Mostrando postagens com marcador Museus Comunitários. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Museus Comunitários. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Muquifo: exemplo de Museu Comunitário

 

Universidade Federal de Minas Gerais / Escola de Ciências da Informação
Curso: Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus
Prof. Luiz Henrique

Discentes:
Ana Clara Rios de Mello
Francisco Robério de Oliveira Nunes Junior,
Helga Cristina Gonçalves Possas
Núbia da Silva Alves

Muquifo:

exemplo de Museu Comunitário






Fonte: https://visite.museus.gov.br/instituicoes/museu-dos-quilombos-e-favelas-urbanos/


Museu de território e comunitário, o Muquifu atua como instrumento de resistência ante o risco iminente de expulsão dos favelados dos centros urbanos e pelo reconhecimento e preservação do patrimônio, histórias, memórias e bens culturais dos moradores dos quilombos urbanos e favelas de Belo Horizonte e de Minas Gerais e do Brasil. Idealizado por moradores do Aglomerado Santa Lúcia, o Muquifu é tocado por voluntários e tem como objetivo mostrar as vivências, lutas e o legado dessas populações, muitas vezes marginalizadas, promovendo a reflexão sobre a resistência, a herança afro-brasileira e a importância da identidade dessas comunidades na construção da cidade.

O museu trabalha com uma série de ações educativas e culturais, como exposições, eventos e oficinas, para promover um diálogo entre a cidade formal e as comunidades que foram historicamente excluídas do processo de urbanização.


 


Fonte: https://bdmgcultural.mg.gov.br/artigos/titulo-do-artigo-ou-ensaio-20/


A instituição preserva em seu acervo fotografias, objetos biográficos, obras de arte, documentos variados, utensílios domésticos, objetos religiosos e vestimentas, que ficam em exposição, guardados na reserva técnica ou espalhados pelo território em forma de festas, cerimônias e grupos culturais. Os objetos e as exposições têm como pano de fundo as memórias das lutas pelo pertencimento ao território.

O Muquifu oferece carne, ossos e sistema nervoso ao entendimento do conceito de gentrificação experimentado pelos moradores de favelas em seus próprios corpos e em suas honradas moradias, que são enviados a contragosto para lugares muito distantes dos centros urbanos por ação caprichosa e desumana da especulação imobiliária.


Fonte: https://bdmgcultural.mg.gov.br/artigos/titulo-do-artigo-ou-ensaio-20/

Assim, se ocupar de guardar a alma desses territórios negros expropriados em objetos carregados de história e humores doados ao acervo. Ocupa-se em registrar os depoimentos e os sonhos das pessoas que foram obrigadas a deixar o seu meio, mudando-se para lugares longe de suas histórias.

A instituição é guardiã das memórias dessas gentes. Ele diz a elas: vocês não estão sós, nós estamos aqui, ficaremos aqui e pedaços significativos de vocês ficarão conosco e contarão aos que vierem que forma vocês e as riquezas humanas que construíram, ele é sentinela e vela pela memória dos que se foram, seja porque se mudaram, seja porque se desconectaram deste mundo. É protetor da memória dos que lutaram e conseguiram permanecer, dos que lutaram e foram desterritorializados.

O Muquifu busca envolver as comunidades quilombolas e faveladas de Belo Horizonte no processo de preservação e divulgação de sua própria história. A coleta de objetos, a criação de exposições e as narrativas compartilhadas pelos moradores dessas comunidades são essenciais para o funcionamento do museu. Isso fortalece o protagonismo local e assegura que as memórias e histórias contadas no museu sejam genuinamente representativas da vivência dos moradores. Assim, o museu não se limita a objetos físicos, mas também reconhece o valor das tradições, dos saberes e das práticas culturais desses grupos, como as formas de resistência, as manifestações artísticas e as histórias de luta contra a exclusão social e racial. Ele serve como uma plataforma para dar visibilidade às vozes das comunidades que muitas vezes são ignoradas nas narrativas oficiais.

Sendo assim o Muquifu se torna uma plataforma viva que combina educação, memória, cultura e resistência, proporcionando uma nova perspectiva sobre as comunidades quilombolas e faveladas de Belo Horizonte e sua relação com o espaço urbano em que estão inseridas. Ele atua não apenas como um espaço de exposição, mas como um agente de transformação social, fortalecendo as identidades locais e promovendo o reconhecimento de territórios historicamente marginalizados.


Fonte: https://www.brasiliarios.com/cultura/1174-mar-recebe-muquifu-museus-dos-quilombos-e-favelas-urbanos


Fonte: https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/museu-social-curadoria-comunitaria-e-preocupacao-com-o-presente/



Links de vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=NOHdD3OFFDU


https://www.youtube.com/watch?v=09BC9Eay7iM


https://www.youtube.com/watch?v=TfJYuiUDPec





quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Ecomuseus e museus comunitários

Universidade Federal de Minas Gerais

Escola de Ciência da Informação – Graduação em Museologia

Disciplina: Tipologia de Museus - Trabalho Final

Professor: Luiz Henrique Garcia de Assis

Autores: Alessandro Rezende, Jonathan Moura e Mayra Luiza Marques

Ecomuseus e museus comunitários


A Nova Museologia é um movimento consolidado na década de 80 e considerado um dos mais relevantes da Museologia Contemporânea. Este movimento surge principalmente em consequência das demandas sociais reivindicadas num contexto imediatamente posterior aos conflitos, contestações e lutas revolucionárias ocorridas nas décadas de 60 e 70, visando incorporar a função social da instituição museu como caráter primordial e, por isso, contestador, criativo e transformador. Suas bases conceituais e filosóficas foram delineadas na Mesa Redonda de Santiago do Chile, em 1972.  

A partir daí o movimento foi se consolidando progressivamente, culminando com o surgimento oficial do Movimento Internacional para a Nova Museologia - MINOM - em 1985, em Lisboa, como resultado da união das forças divergentes, transformadoras e questionadoras da museologia convencional, pregando uma pedagogia libertadora, a descolonização e a definição de compromissos museais.

A Declaração de Quebec (1984) e a Declaração de Caracas (1992) surgem como dois importantes documentos que auxiliaram na criação e consolidação dos Ecomuseus e Museus comunitários. Esses documentos, adotando conceitos da Nova Museologia, propuseram a implementação de uma museologia ativa dentro dos espaços museológicos, trazendo a discussão sobre pontos como a participação da comunidade dentro dos museus, uma pesquisa participativa e debates sobre patrimônio e território.

Como um exemplo concreto dessa nova ideia que emergia, como já citado anteriormente, temos o Ecomuseu, visto como instrumento de autogestão de uma comunidade, sem limites que não aqueles por ela definidos, sendo concebido, fabricado e explorado por um poder e uma população. O poder, com os especialistas, as facilidades e os recursos que fornece. A população, segundo suas aspirações, seus saberes, sua capacidade de análise. Após certo grau de evolução, eles acabam se integrando em sistemas oficiais e institucionalizam-se. Seus quatro elementos constitutivos, são: o território, a população (como agente), o tempo, o patrimônio (total: paisagens, sítios, edificações, objetos).

[Site do Ecomuseu de Itaipu: https://www.itaipu.gov.br/meioambiente/ecomuseu] 


A interdisciplinaridade nos museus é compreendida no sentido da necessidade de fazer interagir diferentes especialistas e conhecimentos para trabalhar, em toda complexidade, uma dada cultura. Os comitês de gestão dos museus são: o de gestão (administradores municipais ou regionais), o de usuários (membros da comunidade envolvida) e o científico (acadêmicos pertencentes aos quadros de universidades próximas, estudiosos de questões implicadas na proposta do ecomuseu).


Além disso, temos outro exemplo, o Museu Comunitário. Criado pela própria comunidade, no qual seus moradores tornam-se atores do processo de formulação, execução e manutenção do museu, além da construção de seu acervo, sendo ou podendo ser em algum momento, assessorados por um Museólogo.


O museu tradicional tem por objetivo servir ao conhecimento e à cultura, já o museu comunitário objetiva servir à comunidade e ao seu desenvolvimento. 


O museu de comunidade é um ser vivo, inacabado, como a própria comunidade, em constante movimento para se adaptar às mudanças que acontecem nela e em seu ambiente. Ele não deve ser trancado num edifício, restrito a uma coleção e uma exposição ou administrado por profissionais competentes sem conexão ou comunicação com a comunidade.

[Episódio Museu da Maré do Canal Conhecendo Museus: https://www.youtube.com/watch?v=TVHrrtM9UD0 ]


Na museologia popular todo território está envolvido, todo patrimônio da comunidade é levado em consideração e as exposições são apenas umas das técnicas de comunicação. 

O termo território, em sentido antropológico, é construído por uma dada população, a ele pertencente e com ela identificado.

Os museus comunitários enfrentam um problema recorrente: se o processo deve ser continuado, como mantê-lo vivo com o passar dos anos e com atores diferentes? Existem duas possibilidades:

  • O museu comunitário não conseguirá sobreviver à sua geração fundadora e então desaparecerá ou se tornará um museu institucional.

  • O museu aceitará a sua reciclagem a cada 20 ou 30 anos de modo a permanecer relevante.

A Museologia Comunitária preocupa-se em libertar as próprias pessoas da alienação cultural, ou libertar sua capacidade de imaginação ou iniciativa, ou liberar a consciência dos seus direitos de propriedade sobre seu patrimônio.


Bibliografia: 

BARBUY, Heloísa. A conformação dos ecomuseus: elementos para compreensão e análise. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.3 p.209.236 jan./dez. 1995.

PRIOSTI, Odalice Miranda. A dimensão político - cultural dos processos museológicos gestados por comunidades e populações autóctones. SEMINÁRIO DE IMPLANTAÇÃO DO ECOMUSEU DA AMAZÔNIA E DO PÓLO MUSEOLÓGICO DE BELÉM/ PA, 8-10 de junho de 2007, 26p.

VARINE, Hugues de. O museu comunitário como processo continuado. Cadernos do CEOM - Ano 27, n. 41, 2014, p.25-35.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A Nova Museologia, ecomuseus e os museus comunitários

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação – Graduação em Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus - Trabalho Final
Professor: Luiz Henrique Garcia de Assis
Autores: Ana Beatriz Fóscolo, Aléxia Thimóteo, Flávia Valença, Jonathan Moura, Nana
Albuquerque, Nara Santana e Olivia Babêtto

     Os ecomuseus e museus comunitários surgem concomitante à Nova Museologia, que é um movimento consolidado na década de 80 e considerado um dos mais relevantes da Museologia Contemporânea. Este movimento, de militância a favor de uma museologia social e ativa, surge principalmente em consequência das demandas sociais reivindicadas num contexto imediatamente posterior aos conflitos, contestações e lutas revolucionárias ocorridas nas décadas de 60 e 70, visando incorporar a função social da instituição museu como caráter primordial e, por isso, contestador, criativo e transformador. Suas bases conceituais e filosóficas foram delineadas na Mesa Redonda de Santiago do Chile, em 1972. A partir daí o movimento foi se consolidando progressivamente, culminando com o surgimento oficial do Movimento Internacional para a Nova Museologia - MINOM - em 1985, em Lisboa, como resultado da união das forças divergentes, transformadoras e questionadoras da museologia convencional, pregando uma pedagogia libertadora, a descolonização e a definição de compromissos museais.

      A Mesa Redonda de Santiago do Chile foi um evento de extrema relevância que evidenciou as contribuições das museologias nascidas na América Latina, promoveu, como mencionado, a Nova Museologia e construiu o conceito de “patrimônio integral”, além de também o difundir. Ao reconhecer o papel político e social exercido pelos museus e propor sua abertura às disciplinas que não estão em
seu âmbito tradicional, além de valorizar o meio científico, a Mesa de Santiago demonstra o seu apoio ao caráter didático dos museus, o que faz com que sejam fontes transformadoras, militantes e conscientizadoras. Vale frisar que este movimento possibilitou uma abertura voltada para as comunidades e menos para o âmbito de serem somente uma pura administração de coleções, o que os afasta do conceito clássico.

      Reafirmando pontos tratados na Mesa Redonda de Santiago, a Declaração de Quebec (1984) e a Declaração de Caracas (1992) surgem como dois importantes documentos que auxiliaram na criação e consolidação dos ecomuseus e museus comunitários. Esses documentos, adotando conceitos da Nova Museologia, propuseram a implementação de uma museologia ativa dentro dos espaços museológicos, trazendo a discussão sobre pontos como a participação da comunidade dentro dos museus, uma pesquisa participativa e debates sobre patrimônio e território.

       Fazemos um paralelo dessa ideia de uma Nova Museologia, que entende o espaço Museal como um campo político, ou seja, um espaço que influencia e é influenciado por escolhas internas e externas, com a pedagogia libertadora de Paulo Freire. Em síntese, ambas entendem que, a partir da tomada de consciência do ambiente que se está inserido, há a possibilidade do indivíduo alterar a sua realidade a partir dos seus objetivos e não aqueles oferecidos pelo sistema.

     É importante salientar que tanto essa tomada de consciência quanto a alteração da realidade não podem ser romantizadas e embebidas num pensamento de salvação mundial, pelo contrário, há um processo detalhado, local e frágil, que depende de uma frequente manutenção por todas as partes envolvidas. Assim como Freire coloca a escola como um espaço de debate e construção de conhecimento, a Nova Museologia coloca o Museu como um canalizador de perspectivas e destrinchamento de histórias, sendo assim um parte viva da sociedade e não do Estado institucionalizado.

      Como um exemplo concreto dessa nova ideia que emergia no final da década de 90, como já citado anteriormente, temos o Museu Comunitário. Criado pela própria comunidade, no qual seus moradores tornam-se atores do processo de formulação, execução e manutenção do museu, além da construção de seu acervo, sendo ou podendo ser em algum momento, assessorados por um Museólogo. Os museus comunitários têm o objetivo de servir a comunidade e ao seu desenvolvimento, sendo um local colaborativo onde as pessoas possam “contar a sua própria história”.

Episódio MUQUIFU do canal Conhecendo Museus

      Além disso, temos outro exemplo, os ecomuseus. Reconhecidos como espaços pensados para ser reflexo popular de um local, trazendo suas histórias e memórias para dentro do espaço expositivo. Diferente dos museus comunitários, eles não são construídos pela comunidade com 100% do acervo doado. Contudo, possuem uma proposta de participação local no funcionamento do museu que visa a
preservação do patrimônio cultural e também local. O ecomuseu busca se comunicar com os visitantes de forma que a população local se sinta representada e que os visitantes “de fora” possam entender e aprender sobre sua essência e suas narrativas.

    [Site do Ecomuseu de Itaipu: https://www.itaipu.gov.br/meioambiente/ecomuseu]

      Ao pensarmos sobre essa nova concepção de Museologia, precisamos refletir sobre quais são os desafios atuais para a conclusão dos objetivos propostos pelos eventos supracitados, bem como a partir de qual movimento tais espaços se consolidaram. Segundo Priosti (2007), Como experiência em estado de exploração, esses museus só poderão permanecer como instrumentos para o desenvolvimento comunitário se (e esses são os desafios contemporâneos):

● mantiverem as práticas comunitárias como metodologia de educação política;
● priorizarem a pedagogia libertadora de Paulo Freire aplicada à educação formal e não formal, promovendo a educação popular;
● usarem essencialmente os recursos do território (patrimônio e pessoas) para o desenvolvimento local;
● acompanharem as mudanças no território (culturais, identitárias, sociais e econômicas) para intervir nelas, recompondo os espaços; estimularem a pesquisa participativa para o autoconhecimento e o conhecimento do outro; contemplar a ética, a solidariedade , a partilha;
● fizerem interagir as gerações, preparando a transição; valorizem a cultura viva da comunidade ( material e imaterial);
● abrirem-se para as trocas/ intercâmbios;prepararem a sociedade para a libertação de suas forças criativas para a gestão do futuro, acreditando no seu potencial transformador, nos valores democráticos
e no seu papel de construtora da paz.


REFERÊNCIAS

BARBUY, Heloísa. A conformação dos ecomuseus: elementos para compreensão e análise. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.3
p.209.236 jan./dez. 1995.

CAMERON, Duncan F. The museum: a temple or the forum. Curator, New York:
American Museum of Natural History, v. 14, n. 1, p. 11-24, mar. 1970.

MATTOS, Yára. A Respeito do Conceito de Cultura. In: Cultura brasileira: aspectos gerais e instituições. Ouro Preto: UFOP, 2009.

Declaração de Quebec, 1984. DECLARAÇÃO DE QUEBEC, PRINCÍPIOS DE BASE DE UMA NOVA MUSEOLOGIA, 1984. Cadernos de
Sociomuseologia, v. 15, n. 15, 11

ICOM, 1992. DECLARAÇÃO DE CARACAS - ICOM, 1992. Cadernos de Sociomuseologia, v. 15, n. 15, 11.

PRIOSTI, Odalice Miranda. A dimensão político - cultural dos processos museológicos gestados por comunidades e populações autóctones.
SEMINÁRIO DE IMPLANTAÇÃO DO ECOMUSEU DA AMAZÔNIA E DO PÓLO MUSEOLÓGICO DE BELÉM/ PA, 8-10 de junho de 2007, 26p.

SANTOS, M. Capítulo IV - Reflexões sobre a nova museologia. Cadernos de Sociomuseologia. Centro de Estudos de Sociomuseologia,
América do Norte, 18, jun. 2009.

VARINE, Hugues de. O museu comunitário como processo continuado. Cadernos do CEOM - Ano 27, n. 41, 2014, p.25-35.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Os museus comunitários: seus ideais e suas dificuldades - Tipologia de museus 2020

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola da Ciência da Informação
Curso de Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus
Professor: Luiz Henrique Garcia de Assis

Alunos: Bárbara da Silva, Camila Bueno, Lígia Dutra, Maíra Gil, Sâmara Rebeca.

Algumas das primeiras experiências de museus comunitários ocorreram no México(*), local onde o conceito foi estabelecido, esse tipo de museu tem sua base de criação fundamentada no movimento da nova museologia. O museu comunitário é considerado um processo, que deve estar em constante mudança, se adaptando de acordo com a realidade de seu ambiente. Diferentemente dos museus mais tradicionais, ele é criado pela própria comunidade, a partir de uma curadoria coletiva utilizando suas próprias referências culturais, o que possibilita o reconhecimento e um sentimento de pertencimento coletivo.

Tomemos como exemplo o Museu do Índio Luiza Cantofa. Localizado no Rio Grande do Norte, é considerado o primeiro museu indígena do estado, e foi inaugurado e idealizado pela liderança indígena Lúcia Maria Tavares em conjunto com os povos indígenas da região em fevereiro de 2013.

O Museu tem como objetivo principal resgatar e recontar a história dos Tapuias Paiacus (grupo indígena que habitava a região compreendida entre o rio Açu, na Chapada do Apodi e o baixo Jaguaribe no Ceará). É um Museu que tem em seu cerne honrar as dificuldades passadas por seus antepassados, suas lutas e suas glórias, assim como demarcar seu lugar de existência e ancestralidade, num triângulo perfeito de museu-corpo-território. Ele existe pois os Tapuias Paiacus ainda existem, apesar de sofrerem constantes apagamentos.
Imóvel atual do Museu do Índio Luiza Cantofa - Rio Grande do Norte


Museu do Índio Luiza Cantofa-Rio Grande do Norte: Antes e Depois

Fonte: Twitter


Fonte: Facebook/somsemplugs
 
Apesar dos ideais e das propostas dos museus comunitários, eles também carregam potenciais desafios, como os idealizadores do museu não serem imparciais em relação a seus gostos, crenças e ideologias pessoais, o que pode refletir no processo de criação do museu, que deveria se tratar dos interesses da comunidade; além dos museus comunitários muitas vezes acabarem enfrentando dificuldades relacionadas à área financeira, como falta de verba, que dificulta na conservação de seu acervo e na realização de projetos com a comunidade; ou ocorrerem conflitos de gerações, se um museu não se modificar com tempo, futuramente as prioridades, necessidades e os problemas da comunidade que ele está inserido não serão contemplados. Com relação a este último desafio, o Museu do Índio Luiza Cantofa se destaca por dar prioridade à narrativa de suas histórias através das gerações, o que cria um senso de intimidade entre a comunidade e o museu. Dessa forma, é importante que os museus comunitários se mantenham atentos a essas possíveis adversidades e busquem combatê-las, para que eles não se tornem equivalentes às instituições que contradizem os seus objetivos.


Referências bibliográficas

PRIOSTI, Odalice Miranda. A dimensão político - cultural dos processos museológicos gestados por comunidades e populações autóctones. SEMINÁRIO DE IMPLANTAÇÃO DO ECOMUSEU DA AMAZÔNIA E DO PÓLO MUSEOLÓGICO DE BELÉM/ PA, 8-10 de junho de 2007, 26p.

RUSSI, Adriana; ABREU, Regina. “Museologia colaborativa”: diferentes processos nas relações entre antropólogos, coleções etnográficas e povos indígenas, Horizontes Antropológicos [Online], n.53, p.17-46, jan./abr. 2019. Posto online no dia 18 maio 2019, consultado o 22 maio 2019.

Nota do editor:
(*)Há experiências iniciais em vários cenários museológicos diferentes, que merecem ser citadas, como nos EUA, Canadá e França. O Anacostia Neighborhood Museum em Washington, D.C., abriu em 1967, até antes da Mesa Redonda de Santiago do Chile, em 1972.


 


sábado, 13 de abril de 2019

Ecomuseus/museus comunitários - Tipologia de museus 2018

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG
Escola de Ciência da Informação - ECI
Curso de Museologia
Tipologia de Museus
Professor: Luiz Henrique Assis Garcia
Grupo: Alexandre Garzon, Bruna Ferreira, Erika Gonçalves, Marcus Vinícius, Mayra
Marques, Vinícius Bernucci

Ecomuseus/museus comunitários
 
Segundo Georges Henri Rivière, em seu livro La Museologia - Curso de Museologia:
Textos y testimonios, o Ecomuseu é um instrumento que um poder público e uma
população concebem, fabricam e exploram juntos. Um espelho em que essa
população olha para si mesma, para se reconhecer nela, onde busca a explicação
do território ao qual está unido, juntamente com o das populações que o
precederam, na descontinuidade ou na continuidade das gerações. Tal espelho se
apresenta aos seus convidados, para se fazerem entender melhor, respeitando seu
trabalho, seu comportamento, sua privacidade.

No século XIX, enquanto os museus mais prestigiosos eram os de belas artes e os
de história natural, outros movimentos fortalecem-se, germinando os museus de
culturas locais, os museus de folclore. No século XX iniciaram-se as correntes
regionais, que, nos museus europeus tendem mais à auto-representação cultural do
que à representação do outro. Assim, a etnografia regional e a museologia
etnográfica nasciam conjuntamente.
Historicamente, Georges Henri Rivière sentiu a necessidade de criar museus ao ar
livre para preservar os testemunhos do patrimônio arquitetônico rural francês. Antes
mesmo de conceber o Museu Nacional de Artes e Tradições Populares, estudara a
possibilidade de criar um no parque do Castelo de Chambord e apoiará vários
projetos em Bretanha e nas Landes.

















G.H. Rivière, em 1982, frente a uma vitrine do Museu Nacional de Artes e Tradições Populares - Paris

Diante da perenidade do museu tradicional, a espontaneidade com que o
ecomuseu surge a partir de contextos sociais e culturais frágeis poderia ter causado
temores de que ele seria efêmero.
Hugues de Varine afirma que nem todo ecomuseu é considerado um museu de
comunidade. O museu de comunidade tem como objetivo servir a comunidade e ao
seu desenvolvimento. Um exemplo de museu de comunidade que é referência
mundialmente é o Ecomuseu de Seixal, em Portugal.



















Ecomuseu de Seixal, Portugal - Núcleo Naval

Ele insere então o conceito de desenvolvimento local e como os museus
comunitários agem como uma ferramenta cultural específica para dialogar junto à
comunidade, detectando e utilizando os recursos locais em prol desta comunidade.
O desenvolvimento local só acontece quando a população estiver estreitamente
associada com o processo de tomada de decisões, com a identificação e
administração dos recursos locais. E por ser um processo, este museu comunitário
deve estar sempre em contato com sua comunidade e sempre em movimento para
adaptar-se às mudanças no ambiente.
A museologia comunitária vem junto a este movimento preocupando-se em libertar
as pessoas da alienação cultural, desenvolver sua capacidade de imaginação ou
iniciativa, liberar a consciência dos seus direitos de propriedade sobre o seu
patrimônio.

Porém, é importante ressaltar como os ecomuseus muitas vezes acabam servindo
como atrações turísticas, desviando o foco do governo às dificuldades e
necessidades da comunidade. Além de mumificar a cidade no tempo, pois os
cenários criados tornam os maquinários e ambientes inutilizados, como por exemplo
a inserção de um estábulo junto a um moinho, que anteriormente eram de uso da
população, criando um ambiente unicamente para apreciação visual/sensorial. O que
gera a espetacularização das comunidades, a partir da fetichização de histórias
problemáticas, por trabalhos insalubres nas fábricas, pela vida do campo sem
condições mínimas de educação, nem de perspectivas de desenvolvimento
econômico da população. Mas que ali fazem com que se tornem pontos turísticos
com intuito apenas do lucro, em vez de gerar retorno para a sociedade em questão.
Pensando nos desafios que a atualidade impõe a estes museus, devemos pensar
como manter a sua característica de emanar da própria comunidade, não se tornar
politicamente ou economicamente dependente de uma entidade ou associação, e
manter o vínculo de respeito ao meio ambiente, através do desenvolvimento
sustentável. Outra preocupação é em relação ao perigo da lacuna entre as
gerações. Como continuar este processo com outros atores do desenvolvimento? A
comunidade, os novos atores do desenvolvimento, museólogos devem pensar em
conjunto para prever ações a longo prazo, como manter o ecomuseu vivo e em uma
relação direta com a comunidade, e como manter a consciência daquele grupo sobre
suas questões identitárias e patrimoniais.

Referências

BARBUY, Heloisa. A conformação dos ecomuseus: elementos para compreensão e análise.
An. mus. paul. [online]. 1995, vol.3, n.1, pp.209-230

VARINE, Hugues de. O museu comunitário como processo continuado. Cadernos do CEOM
- Ano 27, n. 41, 2014, p.25-35

https://www.saatchigallery.com/museums/museum-profile/Ecomuseu+Do+Quarteir%C3%A3o+Cultural+Do+Matadouro/4681.html

PRIOSTI, Odalice Miranda. A dimensão político - cultural dos processos museológicos
gestados por comunidades e populações autóctones. SEMINÁRIO DE IMPLANTAÇÃO DO
ECOMUSEU DA AMAZÔNIA E DO PÓLO MUSEOLÓGICO DE BELÉM/ PA , 8-10 de junho
de 2007, 26p.

RIVIERE, Georges Henri. La museologia: curso de museologia / textos y testimonios.
Madrid: Akal, 1993 533

segunda-feira, 13 de março de 2017

Museus e mudança social [Tipologia 2016]

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação
Curso de Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus
Professor: Luiz Henrique Assis Garcia
Aluno: Gabriel Cândido Carneiro
 
 
Museus e mudança social
 
Entre as muitas transformações sociais ao longo da segunda metade do século XX, como as mudanças comportamentais, a crise da economia industrializada e a emergência da sociedade da informação, figuram condições favoráveis a novas experiências museais. Tais experiências são bem diferentes daquelas conformadas ao longo do século XVI ao XVIII, como os gabinetes de curiosidade, nos quais as coleções restritas a poucos serviam mais como demonstração de poder e domínio de príncipes e colecionadores sobre a natureza do que a qualquer desejo de algo em comum.

Hoje, o museu se constitui em uma instituição em constante movimento, que aspira democracia e compreende que vivemos em sociedades plurais e multiculturais, em que prevalece a diversidade. Nesse movimento, surgem museus comprometidos com a realidade social, locais de reflexão crítica que incorporam vozes silenciadas, enfrentam padrões culturais hegemônicos, enfrentam conflitos, produzem conhecimento e fortalecem a função social dos museus.

Os novos caminhos se iniciaram em várias regiões. Na França, em 1971, com a criação e desenvolvimento do Ecomuseu em Le Creusot Montceau. Na América do Norte, com os museus comunitários que surgem nos anos 1960, o Museu de Anacostia é um exemplo de experiência de transformação social. Na América do Sul, em 1972, em um encontro realizado em Santiago do Chile, aconteceria o despertar de consciência para o museu como ferramenta de desenvolvimento. Nesta esteira de experiências surgem organizações como o Conselho Internacional para Nova Museologia (MINON), e os museus se fortalecem na prática e na teoria através de conferências, seminários e encontros, além de eventos regionais e mundiais. Algumas declarações dos principais encontros podem ser acessadas abaixo:


No Brasil, desde 2004, existe a Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários (ABREMEC). No site você encontra informações e uma lista museus no país.




Museu da Maré. Rio de Janeiro. Foto: Naldinho Lourenço



Para saber mais, no último janeiro, o professor Mário Chagas, da UNIRIO, ministrou na Escola do Louvre, em Paris, o seminário "Museologia Social no Brasil: Poéticas e Políticas no Trabalho Baseado na Experiência Prática" e concedeu uma entrevista rápida a rádio RFI, na qual comenta um pouco sobre experiências expressivas em Museologia Social no Brasil. Para Chagas, “ela não está colocada apenas a favor da conservação de bens culturais ou de objetos museológicos, mas especialmente interessada na dignidade humana. Ela mobiliza suas energias a favor das comunidades populares, utilizando o patrimônio e a memória." (entrevista completa).

E para aprofundar no tema, consulte os Cadernos de Sociomuseologia editados pelo Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CEIeD) da Universidade Lusófona de Lisboa. A edição v. 18 n. 18, de 2002: “Reflexões museológicas: caminhos de vida” traz textos da professora Maria Célia Moura Santos da UFBA, que no artigo “Reflexões sobre a Nova Museologia” constrói “uma reflexão a partir dos documentos básicos produzidos pelo ICOM/UNESCO, nos últimos vinte anos, bem como em trabalhos produzidos por profissionais engajados no movimento da Nova Museologia”(Santos, 2002).

 

Referências consultadas:

BARBUY, Heloísa. A conformação dos ecomuseus: elementos para compreensão e análise. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.3 p.209.236 jan./dez. 1995.

RIVIERE, Georges Henri. La museologia: curso de museologia / textos y testimonios. Madrid: Akal, 1993 533 p.

SANTOS, Maria Célia Moura. Reflexões em Nova Museologia. Cadernos de Sociomuseologia: Reflexões museológicas: caminhos de vida. Lisboa: Ulusofona. v. 18 n. 18. 2002.


Sites consultados: