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segunda-feira, 1 de junho de 2020

A volta ao mundo em 80 museus: Museu Manuelzão

“Minha vida é andar por esse país (...) Guardando as recordações. Das terras onde passei. Andando pelos sertões (...).” (Luiz Gonzaga). Esta tem sido minha sina, há exato um ano e meio, quando iniciei minha graduação em Museologia pela UFMG. Descobri que na minha sede de conhecimento poderia unir o útil ao agradável. Ciente de que a teoria vem sempre acompanhada de uma boa prática, passei a frequentar, visitar e ir em busca de Museus para vivenciar o que venho aprendendo em sala de aula, principalmente em relação as funções museológicas de pesquisa, conservação, documentação e comunicação. Nascida no coração das Minas Gerais, estado que tem aproximadamente 10% dos museus brasileiros, optei, dentro das minhas possibilidades, por conhecer alguns deles andando pelas Minas e pelos Gerais. E por falar em Gerais, venho apresentar o Museu Manuelzão, personagem do grande escritor Guimarães Rosa. É o Museu da minha terra natal, Três Marias, localizado no distrito de Andrequicé. Um vilarejo que remete aos meus antepassados, minhas origens. No meio do cerrado, usando o linguajar de Guimarães Rosa, apresenta o que há de “mió”: contos e causos, comida boa, pés de pequi, folia de reis, cavalgadas, festas religiosas, café coado, biscoito frito, belas histórias e uma boa prosa. Andrequicé é um lugar de povo acolhedor, de grande religiosidade, possui uma Igreja de Nossa Senhora das Mercês, datada de 1725. É o lugar dos grandes sertões e das belas veredas.
















 
 
 
 
O Museu Manuelzão faz parte do Projeto Memorial Manuelzão, que consiste em um conjunto de ações que visam à preservação da história de Manuel Nardi, o Manuelzão, capataz da viagem do escritor Guimarães Rosa em 1952, que, posteriormente, se tornou personagem de sua obra “Manuelzão e Miguilim.”

Instalado de 2001 a 2003, os bens culturais que compõem o museu foram adquiridos da família de Manuel Nardi e representam os hábitos e costumes cotidianos de um vaqueiro do sertão mineiro. No museu também estão disponíveis os registros das homenagens e a participação de Manuelzão em eventos e mídia. O restante do acervo ficou sobre a guarda técnica da UFMG, de 1997 até 2003, quando retornou para o Distrito de Andrequicé e, hoje, faz parte do Museu.

O local pertencia à família Nardi e foi adquirido, em 2001, pela Associação Comunitária de Andrequicé e o acervo doméstico pela Prefeitura de Três Marias, em 2003. O Museu é uma casa simples que simboliza a sabedoria e os costumes do sertanejo. É gerido pela SAMARRA – Sociedade dos Amigos do Memorial de Manuelzão e Revitalização de Andrequicé, que tem como coordenador José Antônio Vicente de Souza, um administrador e entusiasta pela preservação da cultura na região. A Semana Cultural com a Festa de Manuelzão abordando temáticas relacionadas a literatura Roseana é realizada no mês de julho e já conta com a sua 17º edição. Possui uma rica programação, parcerias diversas e animação típica em dias de muita cultura, valorização e homenagens ao vaqueiro Manuelzão. O evento corrobora as funções essenciais do Museu que é a preservação e a comunicação, por meio da educação não formal, instruindo, compartilhando e gerando conhecimentos.


Distante 276 km de Belo Horizonte, via BR 040, sentido Brasília, deixo aqui a sugestão para uma visita ao Museu Manuelzão. Valerá a pena! Como dizia Guimarães Rosa: “Felicidade se acha é em horinhas de descuido.” “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.” Museus são lugares de histórias e memórias. Aprender, apreender, nunca é demais!


Por Daniela Tameirão dos Santos Mota

Graduanda do 3º Período do Curso de Museologia – UFMG
Belo Horizonte, 04/12/18.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A volta ao mundo em 80 museus: Museu Picasso e Museu D'Orsay

Nova edição da série, com o convidado Túlio Ceci Villaça, meu caro amigo e autor/editor do excelente blog Sobre a canção, profissional de comunicação, músico, crítico cultural de gabarito com o qual já tive a satisfação de colaborar com linhas para a Revista Terceira Margem no artigo O pós-futuro do pós-brasil / notas a “o pós-futuro do pós-brasil”.  

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Em que medida conhecer os museus de uma cidade é conhecer a cidade, ou o país? Vim conhecer Londres e Paris ou seus museus? Flanar é sem dúvida a melhor maneira de conhecer Paris, e estar hospedado no banlieu (até amanhã, quando mudamos para mais para o Centro para os últimos dias) tem sido uma chave para o entendimento da cidade. Mas sim, conhecer museus também é conhecer lugares. Museus dialogam com suas cidades, não só com suas histórias, mas também com seus valores.


Fui ao Museu Picasso (A) e ao d'Orsay (B), este principalmente com a coleção impressionista, que é - impossível evitar - impressionante. Mas Picasso também é, talvez ainda mais por ser um só. Incrível como sua produção tão caudalosa não se dilui, como seu traço mesmo tão variado tem assinatura, e nunca se converte de assinatura a caricatura de si mesmo, como nada parece gratuito mesmo quando a liberdade é extrema. Que traço! Que capacidade criativa! Ele pintou telhas, pratos, pedras, fez esculturas usando carrinhos de brinquedo, usa a chuva como pretexto para dividir a imagem da cidade. É como se não bastasse, o Museu faz exposições temporárias de outros artistas relacionando suas obras com a do Picasso, e o da vez era o Alexander Calder! Sensacional. Botei dois vídeos no Integram, vejam porque vale a pena.



E o d'Orsay. Morei na Rua Rodin, num conjunto habitacional só de ruas com nome de impressionistas. E hoje a turma estava toda lá: Monet, Corot, Sisley, Vlaminck, Van Gogh, Gauguin e, claro, a Praça Manet, aquela da festa junina famosa. E outro raio de aula inesquecível. Ver quatro catedrais de Rouen lado a lado com suas variações de luz (aqui em fotos furrecas, preço desculpas, mas eu é que não vou botar filtro em impressionistas, eles inventaram os filtros) ver as bailarinas de Degas (outra Rua do IAPC), ver as luzes do Taiti e comparar com as de Arles, tudo isso é uma aula, não vejo outra palavra. E ver o Dejeuner sur l'herbe do Manet num Museu e sua releitura pelo Picasso no outro, ai é pós-graduação.
























Ora, claro que museus dialogam com a cidade, são a cidade, e é possível inclusive flanar neles. O impressionismo é Paris, Paris está impressa naquelas telas, assim como Debret é Di Cavalcanti são o Rio ou o holandês Franz Post é Recife, assim como o Museu Nacional é o Rio (não registrei, mas usei a camisa do Museu ontem). Lamentável é não conhecermos bem nossos próprios, porque eles são nós, assim como os de Paris são ela. A diferença entre nós e eles não está tanto na qualidade das obras e acervos. A, diferença é talvez que os franceses sabem disso.


Por Túlio Villaça, agosto de 2019. 


Imagens (fotos do autor, da esq. para dir., de cima para baixo):
1. Picasso, Boisgeloup sous la pluie;
2. Picasso, Le guenon e son petit;
3. e 4. Monet, Catedral de Rouen;
5. Monet, La rue Montorgueil, fête du 30 juin1878
6. Degas, Le foyer de la dance à l"Opéra de la rue Le Peletier
7. Manet, Le deujener sur l'herbe
8. Picasso, Le deujener sur l'herbe d"aprés Monet



 

 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A volta ao mundo em 80 museus: Museu History Colorado Center

Em mais uma edição desta série, agora direto dos EUA onde o colega Pablo Lima, professor da FAE-UFMG, faz seus estudos de pós-doutorado. Na primeira década do corrente século estivemos juntos no Museu Histórico Abílio Barreto, tendo inclusive compartilhado uma empreitada da qual particularmente me orgulho, que foi a redação do livro Pampulha Múltipla. Fica aqui o meu agradecimento ao Pablo pela gentileza em ceder o texto e as imagens para o blog Metamuseu.

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Em uma rápida passagem por Denver, capital e maior cidade do estado do Colorado, fiz uma visita a um museu histórico situado no centro cívico. A instituição pública chama-se History Colorado Center e foi inaugurada em 2012. O museu conta com exposições fixas e itinerantes, eventos públicos e programas educacionais. Abriga também o Office of Archaeology and Historic Preservation (Escritório de Preservação Arqueológica e Histórica), o State Historical Fund (Fundo Histórico Estadual), e a Biblioteca e Centro de Pesquisa Stephen H. Hart.
            O que primeiro chama à atenção é a localização do museu, bem próximo ao Capitólio (sede da assembléia legislativa e senado estadual do Colorado), sede do governo local, bem como a edificação grandiosa que se destaca na paisagem urbana. Um prédio modernista, com 5 andares, que ocupa um quarteirão inteiro, construído exclusivamente para ser museu. Faixas enormes ao lado de fora estampam a palavra “HISTORY”, o que dá a sensação de valorização e quase elogio à história por parte do Estado. 

            O Colorado tem o apelido de estado centenário, pois sua incorporação aos EUA se deu em 1876, cem anos após a declaração de independência. Mas a ocupação humana é bem anterior, com vestígios indígenas remontando a 12 milênios atrás. Após a chegada dos europeus, o território foi ocupado por falantes de espanhol que batizaram os povos indígenas de Pueblo. Entre eles há povos Ute, Cheyenne, Navajo, entre outros. No início do século XIX,  o território tornou-se parte do México independente até ser tomado pelos EUA em sua expansão ao oeste e vitória na Guerra do México. Com a descoberta de ouro em 1859, a região foi rapidamente ocupada por americanos oriundos de vários estados. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), os exércitos da União conseguiram impedir o avanço de tropas separatistas pelo território. E em 1876 foi incorporado à união. Assim, o Colorado nasceu como um estado de fronteira, marcado pela mineração e com a proibição de trabalho escravo. Uma história complexa que o museu busca representar em suas diversas exposições.
            A estrutura física interna é impressionante: amplos espaços de exposição, muitos recursos tecnológicos, com várias possibilidades de interação do público com diversos expositores. Como sempre se vê em museus, grupos de alunos da educação básica, guiados por funcionários do museu, constituíram a maior parte do público no dia da visita, passando rapidamente e com muito barulho pelas exposições. As crianças pareciam ter sua atenção toda voltada para os expositores lúdicos e interativos, apropriados como brinquedos: charretes, automóveis antigos, uma vila de mineração reconstituída, um mapa enorme do Estado (cuja forma é um simples retângulo), pintado sobre o chão do salão central do prédio, visível de seus diversos andares.

            Destaco 4 exposições. Uma delas apresenta a história do Colorado em três momentos: a presença indígena, a ocupação de fazendeiros americanos e a realidade atual. A ênfase da narrativa em todos esses momentos é sobre a questão ambiental. Primeiro, aborda-se o conceito de water footprint (pegada hídrica), a partir de uma exposição que apresenta de modo comparativo o consumo diário de água de um índio pueblo com o consumo do americano contemporâneo. Obviamente, a pegada hídrica atual é inúmeras vezes maior que a indígena. Porém, o visitante fica com a sensação due que o estilo de vida dos Pueblo era tão ecologicamente correto, consumindo tão pouca água, que é simplesmente impossível para um ser humano contemporâneo que escova os dentes, lava as mãos várias vezes ao dia, utiliza instalação sanitária com descarga, etc. Não se apresenta um meio-termo, mas uma oposição radical entre as sociedades. No caso da ocupação de fazendeiros no início do século XX, a crítica recai sobre o uso intensivo de maquinário agrícola, que em um primeiro momento resultou em uma alta produtividade, mas que em poucos anos prejudicou tanto o solo árido do Colorado que provocou um desastre ambiental: o solo tornou-se arenoso que, somado ao vento do meio-oeste, levantou ondas de tempestades de areia enormes que cobriram cidades inteiras na década de 1930, período da grande depressão. Os visitantes são convidados a entrarem eu uma casa reconstituída e participarem da simulação de uma delas tempestades que transformavam o dia em noite. O resultado foi o início de políticas de preservação do meio ambiente. E sobre a realidade atual, a narrativa aborda o problema do aquecimento global e o derretimento das geleiras das montanhas rochosas, principal fonte de água do Colorado e do sudoeste americano.
            A outra exposição apresenta diversos movimentos sociais do Colorado, em especial a questão dos chicanos. O acordo que pôs fim à guerra com o México previa que as populações mexicanas que permanecessem no Colorado teriam direito a manter suas propriedades rurais. No entanto, isso não foi cumprido, e os chicanos tiveram suas terras ocupadas por agricultores anglo-falantes, tornando-se sem-terras em sua própria terra. A exposição mostra que essa população ainda luta pelos seus direitos.

            A terceira exposição trata de um assunto tenso. Durante a segunda guerra mundial, após o ataque. Japonês ao Havaí, os governo dos EUA construiu um Campo de Concentração para a população japonesa que vivia no país. O museu apresenta uma reconstituição de um dos cômodos do campo, construído em pleno deserto, onde a população civil de japoneses e seus descendentes nascidos nos EUA foram reunidos até o final dia guerra.


            Por fim, chamou minha atenção uma exposição intitulada: Colorado em 100 objetos. Apesar do título óbvio e auto-explicativo, essa exposição convida o visitante a pensar sobre o trabalho de pesquisa de um museu: selecionar artefatos representativos das diversas realidades e momentos da história do Estado. Numa grande sala, todos os 100 objetos são apresentados, em ordem cronológica, terminando com uma janela para a área de pesquisa interna do museu e uma atividade interativa onde o visitante é chamado a escolher a 101a peça.

            Um belo museu, lúdico, moderno e grandioso. É visível o vulto dos recursos destinados  à instituição e o profissionalismo do trabalho da equipe. Saí do museu com a impressão de que o History Colorado Center é uma instituição à altura dos grandes museus históricos do mundo. Os 12 dólares do ingresso foram bem empregados. Valeu a pena!

Pablo Lima, março de 2018

domingo, 16 de abril de 2017

A volta ao mundo em 80 museus - 3. Museu da Loucura em Barbacena

Um belo texto da grande amiga e colega de UFMG, professora da Escola de Belas Artes, Rita Lages Rodrigues, a quem agradeço a colaboração. A ideia da série "A volta ao mundo em 80 museus" começou justamente em conversas informais, nas quais sempre me pareceu ser absolutamente possível que o convidado a publicar pudesse imprimir sempre seu traço personalíssimo na escrita, falasse livremente mesclando razão e emoção como bem entendesse. Eu e ela dividimos a coordenação de um grupo de pesquisa e nesse momento estamos lendo A sociedade sem relato, de García Canclini, que traz justamente uma reflexão sobre a possibilidade de pensar a partir de entrecruzamentos entre as ciências sociais e as artes. O que ela escreveu inseriu nessa equação também os traços da memória social e da experiência particular, e sendo assim atingiu em cheio o que eu desejava desde o início. Eis aí:

Histórias de família.
Ontem foi dia de visita. Em Barbacena, há muito desejava conhecer o Museu da Loucura*. Pensava nas pessoas retiradas de sua humanidade e jogadas no inferno, para ser purgatório haveria de melhorar muito. Imaginava o sofrimento, compadecia-me das almas, o discurso científico de choques e lobotomia contra o afeto e a existência. Mais de cem anos atrás, meu bisavô esteve internado por 10 anos na Colônia, menos dolorosa a palavra colônia do que asilo ou manicômio ou hospício ou casa de loucos. Não sei se como interno pagante ou indigente. Se indigente, obrigado a trabalhos forçados, escravos do século XX. A loucura não permite direitos. Por dez anos sem receber visitas. Por 10 anos. Entendi ainda mais minha avó e seu afeto imenso, apesar da dureza, por minha Tia, também posta na caixinha da loucura. Nunca permitiu internação da filha. Imaginei esse bisavô vivendo à margem, retornando após 10 anos por decisão do genro que havia resolvido ir buscá-lo. Minha bisavó já com 4 ou 5 filhos, o mais novo da idade do tempo do bisavô na Colônia, que, após o retorno do marido, engravidou duas vezes mais, tendo meu pai dois tios temporões. Pensei muito nela, na sua lida na roça, na minha avó e duas irmãs que levaram à frente a sobrevivência da família. Parece que meu tio avô não queria muito saber do trabalho. Foram as mulheres a levarem a pequena propriedade nas costas. Meu bisavô retornou e teve vida após a internação. Não sei qual marca ficou em sua alma. Nem consigo imaginar.
No segundo andar do Museu engasguei existência. Até então havia sido forte - pra quê?- mas ao ver as fotos das reportagens de 1961 e 1978 os olhos e a voz não aguentaram, os olhos cheios d'água e a voz embargou pelo pranto, o fôlego se perdeu, falaram forte ao espírito. Saí de lá tentando racionalizar a dor e o sofrimento. Ainda não consegui. Não vou conseguir nunca. O afeto que nos constitui.


* as imagens incorporadas são de autoria do blog Vida sem paredes, a quem agradecemos o contato e cumprimentamos pelo ótimo trabalho.

segunda-feira, 13 de março de 2017

A volta ao mundo em 80 museus - 2. Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago do Chile


Universidade Federal de Minas Gerais
Curso: Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus
Prof.: Luiz Henrique Assis Garcia
Aluna: Elizabeth Castro Moreno

Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago do Chile 
 
Estive recentemente em Santiago do Chile e visitei o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, um dos museus mais emocionantes que já vi. O objetivo do museu, inaugurado em 2010, vai muito além de retratar o que ocorreu no período da ditadura militar no Chile. Em sua exposição permanente, além de mostrar os fatos ocorridos entre 1973 e 1990 através de imagens, documentários, depoimentos, cartas, fotos, recortes de jornais, a exposição nos transporta à realidade vivida pelo povo chileno nesse período e compreende-se como os acontecimentos que afetaram a vida de milhares de famílias contribuíram para formar a consciência da nação. 

 
Como museóloga em formação, não pude deixar de admirar a expografia da mostra. O rico acervo documental, de imagens e artefatos é apresentado de forma didática e comovente, causando um impacto muito grande nos visitantes. Percebe-se a profunda a relação entre os objetos/documentos expostos e a memória desse povo (fato museal). Logo na entrada, uma mensagem: El Museo es una escuela. El artista aprende a comunicar-se, el público aprende a hacer conexiones
 
O edifício, projetado para ser esse museu, é obra de uma equipe de arquitetos brasileiros, de São Paulo (Mario Figueiroa, Lucas Fehr e Carlos Dias) e impressiona pela imponência e simplicidade de linhas. Um enorme bloco de paredes de vidro verde e estruturas metálicas é apoiado em dois blocos de concreto (Figura 2).  
No seu interior, vãos livres são usados como espaço expositivo, permitindo o percurso livre do visitante. A iluminação é natural, com o auxílio de alguma iluminação indireta no teto. O mobiliário é composto por cubos brancos ou vermelhos e alguns painéis em madeira.  O museu é acessível a pessoas com necessidades especiais, pelo espaço e variedade de recursos utilizados para a comunicação; são usadas imagens, gravações e vitrines acessíveis.
 
No primeiro andar são apresentados vários documentários sobre o cerco ao Palácio La Moneda, pelos militares, em 11 de setembro de 1973, exigindo a renúncia de Salvador Allende. Os bombardeios ao Palácio, os tanques na Praça da Constituição, a detenção de pessoas nas ruas, o último discurso de Allende. Acompanhando os acontecimentos como se fosse ao vivo, é possível se envolver com os relatos e vídeos a ponto de, em alguns momentos, esperar-se um desfecho diferente para os fatos. No espaço “Repressão e Tortura” ouve-se os testemunhos de pessoas que foram detidas e submetidas a torturas físicas e mentais. São expostos e descritos os objetos e técnicas de tortura utilizadas. Um aparelho de eletrochoque ligado à uma cama de ferro é o cenário de uma dessas sala, onde são apresentados vídeos com entrevistas em que os ex-detentos relatam os sofrimentos a que eram submetidos. Segundo informações do museu, no dia 11 de setembro foram registradas 598 mortes, 274 detenções com desaparecimento e 19.083 prisões (presos políticos torturados).  

Um dos espaços mais comoventes é chamado “El Dolor de los Ninõs”, onde estão expostas as cartas e desenhos das crianças deportadas e adotadas em outros países da América do Sul e Europa (Figura 3). Nessas cartas, enviadas aos familiares no Chile, as crianças pedem notícias dos pais e avós e relatam o seu sofrimento por estarem longe da família, vivendo entre pessoas com outros hábitos e culturas. Em uma carta emocionante, um menino de 9 ou 10 anos adotado por uma família austríaca, relata com tristeza como era tratado como diferente pelas crianças da escola, que estranhavam sua pele “marrom” e seus olhos pretos. Com uma espontaneidade infantil, ele pergunta aos parentes porquê as crianças brancas de olhos azuis não aceitam que existam pessoas de outras cores, e comenta que em seu país todos são marrons e ele sempre foi muito querido e feliz. Em outra carta, por se aproximar o dia dos avós, uma criança escreve para D. Lúcia, esposa de Pinochet, apelando para o seu lado bom e pedindo noticias de seus avós, desaparecidos políticos. Outro setor bastante impressionante é a exposição dos artefatos feitos pelos presos para serem entregues a seus filhos, como bonecas feitas de pedaços de tecido ou couro, desenhos ou poemas escritos em pequenos pedaços de papel, colares ou adornos ou as cartas escritas pelos presos aos familiares antes de serem executados. 
 
No segundo andar, no setor da Verdade e Justiça, em um extenso corredor, são apresentados recortes de jornais, cartazes, vídeos, mostrando os movimentos criados pelas famílias dos desaparecidos, na busca por seus entes queridos. São apresentadas as organizações formadas para denunciar os abusos cometidos pelos militares, as ações na justiça, as manifestações populares. Toda a extensão de uma parede, do primeiro ao segundo andar é coberta por um mural com fotos de centenas de desaparecidos (Figura 4). Através de um monitor com tela touch, é possível selecionar uma foto e acessar seus dados, como idade, sexo, profissão, local onde foi visto pela ultima vez e os informes das Comissões da Verdade sobre o seu caso. É um setor, chamado de “Ausência e Memória” para se velar os desaparecidos. Centenas de velas elétricas artificiais cercam o ambiente. 


Um ultimo espaço é reservado para a “Esperança”. Música, poemas, pinturas, gravuras, são mostradas como expressões artísticas produzidas durante a ditadura, quando a censura limitava qualquer tipo de exibição. Um vídeo leve e divertido mostra a campanha desenvolvida na televisão para o plebiscito de 1988, que decidiu sobre o futuro político do país. Conhecido como “No” foram criados vários clipes para incentivar a população a votar “Não” à permanência de Pinochet no poder. O percurso termina com o fim da ditadura. 
 
Mas a exposição não é só sobre o Chile. No hall de entrada há centenas de fotos que retratam algum tipo de violação dos direitos humanos, dispostas em um enorme mapa-múndi (Figuras 5 e 6). A mostra é baseada nos Relatórios das Comissões da Verdade, designadas para apurar violações dos direitos humanos em todo o mundo e criar políticas de reparação nos países de origem. 

 


Abaixo desse mapa, pequenas placas contem informações sobre as datas de fundação dessas comissões em cada país, o período investigado, os objetivos e os resultados obtidos. Investigações sobre sequestros, detenções, assassinatos, desaparições, torturas, atos de barbárie, maus tratos e outros atentados contra a integridade física e ou mental de pessoas, práticas discriminatórias, tráfico de drogas, são alguns dos objetivos dessas comissões (Figura 7). É com certo alívio que se vê que muitos casos foram encerrados e os objetivos atingidos. Há informações sobre o número de vítimas atingidas, o número de corpos encontrados, e a data de encerramento das investigações.
Infelizmente, a placa do Brasil sobre as investigações dos crimes cometidos durante a ditadura militar, no período de 1946 a 1988, informa que a investigação ainda não foi encerrada e ainda não há resultados conclusivos. 
 
A exposição do hall informa também que em todos os locais onde há investigações, por iniciativas das comunidades locais, são construídos Memoriais, como o objetivo de dar maior visibilidade aos crimes cometidos e como forma de homenagear as vítimas dos abusos. Em cemitérios, prisões, sítios onde são achadas ossadas das vitimas, ou em bairros onde estas viviam, se instalam monumentos, placas comemorativas de mármore, cobre, madeira ou esculturas para recordar os ausentes (Figuras 8 e 9). Lugares de memória. Fotos desses memoriais e a descrição pormenorizada de cada um pode ser vista em vídeos. A exposição desse conjunto de memoriais é bastante impactante para qualquer visitante. Os relatos sobre os acontecimentos no Chile apresentados no museu foram elaborados pela Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação (1990), pela Corporação Nacional de Reparação e Reconciliação (1996), pela Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (2004) e pelo Relatório da Comissão Presidencial Assessora para a Qualificação de Presos Políticos Desaparecidos e Executados Vitimas de Prisão Política (2011). 
 
O Museu da Memória e dos Direitos Humanos é um museu que, sem dúvida, atinge os objetivos de preservação da herança patrimonial e de comunicação dessa herança.
Em várias ocasiões, durante os três dias que passei em Santiago, tive oportunidade de conversar com chilenos na rua, em bares e restaurantes, e todos com quem conversei demonstravam uma forte consciência nacional. Este e outros museus locais são bem conhecido pelo povo. Em todos os museus que visitei vi crianças acompanhadas pelos parentes ou escolas, em visitas guiadas ou espontâneas, um exemplo que nosso país precisa seguir. Com exceção do hall de entrada, a exposição não pode ser fotografada e algumas imagens foram, portanto, obtidas em sites da internet.

sábado, 17 de setembro de 2016

A volta ao mundo em 80 museus - 1. Museu da História da Catalunha.

Finalmente, daquela forma inesperada que às vezes é a única, comecei hoje a coluna "A volta ao mundo em 80 museus", proposta antiga de recolher junto a diversos colaboradores material e comentários de viagens e visitas a museus pelo mundo.  

Há pouco realizamos, na disciplina Tipologia de Museus, um seminário sobre Museus Históricos, modernidade e nação, cujas leituras básicas foram as seguintes:

SANTOS, Myrian Sepulveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.
SCHWARCZ, Lilia Moritz  e  DANTAS, Regina. O Museu do Imperador: quando colecionar é representar a nação. Rev. Inst. Estud. Bras. 2008, n.46 , p. 123-164.
BREFE, Ana Cláudia Fonseca. História nacional em São Paulo: o Museu Paulista em 1922. An. mus. paul.,  São Paulo ,  v. 10-11, n. 1, 2003, p. 79-103.  
L`ESTOILE, Benoît de. Museus nacionais como paradigma. In:  NACIONAL (BRASIL). Museus nacionais e os desafios do contemporâneo. Rio de Janeiro: Museu Historico Nacional, 2011. 295 p.
 

Caiu, portanto, como uma luva, o registro realizado pelo Flávio Marcus da Silva, um colega historiador muito prezado, dos tempos de graduação e mestrado. Escritor de mão cheia, apreciador da melhor literatura, e professor da FAPAM (Pará de Minas), daqueles que os alunos cobrem de merecidos elogios. Em sua passagem por Barcelona, visitou o Museu da História da Catalunha:


"Excelente passeio pela história de uma região singular, partindo do período romano (séculos III, IV e V), passando pelo domínio visigodo, pela época em que Barcelona e outras cidades da região eram governadas por condes independentes de qualquer autoridade superior (entre os séculos X e XV), pelos conflitos com a Coroa Espanhola nos séculos XVII e XVIII, até chegar à ditadura de Franco (e sua violenta perseguição aos catalães) e à atualidade. Fantástico!"









O texto de apresentação e as fotos são do próprio Flávio.

Deixo aqui meu agradecimento a ele pela contribuição, e considero que foi um ótimo começo para a coluna, que daqui pra frente deverá crescer a olhos vistos.

Faltam 79!