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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Museu Histórico Abílio Barreto e a exposição BH Fora dos planos

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Graduação em Museologia
Disciplina : Tipologia de Museu
Professor : Luiz Henrique Assis Garcia
Alunos: Gabriel Franklin de Araújo Porto
Geovana de Souza Guilherme
Geraldo Rodrigues da Silva
Maicon Douglas Carvalho Pereira


Museu Histórico Abílio Barreto e a exposição BH Fora dos planos


O Museu Histórico Abílio Barreto, museu da cidade de Belo Horizonte, possui
exposições de longa, média e curta duração, além de diversas atividades culturais,
que por meio destas busca registrar e difundir a história de Belo Horizonte,
promovendo e valorizando a identidade e a memória da sociedade, fortalecendo
assim os laços de pertencimento dos moradores. Ulpiano Meneses, em seus textos,
aborda a contribuição dos museus na produção e disseminação do conhecimento e
sobre como estes espaços evoluíram para atender às demandas científicas e
educativas de sua época. Ainda, nos diz que são históricos os objetos que são
capazes de permitir a formulação e encaminhamento de problemas históricos
(fenômenos que permitem conhecer a estruturação, funcionamento e mudança de
uma sociedade).




Na exposição de longa duração intitulada “BH fora dos planos”, os objetos se
comunicam através das linhas temáticas: soterramento, resistência, cidade como
obra coletiva e cidade vivida, que juntos evocam memórias de um momento de
grandes mudanças e sacrifícios. A sala propõe um olhar sobre a história do
município a partir de um ponto de vista diferente, onde os objetos expostos são
observados a partir de uma relação “objeto X sociedade”, para além da prometida
nova capital como cidade planejada, que também deixou para trás Ouro Preto e seu
passado colonial. Estão expostos registros do cotidiano da população, ferramentas
de trabalhos, mobiliários, entre outros artefatos que faziam parte da vida dos
povoados locais. Essa relação entre a identidade e a memória permite às pessoas, a
partir do conjunto de referências físicas e simbólicas, a se reconhecerem como parte
de um mesmo mundo.


A exposição propõe uma reflexão sobre as formas de vida e elementos da
natureza que foram “apagados”, como o Arraial do Curral Del Rei, os riachos e
córregos que foram soterrados, os instrumentos de trabalhos como símbolo e marca
daqueles que construíram a cidade; ou seja a cidade como obra coletiva. Os objetos
que antes estavam enquadrados em uma classificação padrão e impessoal agora
contém informações que propõem uma nova forma de olhar o mundo e suas
representações, sem perder sua biografia, mas sendo também ressignificados. Os
objetos do museu guardam a história da cidade, referências simbólicas, referências
emocionais e referências físicas. O museu é um espaço de fruição para todas as
gerações, um lugar de convivência e convergência cultural .

Myrian Sepúlveda em seu texto “A escrita do passado em museus históricos” analisa
como as narrativas museológicas contribuem para a escrita da história e destaca o
papel dos mediadores na construção deste conhecimento. Portanto, coube aos
museólogos do espaço a função de estudar os sistemas culturais em que os
sistemas de informações estão inseridos e comunicar seus processos para o
público.

REFERÊNCIAS
Belo Horizonte Fora dos Planos MHAB | Portal Oficial de Belo Horizonte. Disponível
em:
<https://portalbelohorizonte.com.br/visitas-virtuais/exposicoes/belo-horizonte-fora-do
s-planos-mhab>. Acesso em: 3 fev. 2025.
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. Para que serve um museu histórico?
Como Explorar um Museu Histórico. Tradução. São Paulo: Museu Paulista-Usp,
1992. Acesso em:

https://www.sisemsp.org.br/wp-content/uploads/2023/03/1-como-explorar-um-museu-
historico.pdf

MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da
História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu
Paulista. Nova Série, São Paulo, v.2, p. 9-42, jan./dez. 1994.
PBH inaugura exposição “Belo Horizonte Fora dos Planos” no Museu Abílio Barreto.
Disponível em:
<https://prefeitura.pbh.gov.br/noticias/pbh-inaugura-exposicao-belo-horizonte-fora-do
s-planos-no-museu-abilio-barreto>. Acesso em: 3 fev. 2025.
SANTOS, Myrian Sepulveda dos. A escrita do passado em museus históricos.Rio
de Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

MUSEUS HISTÓRICOS: MODERNIDADE E NAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ATIVIDADE ACADÊMICA CURRICULAR – Disciplina: Tipologia de Museus
GRUPO: Breno Alves, Henrique dos Santos, João Lucas Salgado Machado, Isabela Taylor, Ordilei, Saulo Marques da Silva. 

MUSEUS HISTÓRICOS: MODERNIDADE E NAÇÃO


Os Museus Históricos começam na gênese do Estado Nação moderno, principalmente em uma França revolucionária que buscava ressignificar as obras de arte da nobreza e também mostrar ao público o que era chamado de "verdadeira história" contada a partir de objetos em um museu memória. Com amplo objetivo em preservar o que eram "real e antigo” amostras do passado.
O Museu histórico “Seria aquele que opera com objetos históricos. Se, contudo, é a dimensão do conhecimento que sobe à tona, é preciso retificar e dizer, que o museu histórico deve operar com problemas históricos, isto é, problemas que dizem respeito à dinâmica na vida das sociedades.” (Meneses, 1994, p.20).
Museus Históricos no Brasil: ​
No Brasil, os Museus Históricos nascem a partir de forte cunho militarista. Numa República jovem, que foi instituída com ideais positivistas, com uma política oligárquica muito forte e grande participação dos militares no governo. Isso se reflete nos museus. Podemos destacar os principais museus históricos brasileiros: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro 1838; Museu Paulista 1894, Museu Histórico Nacional 1922 e Museu Imperial 1940. Vejamos algumas dessas instituições abaixo:
Museu Paulista:
A história do museu paulista e de sua estrutura organizacional muda de acordo com a gestão de cada diretor. Nos primeiros anos de funcionamento, o museu Paulista tinha um perfil marcado por ser um ambiente de pesquisa, estudo e exposição das ciências naturais. Em sua parte histórica, o museu funcionava como uma espécie de memorial histórico com a sua expografia não muito organizada. Taunay relata que a parte histórica se parecia com um gabinete de curiosidades e não com uma exposição histórica. O primeiro diretor do museu Paulista foi Hermann Von Ihering, que era um zoólogo e permaneceu na instituição por 23 anos. Taunay chega à direção do museu Paulista no ano de 1917, quando o mesmo começa uma série de mudanças no espaço expográfico e relata a sua insatisfação com o antigo diretor do Museu Paulista. 
De um lado temos Hermann Von Ihering, que se preocupava com as coleções de ciências naturais e esquecia a importância dos objetos históricos que ali compunha. Taunay age de forma diferente e procura fazer um levantamento em outras instituições museológicas de objetos que representassem o sentimento nacionalista e paulista, trazendo assim uma nova organização do espaço que mostre tanto a coleção de ciências naturais, quanto à coleção histórica. 
Museu Histórico Nacional:
 O Museu Histórico Nacional nasceu do sonho do jornalista e político cearense Gustavo Barroso, que lutou desde 1911 para a criação da instituição e depois, como seu primeiro diretor, criou uma história baseada em objetos e heróis, sem grandes preocupações com a linha do tempo. O museu nasceu em meio à Exposição Internacional, no Rio de Janeiro, em 1922, em uma época de visões tecnológicas. O museu ocupa hoje um quarteirão no centro do Rio de Janeiro, e é resultado de obras e reformas que foram se somando ao longo de séculos. A proposta do fundador, Gustavo Barroso, era de o museu ser militar, resgatando a vida de imperadores como heróis, copiando museus europeus. O museu se modernizou depois da saída de Barroso, que ficou 40 anos à frente da instituição. 
Museu Imperial:
O Museu Imperial foi criado com a ideia de preservar a memória de Dom Pedro II na monarquia. Um dos motivos mais fortes que mantém o museu popular é o vínculo que tem entre o edifício em si e o museu. Com um dos objetivos de visar o forte conceito de nação que era dirigida por um governo forte e centralizador, o objetivo central era evocar o monarca. 
Os responsáveis pela instituição não aspiravam à reconstrução fiel do que era o palácio, nunca teve a intenção da reconstrução histórica, a procura era de eternizar valores e manter o sentimento cativo do passado. 
O acervo é constituído por peças que são ligadas à monarquia brasileira, objetos pessoais, documentos, mobiliário e obras de arte, a decoração interna ainda é mantida, pisos em pedras nobres, candelabros, mobília e estuques. 
O Dilema dos Museus:
Ao pesquisar sobre a trajetória e as mudanças dos museus de história, sobretudo no Brasil, a questão que logo surge é talvez a mais básica indagação a respeito do assunto: para que serve um museu de história?
E como o já citado por Meneses, 1994 respondeu: “O museu de história é aquele que trabalha com problemas históricos”. Mas o que seria um problema histórico?
A tentativa de responder essa pergunta nos leva aos métodos de apresentação da história pelos museus que se encarregam dessa tarefa. Durante nossa pesquisa, vimos que os museus de história trabalham com dois tipos básicos de métodos expográficos: O primeiro é o que alguns autores chamam de Museu-memória: é o museu mais focado no objeto, que tende a exaltar o passado. “O museu-memória está assim muito próximo dos antiquários, no sentido de requererem uma autenticidade do objeto como parte do passado, como uma lembrança de uma época e não como causa ou destino de um determinado evento histórico” (STEWART, Susan 1984).
Segundo Santos, 2000. O Museu Histórico Nacional, entre a sua criação em 1922 até a década de 1980 é um exemplo de "museu-memória" e a partir da década de 1980 ele muda sua linguagem expográfica e se torna um "museu-narrativa" - que usa uma concepção de tempo linear e progressiva, tirando o foco do objeto. 
Santos, 2000. Define essa categoria de museu como: (...) “aquele que tem a história racional moderna, e não mais a história que se apoia na memória, como carro chefe da exposição. A narrativa (...) subordina o outro elemento da linguagem museológica que é o objeto. O acervo não é mais quem dita à exposição; ele aparece como auxiliar a narrativa.” (p.69).
Ambos modelos de museus se desembocam nos tempos atuais em um "museu-espetáculo" - um museu atemporal, que evocam que as lembranças do passado tenham espaço para criarem novos momentos de criatividade e que os atos do passado influam no presente.


Referências Bibliográficas:
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista. Nova Série, São Paulo, v.2, p. 9-42, jan. /dez. 1994
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.
SANTOS, Myriam S. Os museus Brasileiros e a constituição do imaginário nacional. Sociedade e Estado [online]. 2000, v. 15, n. 2, pp. 271-302.
STEWART, Susan. Objects of desire. In:____________. On Longing: Narratives of the Miniature, the Gigantic, the Souvenir, the Collection. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1984.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

Museus Históricos, Modernidade e Nação

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ECI – ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
MUSEOLOGIA
DISCIPLINA: TIPOLOGIA DE MUSEUS
GRUPO:  BRUNA CAROLINE, JOSIANE LIMA, MARCELO HENRIQUE, MARCO DIAS, MAXWELL PÊGO E MAYRA MARQUES


Quando apresentamos a ideia de um Museu Histórico, a primeira coisa que nos vem à mente é um ‘local de memória’. Não sem um motivo, pois os museus nacionais brasileiros devem se portar como locais que guardam a história da nação e traçam a narrativa de uma sociedade. Ulpiano (1994, p.34) considera que “um museu histórico é aquele capaz de coletar, de preservar, de estudar e comunicar os documentos históricos ou objetos históricos presentes dentro desses museus e, que são capazes de inferir sobre um passado e sobre as dinâmicas e movimentos das sociedades.” Posto isso, tanto o Museu Histórico Nacional, quanto o Museu Paulista, devem possuir acervos e narrativas capazes de exibir momentos relevantes para a história nacional, ao mesmo tempo que possibilitem a reflexão acerca dos temas abordados. 

Analisando o contexto de criação das duas instituições, é possível traçar, desde a concepção inicial dos museus, a finalidade que receberiam. Inclusive nos prédios escolhidos para receberem as coleções. Enquanto o prédio utilizado pelo MHN já havia sido utilizado militarmente (à serviço da nação), o Palácio de Bezzi (que abriga as coleções do MP) fora construído como um monumento em homenagem à independência. Ademais, desde a inauguração das instituições, foi declarado por meio de decretos e leis que a finalidade dos museus seria a de documentar, classificar e expor objetos de relevância histórica e nacional, bem como a de celebrar o centenário da independência, que se aproximava. E foi isso que os diretores Taunay e Barroso buscaram realizar. Através da escolha de uma narrativa, os líderes das instituições construíram acervos que pudessem expor não somente a visão dos líderes sobre os acontecimentos na história, mas que refletissem uma versão dos fatos aceita por parte da população e, assim, criar um imaginário coletivo.

De certa forma, os dois museus buscam cumprir esta função. Mas em que ponto eles se desviam?

À época em que foram criados, num momento em que os museus buscavam firmar as tradições conservadoras e apresentar uma visão elitista dos fatos, era inteligível imaginar que a narrativa apresentada só retratasse um lado da história pátria. Entretanto, atualmente é incabível conceber que os Museus não apresentem outras versões sobre os fatos narrados, como dos povos originários ou dos negros escravizados. Afinal, os vultos históricos tão exaltados ao longo dos anos realmente eram heróis nacionais? Se apagarmos as narrativas daqueles que sofreram todos os processos de construção do país, quão autêntica será a narrativa apresentada nos museus históricos?

Enquanto a preleção destes povos estiver restrita às instituições etnográficas e fora das instituições nacionais de grande porte, os museus nacionais e históricos não conseguirão fruir de seu objetivo primário como museus nacionais: preservar e transmitir a história da sociedade.


Bibliografia:

BREFE, Ana Cláudia Fonseca. História Nacional em São Paulo o Museu Paulista em 1922. Na. Mus. Paul., São Paulo, v. 10-11, n. 1, 2003, p. 79-103

MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista. Nova Série, São Paulo, v. 2, p. 9-42, jan./dez. 1994

Museus e indígenas: saberes e ética, novos paradigmas em debate/ Marília Xavier Cury, organizadora. -- São Paulo: Secretaria da Cultura: ACAM Portinari: Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, 2016. 169 p.

SANTOS, Myrian Sepulveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2006, p. 16-54.

SANTOS, Myrian Sepulveda dos. Os museus Brasileiros e a constituição do imaginário nacional. Rio de Janeiro, 2010.


Imagem 1: Estátua de Raposo Tavares no Museu Paulista. Raposo Tavares foi um bandeirante paulista, reconhecido pelo trabalho de colonização no interior do Brasil. Também foi responsável pela morte de milhares de indígenas. Ainda assim, sua imagem é exaltada como patrono brasileiro.



Imagem 2: Juntamente a Raposo Tavares, Fernão Dias ficou conhecido como um dos mais famosos bandeirantes paulistas. Com o apelido de “Caçador de Esmeraldas”, Fernão Dias desbravou o litoral nordestino em busca de mão de obra indígena para arrebata-los como escravos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Museu Regional de São João del Rei: Desafios Metodológicos do Registro da História Institucional, por meio das vozes dos funcionários

ECI - UFMG

Curso: Museologia

Disciplina: Metodologia da pesquisa histórica em museus

Prof.: Luiz H. Garcia

Aluna: Rosiane da Silva Nunes


Museu Regional de São João del Rei: Desafios Metodológicos do Registro da História Institucional, por meio das vozes dos funcionários.

O MRSJDR é um museu federal considerado tradicional, fundado em 1958 e que passou por diversos diretores, funcionários e redirecionamentos políticos à medida que os sucessivos governos federais transitavam pelo poder. Resultado de uma política cultural, atualmente pertence ao IBRAM, ele traz intrínseco à sua história, inúmeras consequências das instabilidades governamentais. Compreender esses processos foi abundante manancial que debruçamos em pesquisas e sistematizamos.

Trazemos aqui algumas referências sobre a tese de doutoramento ‘Vozes do Museu Regional de São João del Rei’, onde intencionamos apresentar essa experiencia por estar em consonância com a disciplina ‘Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus’, porque traz exemplo prático dessa categoria de investigação, onde trabalhamos com fontes primárias e secundárias.

(Fonte: arquivo pessoal, estagiário Guilherme, pesquisando em fonte primária)

No entanto, foi na fonte secundária, utilizando o método da história oral, que focamos esse trabalho. Destacamos que desde sua origem ela traz a voz dos excluídos. A história oral é a materialização das narrativas orais para o documento escrito, não é novidade esse processo. No entanto, a moderna história oral surge em 1948 , na Universidade de Colúmbia, em Nova York, e sua inovação é a utilização de equipamentos para capturar e  

salvaguardar os relatos orais. Esta categoria privilegia “vozes” esquecidas

(Fonte: arquivo pessoal, participantes da entrevista, fonte secundária)

pela história oficial  e registra a história do tempo presente. Acreditamos que um museu mais democrático com perspectivas de participação diversificada do seu público interno pode fazer uso da história oral, ela pode ser  uma forma de estreitar as comunicações e trazer as vozes carregadas de experiências de      seus funcionários. Ouvir suas reivindicações, angústias, descortinar opiniões por meio de diversos olhares pode contribuir para ampliar a compreensão da cultura institucional de um museu.

Neste sentido trabalhamos com a moderna história oral e utilização da transcriação conforme preconiza o NEHO.  Ressaltamos que foi um exercício de escuta do outro, ação-reflexão-ação coletiva e constante autoanálise. As vozes dos funcionários deram o tom, caminhos e encaminhamentos para um Museu com responsabilidade social. 

As narrações foram os principais elos de ligações entre passado, presente e vontade de futuro. Diversos olhares foram desvelados e a multiplicidade de experiências possibilitou ampliar a consciência acerca da organização. Ouvindo e agindo conjuntamente o museu transformou-se numa grande ação educativa. Os funcionários passaram a ser agentes do desenvolvimento da instituição e contribuíram para a interação com a comunidade. As experiências transpassaram a todos os envolvidos nesses processos, por meio da escuta do outro e uso da ‘História Oral’ trouxemos a perspectiva da Sociomuseologia para um museu federal e tradicional.

No entanto, na defesa do doutoramento, passamos por um problema metodológico, que somente foi resolvido após. No vídeo a seguir, vou narrar oralmente como forma de autoetnografia (Adams, Ellis, Jones & Bochner 2011, 2015), e autoanalise (Boudieu, 2005).

Vídeo

https://wetransfer.com/downloads/9ee6c6ef64fbb2464f929d57c0251c2e20210822222159/eba2d8

Espero que essa experiencia venha a contribuir e motivar para que a história seja registrada pelas vozes de quem realmente é protagonista da ação.


REFERÊNCIAS


Adams, T; Ell is, C.; Jones S. (2015) Autoethnography: Understanding Qualitative Research Series. New York: Oxford University Press.


Bourdieu, P. (2005). Esboço de auto-análise. São Paulo: Companhia das Letras.

Desvallés, A.; Mairesse, F. (orgs.) (2013) Conceitos-chave de Museologia. São Paulo: ICOM- BR; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Secretaria de Estado de Cultura.

Larossa, J. (2002). Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Barcelona: Universidade de Barcelona.

Meihy, J.C. (2005) Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola.

Meihy, J.C.; Holanda, F. (2007). História Oral: como fazer como pensar. São Paulo: Contexto.


Nunes, R. (2021). As vozes do Museu Regional de São João del Rei. Lisboa: ULHT.

Link: https://ufmgbr-my.sharepoint.com/:b:/g/personal/rsnunes7_ufmg_br/EUFvsVwmN0dJt5-bbSMfvxUB_bafk4GCXOsQIxPkJRTq-g?e=U9USgP

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Museus históricos, modernidade e nação - Tipologia de museus 2020

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
CURSO: Museologia
DISCIPLINA: ECI 097 - Tipologia de Museus
PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia

Membros: Ingrid Ferreira das Dores Andrade / Isabelle Iennaco / Lara do Prado Cunha / Lucas Henrique de Souza / Mariana Oliveira Ferreira / Marina Ramos Isaias Vale / Raphaela Luiza Damato Lima


Com as várias transformações de ordem política e econômica do século XIX, foi possível a formação do museu público, que se direcionou para a afirmação de uma identidade nacional. Boa parte das coleções dos monarcas se converteu em museus nacionais, e muitos objetos advindos das colônias, ganharam seu lugar em museus de história natural, onde eram vistos como representação de sociedades em seus diferentes estágios civilizatórios. No Brasil, D. Pedro II procurou constituir uma ponte entre suas relações e sua representação ao expor os presentes que recebia durante viagens ao exterior ou que recebia de pessoas que visitavam seu museu: o Museu do Imperador (*), reproduzindo a sua imagem. Para o imperador, era preciso uma memória nacional unificada e harmônica para apresentar aos seus visitantes (escolhidos pelo próprio). Durante a fundação dos museus brasileiros já havia uma preocupação de quais memórias (quais histórias) estariam na instituição.


O que pode ser considerado nacional? Todas as identidades de uma nação estão ali representadas? No caso do Museu Nacional, fundado em 1818 no Rio de Janeiro, é visto um exemplo de instituição em que foi feita uma “nacionalização dos outros”, a narrativa do museu ia para além da história do povo brasileiro e incorporava elementos de outros países. Podemos dizer que o Museu Nacional(**) se apresentava como um “microcosmo” da nação, pois apresentava de forma muito rasa a riqueza do Brasil, resumindo sua diversidade natural e cultural às manifestações de outros continentes que não dialogam diretamente com a nossa nacionalidade.

No Museu Paulista, Affonso Taunay mudou o perfil do Museu de Ciências Naturais para de História, dando em pouco tempo de sua gestão um caráter de um lugar de memória nacional. Essa reformulação feita por Taunay fez da instituição mais que um lugar de exposição, e exemplifica a criação de um suporte que beneficia a comunicação dos objetivos de uma exposição ao público, de uma forma a atingir até os visitantes que apresentam menos imersão no assunto, onde certamente entra o papel da iconografia. 


 

Um ponto a ser notado nos museus históricos é a colocação de que estes são compostos unicamente por objetos históricos, porém um museu dessa tipologia também é responsável por comunicar um conhecimento histórico através do seu acervo. No caso do Museu Histórico Nacional, fundado em 1922, é possível identificar uma preocupação com a identidade nacional, para que fosse privilegiada a memória monárquica em detrimento da memória republicana, por parte de Gustavo Barroso, fundador e primeiro diretor do museu. Assim, o Museu Histórico Nacional representou uma tentativa de consagrar a construção de uma visão da história brasileira.

Como pode ser observado, os museus brasileiros constituíram-se na tentativa de estabelecer uma identidade nacional unificada, sem qualquer problematização e com apagamentos da memória de grupos minoritários. O Museu Histórico deve-se configurar não como instituição voltada para objetos históricos, e sim para propor problemas históricos. Os problemas históricos são as propostas de articulação de fenômenos que tornam possível o conhecimento de estruturas, funcionamentos e mudanças de uma sociedade, enquanto os objetos históricos seriam os objetos capazes de permitir a discussão de problemas históricos.

Bibliografia

BREFE, Ana Cláudia Fonseca. História nacional em São Paulo: o Museu Paulista em 1922. An. mus. paul., São Paulo, v. 10-11, n. 1, 2003, p. 79-103.

BREFE, Ana Cláudia Fonseca. O Museu Paulista: Affonso de Taunay e a memória nacional 1917-1945. São Paulo; Ed. da UNESP, 2005, 333 p.

COSTA, JF  - O “Culto da Saudade” nas Comemorações do Centenário da Independência do Brasil: A Criação do Museu Histórico Nacional, 1922. Em Tempo de Histórias Brasília: UnB, 2011, p.49-64.

L`ESTOILE, Benoît de. Museus nacionais como paradigma. In: NACIONAL (BRASIL). Museus nacionais e os desafios do contemporâneo. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2011, p. 32-51.

MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista. Nova Série, São Paulo, v.2, p. 9-42, jan./dez. 1994.

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e DANTAS, Regina. O Museu do Imperador: quando colecionar é representar a nação. Rev. Inst. Estud. Bras. 2008, n.46, pp. 123-164.


Notas do editor:

(*) O “museu do Imperador” não era propriamente um museu, consistindo essencialmente nas coleções privadas de D. Pedro II, segundo Schwarcz e Dantas (2008). Também não confundir com o Museu Imperial, sediado em Petrópolis, RJ.

(**) Trata-se de um museu enciclopédico, aos moldes do Museu Britânico, posto em um contexto periférico, mas com a peculiaridade de ter instalado a partir da transferência da Coroa Portuguesa para o Brasil e adoção do Rio de Janeiro como capital do Império.


sábado, 13 de abril de 2019

OS MUSEUS HISTÓRICOS NO BRASIL E A IDENTIDADE NACIONAL - Tipologia de museus 2018

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação
Graduação em Museologia - Disciplina Tipologia de Museus
Professor: Luiz Garcia
Artigo para o blog Metamuseus
Alunos: Danieli Di Mingo, Débora Calixto, Gui Rodrigues, Laís Flor e Walmira Costa.

OS MUSEUS HISTÓRICOS NO BRASIL E A IDENTIDADE NACIONAL

Museus de História Natural, de Artes, de Ciências. De Museus Comunitários à
Museus Virtuais, atualmente o Brasil possui 3801 museus de acordo com a plataforma
MuseusBr, desenvolvida pelo Ministério da Cultura e IBRAM, sendo 832 destes, museus
históricos (22%). Os museus históricos, de norte a sul, apresentam ao público acervos
variados que traduzem a rica e múltipla cultura e história brasileira. Mas nem sempre foi
assim, desde de sua institucionalização no século XIX, os museus passaram por diversas
transformações alterando com o tempo a forma de representar a nossa história e
identidade.

É impossível dissociar a criação dos museus dos ideais modernos, e conceituar
modernidade não é um trabalho fácil, uma vez que promove e alimenta uma multiplicidade
de discussões. Porém, é sabido que o século XIX foi o período em que o mundo pode
enxergar a modernidade mais nitidamente. Cria-se a partir do século XIX um novo modo
de experiência vital - experiência do espaço e do tempo, de si mesmo e dos outros, das
possibilidades e perigo da vida - que é hoje em dia compartilhada por homens e mulheres
em toda parte do mundo. Marshall Berman apresenta a modernidade como uma multidão
de processos sociais e enumera entre eles as descobertas científicas, as revoluções da
indústria, as transformações demográficas, as formas de expansão urbana, o formação
dos Estados Nacionais, os movimentos de massa - todos impulsionados, em última
instância pelo mercado mundial capitalista. E dentro desse mix de processos em
transformação surgem os museus modernos.

O museu, como instituição administrada pelo Estado, surgiu no início do século
XIX, ganhado força e se consolidando em meados do mesmo século. O espaço surgiu
como equipamento de cultura para instrução e edificação de um povo, ainda não
consolidado nos recentes Estados-Nações. No entender de Stuart Hall este
Estado-nação, que está a se formar a partir do fim do século XVIII, não é simplesmente
uma entidade política mas é igualmente uma concepção simbólica - um sistema de
representação que produziu uma “ideia” de nação como “comunidade imaginada”
(re)produzindo significados em relação aos quais os seus membros se podiam identificar
através dos quais (através da identificação imaginada) constituía seus cidadãos como
“sujeitos” (em ambos os sentidos de sujeição utilizados por Foucault: sujeitos de e sujeitos
à nação. Os museus se tornam o principal polo de representação da ideia de nação,
reproduzindo e produzindo significados amalgamadores de uma população diversificada,
educando para a ideia de nação dentro dos princípios já ditados pela Modernidade.
Muitos autores, como Alice Semedo, enxergam os museus modernos como
disciplinadores e doutrinadores, uma que vez, apesar de apresentarem ideias liberais e
democráticos, ainda o eram conservadores e pouco progressistas.

No Brasil vivemos essa experiência ainda durante o Império com D. Pedro II, o
monarca, junto ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - IHGB desenvolveu um
projeto de estruturação cultural brasileira a partir dos anos 1850, no qual, Influenciados
pelo romantismo e nacionalismo, características marcantes da modernidade, não
mediram esforços na construção e manutenção da Identidade Brasileira, sendo esta
difundida por meio da literatura, pintura e trabalhos científicos. De meados do séculos XIX
aos dias atuais, muitas foram e são, as formas de representação do “ser brasileiro” dentro
dos museus. Em cada período histórico a modernidade nos apresentou ideias e
ferramentas que nos fez mudar a forma de ver o mundo e encarar a nossa história. Se
tratando da criação dos museus históricos brasileiros a modernidade delineou
concepções diversificadas no decorrer dos anos, dando a cada período da história dos
museus características próprias diretamente vinculadas à conjuntura e exigências da
época.

É o caso do Museu Histórico Nacional, fundado em 1922 como parte das
comemorações do centenário da Independência do Brasil, foi criado em um tempo em
que discursos sobre a modernidade e progresso eram suscitados no país, momento em
que o governo arquitetava a imagem da nação brasileira baseada nos feitos oficiais,
militarista e de grandes heróis, representando assim uma parte da história nacional. Esta
concepção se manteve forte durante os seus primeiros 40 anos de vida, sendo substituída
por uma expografia que apresenta evolução linear da história e acompanhando uma
concepção moderna da historiografia, priorizando a razão e aspectos para além do
caráter político, utilizando o patrimônio musealizado como documento de representação.
Ao longo do século XX muitas foram as narrativas escolhidas pelos museus
históricos para contar a “nossa história”, porém, ainda hoje, percebemos que as
representações se mantém branca, conservadora e oficial. É necessário que os museus
passem a dar voz à outras leituras da história brasileira, incorporando agentes antes
esquecidos, narrativas distintas e culturas antes desprezadas.

Atualmente o debate acerca dos museus históricos já não gira em torno de qual o
melhor caminho a ser seguido na forma de apresentação do patrimônio musealizado, mas
sobre como, nas palavras de Myryan Sepúlveda Santos, mas sim em reconhecer que a
“ciência histórica” está na base dos museus, determinando as melhores formas de
estudar objetos que ilustrem a evolução econômica, social, política e cultural segundo as
leis da história. P recisamos encarar os museus como espaços que propiciam a ampliação
do campo de possibilidades para construção identitária e a percepção crítica da realidade.
E a realidade hoje é a compreensão da multiplicidade étnica e cultural brasileira, que deve
estar representada dentro dos Museus Históricos, como parte integrante e formadora da
identidade nacional.

REFERÊNCIAS

BREFE, Ana Cláudia Fonseca. História nacional em São Paulo: o Museu Paulista em
1922. An. mus. paul., São Paulo, v. 10-11, n. 1, 2003, p. 79-103.

MUSEUSBR. Disponível em:<http://museus.cultura.gov.br/>. Acesso em: 20/11/2018

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de
Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e DANTAS, Regina. O Museu do Imperador: quando
colecionar é representar a nação. Rev. Inst. Estud. Bras. 2008, n.46 , pp. 123-164.

SEMEDO, Alice L., Da invenção do museu público: tecnologias e contextos. Revista da
Faculdade de Letras, Ciências e Técnicas do Património , Universidade do Porto, vol.
III, Porto, 2004, pp. 129-136.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A volta ao mundo em 80 museus: Museu History Colorado Center

Em mais uma edição desta série, agora direto dos EUA onde o colega Pablo Lima, professor da FAE-UFMG, faz seus estudos de pós-doutorado. Na primeira década do corrente século estivemos juntos no Museu Histórico Abílio Barreto, tendo inclusive compartilhado uma empreitada da qual particularmente me orgulho, que foi a redação do livro Pampulha Múltipla. Fica aqui o meu agradecimento ao Pablo pela gentileza em ceder o texto e as imagens para o blog Metamuseu.

***


Em uma rápida passagem por Denver, capital e maior cidade do estado do Colorado, fiz uma visita a um museu histórico situado no centro cívico. A instituição pública chama-se History Colorado Center e foi inaugurada em 2012. O museu conta com exposições fixas e itinerantes, eventos públicos e programas educacionais. Abriga também o Office of Archaeology and Historic Preservation (Escritório de Preservação Arqueológica e Histórica), o State Historical Fund (Fundo Histórico Estadual), e a Biblioteca e Centro de Pesquisa Stephen H. Hart.
            O que primeiro chama à atenção é a localização do museu, bem próximo ao Capitólio (sede da assembléia legislativa e senado estadual do Colorado), sede do governo local, bem como a edificação grandiosa que se destaca na paisagem urbana. Um prédio modernista, com 5 andares, que ocupa um quarteirão inteiro, construído exclusivamente para ser museu. Faixas enormes ao lado de fora estampam a palavra “HISTORY”, o que dá a sensação de valorização e quase elogio à história por parte do Estado. 

            O Colorado tem o apelido de estado centenário, pois sua incorporação aos EUA se deu em 1876, cem anos após a declaração de independência. Mas a ocupação humana é bem anterior, com vestígios indígenas remontando a 12 milênios atrás. Após a chegada dos europeus, o território foi ocupado por falantes de espanhol que batizaram os povos indígenas de Pueblo. Entre eles há povos Ute, Cheyenne, Navajo, entre outros. No início do século XIX,  o território tornou-se parte do México independente até ser tomado pelos EUA em sua expansão ao oeste e vitória na Guerra do México. Com a descoberta de ouro em 1859, a região foi rapidamente ocupada por americanos oriundos de vários estados. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), os exércitos da União conseguiram impedir o avanço de tropas separatistas pelo território. E em 1876 foi incorporado à união. Assim, o Colorado nasceu como um estado de fronteira, marcado pela mineração e com a proibição de trabalho escravo. Uma história complexa que o museu busca representar em suas diversas exposições.
            A estrutura física interna é impressionante: amplos espaços de exposição, muitos recursos tecnológicos, com várias possibilidades de interação do público com diversos expositores. Como sempre se vê em museus, grupos de alunos da educação básica, guiados por funcionários do museu, constituíram a maior parte do público no dia da visita, passando rapidamente e com muito barulho pelas exposições. As crianças pareciam ter sua atenção toda voltada para os expositores lúdicos e interativos, apropriados como brinquedos: charretes, automóveis antigos, uma vila de mineração reconstituída, um mapa enorme do Estado (cuja forma é um simples retângulo), pintado sobre o chão do salão central do prédio, visível de seus diversos andares.

            Destaco 4 exposições. Uma delas apresenta a história do Colorado em três momentos: a presença indígena, a ocupação de fazendeiros americanos e a realidade atual. A ênfase da narrativa em todos esses momentos é sobre a questão ambiental. Primeiro, aborda-se o conceito de water footprint (pegada hídrica), a partir de uma exposição que apresenta de modo comparativo o consumo diário de água de um índio pueblo com o consumo do americano contemporâneo. Obviamente, a pegada hídrica atual é inúmeras vezes maior que a indígena. Porém, o visitante fica com a sensação due que o estilo de vida dos Pueblo era tão ecologicamente correto, consumindo tão pouca água, que é simplesmente impossível para um ser humano contemporâneo que escova os dentes, lava as mãos várias vezes ao dia, utiliza instalação sanitária com descarga, etc. Não se apresenta um meio-termo, mas uma oposição radical entre as sociedades. No caso da ocupação de fazendeiros no início do século XX, a crítica recai sobre o uso intensivo de maquinário agrícola, que em um primeiro momento resultou em uma alta produtividade, mas que em poucos anos prejudicou tanto o solo árido do Colorado que provocou um desastre ambiental: o solo tornou-se arenoso que, somado ao vento do meio-oeste, levantou ondas de tempestades de areia enormes que cobriram cidades inteiras na década de 1930, período da grande depressão. Os visitantes são convidados a entrarem eu uma casa reconstituída e participarem da simulação de uma delas tempestades que transformavam o dia em noite. O resultado foi o início de políticas de preservação do meio ambiente. E sobre a realidade atual, a narrativa aborda o problema do aquecimento global e o derretimento das geleiras das montanhas rochosas, principal fonte de água do Colorado e do sudoeste americano.
            A outra exposição apresenta diversos movimentos sociais do Colorado, em especial a questão dos chicanos. O acordo que pôs fim à guerra com o México previa que as populações mexicanas que permanecessem no Colorado teriam direito a manter suas propriedades rurais. No entanto, isso não foi cumprido, e os chicanos tiveram suas terras ocupadas por agricultores anglo-falantes, tornando-se sem-terras em sua própria terra. A exposição mostra que essa população ainda luta pelos seus direitos.

            A terceira exposição trata de um assunto tenso. Durante a segunda guerra mundial, após o ataque. Japonês ao Havaí, os governo dos EUA construiu um Campo de Concentração para a população japonesa que vivia no país. O museu apresenta uma reconstituição de um dos cômodos do campo, construído em pleno deserto, onde a população civil de japoneses e seus descendentes nascidos nos EUA foram reunidos até o final dia guerra.


            Por fim, chamou minha atenção uma exposição intitulada: Colorado em 100 objetos. Apesar do título óbvio e auto-explicativo, essa exposição convida o visitante a pensar sobre o trabalho de pesquisa de um museu: selecionar artefatos representativos das diversas realidades e momentos da história do Estado. Numa grande sala, todos os 100 objetos são apresentados, em ordem cronológica, terminando com uma janela para a área de pesquisa interna do museu e uma atividade interativa onde o visitante é chamado a escolher a 101a peça.

            Um belo museu, lúdico, moderno e grandioso. É visível o vulto dos recursos destinados  à instituição e o profissionalismo do trabalho da equipe. Saí do museu com a impressão de que o History Colorado Center é uma instituição à altura dos grandes museus históricos do mundo. Os 12 dólares do ingresso foram bem empregados. Valeu a pena!

Pablo Lima, março de 2018

quinta-feira, 8 de março de 2018

Um Império e dois Museus: Uma Breve História [Tipologia 2017]



UFMG - ECI - Museologia
Grupo: Letícia Castro, Miguel de Araújo, Paula Cury, Paschoal Colombini, Taynah Perfeito


Duas observações são correntes sobre Museus Históricos: são vinculados a formação dos Estados Nacionais e são construtores de uma Identidade Nacional. Nos domínios brasileiros, no período do Império, a História Nacional buscou se legitimar diante da visão do colonizador. Por essa perspectiva, os Museus Históricos foram criados sob um forte romantismo: a fantasia idílica dos indígenas e a celebração da natureza justificam a formação do acervo de grandes museus como de história natural. Os museus nacionais não eram, porém, aqueles detentores da flora e fauna, mas sim das riquezas culturais do Império.O primeiro grande museu foi criado em 1818, por D. João VI, com o nome de Museu Real, tendo o intuito de propagar o conhecimento e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil.  Após a independência do Brasil, o Museu Real transformou-se no Museu Nacional.Anos mais tarde, o Imperador Dom Pedro II teve um interesse em colecionar tudo que fosse exótico e que lhe chamasse a atenção, mas vale ressaltar que, em sua coleção, não havia nenhuma referência às culturas de origem africana. Sua coleção particular era mantida no Palácio onde funciona o atual Museu Imperial, apesar disso ela foi doada por ele ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, por conta do seu exílio imposto pelos republicanos.Ao transformar o palácio em museu, décadas depois, a coleção do imperador não foi mantida, preservando apenas os pertences da Família real como acervo. Antes, onde o acesso era privado, agora é um lugar público que nos possibilita a compreensão do que foi a vinda da família real para o Brasil, mostrando todas as suas regalias. Mesmo com o exílio, D. Pedro perpetuou-se sua imagem através do palácio, deixando-o como um lugar de memória nacional, repercutindo os resquícios da história real, tomada como soberana por tanto tempo.Tanto o Museu Imperial quanto o Museu Nacional do Rio de Janeiro possuem páginas online. No Museu Nacional, pode-se ver o grande número de peças de antigas civilizações e de história natural, representando a época em que o Brasil ainda se firmava através da tradição europeia  e imperialista, com um forte caráter cientificista que os museus primeiros carregavam.


Figura 1. CAIXÃO DE SHA-AMUN-EN-SU              Figura 2. BRAQUIÓPEDES FOSSILIZADOS
Acervo do Museu Nacional                                                             Acervo do Museu Nacional



Já no Museu Imperial, o site mais dinâmico nos permite fazer uma visita virtual completa. Nela, vemos os amplos cômodos  do Palácio Imperial e exemplos das vestimentas e dos costumes da família através tanto de um Tour Virtual quanto de Ambientes 360°. 


Figura 3. GABINETE DE ESTUDOS DO IMPERADOR D. PEDRO II


Figura 4. SALA DE MÚSICA E BAILE


Foi, então, com os Estados Nacionais, que os museus - qualquer que seja a tipologia - se estabeleceram, como donos de discursos universalizantes do imaginário nacional. De uma identidade que se consolida visando a metrópole, outras tantas são marginalizadas para ceder lugar a um teatro dominativo e normativo. Os museus históricos ainda se manifestam através das riquezas imperiais, mesmo que não mais aquelas naturais, mas agora construindo uma narrativa das elites brasileiras, deixando ainda pouco espaço para a representação de outros setores da sociedade.
Para os curiosos, fica, por fim, a indicação do episódio número 45 do canal Conhecendo Museu, da plataforma YouTube: Museu Imperial; e o episódio 13, do mesmo canal: Museu Nacional - UFRJ.


Referências:

Página Museu Nacional. Disponível em <http://www.museunacional.ufrj.br/index.html> Acesso em novembro 2017.

Página Museu Imperial. Disponível em <http://www.museuimperial.gov.br> Acesso em 2017.

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Os museus brasileiros e a constituição do imaginário nacional. Revista Sociedade e Estado, XV (2), 2000.

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Museus brasileiros e política cultural. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 2004, vol.19, n.55.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e DANTAS, Regina. O Museu do Imperador: quando colecionar é representar a nação.Rev. Inst. Estud. Bras.. 2008, n.46.