terça-feira, 30 de junho de 2026

Cidade museu e o trajeto do olhar: acervos de territórios livres



Cidade museu e o trajeto do olhar: acervos de territórios livres


Pesquisa Histórica em Museus Museologia UFMG
Professor Luiz Henrique Assis Garcia
Denise Guimarães Ferreira e Hugo Teixeira
Junho 2026


Introdução

Nossa proposta de pesquisa foi registrar expressões de arte urbana não institucionalizadas em diferentes regiões da cidade, analisando seu contexto e possíveis significados. A cidade deve ser compreendida não apenas como espaço de circulação, mas construtora de memórias e narrativas visuais. Caminhando pelos espaços urbanos observamos suas disputas de poder, sua partilha desigual e barreiras invisíveis expressados na ocupação de espaços.


Contexto:

Observamos a expansão das artes urbanas acompanhando o crescimento das grandes cidades: murais, grafites e intervenções estéticas como o picho e pixo. Tem como precedentes o Muralismo no México na década de 20, o picho da Revolta Estudantil na França em 68 e o grafite do Hip Hop da periferia de Nova York da década de 70, que funcionou como gatilho para sua propagação mundial. No Brasil, nas décadas 60-70, o picho ocupou os muros em protesto contra a ditadura; já o grafite chegou em São Paulo no final dos anos 70, importado de Nova York, encontrando terreno fértil na dura realidade da juventude das periferias da cidade, ganhando as outras capitais. O Pixo, com suas características únicas e exclusivas do Brasil, surgiu em São Paulo e despertou atenção internacional, se propagando nos altos edifícios das grandes cidades, incluindo Belo Horizonte.


Registrando as artes urbanas

Ao longo deste projeto, identificamos diversos suportes — muros, tapumes, fachadas e outras superfícies — repetidamente utilizados por artistas urbanos, independentemente de autorização institucional. Para nomear esses espaços, foi criado o conceito de Painel de Expressão Livre Multicamadas, entendido como todo suporte urbano não autorizado que, pelo uso recorrente e prolongado, consolidou-se informalmente como local reconhecido de intervenção artística e visual. A sobreposição de símbolos e imagens se acumulam ao longo do tempo, formando camadas sucessivas de expressão coletiva. Tornam-se registros materiais das disputas estéticas, políticas e sociais presentes na cidade contemporânea. A cada nova intervenção, parte das marcas anteriores é transformada. Sua resiliência ao apagamento, sugere uma legitimidade como território destinado à livre expressão visual e ocupação simbólica na dinâmica da cidade.

A cidade Museu

A cidade representa um manuscrito, lugar de apagamento e reuso, onde diferentes sujeitos e linguagens coexistem visualmente. Arquivos vivos são impressos, revelam tensões sociais, formas de ocupação do território e inscrição da memória coletiva. A noção tradicional de museu é deslocada, não sendo compreendido como edifício fechado e institucionalizado, a cidade se torna um espaço museológico expandido. O acervo encontra-se disperso, não organizado em critérios de conservação, mas por dinâmicas de renovação contínua, sendo registro de fluxos e transformações temporais da experiência urbana.

Tendências atuais

Uma vertente do Grafite caminha para a artificação, a institucionalização com progressiva aceitação social e incorporação no mercado das artes. O Pixo segue direção oposta, a desartificação, à margem da sociedade, contra o mercado de consumo e desigualdades sociais. Reivindica através da intervenção estética o direito de ocupação da cidade, tendo o protesto como essência através de grafismos ilegíveis sem pretensão de comunicação social.

Conclusão:

A cultura está presente em diversas manifestações urbanas, mas não se encontra disponível para todos. Testemunhamos sua tendência à mercantilização, direcionada para camadas privilegiadas, gerando barreiras e exclusões. É preciso pensar em seus processos e questionar sua legitimidade, recuperando sua vocação de promover o desenvolvimento social. Ressaltamos a importância política que se apresenta nas intervenções urbanas visuais, especialmente aquelas não legalizadas, que ocupam o espaço urbano que lhes é negado. A arte urbana é uma ferramenta de questionamento da ordem social responsável pelas graves desigualdades, que nega à maioria das pessoas o direito de viver a cidade, exercendo seu direito pleno de cidadania.


Referências Bibliográficas

DIAS, Gabriel. “Em busca da própria cultura: "pixação", construtos estético-sociais e a desartificação da arte. Viso:Cadernos de estética aplicada, v16, n°31 jul- dez/2022 p.115-139.

DIÓGENES, Glória. Arte, pixo e política: dissenso, dissemelhança e desentendimento. Revista Vazantes, Fortaleza, vol. 1 n.02, p. 115-134, out. 2017

LOURENÇO, Luísa Fernanda Silva, O processo de legitimação da arte urbana em meio às disputas pela estética da cidade de Belo Horizonte, dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação UFMG, capítulos um e dois, 2024


Conteúdo fotográfico de produção própria.

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ALAMEDA VEREADOR GERALDO SILVA BH 2026







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