terça-feira, 30 de junho de 2026

SEBOS NO EDIFÍCIO MALETTA: LIVROS USADOS COMO MEIO DE RELAÇÕES SOCIAIS

 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA

PROF. LUIZ HENRIQUE ASSIS GARCIA

CURSANTES: ANA SOPHIA NUNES SILVA, FERNANDA VEIGA DIAS, MARIANA HELLEN DE JESUS, RENATA CABRAL MORAES

BELO HORIZONTE, 2026


SEBOS NO EDIFÍCIO MALETTA:
LIVROS USADOS COMO MEIO DE RELAÇÕES SOCIAIS


INTRODUÇÃO

Quando se pensa nos espaços de convivência do centro de Belo Horizonte, é comum que bares, cafés e praças apareçam como referências de socialização. No entanto, a cidade também guarda outros lugares onde encontros, trocas e relações acontecem de forma mais silenciosa. Foi a partir dessa percepção que esta pesquisa voltou seu olhar para os sebos localizados no Edifício Maletta.

Esta pesquisa investiga esses sebos como espaços de memória e relações sociais a partir das dedicatórias encontradas em livros usados. A proposta foi observar como os livros circulam nesses espaços carregando marcas de experiências anteriores, registradas em mensagens, anotações e dedicatórias deixadas por antigos proprietários. Dessa forma, os sebos foram analisados não apenas como locais de compra e venda, mas também como ambientes onde memórias são preservadas, compartilhadas e constantemente ressignificadas por novos leitores.


ANÁLISE DAS DEDICATÓRIAS

As dedicatórias encontradas nos livros dos sebos do Edifício Maletta revelam diferentes formas de relação social registradas materialmente nos objetos. Entre as mensagens observadas, apareceram demonstrações de amizade, agradecimento, incentivo aos estudos, desejos de felicidade e declarações amorosas. Em uma dedicatória escrita em uma obra de Clarice Lispector, por exemplo, o autor agradece a amizade construída ao longo da trajetória acadêmica compartilhada. Em outra, um livro é oferecido como presente de Natal, associando a leitura a um momento especial da vida de duas pessoas. Também foram identificadas mensagens de encorajamento ligadas à fé, ao aprendizado e à superação de desafios.

A presença dessas mensagens demonstra que os livros usados carregam vestígios das experiências de seus antigos proprietários. Quando chegam aos sebos, eles continuam preservando fragmentos de histórias pessoais que podem ser acessados por novos leitores. Uma dedicatória amorosa escrita em 2019, por exemplo, registra um sentimento originalmente destinado a uma única pessoa, mas que hoje pode ser lido por desconhecidos. Dessa forma, os livros deixam de ser apenas suportes de leitura e passam a funcionar como documentos de relações humanas. Ao circular entre diferentes donos, essas memórias ganham novas interpretações e permanecem em movimento, permitindo que experiências particulares ultrapassem o âmbito privado e integrem uma rede mais ampla de significados e lembranças.



Figura 1. Dedicatória do livro ¨Formas da Alegria ¨da Clarice Lispector. 

Fonte: Autoras, 2026


Figura 2. Dedicatória do livro ¨O Homem que Matou Getúlio Vargas. Fonte :Autoras ,2026





Figura 3. Dedicatória do livro ¨Oráculo de Avalon¨ de Ludmila Barbosa Teixeira. Fonte: Autoras,2026.



Figura 4. Dedicatória do livro ¨Steve Jobs¨. Fonte: Autoras,2026.                   


ENTREVISTAS NOS SEBOS

As entrevistas realizadas nos sebos Primeira à Esquerda e Poiesis contribuíram para compreender como esses espaços percebem a relação entre livros usados, memória e sociabilidade. Nos dois estabelecimentos, os entrevistados relataram que é comum encontrar exemplares contendo dedicatórias, anotações pessoais, fotografias antigas e outros registros deixados pelos antigos proprietários. Segundo os livreiros, muitos desses materiais chegam ao sebo diariamente e fazem parte da rotina de trabalho.

Os relatos também demonstraram que os sebos são espaços de encontro. Frequentadores retornam regularmente para acompanhar novidades, conversar sobre leituras e trocar experiências. No caso do Sebo Poiesis, foi destacado que muitos clientes desenvolvem uma relação de confiança ao longo dos anos, transformando o estabelecimento em um espaço de convivência que vai além da compra e venda de livros. Já no Sebo Primeira à Esquerda, chamou atenção a percepção de que os livros permitem reconstruir aspectos da trajetória de seus antigos donos, especialmente quando os acervos chegam após falecimentos ou mudanças familiares.

Outro ponto importante foi a comparação feita pela proprietária do Sebo Poiesis entre os sebos e os museus. Segundo ela, o trabalho de selecionar, organizar, limpar e preservar livros raros impede que parte desse patrimônio cultural seja perdida. Essa observação aproxima os sebos da proposta desta pesquisa, já que evidencia sua função na preservação e circulação da memória cultural.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa permitiu entender os sebos do Edifício Maletta como espaços onde memória, cultura e relações sociais se encontram. As dedicatórias estudadas mostram que os livros usados guardam registros de afetos, experiências e formas de convivência que permanecem visíveis mesmo após a mudança de proprietários.

As entrevistas mostraram que essa circulação de memórias é percebida pelos próprios livreiros, que identificam nos exemplares vestígios das trajetórias de seus antigos donos e reconhecem o papel dos sebos na preservação cultural. Ao mesmo tempo, os estabelecimentos continuam produzindo novas formas de sociabilidade por meio do contato entre leitores, pesquisadores, colecionadores e trabalhadores do livro.

Observando os sebos como parte do patrimônio social de Belo Horizonte, é possível reconhecer que a memória da cidade vai para além de monumentos ou instituições formais de preservação. Ela também se manifesta em espaços cotidianos, construídos pelas práticas e relações das pessoas que os frequentam. Desse modo, os livros usados encontrados no Maletta demonstram como objetos aparentemente comuns podem conectar diferentes gerações e manter vivas histórias que continuam sendo reinterpretadas por novos leitores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONCEIÇÃO, Marcos Samuel Costa da; CHAVES, Genisson Paes; CAVALCANTE, Inara Mariela da Silva. Por uma biografia da coisa-livro ou uma escavação dos afetos depositados nos livros. Caderno 4 Campos, Belém, v. 8, n. 2, ago./dez. 2024.

DEBARY, Octave. Os mercados da memória. In: Antropologia dos restos: da lixeira ao museu. Trad. Maria Letícia Mazzucchi Ferreira. 1. ed. Pelotas: UM2 Comunicação, 2017. p. 38-52.

LIMA, O. P.; PALHARES, J. V.; CARRIERI, A. P.; VASCONCELOS, M. E. S. M. As identidades da Galeria do Maletta no decorrer da sua história: um espaço de negócios, de luxo, de resistência política e de boemia. Gestão & Conexões, Vitória, v. 10, n. 1, jan./abr. 2021. p. 121-143.


Galeria do Ouvidor: 1º Shopping de Belo Horizonte - História, imagens e documentos

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG 

Escola de Ciências da Informação - ECI 

Curso: Museologia 

Disciplina: Pesquisa Histórica em Museus 

Professor: Luiz Henrique Assis Garcia 

Alunos: Carlos Henrique dos Santos Nunes, Rafael de Oliveira e Samuel Roza Marinho Trabalho

A história do comércio sinaliza o avanço nos processos de troca no seio da sociedade organizada. Antes do surgimento do dinheiro ou papel moeda, e até mesmo dos centros comerciais, as pessoas realizavam permutas, também conhecidas como escambo, para complementar suas necessidades de consumo, dentro daquilo que consideravam satisfatório e justo. 

Com o desenvolvimento político, social, econômico e tecnológico novos espaços de comércio foram surgindo até o advento dos shopping centers, que estabeleceram um outro padrão de relacionamento entre clientes e comerciantes. 

Fachada da Galeria Ouvidor, entrada pela Rua Curitiba. Foto: Carlos Nunes




Levando-se em conta que a Galeria do Ouvidor do município de Belo Horizonte é considerada como o primeiro shopping da cidade, e que representa um modelo de reconhecido sucesso entre as décadas de 1960 ao final dos anos de 1990, no que diz respeito ao comércio de produtos da moda e bens mais sofisticados, o grupo realizou uma pesquisa cujo objetivo foi investigar como a Galeria do Ouvidor lida com a memória, sua preservação e ressignificação, em meio às pressões e dinamismo do setor comercial contemporâneo e quais os seus principais desafios. Para além de um centro de compras, o estudo buscou entender o papel do edifício como um repositório de histórias e vivências, identificando os principais desafios para manter sua identidade frente às transformações e novas demandas de consumo. 

O grupo realizou uma pesquisa exploratória para identificar informações, dados e imagens que pudessem favorecer o alcance dos objetivos traçados. As principais fontes utilizadas foram jornais e revistas antigos da base de dados do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), entrevista realizada com o administrador da Galeria do Ouvidor, senhor Valter Faustino, informações obtidas no livro “Galeria Ouvidor”, organizado por Morais (2022), três artigos científicos que abordaram o tema: Nascimento (2014); Palhares (2020) e Santos (2016), além de outros sites da internet.


 

Recortes de jornal consultados na biblioteca do Museu Histórico Abílio Barreto, 2026. Imagem: Samuel Roza Marinho



Considerando o objetivo de investigar como a Galeria do Ouvidor lida com a memória, sua preservação e ressignificação, em meio às pressões e dinamismo do setor comercial contemporâneo e quais os seus principais desafios, percebe-se, principalmente considerando a fonte oficial, ou seja, o representante da Galeria do Ouvidor, um grande interesse em preservar a imagem de alguns objetos, elementos e conceitos, como por exemplo a “escada rolante”, por ser a primeira disponibilizada na cidade, e o “pastel” com “caldo de cana”, que atrai os consumidores pela qualidade e tradição. A ressignificação da imagem da Galeria do Ouvidor pode ser percebida pela significativa alteração do mix de produtos ofertados, o que favoreceu a adaptação do shopping às novas realidades do mercado. As pressões sociais, econômicas, tecnológicas, dentre outras variáveis, contribuem para um novo posicionamento da Galeria, a fim de atender novas demandas. O representante oficial da instituição afirmou que possuem expectativas positivas frente à aproximação de novos empreendedores que podem enxergar o grande valor e potencial que o shopping possui. No aspecto do desenvolvimento da memória, percebe-se alguns movimentos no discurso, ao buscar associar a exposição do shopping à iniciativas municipais, visando sua introdução nos circuitos turísticos oficiais da cidade e do estado. Foi mencionado também um esforço mercadológico da Galeria, com agência própria, para desenvolver as relações com o mercado. O próprio livro sobre a Galeria do Ouvidor pode ser considerado como exemplo. 




Capa do livro “Galeria do Ouvidor”, de Andrea Lacerda de Morais, 2022. Imagem: Livraria Scriptum 

A Galeria do Ouvidor continua sendo um centro de compras, principalmente considerando que fornece matéria prima para profissionais autônomos e pequenas empresas, com destaque para o ramo do artesanato e bijuterias. Pessoas físicas também adquirem produtos no referido centro comercial, por questão de qualidade e preço diferenciado.

Vista interna da Galeria, nível Rua Curitiba. Imagem: Carlos Nunes 

No caso do entendimento do papel do edifício como um repositório de histórias e vivências, percebe-se que os próprios componentes do grupo tinham histórias e vivências a contar, sejam próprias ou de familiares. O local como centro de capacitação, oferecendo a oportunidade de estudos e treinamentos no campo da datilografia e da música, as lojas referências na venda de livros, discos, etc., salões de beleza, pastel e caldo de cana, lojas de conserto de relógios, dentre outros, foram facilmente lembradas ao longo do processo. As memórias de pessoas que trabalham há muito tempo na Galeria, foram consideradas no livro organizado por Morais (2022), cujas menções merecem destaque: 

Alexandra, ascensorista há 13 anos na Galeria, afirma que “Este trabalho exige muita discrição”...”aqui na Galeria já fui auxiliar de escritório, tomei conta do circuito interno de tevê, mas a profissão que mais gosto é essa que lida com o público”, e continua “...uma vez o

elevador parou, e uma moça entrou em pânico”, lembra, “Aí eu tive que acalmá-la e acalmar todo mundo que estava lá dentro. Agi como uma psicóloga”, conta. Outra história que merece destaque foi a vivida por Fátima Xavier, frequentadora da Galeria do Ouvidor desde o dia de sua inauguração, em março de 1964. Seu pai, Orlando, foi proprietário da primeira loja de discos de vinil no local, a Loja Xavier. Disse que “...era uma criança, mas me lembro bem que aqui estavam as melhores lojas, os jovens mais bonitos. Era um dos points mais badalados da cidade”. Wando, Nelson Gonçalves e até Roberto Carlos passaram pela loja do seu pai. Recorda também que havia uma divisão de preferências entre a loja do seu pai e a do Raul Plassman, ex-goleiro do Cruzeiro. Os atleticanos davam preferência para a loja do senhor Orlando e os cruzeirenses para a do Raul. 

Longe de ser considerado como um “resto”, segundo ensina Debary (2017), a Galeria do Ouvidor se adaptou às novas realidades do mercado, buscando, a seu modo, valorizar um pouco de sua memória dentro da realidade vivida pelos empreendedores, funcionários, clientes e passantes ao longo de décadas de bons resultados e sucesso. 

Um dos conceitos centrais que podem ser utilizados para caracterizar a experiência vivida pelo grupo é o de “lugares da memória”, inspirado em Pierre Nora, e citado por Abreu (1994). A Galeria do Ouvidor aparece como um espaço destinado a conservar fragmentos da memória coletiva municipal e regional. Nesse sentido, as memórias apresentadas podem ser compreendidas como instrumentos de construção simbólica da identidade regional. 

Referências 

ABREU, Regina. História de uma coleção: Miguel Calmon e o Museu Histórico Nacional . Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 199–234, 1994. Disponível em: https://revistas.usp.br/anaismp/article/view/5300. Acesso em: 15 mai. 2026. 

DEBARY, Octave. Os mercados da memória. In: DEBARY, Octave. Antropologia dos restos: da lixeira ao museu. Pelotas: Um2 Comunicação, 2017. p. 38-52. 

MORAIS, Andrea Lacerda de (org). GALERIA OUVIDOR. Coordenação: Flávia Mafra. Belo Horizonte: 2022 (Olhar BH). 

NASCIMENTO, Alexandra. Das “passagens” aos grandes malls: notas sobre sociabilidade e consumo nas galerias e nos shopping centers. In: CONGRESSO PORTUGUÊS DE SOCIOLOGIA, 8., 2014, Évora. Anais [...]. Évora: Associação Portuguesa de Sociologia, 2014. Tema: 40 anos de democracias: progressos, contradições e prospetivas. 

PALHARES, José Vitor; CORREIA, Gabriel Farias Alves; CARRIERI, Alexandre de Pádua. "Um lugar de movimento": a trajetória histórica das apropriações dos espaços da Galeria do Ouvidor em Belo Horizonte (MG). Sociedade, Contabilidade e Gestão, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, set./dez. 2020.

SANTOS, José Vitor Palhares dos; CARRIERI, Alexandre de Pádua; PEREIRA, Verônica Fujise; MARTINS, Talita Soares. Pesquisa histórica em administração: a (re)construção identitária da Galeria do Ouvidor em Belo Horizonte (MG). Revista de Ciências da Administração, Florianópolis, v. 18, n. 46, p. 9-23, set./dez. 2016.


BOEMIA MINEIRA: COMO BELO HORIZONTE CONCRETIZOU-SE A CAPITAL MUNDIAL DOS BOTECOS?

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO


HELENA COSTA VILELA CECILIO
MILLENA LORRANY DE ALMEIDA GONÇALVES
REBECA DIAS ALVES
SOFIA FERNANDES DE ABREU PENIDO

Trabalho final da disciplina Pesquisa Histórica em Museus, do curso de Bacharelado em Museologia.
Professor: Luiz Henrique Assis Garcia







1 INTRODUÇÃO

        O presente trabalho tem como objetivo pesquisar e analisar a relação política, histórica e cultural da capital de Minas Gerais (Belo Horizonte) com os botecos e o impacto do concurso Comida Di Buteco na configuração, divulgação e culturalização da ação de “botecar” em Belo Horizonte. Para isso, tomamos como base inicial dois artigos que analisaram essa relação sob perspectivas diferentes, sendo em primeiro o texto de autoria de Alexsandro Victor de Jesus, Izania do Carmo da Silva e Juliana Maria Tiburtino intitulado “Comida de Boteco na Gastronomia Brasileira”, onde o ambiente do bar é abordado com um olhar mais cultural, emocional e de criação de laços que vão além do simples ato de comer e acabam tornando-se parte da identidade brasileira, já em segunda análise temos o texto de autoria de Marcone de Souza Guedes intitulado “Boemia e Militância na Capital Mundial dos Botecos”, onde o autor aborda o boteco sob a perspectiva política e histórica dos bares de BH, mais especificamente nos que estão localizados no Edifício Maletta, tendo como recorte temporal o período da Ditadura Militar. 

Desta forma, foi possível perceber a diversidade de significados e relações que os botecos podem construir com as pessoas e com as cidades, desde pontos de encontro político durante a Ditadura Militar até espaços de lazer para poder comer, beber e conversar os bares estão presentes na vida e identidade cultural brasileira. Ademais, notamos que a palavra “boteco” tem diferentes significados e ajudam a criar diferentes ambientes na mente de cada pessoa, ao conversar com colegas, amigos e familiares vimos que ao perguntar “O que a palavra boteco remete para você?” temos diferentes respostas e ambientações, assim percebemos como a cultura familiar e individual, a classe socioeconômica, a faixa de idade e as ideologias influenciam nas respostas. 

Por fim, buscamos analisar a lista dos bares que estiveram no top cinco do concurso durante os anos de 2023 a 2026, buscando entender com a sua localização, arquitetura, preços e frequentadores influenciam para que eles estivessem presentes no concurso, criando um paralelo entre a valorização de locais elitizados e a desvalorização de pequenos comerciantes dentro de um dos maiores concursos gastronômicos de Belo Horizonte.

 

2 HISTÓRIA DO CONCURSO


Belo Horizonte se consagrou nacionalmente como a “Capital Nacional do Boteco”, possuindo cerca de 12.000 estabelecimentos, mais bares per capita que qualquer outra grande cidade do Brasil. A culinária mineira é o diferencial, por suas características únicas que acompanham muito bem a cerveja, o chope, o vinho ou a cachaça mineira.

Ao final do ano de 1999, em uma confraternização da não mais existente Rádio Geraes, Eduardo Maya do programa Momento Gourmet, juntamente com João Guimarães, proprietário da emissora e Maria Eulália Araújo, Gerente de Marketing e comercial, perceberam o desejo compatível da criação de um evento que valorizasse a tradicional cozinha de raiz e os botecos de Belo Horizonte. Batizando o evento de Comida di Buteco, um concurso dedicado exclusivamente aos botecos brasileiros. Os requisitos da competição para ser eleito o melhor boteco são: higiene, temperatura da bebida, atendimento e, a estrela da noite, o prato desenvolvido pelo estabelecimento. O vencedor é decidido através da votação do público que frequentou o local e por um corpo de jurados na data final da competição. O termo “buteco”, grafado com “u”, reflete a origem mineira do projeto e simboliza a essência do evento: ambientes simples, democráticos e autênticos, onde a comida e a convivência são protagonistas. 

Assim, todos os anos seguintes à essa confraternização, entre abril e maio, é realizada a competição entre os bares participantes, incentivando a visitação de diversos estabelecimentos na cidade que o evento ocorre. Durante um mês, acontece essa busca pelos melhores botecos, petiscos e tira-gostos, necessitando essencialmente da participação do público. A partir do ano de 2008 o concurso se expandiu pelo Brasil, sendo que em 2025 realizaram 27 circuitos de norte a sul do País, atingindo mais de 1000 botecos participantes. As cidades que participaram foram: Rio de Janeiro, Salvador e Goiânia. No interior do Estado de São Paulo o concurso chegou em Campinas, Ribeirão Pretor e São José do Rio Preto. Alcançou também à região Norte, por Belém e Manaus. Em 2012 chegou à Capital Paulista e a partir de 2015 em Curitiba, Brasília e Recife. 

  Em 3 de Junho de 2024 o concurso se tornou patrimônio cultural, gastronômico e imaterial do Estado do Rio de Janeiro (projeto de Lei nº 1735/2023).  Apenas participam do concurso estabelecimentos em que o dono está à frente do negócio, não podendo haver franquias, já que possui como foco a valorização de pequenos negócios familiares, colocando em destaque o “puro suco da Cultura Brasileira”. 


2.1 LINHA DO TEMPO


1999 - O evento começa a ser idealizado em uma festa de confraternização da rádio Geraes, envolvendo Eduardo Maya, João Guimarães e Maria Eulália Araújo. Possuem a intenção de valorizar a culinária raiz mineira e os botecos de Belo Horizonte. 

2000 - Edição de estreia do Comida di Buteco, com 10 bares participantes. 

2005 - A Rádio Geraes foi fechada e o concurso se tornou independente, dando origem a empresa Comida di Buteco Produções Gastronômicas Ltda. Já consagrado o maior concurso do gênero no Brasil. 

2007 - O Comida de Buteco é citado pela primeira vez no The New York Times, a matéria “A Town Where All the World is a Bar” escrita por Seth Kugel.

2008 - Início da expansão por outras cidades: Rio de Janeiro, Goiânia e Salvador. 

2010 - Mais circuitos integram o Comida di Buteco de forma definitiva: Vale do Aço, Montes Claros, Poços de Caldas e Uberlândia, em Minas Gerais, além de Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, no interior paulista. 

2011 - Mais quatro circuitos inaugurados: Belém, Fortaleza, Juiz de Fora e Manaus. 

2012 - O Concurso chega a São Paulo, com 50 botecos participantes. 

2013 - Presente em 15 cidades brasileiras, o concurso passa a ser realizado simultaneamente em todos os circuitos, ganhando ainda mais força nacional. 

2015 - Quatro novos circuitos: Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Recife. Totalizando agora 20 cidades. 

2016 - Pela primeira vez, é realizada a etapa nacional, em que os campeões locais disputam o título de melhor buteco do Brasil.

2017 - Com o tema cereais, o concurso chega à sua 10ª edição no Rio de Janeiro, em Uberlândia, no Vale do Aço, em Salvador e em Goiás, passando a ter caráter estadual com a integração de Aparecida e Goiânia. 

2018 - O concurso chega a mais uma cidade da Região Sul. Florianópolis entra oficialmente na rota da disputa. 

2019 - O Comida di Buteco comemora 20 anos. 

2020 - O evento foi cancelado devido à pandemia de covid-19. 

2021 - Após ser adiado quatro vezes por conta da pandemia, o concurso é realizado e incentiva a continuação de muitos estabelecimentos do gênero. 

2022 - Com o tema livre, o concurso volta quebrando recordes de votos, público e faturamento dos botecos. Além de completar 10 anos de realização em São Paulo e 15 anos no Rio de Janeiro. 

2023 - Novos participantes da Região Sul: Joinville, Blumenau, Londrina e Maringá. O concurso atinge 25 circuitos e 1000 botecos participantes. 

2024 - O concurso passa a integrar as experiências físicas e digitais. 

2025 - O comida di Buteco comemora 25 anos.


3 ANÁLISE DOS BARES VENCEDORES

Ao longo da nossa pesquisa decidimos por analisar os vendedores mais especificamente dos anos de 2023 a 2026, e é perceptível por que dos anos 2000 a 2016, os estabelecimentos participantes carregavam em seus nomes as palavras “bar, boteco e botequim”, nomes mais simples, como “André Caldos” e nomes que fizessem referência ao sotaque mineiro. Porém, de 2017 a 2026 nota-se que os bares participantes deixaram de carregar essas palavras nos seus nomes, eles agora trazem expressões derivadas do inglês, e no lugar de “bar, boteco e botequim” temos o surgimento dos “Gastro bar, bistrô e bistroteco”. Esse movimento surge em um momento de um maior acesso às redes sociais como Instagram, Tik Tok, Snapchat e Twitter, tendo em vista que a mesma geração que está mais integrada às redes é a mesma que começa a buscar locais mais “instagramáveis” e esteticamente mais atraentes para sair e postar, é a mesma geração que associa o boteco com um ambiente mais simples e tradicional que foge dos padrões de ambiente de lazer dos mais jovens. 

Diante deste novo público, o comércio começa a buscar formas de acompanhá-los, de acompanhar as redes e as tendências que surgem a cada dia. Desta forma, pequenas mudanças começam a ser feitas, o ambiente muda, a cartela de drinks, o cardápio, os preços, a localização, acontece o popular efeito de “gourmetização”, os bares que escolhem não passar por este processo começam a perder a força com a geração atual. 

4 ANÁLISE DE BARES ESPECÍFICOS

4.1 Serrotinhos Bar

Localizado na Rua Pará de Minas, no bairro Padre Eustáquio, o Serrotinhos Bar está em funcionamento desde 2013 e se tornou um dos exemplos mais conhecidos de preservação da cultura tradicional dos botecos em Belo Horizonte. O estabelecimento é frequentemente lembrado pela variedade de comidas expostas em sua estufa, que reúne cerca de trinta opções de tira-gostos típicos da culinária mineira, entre eles torresmo de barriga, moela, rabada, linguiça, almôndega, costela e lambari. Os preços relativamente acessíveis, aliados ao ambiente informal e à forte presença de frequentadores do próprio bairro, contribuem para a construção de uma atmosfera associada ao boteco tradicional.

Outro aspecto que chama atenção é o horário de funcionamento do estabelecimento, que abre diariamente às 6 horas da manhã e permanece em atividade até a meia-noite. Esse funcionamento prolongado permite que o bar seja frequentado por públicos bastante diversos ao longo do dia, desde trabalhadores em busca do café da manhã até grupos de amigos reunidos para confraternizações noturnas. A popularidade do local é tamanha que moradores da região costumam afirmar que encontrar mesas disponíveis nos horários de pico pode ser uma tarefa difícil.

Durante nossa pesquisa, observamos que o Serrotinhos apresenta diversos elementos apontados pela pesquisadora Geórgia Caetano de Oliveira dos Santos, em sua tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Minas Gerais, como características marcantes da cultura dos botecos belo-horizontinos. Entre eles estão a presença do copo Lagoinha, a cerveja gelada, a cachaça, a estufa de petiscos, as cadeiras ocupando as calçadas e o atendimento próximo entre funcionários e clientes.

Entretanto, um aspecto interessante é que o estabelecimento passou por reformas estruturais recentes. Apesar das mudanças físicas e da modernização de alguns espaços, o bar preservou elementos centrais de sua identidade. Essa permanência demonstra que processos de renovação não necessariamente implicam abandono das características tradicionais dos botecos. O Serrotinhos representa, portanto, um caso em que modernização e tradição coexistem, permitindo que o estabelecimento acompanhe novas demandas do mercado sem romper completamente com a cultura boêmia de bairro que ajudou a construir sua reputação. 

Figura 1:

Figura 2:

4.2 Léo da Quadra

Localizado no Barreiro, o Léo da Quadra tornou-se um dos exemplos mais expressivos de como a culinária tradicional mineira pode ser reinterpretada dentro do contexto contemporâneo dos concursos gastronômicos. O estabelecimento ganhou destaque no Comida di Buteco com o petisco “Di Juei”, composto por joelho de porco em postas servido sobre canjiquinha com bacon e acompanhado por taioba na manteiga. A escolha dos ingredientes demonstra forte ligação com a culinária mineira tradicional, utilizando produtos amplamente associados à alimentação popular do estado.

Ao mesmo tempo, a forma de apresentação do prato e a divulgação realizada pelo estabelecimento revelam uma preocupação crescente com aspectos estéticos e mercadológicos. Diferentemente dos bares mais tradicionais, cuja divulgação depende principalmente da boca a boca e da clientela local, o Léo da Quadra investe fortemente em sua presença digital, especialmente através das redes sociais. Essa estratégia acompanha uma tendência observada em diversos bares participantes do concurso, que passaram a utilizar plataformas digitais para ampliar seu alcance e atrair novos públicos.

Outro aspecto relevante é sua localização no Barreiro, uma região historicamente distante dos principais circuitos gastronômicos da cidade. Nesse sentido, a participação no Comida di Buteco permitiu ao estabelecimento ampliar sua visibilidade e atrair consumidores de outras regiões de Belo Horizonte. Esse fenômeno evidencia uma das contribuições mais significativas do concurso: incentivar a circulação de pessoas por diferentes áreas da cidade, promovendo maior reconhecimento de bairros tradicionalmente menos associados ao turismo gastronômico.

O caso do Léo da Quadra demonstra como os botecos contemporâneos frequentemente ocupam uma posição intermediária entre tradição e inovação. Ao mesmo tempo em que preserva ingredientes e referências da culinária mineira, o estabelecimento incorpora estratégias de divulgação e apresentação características da gastronomia contemporânea, aproximando-se dos processos de gourmetização observados em parte dos participantes mais recentes do concurso.

Figura 3:

4.3 Espetinhos do Paulão

A trajetória do Espetinhos do Paulão é uma das mais emblemáticas entre os estabelecimentos analisados. Antes de se tornar um dos bares mais premiados de Belo Horizonte, o negócio teve origem como um simples carrinho de cachorro-quente. Com o crescimento da clientela, transformou-se em distribuidora e, posteriormente, no atual bar localizado no bairro Ermelinda. O sucesso obtido ao longo dos anos permitiu a expansão do empreendimento para imóveis próximos ao ponto original, ampliando sua capacidade de atendimento sem abandonar sua ligação com a comunidade local.

Sua participação no Comida di Buteco teve início em 2023, quando o concurso adotou como temática “Ervas e Especiarias”. Na ocasião, o estabelecimento apresentou o prato “Maçã do Pecado”, composto por maçã de peito acompanhada de batatas bolinha salteadas com cheiro-verde e pimenta biquinho, além de torradas ao azeite conservado de ervas e alho desidratado. Mesmo sendo estreante na competição, o bar conquistou o segundo lugar, resultado que trouxe grande visibilidade ao estabelecimento.

Em 2024, com o tema livre e o lema “Somos Todos Boteco”, o Espetinhos do Paulão apresentou o prato “Boi Bandido”, composto por costela bovina acompanhada de milho verde, mandioca cozida na manteiga e farofa. O petisco conquistou o primeiro lugar do concurso, consolidando o estabelecimento como um dos principais representantes da culinária de boteco em Belo Horizonte.

No ano seguinte, quando o concurso celebrou seus 25 anos sob o tema “Paixão pelo Buteco”, o estabelecimento alcançou um feito ainda mais significativo ao conquistar o bicampeonato com o prato “Vaca Faladeira”, uma língua de boi recheada com bacon e cenoura ao molho madeira, acompanhada por minipães italianos recheados com vinagrete e muçarela gratinada. A escolha da língua de boi como ingrediente principal chama atenção por valorizar cortes tradicionalmente associados à culinária popular, demonstrando que a criatividade gastronômica não depende necessariamente da utilização de ingredientes considerados nobres ou sofisticados.

Talvez o aspecto mais interessante da trajetória do Espetinhos do Paulão seja a permanência do discurso de valorização do bairro e da cultura popular mesmo após o reconhecimento obtido pelo concurso. Em publicação realizada após a conquista do bicampeonato, o estabelecimento destacou a importância da comunidade local e afirmou que seu desejo era continuar sendo um boteco simples, acolhedor e autêntico. Essa postura reforça a ideia de que o sucesso comercial e a visibilidade proporcionada pelo concurso não necessariamente implicam abandono das características tradicionalmente associadas aos botecos de bairro.

Dessa forma, o Espetinhos do Paulão representa um exemplo de mobilidade econômica e reconhecimento social proporcionados pelo Comida di Buteco. Sua trajetória demonstra como o concurso pode funcionar como ferramenta de fortalecimento de pequenos empreendimentos familiares, permitindo que estabelecimentos periféricos alcancem destaque sem necessariamente abandonar sua identidade original. 

Figura 4:

4.4 Café Palhareses

Fundado em 1938 e localizado na Rua dos Tupinambás, no Centro de Belo Horizonte, o Café Palhares é considerado um dos estabelecimentos mais tradicionais da capital mineira. Ao longo de mais de oito décadas de funcionamento, o bar tornou-se uma referência da boemia belo-horizontina, recebendo trabalhadores, jornalistas, artistas, estudantes e políticos que frequentavam a região central da cidade. Sua história se confunde com a própria história de Belo Horizonte, sendo frequentemente citado em reportagens, pesquisas e produções culturais sobre a identidade boêmia da capital.

O principal símbolo do estabelecimento é o famoso prato conhecido como “Kaol”, nome formado a partir das iniciais de cachaça, arroz, ovo e linguiça. Criado originalmente como refeição para os funcionários do local, o prato acabou conquistando os clientes e tornou-se uma das receitas mais tradicionais da gastronomia mineira. Atualmente, o Kaol também é servido com acompanhamentos como couve, farofa e torresmo, preservando características da culinária popular que marcaram a história dos botecos de Belo Horizonte.

O estabelecimento participa do concurso “Comida di Buteco” desde 2003, no qual recebeu o “Prêmio de Melhor Atendimento Comida di Buteco 2003”, com 3 vitórias nos anos de 2009, 2021 e 2022 o Café Palhares se torna o bar mais premiado do Comida di Buteco na região central da cidade. O maior destaque dentro do concurso é a persistência no pódio dos cinco melhores botecos de Belo Horizonte e nos demais anos. O bar foi homenageado duas vezes pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, em 2009 e citado em importantes obras da literatura brasileira como Hilda Furacão e Ontem à noite era 6ª feira de Roberto Drummond, Dos que vão morrer, aos mortos - Rafael Sette Câmara e Atemporal - Poliana Nogueira.

Um aspecto que diferencia o Café Palhares de muitos bares contemporâneos é a permanência de sua identidade ao longo do tempo. Mesmo diante das transformações urbanas ocorridas no centro da cidade e das mudanças observadas no setor gastronômico, o estabelecimento preserva elementos que remetem à sua trajetória histórica, como a simplicidade do ambiente, a rapidez do atendimento e a valorização da comida popular. Enquanto muitos bares investem em reformas, modernização estética e estratégias de marketing digital, o Café Palhares construiu sua reputação principalmente através de sua tradição e de seu reconhecimento histórico.

Dentro da proposta deste trabalho, o Café Palhares pode ser compreendido como um patrimônio cultural informal da cidade. Mais do que um espaço de alimentação e lazer, o estabelecimento representa uma memória viva da boemia belo-horizontina, funcionando como um local onde diferentes gerações compartilham práticas, histórias e tradições. Sua presença entre os destaques do Comida di Buteco demonstra que, mesmo em um contexto marcado pela inovação gastronômica e pela gourmetização de diversos estabelecimentos, ainda existe espaço para a valorização de bares cuja principal característica é a preservação de sua história e identidade cultural.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste trabalho foi possível compreender que os botecos ocupam um papel muito mais amplo do que o simples fornecimento de alimentos e bebidas. Em Belo Horizonte, esses estabelecimentos constituem espaços de convivência, troca de experiências, construção de memórias e fortalecimento de identidades coletivas, estando profundamente ligados à história social e cultural da cidade. A análise dos textos utilizados como base demonstrou que os bares podem assumir diferentes funções dentro da sociedade, atuando tanto como espaços de lazer quanto como locais de articulação política, debate e sociabilidade.

A investigação sobre o concurso Comida di Buteco permitiu observar sua importância para a valorização da culinária popular mineira e para a divulgação de estabelecimentos localizados em diferentes regiões da cidade. Desde sua criação, o concurso contribuiu para ampliar a visibilidade de pequenos empreendimentos familiares e para consolidar Belo Horizonte como uma referência nacional quando se fala em cultura de boteco. Ao mesmo tempo, sua expansão e crescente popularização provocaram transformações significativas em muitos dos estabelecimentos participantes.

A análise dos bares selecionados evidenciou que não existe um único modelo de boteco contemporâneo. Enquanto espaços como o Café Palhares e o Serrotinhos preservam características historicamente associadas à tradição dos bares belo-horizontinos, estabelecimentos como o Léo da Quadra e o Us Motoca incorporam estratégias mais recentes de divulgação, apresentação gastronômica e construção de imagem. Já o Espetinhos do Paulão demonstra que é possível alcançar reconhecimento e crescimento sem abandonar completamente a identidade de boteco de bairro que marcou sua trajetória.

Nesse sentido, percebe-se que o Comida di Buteco ocupa uma posição ambígua dentro desse processo. Ao mesmo tempo em que contribui para a preservação e valorização da cultura dos botecos, também incentiva adaptações voltadas para novos públicos consumidores, favorecendo processos de gourmetização observados em parte dos estabelecimentos participantes. Dessa forma, o concurso não apenas promove os botecos existentes, mas também influencia a maneira como eles se transformam ao longo do tempo.

Além disso, a pesquisa permitiu compreender que o reconhecimento de Belo Horizonte como “Capital Mundial dos Botecos” não foi construído apenas pela grande quantidade de bares existentes na cidade, mas principalmente pela importância social e cultural que esses estabelecimentos adquiriram ao longo de sua história. Os botecos tornaram-se espaços fundamentais para a sociabilidade urbana, para a formação de redes de amizade, para a circulação de manifestações culturais e até mesmo para a articulação política em determinados períodos históricos. Somado a isso, iniciativas como o Comida di Buteco contribuíram para projetar nacionalmente essa identidade já existente, transformando uma prática cotidiana dos belo-horizontinos em um dos principais símbolos culturais da cidade.

Dessa forma, conclui-se que Belo Horizonte consolidou-se como a Capital Mundial dos Botecos não apenas pela presença numerosa desses estabelecimentos, mas pela maneira como eles se inseriram na vida cotidiana da população e na construção da identidade urbana da cidade. A boemia belo-horizontina foi formada pela convivência entre tradição e renovação, reunindo desde bares históricos que preservam memórias coletivas até novos estabelecimentos que reinterpretam a cultura dos botecos para diferentes gerações. Assim, os botecos permanecem como um dos principais patrimônios culturais de Belo Horizonte, representando espaços onde história, gastronomia, sociabilidade e pertencimento continuam se encontrando.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAFÉ PALHARES. Café Palhares. Disponível em: https://www.cafepalhares.com.br/. Acesso em: 9 jun. 2026.

COMIDA DI BUTECO. Comida di Buteco. Disponível em: https://comidadibuteco.com.br/o-comida-di-buteco/. Acesso em: 9 jun. 2026.

COMIDA DI BUTECO. Leo da Quadra. Disponível em: https://comidadibuteco.com.br/buteco/leo-da-quadra/. Acesso em: 9 jun. 2026.

COMIDA DI BUTECO. E tem mais buteco, Nação! Confira os ganhadores de Belo Horizonte... Instagram, 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DKKnw8XOzAV/?img_index=1. Acesso em: 9 jun. 2026.

GC de Oliveira Santos (2022). Autenticidade e Nostalgia na experiência de consumidores de Bares e Botecos de Belo Horizonte - Cidade criativa da Gastronomia. Disponível em:  repositório.ufmg.brhttps://www.grupounibra.com/repositorio/GTRON/2021/comida-de-boteco-na-gastronomia-brasileira11.pdf. Acesso em: 9 jun. 2026.

GUEDES, Marcone de Souza. Belo Horizonte: boemia e militância na capital mundial dos botecos. Annales FAJE, Belo Horizonte, v. 3, n. 3, 2018.

RÁDIO ITATIAIA. Bar do Padre Eustáquio tem estufa com 28 tira-gostos tipicamente mineiros; “que trem doido é esse?”. Disponível em: https://www.itatiaia.com.br/brasil/sudeste/mg/bar-do-padre-eustaquio-tem-estufa-com-28-tira-gostos-tipicamente-mineiros-que-trem-doido-e-esse/. Acesso em: 9 jun. 2026.

SANTOS, Geórgia Caetano de Oliveira dos. Autenticidade e nostalgia na experiência de consumidores de bares e botecos de Belo Horizonte: cidade criativa da gastronomia. 2022. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2022.

THE NEW YORK TIMES. Next Stop: Belo Horizonte, Brazil. New York, 28 out. 2007. Disponível em: https://www.nytimes.com/2007/10/28/travel/28next.html. Acesso em: 9 jun. 2026.

TIBURTINO, Juliana Maria; JESUS, Alexsandro Victor de; SILVA, Izania do Carmo da. Comida de boteco na gastronomia brasileira. Recife: Centro Universitário Brasileiro (UNIBRA), 2021. Disponível em: https://www.grupounibra.com/repositorio/GTRON/2021/comida-de-boteco-na-gastronomia-brasileira11.pdf. Acesso em: 9 jun. 2026.

Da janela lateral: a inclusão possível

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG

Escola de Ciências da Informação - ECI Curso: Museologia - Disciplina: Pesquisa Histórica em Museus

Professor: Luiz Henrique Assis Garcia Aluna: Fabíola Moreira Neves



Da janela lateral: a inclusão possível


Pesquisa e vivência da Arte urbana presente em edifícios, arte essa observada através das janelas do transporte público por pessoa com mobilidade reduzida.

Pesquisa individual realizada por discente com mobilidade reduzida, no transporte público em Belo Horizonte, registrando imagens do Projeto CURA no trajeto diário entre a minha  residência e a UFMG, nos trajetos de ida e volta.


Vislumbrar Belo Horizonte como um museu a céu aberto. Não  se paga para ver fachadas de prédios históricos, murais artísticos,  arte urbana e mesmo arquitetura moderna e contemporânea presentes nas ruas do centro da cidade.

Como não foi possível para mim participar de um grupo de trabalho coletivo, realizei individualmente as pesquisas e elaboração deste artigo.

Minha ideia inicial seria analisar e comparar os murais do Projeto CURA com outras artes urbanas distribuídas pelo trajeto dos ônibus que utilizo para chegar à UFMG. No decorrer da pesquisa decidi analisar somente do ponto de vista dos murais do CURA. 

O Projeto CURA - Circuito Urbano de Arte, foi criado no ano de 2017 por artistas mulheres e busca a democratização da arte. Se definem como “arte pública em movimento”. 

O título “Da janela lateral:a inclusão possível”, faz alusão ao fato de que pessoas com mobilidade reduzida como eu, e que não têm a possibilidade de frequentar museus e galerias assiduamente, podem sim ter acesso à arte através do treino do olhar aproveitando as viagens de coletivos urbanos, diariamente ou não, para observar as artes em grafite e pinturas murais, em especial do Projeto CURA. Também de determinados pontos de ônibus podemos admirar as artes nos prédios no centro de Belo Horizonte.

Mesmo sendo uma experiência de cunho subjetivo, me interessei em realizar entrevistas informais com pessoas no interior dos coletivos e nos pontos de embarque. Foram doze entrevistas entre homens e mulheres. Desse grupo, somente duas pessoas não haviam notado os murais do CURA, ficando surpresas quando apontei para elas as artes. Nas demais entrevistas, todos já haviam percebido e admirado as artes, mas nenhuma dessas pessoas tinha conhecimento do Projeto CURA. Esse desconhecimento sobre a origem das artes não evitou que os entrevistados admirassem os murais pintados nas laterais (empena cega) dos prédios tanto como  passageiros sede coletivos e carros de passeio ou como pedestres circulando pelo centro de Belo Horizonte.

Em minhas observações optei por não pesquisar os autores das artes fotografadas pois, para mim, a arte fala ao coração. O artista urbano pode, muitas vezes, ser invisibilidade, mas a sua arte não. Ela fala à mente e ao coração e deixa uma semente de esperança.

Observação: as fotos dos murais foram tiradas do interior e dos pontos de embarque de quatro linhas diversas de ônibus e, por esse motivo, algumas artes se repetem por terem sido fotografadas de ângulos e de ônibus diversos.


Referências:

MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O museu na cidade/a cidade no museu: para uma abordagem histórica dos museus de cidade. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 5, n. 8/9, p. 197-206, set/1984-abril/1985.

Projeto CURA - Circuito Urbano de Arte. Site: https://www.cura.art/sobre-n%C3%B3s Acesso em 04/06/2026.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Muito além do espaço: por uma história cultural do urbano. Estudos Históricos. Rio de Janeiro. V. 8, n° 16, 1995. pp. 279-290.


GALERIA - ALGUMAS ARTES - CURA BH
















Registro fotográfico realizado por Fabíola Moreira Neves do interior dos ônibus e nos pontos de embarque para os coletivos no centro de Belo Horizonte.

Fotos: arquivo pessoal da discente autora deste trabalho.