UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA
PROF. LUIZ HENRIQUE ASSIS GARCIA
CURSANTES: ANA SOPHIA NUNES SILVA, FERNANDA VEIGA DIAS, MARIANA HELLEN DE JESUS, RENATA CABRAL MORAES
BELO HORIZONTE, 2026
SEBOS NO EDIFÍCIO MALETTA:
LIVROS USADOS COMO MEIO DE RELAÇÕES SOCIAIS
INTRODUÇÃO
Quando se pensa nos espaços de convivência do centro de Belo Horizonte, é comum que bares, cafés e praças apareçam como referências de socialização. No entanto, a cidade também guarda outros lugares onde encontros, trocas e relações acontecem de forma mais silenciosa. Foi a partir dessa percepção que esta pesquisa voltou seu olhar para os sebos localizados no Edifício Maletta.
Esta pesquisa investiga esses sebos como espaços de memória e relações sociais a partir das dedicatórias encontradas em livros usados. A proposta foi observar como os livros circulam nesses espaços carregando marcas de experiências anteriores, registradas em mensagens, anotações e dedicatórias deixadas por antigos proprietários. Dessa forma, os sebos foram analisados não apenas como locais de compra e venda, mas também como ambientes onde memórias são preservadas, compartilhadas e constantemente ressignificadas por novos leitores.
ANÁLISE DAS DEDICATÓRIAS
As dedicatórias encontradas nos livros dos sebos do Edifício Maletta revelam diferentes formas de relação social registradas materialmente nos objetos. Entre as mensagens observadas, apareceram demonstrações de amizade, agradecimento, incentivo aos estudos, desejos de felicidade e declarações amorosas. Em uma dedicatória escrita em uma obra de Clarice Lispector, por exemplo, o autor agradece a amizade construída ao longo da trajetória acadêmica compartilhada. Em outra, um livro é oferecido como presente de Natal, associando a leitura a um momento especial da vida de duas pessoas. Também foram identificadas mensagens de encorajamento ligadas à fé, ao aprendizado e à superação de desafios.
A presença dessas mensagens demonstra que os livros usados carregam vestígios das experiências de seus antigos proprietários. Quando chegam aos sebos, eles continuam preservando fragmentos de histórias pessoais que podem ser acessados por novos leitores. Uma dedicatória amorosa escrita em 2019, por exemplo, registra um sentimento originalmente destinado a uma única pessoa, mas que hoje pode ser lido por desconhecidos. Dessa forma, os livros deixam de ser apenas suportes de leitura e passam a funcionar como documentos de relações humanas. Ao circular entre diferentes donos, essas memórias ganham novas interpretações e permanecem em movimento, permitindo que experiências particulares ultrapassem o âmbito privado e integrem uma rede mais ampla de significados e lembranças.
Figura 1. Dedicatória do livro ¨Formas da Alegria ¨da Clarice Lispector.
Fonte: Autoras, 2026
Figura 2. Dedicatória do livro ¨O Homem que Matou Getúlio Vargas. Fonte :Autoras ,2026
Figura 3. Dedicatória do livro ¨Oráculo de Avalon¨ de Ludmila Barbosa Teixeira. Fonte: Autoras,2026.
Figura 4. Dedicatória do livro ¨Steve Jobs¨. Fonte: Autoras,2026.
ENTREVISTAS NOS SEBOS
As entrevistas realizadas nos sebos Primeira à Esquerda e Poiesis contribuíram para compreender como esses espaços percebem a relação entre livros usados, memória e sociabilidade. Nos dois estabelecimentos, os entrevistados relataram que é comum encontrar exemplares contendo dedicatórias, anotações pessoais, fotografias antigas e outros registros deixados pelos antigos proprietários. Segundo os livreiros, muitos desses materiais chegam ao sebo diariamente e fazem parte da rotina de trabalho.
Os relatos também demonstraram que os sebos são espaços de encontro. Frequentadores retornam regularmente para acompanhar novidades, conversar sobre leituras e trocar experiências. No caso do Sebo Poiesis, foi destacado que muitos clientes desenvolvem uma relação de confiança ao longo dos anos, transformando o estabelecimento em um espaço de convivência que vai além da compra e venda de livros. Já no Sebo Primeira à Esquerda, chamou atenção a percepção de que os livros permitem reconstruir aspectos da trajetória de seus antigos donos, especialmente quando os acervos chegam após falecimentos ou mudanças familiares.
Outro ponto importante foi a comparação feita pela proprietária do Sebo Poiesis entre os sebos e os museus. Segundo ela, o trabalho de selecionar, organizar, limpar e preservar livros raros impede que parte desse patrimônio cultural seja perdida. Essa observação aproxima os sebos da proposta desta pesquisa, já que evidencia sua função na preservação e circulação da memória cultural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa permitiu entender os sebos do Edifício Maletta como espaços onde memória, cultura e relações sociais se encontram. As dedicatórias estudadas mostram que os livros usados guardam registros de afetos, experiências e formas de convivência que permanecem visíveis mesmo após a mudança de proprietários.
As entrevistas mostraram que essa circulação de memórias é percebida pelos próprios livreiros, que identificam nos exemplares vestígios das trajetórias de seus antigos donos e reconhecem o papel dos sebos na preservação cultural. Ao mesmo tempo, os estabelecimentos continuam produzindo novas formas de sociabilidade por meio do contato entre leitores, pesquisadores, colecionadores e trabalhadores do livro.
Observando os sebos como parte do patrimônio social de Belo Horizonte, é possível reconhecer que a memória da cidade vai para além de monumentos ou instituições formais de preservação. Ela também se manifesta em espaços cotidianos, construídos pelas práticas e relações das pessoas que os frequentam. Desse modo, os livros usados encontrados no Maletta demonstram como objetos aparentemente comuns podem conectar diferentes gerações e manter vivas histórias que continuam sendo reinterpretadas por novos leitores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CONCEIÇÃO, Marcos Samuel Costa da; CHAVES, Genisson Paes; CAVALCANTE, Inara Mariela da Silva. Por uma biografia da coisa-livro ou uma escavação dos afetos depositados nos livros. Caderno 4 Campos, Belém, v. 8, n. 2, ago./dez. 2024.
DEBARY, Octave. Os mercados da memória. In: Antropologia dos restos: da lixeira ao museu. Trad. Maria Letícia Mazzucchi Ferreira. 1. ed. Pelotas: UM2 Comunicação, 2017. p. 38-52.
LIMA, O. P.; PALHARES, J. V.; CARRIERI, A. P.; VASCONCELOS, M. E. S. M. As identidades da Galeria do Maletta no decorrer da sua história: um espaço de negócios, de luxo, de resistência política e de boemia. Gestão & Conexões, Vitória, v. 10, n. 1, jan./abr. 2021. p. 121-143.
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