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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Versos que revelam histórias e vivências: 13 de Maio ao Jogo de Angola

Universidade Federal de Minas Gerais
Bacharelado em Museologia
Metodologia de Pesquisa Histórica em Museus
Docente: Luiz Henrique Assis Garcia

Discentes: Alessandro de Oliveira; Alice Martins; Clarissa Tomasi; Flávia Valença; Lorena Gonçalves e Suzane Rodrigues




Introdução


Este trabalho analisa a partir de uma perspectiva histórica, cultural e museológica o samba como instrumento de resistência e afirmação identitária, tomando como base as trajetórias de duas cantoras mineiras: Maria Aparecida Martins e Clara Nunes. Para isso, aborda as canções “13 de Maio” (1979) de Maria Aparecida e “Jogo de Angola” (1980) interpretada por Clara Nunes, buscando evidenciar os eventos e referenciais históricos, políticos e sociais presentes em seus versos. O recorte se justifica tanto pelo papel dessas artistas na construção simbólica do Samba Mineiro, quanto por suas atuações enquanto mulheres inseridas nesses contextos distintos de racialização, mercado musical e expressões culturais e religiosas. A metodologia segue um caminho comparativo entre as produções musicais, abordando as canções como documentos históricos e culturais que permitem refletir sobre a diáspora africana e suas manobras de sobrevivência, como a malandragem e o samba refletindo a realidade como forma de memória e resistência.


Maria Aparecida Martins (1939/1940-1985)
- Música 13 de Maio


Nasceu em Caxambu (MG); foi curimbeira, cantora, compositora, médium e mãe de santo, reconhecida por integrar elementos da religiosidade afro-brasileira ao samba, destacou-se por sua militância cultural e espiritual em um contexto de pouca visibilidade para mulheres negras compositoras. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos 10 anos, onde começou a trabalhar como passadeira, iniciando suas composições aos 13 anos. Participou do programa A Voz do Morro, de Salvador Batista, por uma década, e também se apresentou nas rodas de samba do Grupo Opinião, um importante espaço de resistência à ditadura militar, que promoveu uma arte de oposição ao regime (SÁ, 2020).

Foi mãe de 2 meninos, porém devido a circunstâncias difíceis, foi obrigada a entregar os filhos para adoção logo após o nascimento. Aparecida alcançou o sucesso em concursos de música carnavalesca e festivais, com composições como “Meu Rio Quatrocentão” e “Zumbi, Zumbi”. Em 1968, tornou-se a segunda mulher (antes dela apenas Dona Ivone Lara) a vencer uma disputa de samba-enredo, com a obra "A Sonata das Matas", para a escola Caprichosos de Pilares. Não se tem registros de mulheres mineiras, anteriores à Aparecida, com projeção nacional significativa no samba, o que torna sua história tão importante para a trajetória feminina no samba mineiro.

A música "13 de Maio", composta por Maria Aparecida Martins em 1979, é uma obra profundamente enraizada na história e na espiritualidade afro-brasileira. Ela entrelaça elementos históricos, culturais e religiosos para celebrar a luta, a resistência e a ancestralidade do povo negro no Brasil. A música tem como eixo central a data de 13 de maio de 1888, dia da assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil. No entanto, ao invés de uma comemoração vazia, a canção a ressignifica como símbolo de memória, resistência e ancestralidade negra, abordando com criticidade e espiritualidade a condição do povo negro pós-abolição. A introdução saúda a princesa Isabel, que tradicionalmente é vista como a "redentora", mas a letra logo desloca o foco dela para os verdadeiros protagonistas da resistência negra, como Zumbi dos Palmares, Zé do Patrocínio entre outras figuras que contribuíram na luta contra a escravidão.

Clara Nunes (1942-1983) - Música “Jogo de Angola



Nasceu em Paraopeba (MG), órfã de pai e mãe aos 6 anos de idade, Clara foi criada pelos irmãos. Aos 14 anos começou a trabalhar em fábricas e mudou-se para Belo Horizonte dois anos depois, onde intercalou o trabalho com a carreira musical. Em 1965 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde lançou seu primeiro LP pela Odeon. No início de sua carreira venceu concursos de canto e se apresentava nas rádios com músicas de estilos diversos, como boleros, samba-canção, bossa nova e da jovem guarda. “Guerreiro de Oxalá”, em 1969, é a primeira música com referência à religião de matriz africana que Clara Nunes grava. Na década de 1970, Clara constrói então uma imagem afro-brasileira com a produção de Adelzon Alves e do estilista carnavalesco Geraldo Sobreira (Matos, Guerra, Ladeira, 2025).

A partir de então, Clara Nunes se consolida no cenário musical brasileiro e difunde sua visão pessoal e sua defesa pela cultura afro-brasileira mesmo sendo uma mulher de pele branca. A cultura afro-brasileira está presente na religião, nas vestimentas, no estilo de vida. Na década de 1970, o programa Fantástico reproduziu por quase dez anos videoclipes da cantora. Para a emissora, os vídeos eram um sucesso de audiência e uma estratégia de conteúdo durante a ditadura, para amenizar o cenário político no horário nobre. Para Clara, essa repercussão era uma forma de estar inserida no mercado da música e, ainda assim, divulgar a cultura afro-brasileira (Coelho, 2023).

A música “Jogo de Angola” interpretada por Clara Nunes narra a história da Capoeira como tática de resistência resgatando a luta corporal dos negros escravizados como símbolo de enfrentamento e preservação cultural. A música pode ser uma reflexão a malandragem e a sobrevivência, “a dança que era festa para o dono da terra/virou a principal defesa do negro na guerra.” A estrutura narrativa da música acompanha o ciclo histórico da escravização e a luta por liberdade utilizando referências culturais afro-brasileiras como berimbau, quilombo e o samba. Clara transforma músicas em ferramenta de memória social e identidade do povo negro no Brasil.

O contexto histórico

As trajetórias artísticas de Maria Aparecida e Clara Nunes são indissociáveis da singularidade de suas expressões na arte e do contexto social e histórico no qual estavam inseridas. Ambas se destacam da e na coletividade promovendo impacto sócio-cultural.

Clara e Aparecida ganham destaque em momentos diferentes, no contexto da Ditadura Militar (1964-1985), onde a censura restringia as produções artísticas da época. Com o processo de redemocratização, iniciado no final da década de 70, período em que o regime militar perdia força, mudanças significativas ocorreram para toda a sociedade brasileira. A partir de então, uma maior liberdade de expressão marcou as produções artísticas o que influenciou fortemente a cultura e a música que era produzida; temas antes censurados, retratando tensões sociais, culturais e políticas, passaram a estar presentes nas composições (Santanna, 2019).

Conclusão


Partindo da análise, nota-se que as raízes ancestrais e o contexto histórico social impactam na música e na formação de artistas. As duas mulheres analisadas, mesmo nascendo em contextos de pobreza e longe da grande capital do Rio de Janeiro, conseguiram trilhar seus caminhos na música, ainda que permeado de lutas e repressão causadas tanto pela configuração política da época, como por abordar questões de cunho racial que vão contra as noções didáticas de história abordadas no período, contribuindo assim de forma grandiosa para a construção do samba.

Bibliografia

COELHO, Renato. “Não temo quebrantos porque eu sou guerreira”: o legado de Clara Nunes. Jornal da Unesp, 28 abr. 2023. Disponível em: https://jornal.unesp.br/2023/04/28/nao-temo-quebrantos-porque-eu-sou-guerreira-o-legado-de-clara-nunes/. Acesso em: 02 jun. 2025.

MATOS, A. M.; GUERRA, I.; LADEIRA, M. C. (Org.) Clara Nunes: eu sou a tal mineira. Belo Horizonte: Fundação Municipal de Cultura: Museu da Moda: Viaduto das Artes, 2025.

SÁ, Marco. Aparecida, a voz dos orixás. 13 maio 2020. Disponível em <https://pitayacultural.com.br/musica/aparecida-a-voz-dos-orixas/>. Acesso: 18 jun. 2025.

SANTANNA, M. O ABC do samba: Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes. In. SANTANNA, M. As bambas do samba – mulher e poder na roda. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2019. p. 135-158.

A virada do samba - breve história do carnaval de Belo Horizonte

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - UFMG

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO - ECI

CURSO DE GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA

DISCIPLINA: METODOLOGIA DA PESQUISA HISTÓRICA EM MUSEUS

PROFESSOR: LUIZ HENRIQUE ASSIS GARCIA

GRUPO: JOÃO LUCAS SALGADO MACHADO, SÂMELA CAMPOS MIRANDA ALVES ANDRADE


INTRODUÇÃO

O carnaval de Belo Horizonte tem vivido nas últimas duas décadas um processo de revitalização e de crescimento exponencial. Só no ano de 2025, foram 568 blocos de rua cadastrados para desfilar pelas ruas da cidade, número exorbitante mesmo se comparado ao período áureo carnavalesco do século anterior, que em 1985 contava com cerca de 17 escolas de samba e 23 blocos caricatos (Dias, 2015). Contrariamente, é perceptível que o samba, ritmo essencial do carnaval brasileiro, vem perdendo centralidade na folia belo-horizontina. O presente artigo busca se debruçar nos porquês desse fenômeno.


METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada através de leitura bibliográfica e de estudo comparativo entre blocos populares na década de XX e XXI. Para os blocos mais recentes, o levantamento de dados foi feito majoritariamente através da análise das redes sociais dos mesmos, enquanto que para os mais antigos contou-se com informações disponibilizadas pelos sites da prefeitura e do Blocos de Rua, além do material bibliográfico. Buscou-se  analisar tanto perfis de blocos que valorizam o samba como seu ritmo principal quanto aqueles que privilegiam outros ritmos, além do perfil da prefeitura responsável por apurar o crescimento da festa ao longo dos anos. Por meio dessa pesquisa, foram levantadas algumas hipóteses. Em primeiro lugar, como a falta de investimento do Estado poderia ter influenciado a baixa no número de escolas de samba, e como isso resultou na descentralização dos blocos belo-horizontinos, tornando-os nichados e menos dependentes do Carnaval oficial. Em segundo lugar, como a própria indústria musical pode ter influenciado a adição de outros gêneros à folia, e com isso contribuído para a subalternização do samba enquanto ritmo. 


A VIRADA DO SAMBA

Com a elevação do samba enquanto gênero símbolo nacional em 1930, e na tentativa de criar uma Belo Horizonte moderna e progressista, o Estado passa a investir em modelos de celebração bem parecidos com os da então capital do Rio de Janeiro, importando dali os blocos de rua e o modelo das escolas de samba. Surgem aí ritmos e  melodias dos blocos mais populares da época, como também a “Escola de Samba Pedreira Unida” que  foi, provavelmente, a pioneira do carnaval belo-horizontino. Fundada pela comunidade da Pedreira Prado Lopes, desfilou pela primeira vez em 1937. 

Figura 1 – Vídeo do carnaval belo-horizontino de 1964

 


 

https://youtu.be/qUrsN_aZvzs

Fonte: CANAL MIS BH/Reprodução: Youtube


É possível perceber que muitos dos grupos que continuam mantendo o samba como ritmo principal são aqueles ligados aos grupos originais, como é o caso do bloco caricato Aflitos do Anchieta.

Figura 2 – Vídeo de um pós ensaio dos Aflitos do Anchieta, bloco caricato originalmente formado em 1965

https://www.instagram.com/reel/C_OLgguOhh2/

Fonte: Aflitos do Anchieta/Reprodução: Instagram



A partir da ascensão de outros ritmos como o funk e o sertanejo, é possível perceber em blocos mais recentes a tentativa de se mesclar o som tradicional carnavalesco com outros ritmos populares. Essa mescla pode indicar tanto uma tentativa de dialogar com as preferências musicais contemporâneas, ao se aproximar ao desejo da massa, como também enquanto um reflexo direto da lógica da indústria musical, que se adapta sempre visando maximizar o alcance e o lucro. 

Figura 3 – Duda Beat é a convidada do Então, Brilha! do carnaval de 2025

 

 

https://www.instagram.com/p/DGlsnpdS8Ri/

Fonte: Jornal Hoje em Dia/Reprodução: Instagram


O carnaval de Belo Horizonte sobreviveu durante todo o século XX e até cresceu, como no público da “Banda Mole”. Mas se desenvolveu chegando a receber milhões de turistas a partir dos anos 2009.

          Figura 4 - Instagram da Prefeitura de Belo Horizonte sobre o carnaval

 

 


 

https://www.instagram.com/p/DIRWJdhx04G/

Fonte: Prefeitura de Belo Horizonte/Reprodução: Instagram


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Hoje em dia, com as ruas do carnaval de Belo Horizonte tomadas por blocos, “que buscam misturar festa com política, carnaval com revolução, cidade com a mobilização, rua com luta, liberdade com negociação e democracia com amor”(Dias, 2015, p. 117) há também a tentativa da prefeitura de restabelecer alguns padrões para a festa e controlar e enquadrar as manifestações que surgiram de forma espontânea. Para tanto, se preocupa em organizar a festa, mas não em impor qualquer tipo de ritmo ou gênero musical. O grande atrativo do carnaval de rua de Belo Horizonte é justamente a diversidade de ritmos e estilos. Há blocos que tocam axé dos anos 90, outros que fazem versões carnavalescas de rock, blocos infantis, blocos com marchinhas tradicionais e, sim, blocos de samba. Essa pluralidade é vista por muitos como uma riqueza e um reflexo da própria identidade musical da cidade. Já no carnaval oficial, as escolas de samba - que em Belo Horizonte não têm a mesma representatividade que no Rio de Janeiro ou São Paulo, por exemplo -,  como o nome diz, ainda preservam o ritmo e há  valorização de figuras conhecidas de galpões de escolas, o que não acontece com o carnaval de rua, que é a grande vedete da festa em Belo Horizonte. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARRUDA, Gabriel. Comunidade Bigode: uma etnografia do samba e do sambista em Belo Horizonte. 2022. Orientador: Eduardo Rosse. 154 f. il. Dissertação (Mestrado em Música) – Escola de Música, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2022.


ANCHIETA, Aflitos do. Depois do ensaio, uma levada de samba pra descontrair. Belo Horizonte, 2025. Instagram: aflitosdoanchieta. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/C_OLgguOhh2/. Acesso em: 19 jun. 2025.


CARNAVAL 1964 - Belo Horizonte. Belo Horizonte: Belotur, 2014. Disponível em: https://youtu.be/qUrsN_aZvzs?si=4k3IOwQJG75LVxKI. Acesso em: 22 jun. 2025.


DIA, Jornal Hoje em. Carnaval em BH: Duda Beat é a convidada do bloco então, brilha! para desfile de sábado. 27 fev. 2025. Instagram: jornalhojeemdia. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DGlsnpdS8Ri/. Acesso em: 16 jun. 2025.


DIAS, Paola Lisboa Côdo. Sob a “Lente do Espaço Vivido”: a apropriação das ruas pelos blocos de carnaval na Belo Horizonte contemporânea. 2015. 201 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015.


DOMINIQUE, João Paulo Mariano. Insurgências juvenis no carnaval de rua em Belo Horizonte: o bloco seu vizinho e a luta pela afirmação do território. 2019. 200 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/38166/4/Disserta%c3%a7%c3%a3o_Jo%c3%a3o_P_M_Domingues_Biblioteca%2c%202019..pdf Acesso em 20 jun. 2025.


HORIZONTE, Carnaval de Belo. #TBT daquele Carnaval que deixou saudade no coração e orgulho na memória. 10 abr. 2025. Instagram: carnavaldebh. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/DIRWJdhx04G/. Acesso em: 20 jun. 2025.


TEM, Santa Tereza. Os Inocentes nos “Outros Carnavais”, Santa Tereza tem. Disponível em: https://santaterezatem.com.br/2019/03/24/os-inocentes-nos-outros-carnavais/. Acesso em: 20 jun. 2025.

Coletividade e samba de terreiro


 

Universidade Federal de Minas Gerais
Curso de Graduação em Museologia
Disciplina: Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus
Docente: Luiz Henrique Assis Garcia

Discentes: Aparecida Millena Rocha, Kamila Ferreira da Silva, Monaliza Melo, Sofia de Carvalho, Vitor Santos.



Fig. 1: Terreiro N’zo Kabila. Crédito: Kamila Ferreira.


Ao explorar os diferentes sentidos e significados do samba, passamos a entendê-lo como algo abrangente e amplo, que além de um gênero musical, pode também ser entendido como uma manifestação religiosa e de resistência. Estando presente de forma mais latente nas religiões brasileiras de matrizes africanas, vemos que o samba desenvolve um papel primordial que, para além de um ritmo que faz parte de rituais, também se entrelaça com a construção de identidades, de formas estéticas e de coletividades. A partir disso, o presente texto busca explorar as diversas reverberações do samba de terreiro, investigando as relações, vivências e processos de permanência. Pretende-se abordar nesse recorte as relações desenvolvidas nesse ambiente e como o samba é entendido como instrumento para permanência dos grupos abordados.

Para desenvolvimento da pesquisa, primeiro foram levantadas as fontes que estavam disponíveis on-line. Foram encontrados alguns textos sobre a temática, além do canal “CAMILO GAN OFICIAL”, do pesquisador e sambista Fabiano Paula Camilo, com material valioso, como o “Samba de Terreiro - Palestra Sambada”, onde o mesmo explorava vários tipos de samba diferentes e seus significados e “Festival Samba de Terreiro - Conversa de Sambadeira”, em que várias mulheres que tem relação como samba e terreiro conversam de forma livre sobre suas vivências. Após isso, foi usado muito das informações conseguidas durante as entrevistas e pesquisas de campo realizadas para a exposição. Alessandra e Mãe/Rainha Belinha foram entrevistadas em seus próprios terreiros, Ilê Ase Sapponon e N’zo Kabila, e também foi realizada uma conversa com Ekedi Kely, que colaboraram para nosso entendimento sobre o samba como instrumento de cura e parte da identidade dessas comunidades e espaços.

Alessandra aponta, como parte de sua fala, que as narrativas presentes nas letras das composições do samba de terreiro carregam em si, de forma lúdica, diversos princípios e conceitos que fazem parte da raíz dos terreiros de candomblé:


“Fazer samba é contar histórias sob uma ótica que vai além da dor e do sofrimento do povo negro — é também narrar suas memórias, experiências de resistências e afetos. Trata-se de um “estar junto” — um compartilhar — envolto na alegria característica do povo negro, onde o samba se conecta ao divino, ao sagrado do Candomblé. É esse o Samba de Terreiro, o Samba de Entidade, o Samba de Caboclo.”


A partir dessa reflexão, evidencia-se o samba como algo fundamental e indissociável da própria prática do terreiro, que age como forma de transmissão dos ensinamentos e tradições associadas ao sagrado, ocupando o papel um agente de construção de indivíduos e de relações entre eles, criando assim relações de territorialidade e pertencimento dentro desse espaço. Visto isso, como argumentam Nigri e Debortoli, os diversos elementos que rodeiam o universo do samba de terreiro e do candomblé, como a musicalidade, rituais e as relações estabelecidas ali dentro “[...] não possuem sentidos somente em si mesmos, fragmentados do contexto como é possível observar em práticas de sociedades que se constituem a partir de uma orientação ocidental”.

Diante do exposto, compreende-se que o samba de terreiro é muito mais do que uma expressão musical, trata-se de uma prática profundamente enraizada nas vivências, afetos e espiritualidades das comunidades de terreiro. Atuando como instrumento de resistência, cura e transmissão de saberes, o samba reafirma identidades, fortalece laços coletivos e conecta o sagrado ao cotidiano. Assim, reconhecê-lo em sua complexidade é também valorizar os territórios simbólicos e culturais das religiões de matriz africana e das histórias que sustentam sua permanência.



Fig. 2: Terreiro Ilê Ase Sapponon. Crédito: Eduardo Queiroga.


Referências:

CAMILO GAN OFICIAL. Canal de Fabiano Paula Camilo. YouTube, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/c/camilogan. Acesso em: 22 maio 2025.

FESTIVAL Samba de Terreiro - Conversa de Sambadeira. Produção: Camilo Gan Oficial. Brasil: YouTube, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jg1zGQcKOD0. Acesso em: 22 jun. 2025.

NIGRI, Bruno Silva; DEBORTOLI, José Alfredo Oliveira. O samba no contexto do candomblé: festa, mito e religiosidade como experiência de lazer. Licere, Belo Horizonte, v. 18, n. 3, set/2015, p. 276-290.

SAMBA de Terreiro - Palestra Sambada. Produção: Camilo Gan Oficial. Brasil: YouTube, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eHeo37-oLFc. Acesso em: 22 jun. 2025.




















As Escolas e a institucionalização do samba

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
BACHARELADO EM MUSEOLOGIA
DISCIPLINA METODOLOGIA DA PESQUISA HISTÓRICA EM MUSEUS
DOCENTE: Luiz Henrique Assis Garcia
DISCENTES: Ana Clara Marques, Ana Clara Rios,Camila Amanda, Geovana De Souza, Luciana Almeida e Marcella Joana.



Vinícius de Moraes, um dos entusiastas da música e literatura brasileira, afirma: “O samba é a expressão mais sincera da alma brasileira, onde o povo transforma dor em alegria e resistência em arte”. Entretanto, o antropólogo e pesquisador Hermano Vianna (1960), em seu livro intitulado O Mistério do Samba, aponta que o processo de institucionalização do samba ocorreu por meio da organização dos chamados ranchos carnavalescos. Eles foram os primeiros grupos legalizados do samba, sendo criado e sediado na cidade do Rio de Janeiro, em meados do século XIX e início do século XX. O fato evidencia o quanto esse ritmo se fez através da comunidade, tornando-se não somente um ritmo ou uma prática, mas também, uma linguagem e um saber fazer carregado de memórias que permeiam a construção da identidade do Brasil.

A institucionalização do samba também passou pela fundação das Escolas de Samba, cujo papel foi moldado não somente como espaço de aprendizagem das singularidades do samba, mas também como um agente fomentador de produção cultural, de troca de conhecimentos e histórias. O próprio termo “escola de samba”, foi pronunciado primeiramente por Ismael Silva, fundador do Rancho Deixa Falar, que afirmava: “Nós somos os professores do samba” e também que “não somos um bloco qualquer, somos a escola de samba“, destacando o papel pedagógico e cultural dessa manifestação.


Vídeo 1 - Ismael Silva fala sobre o Samba (1977)




Nesse sentido, como espaço de fortalecimento de laços comunitários, surge a Escola de Samba Cidade Jardim, criada em 13 de abril de 1961, como dissidente da União Serrana. Sua participação ao longo dos seus 64 anos de existência, contou com enredos marcantes como o “As grandes Festanças das Gerais” em 1983, que lhe valeu o título de campeã e o “Cidade Jardim Canta as Flores” em 2018, que utilizou as flores como metáfora para a diversidade e a riqueza cultural no Brasil, além de ressaltar a conexão entre a natureza e a identidade nacional, mostrando como as flores estão presentes em festas, rituais e manifestações artísticas.


Vídeo 2 - História da Escola de samba cidade jardim e objetivos.




As Escolas de Samba, como destaca o atual presidente da Escola de Samba Cidade Jardim, Alexandre Silva Costa, durante entrevista realizada pelo grupo em abril (2025), são lembradas “apenas no carnaval”, período cuja efervescência não permite ver que antes do ápice da festa, houve tanto trabalho e inúmeras mãos participando para que o espetáculo ocorresse, e mais que isso, que o espaço na qual foi produzido o enredo carrega muito mais que tamborins, enfeites, adereços, purpurinas e grandes carros alegóricos; carrega em seu aspecto social a transformação daqueles que estão á sua volta.

Ao longo do ano, oficinas de balé, capoeira, percussão e tantas outras atividades proporcionam momentos de interação e identificação social, mostrando que as identidades culturais não são construídas de forma isolada, mas sim dentro de um contexto social e material, em constante interação entre indivíduos e lugares.




Figura 1 - Mosaico de fotos retiradas durante a entrevista com o Presidente da Escola de Samba Cidade Jardim Alexandre Silva na própria Sede.

Fonte: Acervo pessoal do grupo

Em suma, a valorização do Samba também foi impulsionada por intelectuais e músicos que buscavam legitimar essa expressão como parte da identidade nacional autêntica. Cantores como: Pixinguinha, Clara Nunes e Gonzaguinha, tiveram papel fundamental na difusão do samba para novos públicos. Além deles, figuras como Dona Jandira e Dona Elisa representam a força e a tradição do samba. A presença delas no cenário mineiro reforça a importância do samba como um patrimônio vivo que atravessa gerações e continua a inspirar novas histórias. Na ocasião, a história de Dona Elisa, a matriarca do samba, foi a abertura da exposição PRETAgonistas, exposição concebida pelos estudantes do 6º período do curso de Museologia da UFMG em junho deste ano (2025).


Vídeo 3 - História de Dona Elisa ,a matriarca do samba, na abertura da exposição PRETAgonistas.




Decerto, o samba é muito mais do que um ritmo ou uma dança: ele é um espaço de sociabilidade, onde se fortalecem os laços comunitários e se compartilham histórias e saberes. É nas rodas, nas festas e nas escolas de samba que o samba se mantém vivo, atravessando gerações e reafirmando a identidade cultural do Brasil. Reconhecer o samba como essa prática social é valorizar sua força de transformação e a importância de preservar essa memória que tanto inspira e conecta as pessoas.


REFERÊNCIAS

AUGRAS, Monique.O Brasil do samba-enredo.Rio de Janeiro Editora Fundação Getúlio Vargas 1998,p.15-25 ;p.107-199.

LIMA, Paulo. O Samba é a Alma do Povo. Portal Conteúdo Aberto, 2025. Disponível em: https://portalconteudoaberto.com.br/clique-literario/colocando-em-pratica/o-samba-e-a-alma-do-povo/. Acesso em: 23 jun. 2025.

LOPES, N. SIMAS, Luiz Antônio. Dicionário da História Social do Samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. [1. ed. – 1995].



O samba e as questões de gênero

DISCIPLINA: Metodologia da pesquisa histórica em museus
PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia
Discentes: Frederico Augusto João B. M. de Santana
                  Gabriela Guerra Fortunato
                  Lorena Eduarda da Silva Luz

 

A construção histórica do samba como um dos principais símbolos da identidade nacional
brasileira foi marcada por um processo seletivo de vozes, onde o protagonismo masculino
prevaleceu tanto nas narrativas quanto na valorização artística. No entanto, a atuação
feminina no samba é uma realidade incontestável, frequentemente deixada em segundo plano
ou subvalorizada. A partir das análises anteriores de Gomes (2013) e Augras (1998), é
possível compreender como esse apagamento se constituiu e, ao mesmo tempo, perceber as
estratégias de resistência das mulheres sambistas ao longo do tempo.
A partir da elaboração da exposição curricular da décima terceira turma de museologia
“PRETAgonistas”, surgiram inquietações e demandas, vindas das mulheres sambistas
escolhidas para integrar a expografia, que nos deram ideias para a elaboração do artigo. Hoje,
embora as marcas da exclusão ainda estejam presentes, é possível observar um cenário de
maior reconhecimento e abertura para a atuação feminina no samba.
Cada vez mais, mulheres têm ocupado espaços de destaque como compositoras, intérpretes,
dirigentes de escolas de samba e pesquisadoras, rompendo com os estereótipos que as
limitam e apagam. Essa mudança não acontece de forma espontânea, mas é resultado direto
das resistências e lutas acumuladas ao longo do tempo. O avanço das discussões de gênero e
raça, somado à valorização das narrativas silenciadas, tem contribuído para a construção de
um samba plural e representativo. Assim, celebrar a presença das mulheres no samba hoje é
também afirmar o direito à memória, à autoria e ao protagonismo que sempre lhes pertenceu.
Como disse a pesquisadora Adriana Facina: “O samba é um território de memória e
resistência negra, onde as mulheres são guardiãs de saberes que vão além da música [..] são
saberes do corpo, do cuidado, da oralidade e da vivência coletiva.”

É fundamental reconhecer o protagonismo das mulheres. Por meio das entrevistas realizadas,
pudemos ver que são elas que ocupam espaços como produtoras culturais, recepcionistas,
costureiras e organizadoras de eventos, entre outros papéis importantes. As atividades de
pesquisa que desenvolvemos estão inseridas no contexto de um trabalho coletivo para
compreender as mudanças no cotidiano de mulheres que vivem o samba. Nossa principal
função foi observar as entrevistas das mulheres para a produção do documentário e fazer um
levantamento de análise e organização de fontes que nos permitiram traçar comparativos
entre o passado e o presente dessas trajetórias femininas. Um dos eixos centrais da
investigação foi a análise de entrevistas realizadas em outra disciplina, nas quais mulheres
narram suas experiências, desafios e conquistas ao longo do tempo no ambiente do samba. A
partir desses relatos, buscamos perceber transformações em suas práticas, visibilidade e
papéis sociais. Além das entrevistas, realizamos uma etapa de observação mais ativa,
envolvendo a busca de biografias de sambistas mulheres, com o objetivo de aprofundar a
compreensão de suas trajetórias e contextualizar as informações fornecidas nas entrevistas. A
experiência de conversar diretamente com algumas das mulheres entrevistadas foi
enriquecedora e nos proporcionou uma dimensão viva e um olhar afetivo à pesquisa,
permitindo perceber detalhes que nem sempre se revelam nas fontes escritas ou visuais. Esses
diálogos nos ajudaram a compreender como essas mulheres percebem as mudanças no
ambiente do samba e nas suas próprias vidas, além de perceber como os papéis de gênero
estão presentes na estruturação dessa manifestação cultural.
A pesquisa realizada reafirma a importância de reconhecer e valorizar o protagonismo das
mulheres no universo do samba, rompendo com narrativas que, historicamente, priorizaram
as figuras masculinas. Ao longo do trabalho, foi possível perceber que, embora muitas vezes
invisibilizadas, são as mulheres que constroem, sustentam e mantêm viva essa expressão
cultural, ocupando múltiplos papéis, tanto nos bastidores quanto no protagonismo artístico e
organizacional. As análises das entrevistas, aliadas às pesquisas biográficas, revelaram
trajetórias de resistência, força e transformação, evidenciando como essas mulheres
ressignificam suas presenças no samba ao longo do tempo. A experiência prática,
especialmente os diálogos diretos com algumas das entrevistadas, proporcionou uma
compreensão mais profunda dos desafios e conquistas dessas mulheres, além de reforçar a
importância da escuta, do afeto e do olhar crítico nas pesquisas acadêmicas."

 


Exposição sobre o protagonismo feminino no samba de BH ficou em cartaz no Museu Mineiro 13/06-20/07/2025 crédito: Jameny Sarmiento/divulgação

quarta-feira, 28 de junho de 2023

OBJETOS AFETIVOS COMO FONTE HISTÓRICA E A CULTURA MATERIAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - UFMG

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO - ECI

CURSO DE GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA

DISCIPLINA: METODOLOGIA DA PESQUISA HISTÓRICA EM MUSEUS

PROFESSOR: LUIZ HENRIQUE GARCIA

GRUPO: ADRIANA LAGE BORGES SOUZA, ALÉXIA THIMÓTEO DOMINGUES MATOS, ANSELMO REZENDE GUSMÃO, GABRIELLA MARIA DE ASSIS PEREIRA, NANA FERNANDES ALBUQUERQUE, NARA SANTANA DA SILVA.


“Pela sua própria materialidade, os objetos perpassam contextos culturais diversos e sucessivos, sofrendo reinserções que alteram sua biografia e fazem deles uma rica fonte de informação sobre a dinâmica da sociedade.” (REDE, 1996, p. 276).


INTRODUÇÃO

Partindo da proposta da exposição curricular “Incipit Vita Nova”, de 2023, da 11ª turma de alunos do curso de Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o presente trabalho buscou dedicar-se à temática da cultura material e dos objetos de afeto que estudantes que vêm de outras cidades para estudar na UFMG trazem para sua “nova morada” e, dessa forma, tentar traçar um paralelo entre os objetos de afeto e a memória a que eles remetem, bem como sua importância na construção da História Contemporânea. Nesse sentido, entendemos que os objetos, para além de sua função de uso e sua existência material, possuem também a face simbólica e subjetiva da afetividade, que se estabelece a partir da sua interação com o indivíduo. Assim, objetos do cotidiano, como pulseiras, travesseiros e fotografias, podem carregar um caráter sentimental e até mesmo biográfico (NERY, 2017), ajudando a traçar parte da história do indivíduo de quem o objeto um dia pertenceu.


PROCESSO INVESTIGATIVO

Com base nesta proposição, algumas questões foram trazidas, tais como: O que significa o início de uma nova vida para os estudantes que vêm de outras cidades ao ingressarem na UFMG? Como essa vida nova se inicia? O que essa cultura material diz sobre esses estudantes e a sociedade da qual fazem parte? Como esses objetos afetivos se tornam documentos para a historiografia? A nossa pesquisa procurou compreender essas questões e as relações que os objetos de afeto desempenham na construção da memória afetiva dos estudantes que vieram de outras cidades, estados ou países, para iniciar a vida acadêmica na UFMG, em Belo Horizonte. Sendo assim, iniciamos fichamentos de bibliografias para o embasamento teórico no estudo dos objetos afetivos como fonte de cultura material, sua relação com a memória afetiva individual e coletiva, no cenário contemporâneo. Após o levantamento bibliográfico e das hipóteses, o passo seguinte foi realizado em campo, utilizando de entrevistas semiestruturadas, realizadas com estudantes de diversos cursos da UFMG


PESQUISA DE CAMPO - OBJETO DE AFETO

Primeiramente, buscamos utilizar o formulário desenvolvido no Google Forms relacionado com a proposta temática da exposição curricular de Museologia de 2023, Incipit Vita Nova, enviado virtualmente aos estudantes, onde uma das perguntas era sobre os objetos de afeto que eles trouxeram de sua cidade natal para BH. No entanto, essa etapa não foi produtiva, uma vez que obtivemos poucos elementos materiais para sustentar nossa pesquisa. Após algumas reuniões entre os membros do grupo e nosso orientador, percebeu-se a necessidade de prover um trabalho de pesquisa em campo, sobre as relações de vínculos das pessoas com suas origens através dos objetos afetivos. Decidimos sair em três duplas pelo campus da UFMG, para melhor abrangência do espaço e dinâmica das entrevistas.
Roteiro utilizado nas pesquisas, p.1
Roteiro utilizado nas pesquisas, p.2

Conseguimos obter seis bons depoimentos, com suporte material para continuarmos a pesquisa e elementos para a exposição curricular. Buscamos reconhecer nas respostas dos entrevistados a base teórica que foi pesquisada pelo grupo, como, por exemplo, o indivíduo se utiliza do objeto afetivo “longe de ser uma mera fabricação do sujeito, o objeto faz parte da subjetividade" (RAMOS, 2020, p.9). As características físicas do objeto em questão, figuram em segundo plano e não passam mais a ter a mesma impotência ou significado principal para aquela pessoa. Dentro desse contexto de pesquisa, percebemos que esses novos atributos incorporados ou até mesmo perdidos, relativos ao objeto de afeto, carregam histórias que mostram traços comportamentais, de forma isolada ou no âmbito social, do indivíduo que influencia a cultura material. Assim,

"Os bens que conservamos durante décadas podem ser considerados espelhos de nossas experiências da passagem do tempo [...] lembranças de família e as histórias e possíveis estórias que trazem valores intangíveis para objetos, valores repassados de uma geração à outra.” (MOURÃO; OLIVEIRA, 2018, pg.3).


PARTES DE ALGUMAS ENTREVISTAS

“Meu nome é Maria Eduarda. Faço o 6º período de história na UFMG. Vim de Ilicínea, no sul de Minas, perto da cidade de Varginha. Eu trouxe de efetivo fotos reveladas com a minha afilhada. Aí eu trouxe e preguei na parede do meu quarto.[...] Eu acho que, eu não sei se acontece a mesma coisa com as outras pessoas que se mudaram assim, mas eu acho que essas lembranças elas me fazem lembrar que eu tenho um canto, sabe? Porque eu tenho um lugar que é meu. Que eu tenho uma base minha, uma base que fica um pouquinho longe, mas que eu tenho um lugar, então quando eu volta pra Ilicínea, isso me remete, sabe? É quando eu vejo as fotos, é isso me remete a essa questão de ter um lugar. Eu acho que morar longe é aceitar que você vai perder coisas igual perder momentos, perder é situações. Você vê fotos da sua família fazendo reuniões? Perder o Dia das Mães do lado da mãe. Perder vários momentos assim, formatura da escolinha [...].”
Imagem cedida por Maria Eduarda. Acervo pessoal.

Imagem cedida por Maria Eduarda. Acervo pessoal.




“Meu nome é Davi, sou de Brasília, tenho 20 anos, faço curso de Direito. Tô morando na casa de parentes em BH. Um objeto específico não, […] mas um cobertor pelo fato de minha mãe ter me dado que eu usei a vida inteira, é um cobertor de afeto.”

“Meu nome é Ludyelle. Eu sou de Sete Lagoas, tenho 24 anos. Eu curso Letras e estou no 10º período. A única coisa que eu trouxe, eu acho que é um pouco que me trazia a casa assim foi um cobertor que eu trouxe. Isso aí, quando eu dormia, eu me sentia em casa. Minha mãe me deu o cobertor. Até hoje. Uma relíquia. Ele representava lembrança de casa […]”
 
Ludyelle e sua mãe enroladas no cobertor. Acervo pessoal.

“Meu nome é Gabriel, sou do 9º período do curso de Bacharelado de Violino e vim de Contagem. [...] Eu tenho uma pulseira, que tipo, foi no período que eu estava lá na minha cidade, no período que eu estava ligado à minha igreja, na minha cidade natal. Foi um período em que eu estava muito conectado com minha família, com a comunidade e com a igreja.”

Pulseira do Gabriel. Acervo pessoal.

Maraísa, estudante do 8° período de História, da cidade de Oliveira (MG) - “[...] é o meu computador. É uma coisa muito boba, mas é porque ele foi a primeira coisa [...] que eu comprei com meu salário. É a coisa que eu mais guardo, sabe? Eu tenho uma coisinha afetiva com ele [...] porque, apesar de tudo, ele é o que eu levei [...] depois usei para estudar para o Enem, o que eu levei para Divinópolis e o que eu trouxe pra cá. [...] ele tem um valor sentimental, foi a primeira coisa que eu consegui comprar com o meu salário [...]”.
Computador da Maraísa. Acervo pessoal.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da proposta investigativa, sobre a importância do objeto como fonte documental e, ainda, sobre relação entre o sujeito e o objeto, foi possível conceber, ao longo dessa pesquisa, considerações que confirmam ponto inicial da pesquisa, o de uma atuação do objeto que ultrapassa sua existência meramente material e adquire uma face subjetiva de afetividade, pois “[...] a materialidade é um atributo inerente, mas que, porém, não esgota o objeto culturalmente considerado [...]” (REDE, 1996, p.274).

Durante a realização do trabalho de campo, foi possível aprofundar nossa compreensão de como a pesquisa empírica contribui para reconhecer o objeto afetivo e suas relações com a memória pessoal, coletiva e a cultura material contemporânea. Nesse sentido, foi possível observar que todos os alunos entrevistados demonstraram grande apreço pelos itens, independente de seu valor material, sendo as memórias que estes remeteram o que era mais significativo. Por fim, diante do predomínio da relação do sujeito com o objeto, bem como o significado dessas relações para suas memórias e histórias, é possível reiterar que os objetos, como fonte de informação histórica, são fundamentais para a análise das relações, de características e comportamentos, tanto individuais quanto de grupos.

REFERÊNCIAS

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças dos velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4504474/mod_resource/content/1/BOSI%2C%20E.%20Mem%C3%B3ria%20e%20sociedade.%20Introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf Acesso em 17 de maio de 2023.

FERREIRA, JUNIOR, 2020, Patrimônio cultural no Brasil. Disponível em: https://diversitas.fflch.usp.br/files/patriminio%20cultural%20no%20brasil.pdf . Acesso em 17 de maio de 2023.

FUNARI, Pedro Paulo de Abreu. Memória Histórica e Cultura Material. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 13, nº25/26, p. 13-31, 1993.

MOURÃO, Nadja Maria, OLIVEIRA, Célia Carneiro. Design social: objetos biográficos do cotidiano, memória social. In.:Chapon. Linguagens do Design: comunicação, cultura e arte. Edição v. 1 n. 1 21-11-2018 . pg 02-15.

NERY, Olivia Silva. Objeto, memória e afeto: uma reflexão. Universidade Federal de Pelotas. Doutoranda em História pela PUCRS, bolsista CAPES. Revista Memória em Rede, Pelotas, v.10, n.17, Jul./Dez.2017 – ISSN- 2177-4129. Periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/Memoria. http://dx.doi.org/10.15210/rmr.v8i14.7485.

RAMOS, Francisco Régis Lopes. Em nome do objeto: museu, memória e ensino de história. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2020.

REDE, Marcelo. História a partir das coisas: tendências recentes nos estudos de cultura material. In.: Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.4 p.265-82 jan./dez. 1996. Disponível em: https://www.scielo.br/j/anaismp/a/JNDbcs773QLQfh84cPBRyjH/?lang=pt&format=pdf . Acesso em 27 abr 2023.

XAVIER, Érica S. Ensino e História: O uso das fontes históricas como ferramentas na produção de conhecimento histórico. In: Revista Antíteses, vol.3. pag. 1097-1112. 2010. Disponível em: https://docplayer.com.br/68559304-Ensino-e-historia-o-uso-das-fontes-historicas-como-ferramentas-na-producao-de-conhecimento-historico.html. Acesso em 25 abr 2023.

Museu dos Brinquedos: A história da representação de pessoas pretas a partir de bonecas industrializadas

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

METODOLOGIA DA PESQUISA HISTÓRICA EM MUSEUS

PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia

ALUNAS: Esther Pereira Inácio, Jéssica de Freitas Rabelo Amorim, Maria Beatriz de Moraes Silva, Maria Elisa Pereira Aguiar


A temática

É correto afirmar que, dentro do fazer histórico, o documento é um elemento importante para a compreensão acerca dos ideais, valores e comportamentos dos indivíduos pertencentes a uma sociedade. Neste sentido, é perceptível que os documentos históricos são elementos que “não focalizam os acontecimentos particulares por si sós, mas pelo que revelam sobre a cultura em que ocorreram” (BURKE, 1992). Com isso, o documento é capaz de revelar características sociais e culturais de uma sociedade, além de possibilitar a criação de narrativas que não possuem como foco somente o passado, como também a atualidade.

A partir disso, a temática escolhida utiliza como recorte um documento histórico presente no cotidiano de muitas pessoas, utilizado por diversas gerações: a boneca. Utilizando como recorte as bonecas industrializadas, a pesquisa realizada possui como objetivo analisar as relações entre as bonecas industrializadas e a representação de pessoas pretas por meio dessas bonecas. Desse modo, busca-se analisar, através de um recorte de raça, a relação entre essas bonecas, a representação de pessoas pretas por meio dessas bonecas ao decorrer da história e as narrativas que podem ser criadas através delas. Para isso, a instituição utilizada como base para a produção da pesquisa foi o Museu dos Brinquedos, localizado na Avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte.


A representação de pessoas pretas na indústria dentro da história do Brasil

Cechin e Da Silva (2012) explicam como, num contexto totalmente diferente, a boneca Barbie pode ser utilizada como um exemplo de documento ao passo que é a boneca mais famosa do mundo e possui características caucasianas e ‘descendência’ alemã. Ou seja, através dela, valores de supremacia são repassados para crianças desde a infância não só contribuindo com a manutenção de um status quo dominante mas também perpetuando-o e ensinando, além de incorporar objetos como roupas, acessórios, utensílios, artefatos de cultura para torná-la mais próxima de marcas da realidade e criar um molde de consumo não só em torno das bonecas, mas do que elas usavam e na difusão de tais marcas. Em outras palavras, a pressão midiática e de publicidade difundindo valores sociais conservadores. As imagens de feminilidade que a boneca Barbie demonstra e problematizam as narrativas e discursos reproduzidos através da mesma. Ademais, ela sustenta o argumento de universalidade feminina como se houvesse apenas uma referência e modelo específico. Elas explicam que “[a]rticular educação inclusiva e a diversidade no cotidiano escolar é um desafio, pois pressupõe a compreensão da alteridade. Para isso, é necessário desfazer as tramas da exclusão e abrir espaço para as múltiplas formas de ser sujeito dentro de uma cultura e um tempo histórico”. (CECHIN, DA SILVA, 2012, p. 624).

Os primeiros registros e objetos que se tem sobre a produção de bonecas pretas no Brasil com propósito explícito de representação de pessoas negras são as bonecas Abayomis, recriadas nos anos 80 pela artesã e socioeducadora Lena Martins, sendo uma reprodução das bonecas que eram feitas para crianças escravizadas em meio a diáspora negra no Brasil. Essas bonecas são feitas de pequenas tiras de pano que são amarradas para formar cabeça e membros de um corpo humano. As mães faziam bonecas com pedaços de suas roupas, sendo simples de fabricar e pequenas o suficiente para esconder dos escravagistas. A partir da análise realizadas sobre essas bonecas, é possível afirmar que, ainda que não fossem produtos industrializados, esses itens funcionavam como um instrumento de resistência para as comunidades africanas escravizadas. Dentro dessa perspectiva, as bonecas Abayomi revelam aspectos voltados a um recorte racial a respeito do documento histórico, mostrando que a boneca possui funções que não se limitam ao brincar.

Colocando essas bonecas dentro da perspectiva dos brinquedos industrializados do século XX, é possível citar como exemplo, a partir das imagens do Blog de Ana Caldatto, algumas bonecas dos anos 60 como a “ neguinha” da coleção Sapequinha da fábrica “ Estrela”. Dentro dessa conjuntura, deve ser considerada também a forma como os estereótipos são colocados na boneca, tanto fisicamente quanto em seus adornos e nome, fato que prova que mesmo com a comercialização das bonecas, a promoção e o reforço de clichês que contribuem para o racismo. Além disso, é possível citar as bonecas Susi negras, dos anos 70, com estilo mais fashionista e despojado. A partir dos anos 80, 90, há uma mescla na comercialização de bonecas pretas da Barbie e Susi transitando entre a moda praiana e referências a tendências de estilo da época. Hodiernamente, apesar da baixa produção de bonecas pretas, há uma maior variedade de estilos, como a boneca Nenequinha Clássica, lançada no início dos anos 2000, além do lançamento da Mattel de 2020 da boneca negra candidata a presidência.


Catálogo da Boneca Sapeca. Fonte: Arquivo pessoal de Ana Caldatto

Com o passar dos anos, a temática têm sido disseminada de forma ampla, ganhando espaço em variados contextos. Neste sentido, Oliveira e Amorim (2020) discorrem em seu artigo “Bonecas negras na formação de identidades positivas das crianças na educação infantil”, apresentado no VII CONEDU, em 2020, sobre como a introdução de outros formatos de boneca impactam positivamente no desenvolvimento e construção de um universo diverso e inclusivo. Dessa forma, é necessário reconhecer a potência de bonecas diversificadas e atividades lúdicas utilizando-as são importantes para sentimento de inclusão, acolhimento e representatividade de um grupo marginalizado por gênero, cor de pele e estrutura econômica, já que o Brasil vem de uma tradição escravocrata. Ao verificar a importância da brincadeira, foi percebido por Cechin e Da Silva (2012) como os dispositivos utilizados na brincadeira são importantes para o desenvolvimento de habilidades sociais como incentivo para as crianças refletirem e falarem sobre si mesmas. Dessa forma, a pesquisa aponta para a importância do empoderamento desse grupo social em vulnerabilidade há seculos devido ao passado escravagista do Brasil e fortalecimento de movimentos como o feminismo negro mediante narrativas e a existência de bonecas diversificadas.

Várias bonecas pretas. Fonte: Arquivo pessoal de Ana Caldatto


O Museu dos Brinquedos e a representatividade de pessoas pretas

Aberto em 2006, o Museu dos Brinquedos foi inaugurado com a missão de promover a preservação e a valorização da infância no Brasil. Com uma coleção particular de brinquedos, construída pela mineira Luiza Meyer, conhecida como Vovó Luiza, o museu possui como maior foco o público infantil, sendo um local aberto a muitas famílias. Além da possibilidade de visualização da exposição, o museu conta com ações educativas que propõem a interação com o lúdico e com o ato de brincar, sendo possível interagir com algumas peças do acervo. Dessa forma, o acervo do museu conta com mais de 5.000 brinquedos dentro de seu acervo, estando cerca de 800 expostos para a observação do público. Dentre os itens, há uma coleção de Barbies, idealizada e cedida ao museu pelos colecionadores Marcelo Ferraz e Marta Alencar. Dentro da coleção, é possível ver uma grande variedade de bonecas, nas quais é possível encontrar bonecas de diferentes etnias, raças, vestimentas, tipos de corpo e gêneros, sendo uma coleção que chama a atenção pela diversidade de modelos entre as bonecas.

Fotografias da coleção de Barbies no Museu dos Brinquedos. Fotografia: Maria Elisa Pereira Aguiar.




Considerações finais

A partir das pesquisas feitas em relação à fabricação de bonecas pretas, bem como seus impactos sociais na questão da representatividade direcionada ao público alvo, percebe-se primeiramente as mudanças tanto físicas quanto ao seu estereótipo no passar das décadas. Neste sentido, é possível utilizar como exemplo as imagens do blog de Ana Caldatto “ Coleção Bonecas Negras Black Dolls”, onde há mudanças consideráveis nas bonecas dos anos 60, tendo como exemplo a boneca “ Neguinha”, fabricada e comercializada pela empresa “ Estrela”. Além desse modelo, é possível citar as bonecas Susi com tons de pele mais variados nos anos 70, além de variações de bonecas no estilo “ bebê”, fabricadas nos anos 2000 e das barbies, também fabricadas no início do mesmo ano, com estilo praiano e fashionista. o que corrobora com a citação de Burke, sobre a conexão entre os documentos e acontecimentos históricos. Há também os impactos sociais quando se reflete a temática da representatividade para com as minorias, onde indivíduos negros, ao se enxergar nas bonecas, também se enxergam nos espaços sociais como pessoas. Além de firmarem suas identidades como seres pertencentes a sua cultura, outros também o enxergam como seres humanos, tendo outras percepções acerca das múltiplas raças presentes. Existem consequências positivas em relação ao feminismo negro, que se alinham na questão da visibilidade como uma arma para reconhecimento e inserção de seus corpos de forma humanizada ( sem a hipersexualização, como podemos ver no lançamento da mattel em relação a boca candidata, ) e conquistando espaços de poder. Por fim, o Museu dos Brinquedos também expõe bonecas pretas, não somente com o intuito de preservar objetos da infância, mas também de expor tais bonecas com a intenção de promover a diversidade e a percepção do outro no que tange a questões raciais.

Referências bibliográficas


BURKE, Peter (org.). A história dos acontecimentos e o renascimento da narrativa In: A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992, p.327-348.


PORTAL (Belo Horizonte). Museu: Museu dos Brinquedos. In: Museu dos Brinquedos . [S. l.]. Disponível em: http://portalbelohorizonte.com.br/o-que-fazer/arte-e-cultura/museu-dos-brinquedos. Acesso em: 20 jun. 2023.


PORTAL (Belo Horizonte). Museu: Museu dos Brinquedos. In: Museu dos Brinquedos . [S. l.]. Disponível em: http://portalbelohorizonte.com.br/eventos/encontro/infantil/ferias-no-museu-dos-brinquedos. Acesso em: 20 jun. 2023.


SILVA , Maria Clara. Mulher Negra Hoje. In: SILVA , Maria Clara. Preta Pretinha: A história por trás da primeira loja de bonecas negras no Brasil. [S. l.]: Mundo Negro, 24 jul. 2020. Disponível em: https://mundonegro.inf.br/preta-pretinha-a-historia-por-tras-da-primeira-loja-de-bonecas-negras-do-brasil/#:~:text=Bonecas%20sem%20estere%C3%B3tipo%20que%20representassem,Pretinha%20Bonecas%20surgiu%20em%202000. Acesso em: 20 jun. 2023.


REIS, A. OFICINA DE BONECAS ABAYOMI - RELATO DE EXPERIÊNCIA DE ACADÊMICAS DA ÁREA DE SAÚDE. Revista Corixo de Extensão Universitária, Cuiabá, MT, v. 8, n. VIII, 2022. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/corixo/article/view/12193. Acesso em: 31/05/2023.

OLIVEIRA, Ednalva Rodrigues De. Bonecas negras na formação de identidades positivas das crianças na educação infantil. VII CONEDU - Conedu em Casa... Campina Grande: Realize Editora, 2021. Disponível em: https://mail.editorarealize.com.br/artigo/visualizar/81372. Acesso em: 31/05/2023