terça-feira, 30 de junho de 2026

Arte urbana - os grandes murais presentes no centro de Belo Horizonte



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Arte urbana - os grandes murais presentes no centro de Belo Horizonte

Belo Horizonte vem sendo reconhecida nacionalmente como um dos principais polos de arte urbana e muralismo contemporâneo do mundo. Essa forma de expressão artística possui uma longa trajetória de ocupação do espaço urbano, tendo como referencia o seu precursor: muralismo mexicano. Surgido após a Revolução Mexicana (1910-1920), o movimento foi impulsionado pelo desejo de construir uma identidade nacional e aproximar a arte da população, utilizando muros e edifícios públicos como espaços de comunicação. Artistas como Diego Rivera, David Alfaro e José Clemente retrataram em seus murais temas relacionados à história do México, às lutas populares e às desigualdades sociais, transformando a arte em uma ferramenta de manifestação. Atualmente, essa tradição se revela de diferentes formas ao redor do mundo e encontra em Belo Horizonte um de seus exemplos mais expressivos. Segundo a historiadora e museóloga Marta Lourenço, as transformações das empenas de edifícios em suportes para manifestações artísticas, promovem disputas simbólicas, com o surgimento de questões sobre narrativas sociais e resistência política. Os murais representam mais do que apenas arte na cidade, eles registram tensões sociais, a busca por representatividade e o direito à cidade por grupos historicamente marginalizados.

O auge dessa transformação na cidade, foi o Circuito Urbano de Arte (CURA), criado em 2017 por Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amorini que propõe uma ocupação política do espaço, permitindo que temas como o decolonialismo, negritude e sexualidade ocupem a paisagem urbana. A arte urbana produzida durante o circuito reacende a chama da representatividade de minorias e povos que não possuem um lugar de pertencimento que permita o resgate de culturas e povos historicamente invisibilizados. O mirante da Rua Sapucaí é um exemplo deste tipo de espaço que é geralmente ocupado por pessoas negras e LGBTQUIAPN+ e trabalhadores do bairro floresta, seja durante o dia entre a correria do trabalho ou durante a vida noturna belo-horizontina, encontram nesse espaço um acesso democratico à produção artística, devido a sua localização no centro da cidade. Dessa forma, o mirante é utilizado para visualizar as obras espalhadas por Belo Horizonte.

Em todo caso de representatividade, há disputas em torno do direito ao espaço urbano, tanto por questões econômicas como por repressões sociais. A sociedade ainda não se encontra, de forma plena, totalmente disposta a ceder os espaços para quem vive às margens da sociedade e dificilmente possui a oportunidade de ocupar os espaços de domínio público. Isso revela conflitos em torno de quem tem direito de ser visto, lembrado e a tentativa de censura de povos marginalizados.

Há dois casos emblemáticos que ilustram como o muralismo e a arte urbana enfrentam o conservadorismo e a criminalização da periferia, sendo eles o caso de “Híbrida Ancestral - Guardiã” brasileira da artista Crioula e “Deus é mãe” do artista Robinho Santana:


CASO 1: HÍBRIDA ANCESTRAL

Localizado no Edifício Chiquito Lopes, na Rua São Paulo, o mural Híbrida Ancestral foi pintado em 2018. Este mural retrata uma mulher negra que segura um útero e tem uma cobra-coral saindo de seu ventre. A obra, que honra as raízes afro-indígenas foi alvo de uma ação judicial movida por um morador que a classificou como “decoração de gosto duvidoso”. A resistência do festival e o apoio popular garantiram a permanência da obra, apesar das tentativas do morador, que recorreu ao judiciário, de apagar o mural. Esse caso retrata como o preconceito e a opressão também se manifestam através do julgamento estético e como o “gosto” do indivíduo é algo socialmente construído e relativo.




FIGURA 1 - HÍBRIDA ANCESTRAL


fonte: ARTE!BRASILEIROS (2020)


CURA 3 Mural CRIOULA (11/2018)


CASO 2: DEUS É MÃE

O segundo caso aconteceu com Deus é mãe de Robinho Santana, localizado no Prédio Itamaraty, Rua dos Tupis, 38. Pintado durante o Festival Cura de 2020, o mural retrata a figura de uma mãe negra e seus filhos. A polêmica surgiu devido à moldura feita com a estética da pixação, realizada por artistas convidados. O artista resolveu utilizar a moldura de pixação, após descobrir outro caso que havia ocorrido na fachada daquele mesmo prédio. A Polícia Civil chegou a indiciar as organizadoras por crime ambiental, o que revela essa linha tênue entre a legitimação da arte urbana, que traz turismo a cidade, e a perseguição à caligrafia marginalizada das ruas. Dessa forma, o grafite se apresenta de forma mais “aceitável”, já que possui um senso estético mais definido e, em contraponto, a pixação se mantém à margem da sociedade e é considerada símbolo de sujeira, já que não é comercialmente favorável para a cidade. As transações comerciais e a valorização do lucro se mantêm como critério de legitimação, apesar das tentativas de desvincular a arte urbana do mercado da arte tradicional.


FIGURA 2 - DEUS É MÃE


Fonte: UOL SPLASH (2021)

Outros murais presentes no Centro da cidade mostram como a arte pode ser plural e inclusiva, exemplo disso é o mural de quase mil metros do artista Eduardo Kobra, localizado no edifício-sede do Sesc Minas, como parte do projeto “Sesc Arte Urbana” em 2023 que representa os trabalhadores da cidade, representando rostos de “pessoas comuns” que pegam ônibus lotados e constroem a cidade. Essa representação é sobretudo, uma outra forma de viver e ocupar a cidade, transformando o indivíduo em parte constituinte da paisagem urbana.

Outro exemplo é o mural também realizado no Sesc Minas no mesmo ano pelo Coletivo feminino “Minas de Minas”, onde as artistas Carol Jaued, Musa, Nica e Lídia Viber protagonizam a primeira empena do país pintada inteiramente por um coletivo feminino. A obra retrata uma figura feminina descalça conectada à terra por ervas e flores, simbolizando a ancestralidade mineira e a quebra de barreiras para as mulheres no grafite.

O mural Selva Mãe do Rio Menino de Daiara Tukano, assim como outras intervenções realizadas pelo CURA, busca estabelecer o diálogo entre cidade e povos indígenas. Esse diálogo se torna essencial para pensar o lugar desses povos na sociedade atual, a sua importancia e a necessidade de vê-lo ocupando e aproveitando o espaço da cidade que também pertence a eles.

Mini doc CURA 2020

https://youtu.be/OgdK3r5T7h0?si=ySyJwsyQSSmVXWOp



Os grandes murais de Belo Horizonte se revelam não apenas como pinturas em grande escala, mas como vozes que narram uma história da cidade que os monumentos oficiais costumam omitir. Percebe-se então que a Arte Urbana em sua totalidade permanece sendo a válvula de escape e a sobrevivência às diversas tentativas de apagamento e opressão, que, em suma, possuem raízes colonialistas e buscam isolar os indivíduos dos locais de uso público.

Mini doc CURA 6° edição

https://youtu.be/umPvCb8Sr5k?si=rjaMauPC0kq1ZjpK


REFERÊNCIAS

CRUZ, M. M. Polêmica: mural do Cura expõe linha tênue entre estética e racismo. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/12/06/interna_gerais,1217807/polemica-mural-do-cura-expoe-linha-tenue-entre-estetica-e-racismo.shtml . Acesso em: 14 abr. 2026. 

LOURENÇO, L. F. S.. O processo de legitimação da arte urbana em meio as disputas pela estética da cidade de Belo Horizonte. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/170d4c2e-7d08-4387-b6dd-f7f4145c2d53. Acesso em: 25 mar. 2026. 

LIMA, C.. Arte, Espaço Público e Exclusão: O Circuito Urbano de Arte em Belo Horizonte, MG. Editora realize, 2021.   Disponível em: https://share.google/HlyshLC8gqGD0ZeDA . Acesso em: 5 abr. 2026.


PRATES, M. BH tem a primeira empena pintada por um coletivo de mulheres do Brasil. Disponível em: https://belohorizontesecreto.com/minas-de-minas-arte-em-empena/. Acesso em: 14 abr. 2026. 

SESC MG. Eduardo Kobra inaugura o projeto Sesc Arte Urbana com um mural que homenageia os trabalhadores de Belo Horizonte. Disponível em: https://sescmg.com.br/noticias/kobra-belo-horizonte-sesc-minas-arte-urbana/. Acesso em: 14 abr. 2026. 

CURA. CURA 3 Mural CRIOULA (11/2018). YouTube, 2018. Disponível em: https://youtu.be/fwE6CI6TJVE?si=wJ18eWaHlm2L6dIa Acesso em: 3 jun. 2026. 

CURA. Mini doc CURA 2020. YouTube, 2020. Disponível em: https://youtu.be/OgdK3r5T7h0. Acesso em: 3 jun. 2026. 

CURA. Mini doc CURA 6° edição. YouTube, 2022. Disponível em: https://youtu.be/umPvCb8Sr5k. Acesso em: 3 jun. 2026. 

HERNER REISS, Irene. ¿Cómo pensar el arte público? A 100 años del muralismo mexicano. Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales, Ciudad de México, v. 67, n. 246, p. 121-154, 2022. Disponível em: Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales (UNAM). Acesso em: 8 jun. 2026 






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