Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG
Escola de Ciências da Informação - ECI
Curso: Museologia
Disciplina: Pesquisa Histórica em Museus
Professor: Luiz Henrique Assis Garcia
Alunos: Carlos Henrique dos Santos Nunes, Rafael de Oliveira e Samuel Roza Marinho Trabalho
A história do comércio sinaliza o avanço nos processos de troca no seio da sociedade organizada. Antes do surgimento do dinheiro ou papel moeda, e até mesmo dos centros comerciais, as pessoas realizavam permutas, também conhecidas como escambo, para complementar suas necessidades de consumo, dentro daquilo que consideravam satisfatório e justo.
Com o desenvolvimento político, social, econômico e tecnológico novos espaços de comércio foram surgindo até o advento dos shopping centers, que estabeleceram um outro padrão de relacionamento entre clientes e comerciantes.
Fachada da Galeria Ouvidor, entrada pela Rua Curitiba. Foto: Carlos Nunes
Levando-se em conta que a Galeria do Ouvidor do município de Belo Horizonte é considerada como o primeiro shopping da cidade, e que representa um modelo de reconhecido sucesso entre as décadas de 1960 ao final dos anos de 1990, no que diz respeito ao comércio de produtos da moda e bens mais sofisticados, o grupo realizou uma pesquisa cujo objetivo foi investigar como a Galeria do Ouvidor lida com a memória, sua preservação e ressignificação, em meio às pressões e dinamismo do setor comercial contemporâneo e quais os seus principais desafios. Para além de um centro de compras, o estudo buscou entender o papel do edifício como um repositório de histórias e vivências, identificando os principais desafios para manter sua identidade frente às transformações e novas demandas de consumo.
O grupo realizou uma pesquisa exploratória para identificar informações, dados e imagens que pudessem favorecer o alcance dos objetivos traçados. As principais fontes utilizadas foram jornais e revistas antigos da base de dados do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), entrevista realizada com o administrador da Galeria do Ouvidor, senhor Valter Faustino, informações obtidas no livro “Galeria Ouvidor”, organizado por Morais (2022), três artigos científicos que abordaram o tema: Nascimento (2014); Palhares (2020) e Santos (2016), além de outros sites da internet.
Recortes de jornal consultados na biblioteca do Museu Histórico Abílio Barreto, 2026. Imagem: Samuel Roza Marinho
Considerando o objetivo de investigar como a Galeria do Ouvidor lida com a memória, sua preservação e ressignificação, em meio às pressões e dinamismo do setor comercial contemporâneo e quais os seus principais desafios, percebe-se, principalmente considerando a fonte oficial, ou seja, o representante da Galeria do Ouvidor, um grande interesse em preservar a imagem de alguns objetos, elementos e conceitos, como por exemplo a “escada rolante”, por ser a primeira disponibilizada na cidade, e o “pastel” com “caldo de cana”, que atrai os consumidores pela qualidade e tradição. A ressignificação da imagem da Galeria do Ouvidor pode ser percebida pela significativa alteração do mix de produtos ofertados, o que favoreceu a adaptação do shopping às novas realidades do mercado. As pressões sociais, econômicas, tecnológicas, dentre outras variáveis, contribuem para um novo posicionamento da Galeria, a fim de atender novas demandas. O representante oficial da instituição afirmou que possuem expectativas positivas frente à aproximação de novos empreendedores que podem enxergar o grande valor e potencial que o shopping possui. No aspecto do desenvolvimento da memória, percebe-se alguns movimentos no discurso, ao buscar associar a exposição do shopping à iniciativas municipais, visando sua introdução nos circuitos turísticos oficiais da cidade e do estado. Foi mencionado também um esforço mercadológico da Galeria, com agência própria, para desenvolver as relações com o mercado. O próprio livro sobre a Galeria do Ouvidor pode ser considerado como exemplo.
Capa do livro “Galeria do Ouvidor”, de Andrea Lacerda de Morais, 2022. Imagem: Livraria Scriptum
A Galeria do Ouvidor continua sendo um centro de compras, principalmente considerando que fornece matéria prima para profissionais autônomos e pequenas empresas, com destaque para o ramo do artesanato e bijuterias. Pessoas físicas também adquirem produtos no referido centro comercial, por questão de qualidade e preço diferenciado.
Vista interna da Galeria, nível Rua Curitiba. Imagem: Carlos Nunes
No caso do entendimento do papel do edifício como um repositório de histórias e vivências, percebe-se que os próprios componentes do grupo tinham histórias e vivências a contar, sejam próprias ou de familiares. O local como centro de capacitação, oferecendo a oportunidade de estudos e treinamentos no campo da datilografia e da música, as lojas referências na venda de livros, discos, etc., salões de beleza, pastel e caldo de cana, lojas de conserto de relógios, dentre outros, foram facilmente lembradas ao longo do processo. As memórias de pessoas que trabalham há muito tempo na Galeria, foram consideradas no livro organizado por Morais (2022), cujas menções merecem destaque:
Alexandra, ascensorista há 13 anos na Galeria, afirma que “Este trabalho exige muita discrição”...”aqui na Galeria já fui auxiliar de escritório, tomei conta do circuito interno de tevê, mas a profissão que mais gosto é essa que lida com o público”, e continua “...uma vez o
elevador parou, e uma moça entrou em pânico”, lembra, “Aí eu tive que acalmá-la e acalmar todo mundo que estava lá dentro. Agi como uma psicóloga”, conta. Outra história que merece destaque foi a vivida por Fátima Xavier, frequentadora da Galeria do Ouvidor desde o dia de sua inauguração, em março de 1964. Seu pai, Orlando, foi proprietário da primeira loja de discos de vinil no local, a Loja Xavier. Disse que “...era uma criança, mas me lembro bem que aqui estavam as melhores lojas, os jovens mais bonitos. Era um dos points mais badalados da cidade”. Wando, Nelson Gonçalves e até Roberto Carlos passaram pela loja do seu pai. Recorda também que havia uma divisão de preferências entre a loja do seu pai e a do Raul Plassman, ex-goleiro do Cruzeiro. Os atleticanos davam preferência para a loja do senhor Orlando e os cruzeirenses para a do Raul.
Longe de ser considerado como um “resto”, segundo ensina Debary (2017), a Galeria do Ouvidor se adaptou às novas realidades do mercado, buscando, a seu modo, valorizar um pouco de sua memória dentro da realidade vivida pelos empreendedores, funcionários, clientes e passantes ao longo de décadas de bons resultados e sucesso.
Um dos conceitos centrais que podem ser utilizados para caracterizar a experiência vivida pelo grupo é o de “lugares da memória”, inspirado em Pierre Nora, e citado por Abreu (1994). A Galeria do Ouvidor aparece como um espaço destinado a conservar fragmentos da memória coletiva municipal e regional. Nesse sentido, as memórias apresentadas podem ser compreendidas como instrumentos de construção simbólica da identidade regional.
Referências
ABREU, Regina. História de uma coleção: Miguel Calmon e o Museu Histórico Nacional . Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 199–234, 1994. Disponível em: https://revistas.usp.br/anaismp/article/view/5300. Acesso em: 15 mai. 2026.
DEBARY, Octave. Os mercados da memória. In: DEBARY, Octave. Antropologia dos restos: da lixeira ao museu. Pelotas: Um2 Comunicação, 2017. p. 38-52.
MORAIS, Andrea Lacerda de (org). GALERIA OUVIDOR. Coordenação: Flávia Mafra. Belo Horizonte: 2022 (Olhar BH).
NASCIMENTO, Alexandra. Das “passagens” aos grandes malls: notas sobre sociabilidade e consumo nas galerias e nos shopping centers. In: CONGRESSO PORTUGUÊS DE SOCIOLOGIA, 8., 2014, Évora. Anais [...]. Évora: Associação Portuguesa de Sociologia, 2014. Tema: 40 anos de democracias: progressos, contradições e prospetivas.
PALHARES, José Vitor; CORREIA, Gabriel Farias Alves; CARRIERI, Alexandre de Pádua. "Um lugar de movimento": a trajetória histórica das apropriações dos espaços da Galeria do Ouvidor em Belo Horizonte (MG). Sociedade, Contabilidade e Gestão, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, set./dez. 2020.
SANTOS, José Vitor Palhares dos; CARRIERI, Alexandre de Pádua; PEREIRA, Verônica Fujise; MARTINS, Talita Soares. Pesquisa histórica em administração: a (re)construção identitária da Galeria do Ouvidor em Belo Horizonte (MG). Revista de Ciências da Administração, Florianópolis, v. 18, n. 46, p. 9-23, set./dez. 2016.

A Galeria Ouvidor além de testemunhar a história da cidade, carrega a memória afetiva de muitas pessoas. Um tema muito sensível e interessante abordado no trabalho
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