1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como objetivo pesquisar e analisar a relação política, histórica e cultural da capital de Minas Gerais (Belo Horizonte) com os botecos e o impacto do concurso Comida Di Buteco na configuração, divulgação e culturalização da ação de “botecar” em Belo Horizonte. Para isso, tomamos como base inicial dois artigos que analisaram essa relação sob perspectivas diferentes, sendo em primeiro o texto de autoria de Alexsandro Victor de Jesus, Izania do Carmo da Silva e Juliana Maria Tiburtino intitulado “Comida de Boteco na Gastronomia Brasileira”, onde o ambiente do bar é abordado com um olhar mais cultural, emocional e de criação de laços que vão além do simples ato de comer e acabam tornando-se parte da identidade brasileira, já em segunda análise temos o texto de autoria de Marcone de Souza Guedes intitulado “Boemia e Militância na Capital Mundial dos Botecos”, onde o autor aborda o boteco sob a perspectiva política e histórica dos bares de BH, mais especificamente nos que estão localizados no Edifício Maletta, tendo como recorte temporal o período da Ditadura Militar.
Desta forma, foi possível perceber a diversidade de significados e relações que os botecos podem construir com as pessoas e com as cidades, desde pontos de encontro político durante a Ditadura Militar até espaços de lazer para poder comer, beber e conversar os bares estão presentes na vida e identidade cultural brasileira. Ademais, notamos que a palavra “boteco” tem diferentes significados e ajudam a criar diferentes ambientes na mente de cada pessoa, ao conversar com colegas, amigos e familiares vimos que ao perguntar “O que a palavra boteco remete para você?” temos diferentes respostas e ambientações, assim percebemos como a cultura familiar e individual, a classe socioeconômica, a faixa de idade e as ideologias influenciam nas respostas.
Por fim, buscamos analisar a lista dos bares que estiveram no top cinco do concurso durante os anos de 2023 a 2026, buscando entender com a sua localização, arquitetura, preços e frequentadores influenciam para que eles estivessem presentes no concurso, criando um paralelo entre a valorização de locais elitizados e a desvalorização de pequenos comerciantes dentro de um dos maiores concursos gastronômicos de Belo Horizonte.
2 HISTÓRIA DO CONCURSO
Belo Horizonte se consagrou nacionalmente como a “Capital Nacional do Boteco”, possuindo cerca de 12.000 estabelecimentos, mais bares per capita que qualquer outra grande cidade do Brasil. A culinária mineira é o diferencial, por suas características únicas que acompanham muito bem a cerveja, o chope, o vinho ou a cachaça mineira.
Ao final do ano de 1999, em uma confraternização da não mais existente Rádio Geraes, Eduardo Maya do programa Momento Gourmet, juntamente com João Guimarães, proprietário da emissora e Maria Eulália Araújo, Gerente de Marketing e comercial, perceberam o desejo compatível da criação de um evento que valorizasse a tradicional cozinha de raiz e os botecos de Belo Horizonte. Batizando o evento de Comida di Buteco, um concurso dedicado exclusivamente aos botecos brasileiros. Os requisitos da competição para ser eleito o melhor boteco são: higiene, temperatura da bebida, atendimento e, a estrela da noite, o prato desenvolvido pelo estabelecimento. O vencedor é decidido através da votação do público que frequentou o local e por um corpo de jurados na data final da competição. O termo “buteco”, grafado com “u”, reflete a origem mineira do projeto e simboliza a essência do evento: ambientes simples, democráticos e autênticos, onde a comida e a convivência são protagonistas.
Assim, todos os anos seguintes à essa confraternização, entre abril e maio, é realizada a competição entre os bares participantes, incentivando a visitação de diversos estabelecimentos na cidade que o evento ocorre. Durante um mês, acontece essa busca pelos melhores botecos, petiscos e tira-gostos, necessitando essencialmente da participação do público. A partir do ano de 2008 o concurso se expandiu pelo Brasil, sendo que em 2025 realizaram 27 circuitos de norte a sul do País, atingindo mais de 1000 botecos participantes. As cidades que participaram foram: Rio de Janeiro, Salvador e Goiânia. No interior do Estado de São Paulo o concurso chegou em Campinas, Ribeirão Pretor e São José do Rio Preto. Alcançou também à região Norte, por Belém e Manaus. Em 2012 chegou à Capital Paulista e a partir de 2015 em Curitiba, Brasília e Recife.
Em 3 de Junho de 2024 o concurso se tornou patrimônio cultural, gastronômico e imaterial do Estado do Rio de Janeiro (projeto de Lei nº 1735/2023). Apenas participam do concurso estabelecimentos em que o dono está à frente do negócio, não podendo haver franquias, já que possui como foco a valorização de pequenos negócios familiares, colocando em destaque o “puro suco da Cultura Brasileira”.
2.1 LINHA DO TEMPO
1999 - O evento começa a ser idealizado em uma festa de confraternização da rádio Geraes, envolvendo Eduardo Maya, João Guimarães e Maria Eulália Araújo. Possuem a intenção de valorizar a culinária raiz mineira e os botecos de Belo Horizonte.
2000 - Edição de estreia do Comida di Buteco, com 10 bares participantes.
2005 - A Rádio Geraes foi fechada e o concurso se tornou independente, dando origem a empresa Comida di Buteco Produções Gastronômicas Ltda. Já consagrado o maior concurso do gênero no Brasil.
2007 - O Comida de Buteco é citado pela primeira vez no The New York Times, a matéria “A Town Where All the World is a Bar” escrita por Seth Kugel.
2008 - Início da expansão por outras cidades: Rio de Janeiro, Goiânia e Salvador.
2010 - Mais circuitos integram o Comida di Buteco de forma definitiva: Vale do Aço, Montes Claros, Poços de Caldas e Uberlândia, em Minas Gerais, além de Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, no interior paulista.
2011 - Mais quatro circuitos inaugurados: Belém, Fortaleza, Juiz de Fora e Manaus.
2012 - O Concurso chega a São Paulo, com 50 botecos participantes.
2013 - Presente em 15 cidades brasileiras, o concurso passa a ser realizado simultaneamente em todos os circuitos, ganhando ainda mais força nacional.
2015 - Quatro novos circuitos: Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Recife. Totalizando agora 20 cidades.
2016 - Pela primeira vez, é realizada a etapa nacional, em que os campeões locais disputam o título de melhor buteco do Brasil.
2017 - Com o tema cereais, o concurso chega à sua 10ª edição no Rio de Janeiro, em Uberlândia, no Vale do Aço, em Salvador e em Goiás, passando a ter caráter estadual com a integração de Aparecida e Goiânia.
2018 - O concurso chega a mais uma cidade da Região Sul. Florianópolis entra oficialmente na rota da disputa.
2019 - O Comida di Buteco comemora 20 anos.
2020 - O evento foi cancelado devido à pandemia de covid-19.
2021 - Após ser adiado quatro vezes por conta da pandemia, o concurso é realizado e incentiva a continuação de muitos estabelecimentos do gênero.
2022 - Com o tema livre, o concurso volta quebrando recordes de votos, público e faturamento dos botecos. Além de completar 10 anos de realização em São Paulo e 15 anos no Rio de Janeiro.
2023 - Novos participantes da Região Sul: Joinville, Blumenau, Londrina e Maringá. O concurso atinge 25 circuitos e 1000 botecos participantes.
2024 - O concurso passa a integrar as experiências físicas e digitais.
2025 - O comida di Buteco comemora 25 anos.
3 ANÁLISE DOS BARES VENCEDORES
Ao longo da nossa pesquisa decidimos por analisar os vendedores mais especificamente dos anos de 2023 a 2026, e é perceptível por que dos anos 2000 a 2016, os estabelecimentos participantes carregavam em seus nomes as palavras “bar, boteco e botequim”, nomes mais simples, como “André Caldos” e nomes que fizessem referência ao sotaque mineiro. Porém, de 2017 a 2026 nota-se que os bares participantes deixaram de carregar essas palavras nos seus nomes, eles agora trazem expressões derivadas do inglês, e no lugar de “bar, boteco e botequim” temos o surgimento dos “Gastro bar, bistrô e bistroteco”. Esse movimento surge em um momento de um maior acesso às redes sociais como Instagram, Tik Tok, Snapchat e Twitter, tendo em vista que a mesma geração que está mais integrada às redes é a mesma que começa a buscar locais mais “instagramáveis” e esteticamente mais atraentes para sair e postar, é a mesma geração que associa o boteco com um ambiente mais simples e tradicional que foge dos padrões de ambiente de lazer dos mais jovens.
Diante deste novo público, o comércio começa a buscar formas de acompanhá-los, de acompanhar as redes e as tendências que surgem a cada dia. Desta forma, pequenas mudanças começam a ser feitas, o ambiente muda, a cartela de drinks, o cardápio, os preços, a localização, acontece o popular efeito de “gourmetização”, os bares que escolhem não passar por este processo começam a perder a força com a geração atual.
4 ANÁLISE DE BARES ESPECÍFICOS
4.1 Serrotinhos Bar
Localizado na Rua Pará de Minas, no bairro Padre Eustáquio, o Serrotinhos Bar está em funcionamento desde 2013 e se tornou um dos exemplos mais conhecidos de preservação da cultura tradicional dos botecos em Belo Horizonte. O estabelecimento é frequentemente lembrado pela variedade de comidas expostas em sua estufa, que reúne cerca de trinta opções de tira-gostos típicos da culinária mineira, entre eles torresmo de barriga, moela, rabada, linguiça, almôndega, costela e lambari. Os preços relativamente acessíveis, aliados ao ambiente informal e à forte presença de frequentadores do próprio bairro, contribuem para a construção de uma atmosfera associada ao boteco tradicional.
Outro aspecto que chama atenção é o horário de funcionamento do estabelecimento, que abre diariamente às 6 horas da manhã e permanece em atividade até a meia-noite. Esse funcionamento prolongado permite que o bar seja frequentado por públicos bastante diversos ao longo do dia, desde trabalhadores em busca do café da manhã até grupos de amigos reunidos para confraternizações noturnas. A popularidade do local é tamanha que moradores da região costumam afirmar que encontrar mesas disponíveis nos horários de pico pode ser uma tarefa difícil.
Durante nossa pesquisa, observamos que o Serrotinhos apresenta diversos elementos apontados pela pesquisadora Geórgia Caetano de Oliveira dos Santos, em sua tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Minas Gerais, como características marcantes da cultura dos botecos belo-horizontinos. Entre eles estão a presença do copo Lagoinha, a cerveja gelada, a cachaça, a estufa de petiscos, as cadeiras ocupando as calçadas e o atendimento próximo entre funcionários e clientes.
Entretanto, um aspecto interessante é que o estabelecimento passou por reformas estruturais recentes. Apesar das mudanças físicas e da modernização de alguns espaços, o bar preservou elementos centrais de sua identidade. Essa permanência demonstra que processos de renovação não necessariamente implicam abandono das características tradicionais dos botecos. O Serrotinhos representa, portanto, um caso em que modernização e tradição coexistem, permitindo que o estabelecimento acompanhe novas demandas do mercado sem romper completamente com a cultura boêmia de bairro que ajudou a construir sua reputação.
Figura 1:

Figura 2:

4.2 Léo da Quadra
Localizado no Barreiro, o Léo da Quadra tornou-se um dos exemplos mais expressivos de como a culinária tradicional mineira pode ser reinterpretada dentro do contexto contemporâneo dos concursos gastronômicos. O estabelecimento ganhou destaque no Comida di Buteco com o petisco “Di Juei”, composto por joelho de porco em postas servido sobre canjiquinha com bacon e acompanhado por taioba na manteiga. A escolha dos ingredientes demonstra forte ligação com a culinária mineira tradicional, utilizando produtos amplamente associados à alimentação popular do estado.
Ao mesmo tempo, a forma de apresentação do prato e a divulgação realizada pelo estabelecimento revelam uma preocupação crescente com aspectos estéticos e mercadológicos. Diferentemente dos bares mais tradicionais, cuja divulgação depende principalmente da boca a boca e da clientela local, o Léo da Quadra investe fortemente em sua presença digital, especialmente através das redes sociais. Essa estratégia acompanha uma tendência observada em diversos bares participantes do concurso, que passaram a utilizar plataformas digitais para ampliar seu alcance e atrair novos públicos.
Outro aspecto relevante é sua localização no Barreiro, uma região historicamente distante dos principais circuitos gastronômicos da cidade. Nesse sentido, a participação no Comida di Buteco permitiu ao estabelecimento ampliar sua visibilidade e atrair consumidores de outras regiões de Belo Horizonte. Esse fenômeno evidencia uma das contribuições mais significativas do concurso: incentivar a circulação de pessoas por diferentes áreas da cidade, promovendo maior reconhecimento de bairros tradicionalmente menos associados ao turismo gastronômico.
O caso do Léo da Quadra demonstra como os botecos contemporâneos frequentemente ocupam uma posição intermediária entre tradição e inovação. Ao mesmo tempo em que preserva ingredientes e referências da culinária mineira, o estabelecimento incorpora estratégias de divulgação e apresentação características da gastronomia contemporânea, aproximando-se dos processos de gourmetização observados em parte dos participantes mais recentes do concurso.
Figura 3:

4.3 Espetinhos do Paulão
A trajetória do Espetinhos do Paulão é uma das mais emblemáticas entre os estabelecimentos analisados. Antes de se tornar um dos bares mais premiados de Belo Horizonte, o negócio teve origem como um simples carrinho de cachorro-quente. Com o crescimento da clientela, transformou-se em distribuidora e, posteriormente, no atual bar localizado no bairro Ermelinda. O sucesso obtido ao longo dos anos permitiu a expansão do empreendimento para imóveis próximos ao ponto original, ampliando sua capacidade de atendimento sem abandonar sua ligação com a comunidade local.
Sua participação no Comida di Buteco teve início em 2023, quando o concurso adotou como temática “Ervas e Especiarias”. Na ocasião, o estabelecimento apresentou o prato “Maçã do Pecado”, composto por maçã de peito acompanhada de batatas bolinha salteadas com cheiro-verde e pimenta biquinho, além de torradas ao azeite conservado de ervas e alho desidratado. Mesmo sendo estreante na competição, o bar conquistou o segundo lugar, resultado que trouxe grande visibilidade ao estabelecimento.
Em 2024, com o tema livre e o lema “Somos Todos Boteco”, o Espetinhos do Paulão apresentou o prato “Boi Bandido”, composto por costela bovina acompanhada de milho verde, mandioca cozida na manteiga e farofa. O petisco conquistou o primeiro lugar do concurso, consolidando o estabelecimento como um dos principais representantes da culinária de boteco em Belo Horizonte.
No ano seguinte, quando o concurso celebrou seus 25 anos sob o tema “Paixão pelo Buteco”, o estabelecimento alcançou um feito ainda mais significativo ao conquistar o bicampeonato com o prato “Vaca Faladeira”, uma língua de boi recheada com bacon e cenoura ao molho madeira, acompanhada por minipães italianos recheados com vinagrete e muçarela gratinada. A escolha da língua de boi como ingrediente principal chama atenção por valorizar cortes tradicionalmente associados à culinária popular, demonstrando que a criatividade gastronômica não depende necessariamente da utilização de ingredientes considerados nobres ou sofisticados.
Talvez o aspecto mais interessante da trajetória do Espetinhos do Paulão seja a permanência do discurso de valorização do bairro e da cultura popular mesmo após o reconhecimento obtido pelo concurso. Em publicação realizada após a conquista do bicampeonato, o estabelecimento destacou a importância da comunidade local e afirmou que seu desejo era continuar sendo um boteco simples, acolhedor e autêntico. Essa postura reforça a ideia de que o sucesso comercial e a visibilidade proporcionada pelo concurso não necessariamente implicam abandono das características tradicionalmente associadas aos botecos de bairro.
Dessa forma, o Espetinhos do Paulão representa um exemplo de mobilidade econômica e reconhecimento social proporcionados pelo Comida di Buteco. Sua trajetória demonstra como o concurso pode funcionar como ferramenta de fortalecimento de pequenos empreendimentos familiares, permitindo que estabelecimentos periféricos alcancem destaque sem necessariamente abandonar sua identidade original.
Figura 4:
4.4 Café Palhareses
Fundado em 1938 e localizado na Rua dos Tupinambás, no Centro de Belo Horizonte, o Café Palhares é considerado um dos estabelecimentos mais tradicionais da capital mineira. Ao longo de mais de oito décadas de funcionamento, o bar tornou-se uma referência da boemia belo-horizontina, recebendo trabalhadores, jornalistas, artistas, estudantes e políticos que frequentavam a região central da cidade. Sua história se confunde com a própria história de Belo Horizonte, sendo frequentemente citado em reportagens, pesquisas e produções culturais sobre a identidade boêmia da capital.
O principal símbolo do estabelecimento é o famoso prato conhecido como “Kaol”, nome formado a partir das iniciais de cachaça, arroz, ovo e linguiça. Criado originalmente como refeição para os funcionários do local, o prato acabou conquistando os clientes e tornou-se uma das receitas mais tradicionais da gastronomia mineira. Atualmente, o Kaol também é servido com acompanhamentos como couve, farofa e torresmo, preservando características da culinária popular que marcaram a história dos botecos de Belo Horizonte.
O estabelecimento participa do concurso “Comida di Buteco” desde 2003, no qual recebeu o “Prêmio de Melhor Atendimento Comida di Buteco 2003”, com 3 vitórias nos anos de 2009, 2021 e 2022 o Café Palhares se torna o bar mais premiado do Comida di Buteco na região central da cidade. O maior destaque dentro do concurso é a persistência no pódio dos cinco melhores botecos de Belo Horizonte e nos demais anos. O bar foi homenageado duas vezes pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, em 2009 e citado em importantes obras da literatura brasileira como Hilda Furacão e Ontem à noite era 6ª feira de Roberto Drummond, Dos que vão morrer, aos mortos - Rafael Sette Câmara e Atemporal - Poliana Nogueira.
Um aspecto que diferencia o Café Palhares de muitos bares contemporâneos é a permanência de sua identidade ao longo do tempo. Mesmo diante das transformações urbanas ocorridas no centro da cidade e das mudanças observadas no setor gastronômico, o estabelecimento preserva elementos que remetem à sua trajetória histórica, como a simplicidade do ambiente, a rapidez do atendimento e a valorização da comida popular. Enquanto muitos bares investem em reformas, modernização estética e estratégias de marketing digital, o Café Palhares construiu sua reputação principalmente através de sua tradição e de seu reconhecimento histórico.
Dentro da proposta deste trabalho, o Café Palhares pode ser compreendido como um patrimônio cultural informal da cidade. Mais do que um espaço de alimentação e lazer, o estabelecimento representa uma memória viva da boemia belo-horizontina, funcionando como um local onde diferentes gerações compartilham práticas, histórias e tradições. Sua presença entre os destaques do Comida di Buteco demonstra que, mesmo em um contexto marcado pela inovação gastronômica e pela gourmetização de diversos estabelecimentos, ainda existe espaço para a valorização de bares cuja principal característica é a preservação de sua história e identidade cultural.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste trabalho foi possível compreender que os botecos ocupam um papel muito mais amplo do que o simples fornecimento de alimentos e bebidas. Em Belo Horizonte, esses estabelecimentos constituem espaços de convivência, troca de experiências, construção de memórias e fortalecimento de identidades coletivas, estando profundamente ligados à história social e cultural da cidade. A análise dos textos utilizados como base demonstrou que os bares podem assumir diferentes funções dentro da sociedade, atuando tanto como espaços de lazer quanto como locais de articulação política, debate e sociabilidade.
A investigação sobre o concurso Comida di Buteco permitiu observar sua importância para a valorização da culinária popular mineira e para a divulgação de estabelecimentos localizados em diferentes regiões da cidade. Desde sua criação, o concurso contribuiu para ampliar a visibilidade de pequenos empreendimentos familiares e para consolidar Belo Horizonte como uma referência nacional quando se fala em cultura de boteco. Ao mesmo tempo, sua expansão e crescente popularização provocaram transformações significativas em muitos dos estabelecimentos participantes.
A análise dos bares selecionados evidenciou que não existe um único modelo de boteco contemporâneo. Enquanto espaços como o Café Palhares e o Serrotinhos preservam características historicamente associadas à tradição dos bares belo-horizontinos, estabelecimentos como o Léo da Quadra e o Us Motoca incorporam estratégias mais recentes de divulgação, apresentação gastronômica e construção de imagem. Já o Espetinhos do Paulão demonstra que é possível alcançar reconhecimento e crescimento sem abandonar completamente a identidade de boteco de bairro que marcou sua trajetória.
Nesse sentido, percebe-se que o Comida di Buteco ocupa uma posição ambígua dentro desse processo. Ao mesmo tempo em que contribui para a preservação e valorização da cultura dos botecos, também incentiva adaptações voltadas para novos públicos consumidores, favorecendo processos de gourmetização observados em parte dos estabelecimentos participantes. Dessa forma, o concurso não apenas promove os botecos existentes, mas também influencia a maneira como eles se transformam ao longo do tempo.
Além disso, a pesquisa permitiu compreender que o reconhecimento de Belo Horizonte como “Capital Mundial dos Botecos” não foi construído apenas pela grande quantidade de bares existentes na cidade, mas principalmente pela importância social e cultural que esses estabelecimentos adquiriram ao longo de sua história. Os botecos tornaram-se espaços fundamentais para a sociabilidade urbana, para a formação de redes de amizade, para a circulação de manifestações culturais e até mesmo para a articulação política em determinados períodos históricos. Somado a isso, iniciativas como o Comida di Buteco contribuíram para projetar nacionalmente essa identidade já existente, transformando uma prática cotidiana dos belo-horizontinos em um dos principais símbolos culturais da cidade.
Dessa forma, conclui-se que Belo Horizonte consolidou-se como a Capital Mundial dos Botecos não apenas pela presença numerosa desses estabelecimentos, mas pela maneira como eles se inseriram na vida cotidiana da população e na construção da identidade urbana da cidade. A boemia belo-horizontina foi formada pela convivência entre tradição e renovação, reunindo desde bares históricos que preservam memórias coletivas até novos estabelecimentos que reinterpretam a cultura dos botecos para diferentes gerações. Assim, os botecos permanecem como um dos principais patrimônios culturais de Belo Horizonte, representando espaços onde história, gastronomia, sociabilidade e pertencimento continuam se encontrando.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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