museu sem acervo e com a pseudo interatividade de seu aparato
tecnológico. Mesmo na sala de inteligência artificial, a decepção foi
imensa. Faltava inteligência. Pra que um gasto tão grande para um museu
cujas informações poderiam estar na internet e cuja fruição se daria
praticamente da mesma forma? Fiquei olhando para logos de banco e
Fundação Roberto Marinho e pensando nas distorções da distribuição de
verba para a cultura. Na excrescência da tal Lei Rouanet. Espaços sem
acervo, que não produzem pesquisa são espetacularizados para a venda,
sem produzir nada além desse espetáculo vazio. Nós pagamos, os espaços
recebem uma frequência de público alta em função da propaganda massiva
de redes de televisão e bancos e justificam assim, em números, a sua
"relevância". No caso das mega exposições do CCBB, outro espaço
merecedor de crítica, é necessário também pensar no dinheiro público
gasto para trazer acervos de fora, em projetos curatoriais sofríveis
como o da exposição do Basquiat.
Tá, o prédio do Museu do Amanhã é
um bom lugar pra selfies. É o único elogio que consigo fazer. Mas é um
elefante branco pra população brasileira.
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Por Makely Ka, cantautor, poeta, produtor e ativista cultural, atuante na contra-indústria da cultura.
Estive
no Museu Nacional em 2004 e planejava voltar com meus filhos, cada vez
mais interessados em história, paleontologia e cultura indígena. Mas
para além de todo o acervo eu tinha interesse em um item muito
específico. Pesquiso há alguns anos a história do antigo reino do Daomé -
hoje República do Benim - para um trabalho que venho desenvolvendo
sobre o personagem Francisco Félix de Souza, o Chachá.
Consta na
historiografia que esse brasileiro conhecido como um dos maiores
traficantes de escravos da época chegou à costa africana no final do
século 18 e trabalhou na recuperação da Fortaleza de São João Batista de
Ajudá, localizada na cidade de Uidá. Preso e torturado na capital
histórica Abomé, ele teria conseguido escapar com a ajuda do príncipe
Gakpé. Com apoio de Portugal o brasileiro ajudou o príncipe a derrubar o
rei Adandozan (seu irmão paterno, conhecido pela crueldade com que
governava) e assumir o trono do Daomé como o rei Ghezo. O monarca
deposto foi preso e sua história apagada da linha sucessória real. Seu
trono, peça exclusiva de cada governante esculpida em madeira com
riqueza de detalhes simbolizando a ligação material do humano com o
sagrado, precisava desaparecer, embora aparentemente não pudesse ser
destruído por questões religiosas.
A peça não consta do acervo
no Museu Histórico de Abomé. Há indícios de que o trono teria vindo para
o Brasil em 1811 junto de outros objetos. Mas Adandozan foi deposto
somente em 1818. Pouco provável que durante seu reinado o monarca tenha
enviado o próprio trono para um país estrangeiro. A outra hipótese é que
o trono teria chegado ao Brasil em 1822, quatro anos depois da queda do
rei, como presente a Dom Pedro I pela declaração da independência.
Segundo Pierre Verger muito provavelmente a mobília esculpida em uma só
peça que ardeu no incêndio do museu tratava-se do trono real de
Adandozan - enviado por Gakpé como retaliação por seu irmão ter vendido a
rainha Ná Agontimé, sua mãe, como escrava.
Mulher do rei
Agongló, após a morte do marido a rainha teria sido enviada ao Brasil
como cativa e vivido no Maranhão, onde foi reconhecida sua linhagem
real. Rebatizada como Maria Jesuína, os historiadores contam que ela
comprou a própria alforria e a de seus súditos fundando a Casa das
Minas, importante centro cultural e religioso onde ainda hoje se cultua
os voduns, entidades da antiga religião daomeana e origem do tambor de
crioula.
Outro detalhe interessante é que no Museu Histórico de
Abomé os tronos da dinastia real não são mais os originais, queimados no
ataque à cidade promovido pelo rei Behanzin em 1892. Portanto a peça
que virou carvão no Museu Nacional do Rio de Janeiro era provavelmente o
mais antigo e talvez o único trono original da dinastia dos reis
daomeanos. Agora não dá mais para saber.
Cada um dos milhões de
objetos que estavam ali carregava uma história, estava repleto de
significado e simbologia, ligava um ponto da longa trajetória da nossa
civilização e do nosso planeta ao presente em que vivemos. Tenho a
impressão que vamos levar ainda muito tempo para entender a dimensão e
as consequências do que aconteceu.
A revista científica Nature
comparou o ocorrido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, uma
catástrofe que destruiu o acervo de toda a antiguidade, o conhecimento
de vários povos, línguas e culturas já extintas. Meu filho disse em tom
de brincadeira que catástrofe maior do que essa para a ciência só o
meteoro no Golfo do México, que extinguiu há milhões de anos a maior
coleção paleontológica que já existiu. Mas a verdade é que os moleques
ficaram bem tristes. E eu fiquei envergonhado, por fazer parte da
geração que não vai deixar esse legado para eles.
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