quinta-feira, 9 de junho de 2022
Colaboração Grupo de Estudos SOMMUS + Projeto de Extensão Engaja e Retratistas do Morro
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Historiografia dentro das narrativas de documentário
ECI/UFMG: Metodologia da pesquisa histórica em museus
Professor: Luiz Henrique Assis Garcia
Alunos: Álisson Valentim, Camila Guelfi, Clara Duarte Lara, Priscilla Tôrres e Rafaella Brandão
Historiografia dentro das narrativas de documentário
Introdução
Napolitano (2005), ao discorrer a respeito do uso das fontes históricas audiovisuais na historiografia, recomenda que o historiador não deve considerá-las como conexões diretas e objetivas com o passado, tampouco como absolutamente subjetivas por conta de seu caráter estético. As fontes audiovisuais e suas técnicas de produção não devem ser vistas como neutras. O historiador deve, sobretudo, buscar uma associação entre a linguagem (os processos de filmagem, edição, etc.) e o conteúdo (a narrativa propriamente dita) de suas fontes audiovisuais. A pesquisa histórica deve portanto, enquanto mantém os seus rigores sistemáticos e metodológicos, levar em consideração a decodificação da linguagem e o conteúdo das fontes audiovisuais.
A ânsia de se apropriar dessas fontes multisensoriais como se fossem portais de viagem no tempo, de acordo com Rodrigues (2016), é historicamente intensificada quando se trata do cinema documentário. O uso da técnica de entrevistas, por exemplo, amplificado no Brasil nos anos 60, desencadeou uma noção de “voz da experiência”. Isso é perigoso não apenas porque toda forma de representação do passado tem um grau de subjetividade, mas também porque não existe um passado que seja “a verdade absoluta”. A seguir, faz-se uma análise breve de duas dessas fontes audiovisuais, cujos conteúdos abordados circulam a experiência de urbanização e de habitação de comunidades marginalizadas de Belo Horizonte, MG.
Memórias do Aglomerado 2
O documentário aborda a relação dos moradores de BH com as estruturas urbanas, partindo do ponto de vista das pessoas, a partir do seguinte questionamento: como a narrativa apresenta-se no audiovisual? O documento é um conjunto de relatos orais, fonte primária. Embora Tucídides mencione a instabilidade do relato oral, é necessário trazer a representatividade das vivências das pessoas que estão à margem social, que Peter Burke nomeia como história vista de baixo. Burke (1992, p. 198), sobre história oral, conclui que, em sua metodologia, o historiador deve prezar pela continuidade histórica a partir das narrativas que lhe são apresentadas e menciona que a riqueza de detalhes é presente na história oral a partir das reminiscências pessoais em análise antropológica (BURKE, 1992, p. 192, 193).
O documentário em questão é um registro do passado no presente em determinado contexto social (2005: Programa de urbanização de favelas de Belo Horizonte, com deslinde previsto até 2015, retirando moradores de duas das cinco vilas do Aglomerado Santa Lúcia para construir um parque).
Uma questão se impõe: quem está interessado no registro da história das pessoas removidas das vilas São Bento e Esperança? Há riqueza cultural nessas vilas. As pessoas “de fora” do aglomerado não sabem disso. O documentário é um registro dessa riqueza pela própria voz dos moradores. Evidencia-se a importância do registro oral pelos próprios moradores, pois as elites não estão interessadas nisso.
Favela em Diáspora
O documentário de curta-metragem, Favela em Diáspora, produzido em 2017, expõe o processo de retirada compulsória das famílias residentes no Morro do Papagaio. Produzido pela Renca Produções e Interações Culturais, o curta-documental narra a insatisfação dos moradores vítimas da expropriação, mostrando a importância desses territórios para sua vida e história. Além disso, reclamam da forma hierárquica e autoritária que esse processo foi feito, alegando que a prefeitura de Belo Horizonte pouco se importou para as reais vontades e necessidades dos sujeitos que ali viviam.
Portanto, ao criar um espaço para que esses sujeitos invisibilizados pelo estado possam expressar suas opiniões e denunciar sua migração compulsória, a fonte em questão preserva sua memória e escreve uma história outra daquela que negligencia as populações das favelas. Para isso, a autora e diretora do curta-documental, Gabriela Matos, intercala relatos dos moradores e imagens dos locais de que foram retirados, produzindo um impacto ao espectador quando as palavras de carinhos dos antigos residentes contrastam com os escombros de suas antigas casas. Tudo isso, em uma imagem em preto e branco com o argumento de que quando se tira as cores de uma imagem torna-se possível perceber outros detalhes.
Referências
BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992, p. 42 e segs.
MEMÓRIAS DO AGLOMERADO 2. Direção: Mariana Castelo Branco. Produção MUQUIFU. Local: Belo Horizonte/MG. Distribuidora: Canal Kelly Amaral de Freitas, 18 fev. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dfY71rw0uzk>. Acesso em: 26 jun. 2021.
NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In: Fontes históricas [S.l: s.n.], 2005.
RODRIGUES, Flávia Lima. Uma breve história sobre o cinema documentário brasileiro. CES Revista, [S.l.], v. 24, n. 1, p. 61-73, abr. 2016.
FAVELA EM DIÁSPORA. Direção de Gabriela Matos. Belo Horizonte: Renca Produções e Interações Culturais, 2018. (22 min) Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=rP7P72I5Dkg>. Acesso em: 04 Ago. 2021.quarta-feira, 5 de setembro de 2018
Das chamas um farol
Procuro fazer nessa postagem a melhor compilação possível de material para que não se perca a memória sobre o impacto do incêndio, mas também pensei numa forma de promover a reflexão e a valorização do conhecimento já produzido sobre a instituição museológica Museu Nacional, sua história e seus diferentes acervos. Sendo assim peço aos leitores que espalhem o máximo possível essa postagem e o convite para que quem desejar contribuir deixe nos comentários textos críticos e rememorações que estão circulando no calor do momento, mas também as referências que conhecer de pesquisas [monografias, dissertações, teses, livros, artigos em periódicos] que abordem os temas marcados. Façamos o maior esforço coletivo possível para reunir aqui esse material, que me comprometo depois a incorporá-las à postagem para sua melhor difusão. Todos serão mantidos da forma que me chegarem e expressaram, obviamente, a perspectiva de seus autores. Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Um-museu-em-chamas-visto-por-uma-de-suas-antrop%C3%B3logas
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Hoje fiquei vendo as repercussões do incêndio que destruiu o Museu Nacional.... tem muito tempo que muita gente diz do perigo disso acontecer.... acontecer onde aconteceu e acontecer em centenas de outros lugares pelo país.
Uma comoção nacional ver as imagens do fogo, de repente muita gente entendeu que o Museu existia, o que era ele.
Mas ai comecei a ver a partidarização imbecil que nos domina discutir de quem é a culpa do incêndio. Vou resolver essa parte de uma vez: é nossa.
Vi coxas acusando o PT, vi bolsominions perguntando pra que museu e dizendo que tudo é culpa do PT, vi petistas dizendo que tudo é culpa dos tucanos, do golpe e claro... do PSOL...
Enfim, em um momento tão doloroso pra todxs nós que passamos a vida com a História, o patrimônio cultural, a memória, a ciência e a produção do conhecimento, ficamos a mercê da imbecilidade que domina o país com as explicações medíocres e toscas dos últimos tempos.
Sim todos temos culpas nessa área, todos nós.
A "terceirização" dessa área começou com a Lei Rouanet em 1991 no governo Collor, que vingou nos governos FHC. Desde então tudo é Lei Rouanet, acabou a gestão publica da cultura no país e tudo virou Lei Rouanet.
Hoje o sinistro da Cultura deu uma coletiva dizendo que a Lei Rouanet estava disponível e perguntou porque a UFRJ não a usou....
Nós que ja fomos gestorxs de espaços culturais sabemos muito bem o que virou a politica cultural no país... virou uma política de editais, uma política onde lugares da importância do Museu Nacional tem que fazer projetos pra concorrer com shows, eventos, viagens, festivais, e sei la mais o que.
Professores da universidade assumem esses lugares e descobrem o mundo da infinita falta.
Todos absurdados porque não tinha "um moderno sistema de combate ao incêndio", alguém ai sabe quanto custa isso? quanto custa o projeto pra fazer o sistema? sabem quanto custa um seguro pra um lugar desses? claro que não.... mas vai você gastar com alguma desses coisas pra ver.... caem todos de pau dizendo que esta jogando dinheiro publico na lata do lixo.... e ainda riem....
Passei por tudo isso por 4 longos anos... e como me recusava a transformar um espaço da universidade em galeria de exposição paguei um preço alto por minhas escolhas para impedir que o prédio que administrei não pegasse fogo.... eu e muita gente passamos por isso.
Vimos os espaços públicos de cultura, de acervos, de pesquisa serem reduzidos a lugares de luta cotidiana para manutenção do que é de todos nós.
Vi um monte de gente dizendo: privatiza.... Não dá nem pra responder quem tem uma saída dessas pra esses lugares como o Museu Nacional... privatizar um lugar desses é solução dada por quem não sabe nada de nada e não consegue sequer entender a importância da Historia de onde habita.
O Museu queimou, foi a crônica de um desastre anunciado. Agora todos querem achar culpados, já disse, somos todos nós. Os tucanos que acham que tudo tem que ser privatizado e não sabem administrar a coisa pública. Os petistas que transformaram tudo em política de editais. O desgoverno golpista porque é constituído de canalhas que agora vêm a público dizer que "iam" fazer alguma coisa, mas não deu tempo.
Pra completar, em nome da tosquera que é esse desgoverno golpista, votaram uma PEC que diz conter gastos públicos.... só rindo de tamanha imbecilidade. Quem quer governar deveria no mínimo saber como faze-lo e não dizer que é melhor ferrar tudo porque não sabem como administrar seus gastos.
Fiquei ontem aqui sentada no sofá da minha casa, com meus filhos do lado, chorando..... eles não entendiam porque e olhavam as chamas na televisão tentando saber porque a mãe deles chorava. Consegui dizer que era porque estava queimando tudo aquilo pelo qual vivi minha vida inteira e que agora eu não poderia mais leva-los pra conhecer Luzia, pra ouvir cantos indígenas que não existem mais, pra conhecer um acervo africano que não existe em outro lugar do mundo.
Mas, principalmente, disse a eles que essas coisas estavam naquele lugar pra nos lembrar sempre que não podemos congelar a vida de quem nos constituiu, que Luzia era nosso começo e que, nossos índios, os africanos eram a memória do que o Estado português e brasileiro foi e é com seu povo e com os outros povos que subjugou e dominou. Disse a eles que lugares como o Museu Nacional são importantes porque guardam tudo que vamos nos tornando como povo, absolutamente tudo que fizemos. E que isso é importante principalmente para não apagarmos a memória do que já destruímos e de tudo que criamos e inventamos.
Disse a eles que muitos desses lugares guardam a história de quem nos dominou mas que isso era importante porque assim saberíamos sempre como eles foram e como eles guardaram nossas historias derrotadas ou não.
Mas principalmente disse a eles que eu chorava porque nunca mais poderia ir la com eles pra que eles entendessem o tamanho do que fomos e somos e que isso é fundamental pra que eles continuem......
Enfim, textão de novo porque a tristeza é tão profunda que não sei o que fazer
Tá, o prédio do Museu do Amanhã é um bom lugar pra selfies. É o único elogio que consigo fazer. Mas é um elefante branco pra população brasileira.
Consta na historiografia que esse brasileiro conhecido como um dos maiores traficantes de escravos da época chegou à costa africana no final do século 18 e trabalhou na recuperação da Fortaleza de São João Batista de Ajudá, localizada na cidade de Uidá. Preso e torturado na capital histórica Abomé, ele teria conseguido escapar com a ajuda do príncipe Gakpé. Com apoio de Portugal o brasileiro ajudou o príncipe a derrubar o rei Adandozan (seu irmão paterno, conhecido pela crueldade com que governava) e assumir o trono do Daomé como o rei Ghezo. O monarca deposto foi preso e sua história apagada da linha sucessória real. Seu trono, peça exclusiva de cada governante esculpida em madeira com riqueza de detalhes simbolizando a ligação material do humano com o sagrado, precisava desaparecer, embora aparentemente não pudesse ser destruído por questões religiosas.
A peça não consta do acervo no Museu Histórico de Abomé. Há indícios de que o trono teria vindo para o Brasil em 1811 junto de outros objetos. Mas Adandozan foi deposto somente em 1818. Pouco provável que durante seu reinado o monarca tenha enviado o próprio trono para um país estrangeiro. A outra hipótese é que o trono teria chegado ao Brasil em 1822, quatro anos depois da queda do rei, como presente a Dom Pedro I pela declaração da independência. Segundo Pierre Verger muito provavelmente a mobília esculpida em uma só peça que ardeu no incêndio do museu tratava-se do trono real de Adandozan - enviado por Gakpé como retaliação por seu irmão ter vendido a rainha Ná Agontimé, sua mãe, como escrava.
Mulher do rei Agongló, após a morte do marido a rainha teria sido enviada ao Brasil como cativa e vivido no Maranhão, onde foi reconhecida sua linhagem real. Rebatizada como Maria Jesuína, os historiadores contam que ela comprou a própria alforria e a de seus súditos fundando a Casa das Minas, importante centro cultural e religioso onde ainda hoje se cultua os voduns, entidades da antiga religião daomeana e origem do tambor de crioula.
Outro detalhe interessante é que no Museu Histórico de Abomé os tronos da dinastia real não são mais os originais, queimados no ataque à cidade promovido pelo rei Behanzin em 1892. Portanto a peça que virou carvão no Museu Nacional do Rio de Janeiro era provavelmente o mais antigo e talvez o único trono original da dinastia dos reis daomeanos. Agora não dá mais para saber.
Cada um dos milhões de objetos que estavam ali carregava uma história, estava repleto de significado e simbologia, ligava um ponto da longa trajetória da nossa civilização e do nosso planeta ao presente em que vivemos. Tenho a impressão que vamos levar ainda muito tempo para entender a dimensão e as consequências do que aconteceu.
A revista científica Nature comparou o ocorrido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, uma catástrofe que destruiu o acervo de toda a antiguidade, o conhecimento de vários povos, línguas e culturas já extintas. Meu filho disse em tom de brincadeira que catástrofe maior do que essa para a ciência só o meteoro no Golfo do México, que extinguiu há milhões de anos a maior coleção paleontológica que já existiu. Mas a verdade é que os moleques ficaram bem tristes. E eu fiquei envergonhado, por fazer parte da geração que não vai deixar esse legado para eles.
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
Cidades mortas, acervos vivos
Seu segundo capítulo, Ecocídio na terra de Marlboro, é um contundente ensaio sobre a calamidade ambiental e social resultante da destruição e contaminação radiotiva pelo emprego reiterado de artefatos nucleares na "zona de sacrifício nacional" determinada pelo Pentágono no Oeste estadunidense, envolvendo estados como Califórnia, Nevada, Utah, e, em sua periferia, Colorado e Wyoming. O impacto de tais experimentos, cuja extensão talvez possa ser equiparada ao desconhecimento que os encobre, é de maior magnitude que o do desastre de Chernobyl, cuja exposição o autor compara, chamando a atenção para a relação do mesmo com o degelo e ocaso da antiga URSS. Uma das linhas de força do livro é mostrar que a Guerra Fria, mesmo sem ter se tornado "quente", deixou um rastro de vítimas e destruição, particularmente entre populações depauperadas e com pouco poder político, sobrevivendo em regiões que já eram inóspitas. [foto acima, Carole Gallagher]O valor de manter e dar acesso, seja a pesquisadores ou ao público em geral, de acervos dessa natureza, é inestimável. Escrevo essas linhas com particular convicção na semana em que o grupo de pesquisa ESTOPIM, do qual sou um dos coordenadores, inicia a mostra e oficina Horizonte em Foco no Museu da Imagem e do Som BH, na sua unidade Cine Santa Teresa, cujo intuito é justamente mobilizar o acervo da instituição para refletir sobre a cidade, seu história e seu patrimônio cultural. Também me motiva o retorno às aulas nesta semana, até porque leciono Função social dos museus, além de Tipologia de museus na graduação em Museologia e da disciplina Memória, Patrimônio e Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na ECI/UFMG. Estou fortemente inclinado a incluir o Mike Davis na bibliografia.
segunda-feira, 13 de março de 2017
A volta ao mundo em 80 museus - 2. Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago do Chile
Curso: Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus
Prof.: Luiz Henrique Assis Garcia
Aluna: Elizabeth Castro Moreno
Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago do Chile
Como museóloga em formação, não pude deixar de admirar a expografia da mostra. O rico acervo documental, de imagens e artefatos é apresentado de forma didática e comovente, causando um impacto muito grande nos visitantes. Percebe-se a profunda a relação entre os objetos/documentos expostos e a memória desse povo (fato museal). Logo na entrada, uma mensagem: El Museo es una escuela. El artista aprende a comunicar-se, el público aprende a hacer conexiones.
O edifício, projetado para ser esse museu, é obra de uma equipe de arquitetos brasileiros, de São Paulo (Mario Figueiroa, Lucas Fehr e Carlos Dias) e impressiona pela imponência e simplicidade de linhas. Um enorme bloco de paredes de vidro verde e estruturas metálicas é apoiado em dois blocos de concreto (Figura 2).
No segundo andar, no setor da Verdade e Justiça, em um extenso corredor, são apresentados recortes de jornais, cartazes, vídeos, mostrando os movimentos criados pelas famílias dos desaparecidos, na busca por seus entes queridos. São apresentadas as organizações formadas para denunciar os abusos cometidos pelos militares, as ações na justiça, as manifestações populares. Toda a extensão de uma parede, do primeiro ao segundo andar é coberta por um mural com fotos de centenas de desaparecidos (Figura 4). Através de um monitor com tela touch, é possível selecionar uma foto e acessar seus dados, como idade, sexo, profissão, local onde foi visto pela ultima vez e os informes das Comissões da Verdade sobre o seu caso. É um setor, chamado de “Ausência e Memória” para se velar os desaparecidos. Centenas de velas elétricas artificiais cercam o ambiente.
Um ultimo espaço é reservado para a “Esperança”. Música, poemas, pinturas, gravuras, são mostradas como expressões artísticas produzidas durante a ditadura, quando a censura limitava qualquer tipo de exibição. Um vídeo leve e divertido mostra a campanha desenvolvida na televisão para o plebiscito de 1988, que decidiu sobre o futuro político do país. Conhecido como “No” foram criados vários clipes para incentivar a população a votar “Não” à permanência de Pinochet no poder. O percurso termina com o fim da ditadura.
Mas a exposição não é só sobre o Chile. No hall de entrada há centenas de fotos que retratam algum tipo de violação dos direitos humanos, dispostas em um enorme mapa-múndi (Figuras 5 e 6). A mostra é baseada nos Relatórios das Comissões da Verdade, designadas para apurar violações dos direitos humanos em todo o mundo e criar políticas de reparação nos países de origem.
Infelizmente, a placa do Brasil sobre as investigações dos crimes cometidos durante a ditadura militar, no período de 1946 a 1988, informa que a investigação ainda não foi encerrada e ainda não há resultados conclusivos.
A exposição do hall informa também que em todos os locais onde há investigações, por iniciativas das comunidades locais, são construídos Memoriais, como o objetivo de dar maior visibilidade aos crimes cometidos e como forma de homenagear as vítimas dos abusos. Em cemitérios, prisões, sítios onde são achadas ossadas das vitimas, ou em bairros onde estas viviam, se instalam monumentos, placas comemorativas de mármore, cobre, madeira ou esculturas para recordar os ausentes (Figuras 8 e 9). Lugares de memória. Fotos desses memoriais e a descrição pormenorizada de cada um pode ser vista em vídeos. A exposição desse conjunto de memoriais é bastante impactante para qualquer visitante. Os relatos sobre os acontecimentos no Chile apresentados no museu foram elaborados pela Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação (1990), pela Corporação Nacional de Reparação e Reconciliação (1996), pela Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (2004) e pelo Relatório da Comissão Presidencial Assessora para a Qualificação de Presos Políticos Desaparecidos e Executados Vitimas de Prisão Política (2011).
O Museu da Memória e dos Direitos Humanos é um museu que, sem dúvida, atinge os objetivos de preservação da herança patrimonial e de comunicação dessa herança.
Em várias ocasiões, durante os três dias que passei em Santiago, tive oportunidade de conversar com chilenos na rua, em bares e restaurantes, e todos com quem conversei demonstravam uma forte consciência nacional. Este e outros museus locais são bem conhecido pelo povo. Em todos os museus que visitei vi crianças acompanhadas pelos parentes ou escolas, em visitas guiadas ou espontâneas, um exemplo que nosso país precisa seguir. Com exceção do hall de entrada, a exposição não pode ser fotografada e algumas imagens foram, portanto, obtidas em sites da internet.


