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quinta-feira, 9 de junho de 2022

Colaboração Grupo de Estudos SOMMUS + Projeto de Extensão Engaja e Retratistas do Morro

O Projeto Retratistas do Morro está na reta final da campanha de financiamento coletivo de um livro que resulta de diversos esforços empreendidos no âmbito do projeto. Para conhecer e apoiar: https://www.catarse.me/retratistasdomorro
 

 
Como forma de contribuir para este esforço final até dia 12/06/2022, o Grupo de Estudos SOMMUS e o projeto de extensão Engaja (clique para saber mais) vão sortear 2 exemplares do livro a todos que compartilharem este conteúdo no intuito de fortalecer a campanha. Basta compartilhar a postagem nas respectivas redes sociais, deixar o nome nos comentários ou enviar um email para portfoliomuseologia@gmail.com após o compartilhamento. Faremos o sorteio no dia seguinte ao encerramento da campanha e comunicaremos o resultado através deste blog e da página do SOMMUS no Instagram. Os ganhadores deverão buscar o livro no local na data de lançamento a ser divulgada oportunamente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Historiografia dentro das narrativas de documentário

 ECI/UFMG: Metodologia da pesquisa histórica em museus

Professor: Luiz Henrique Assis Garcia

Alunos: Álisson Valentim, Camila Guelfi, Clara Duarte Lara, Priscilla Tôrres e Rafaella Brandão

Historiografia dentro das narrativas de documentário

Introdução

Napolitano (2005), ao discorrer a respeito do uso das fontes históricas audiovisuais na historiografia, recomenda que o historiador não deve considerá-las como conexões diretas e objetivas com o passado, tampouco como absolutamente subjetivas por conta de seu caráter estético. As fontes audiovisuais e suas técnicas de produção não devem ser vistas como neutras. O historiador deve, sobretudo, buscar uma associação entre a linguagem (os processos de filmagem, edição, etc.) e o conteúdo (a narrativa propriamente dita) de suas fontes audiovisuais. A pesquisa histórica deve portanto, enquanto mantém os seus rigores sistemáticos e metodológicos, levar em consideração a decodificação da linguagem e o conteúdo das fontes audiovisuais.     

A ânsia de se apropriar dessas fontes multisensoriais como se fossem portais de viagem no tempo, de acordo com Rodrigues (2016), é historicamente intensificada quando se trata do cinema documentário. O uso da técnica de entrevistas, por exemplo, amplificado no Brasil nos anos 60, desencadeou uma noção de “voz da experiência”. Isso é perigoso não apenas porque toda forma de representação do passado tem um grau de subjetividade, mas também porque não existe um passado que seja “a verdade absoluta”. A seguir, faz-se uma análise breve de duas dessas fontes audiovisuais, cujos conteúdos abordados circulam a experiência de urbanização e de habitação de comunidades marginalizadas de Belo Horizonte, MG. 


Memórias do Aglomerado 2


    

O documentário aborda a  relação dos moradores de BH com as estruturas urbanas, partindo do ponto de vista das pessoas, a partir do seguinte questionamento: como a narrativa apresenta-se no audiovisual? O documento é um conjunto de relatos orais, fonte primária. Embora Tucídides mencione a instabilidade do relato oral, é necessário trazer a representatividade das vivências das pessoas que estão à margem social, que Peter Burke nomeia como história vista de baixo. Burke (1992, p. 198), sobre história oral, conclui que, em sua metodologia, o historiador deve prezar pela continuidade histórica a partir das narrativas que lhe são apresentadas e menciona que a riqueza de detalhes é presente na história oral a partir das reminiscências pessoais em análise antropológica (BURKE, 1992, p. 192, 193).

O documentário em questão é um registro do passado no presente em determinado contexto social (2005: Programa de urbanização de favelas de Belo Horizonte, com deslinde previsto até 2015, retirando moradores de duas das cinco vilas do Aglomerado Santa Lúcia para construir um parque).

Uma questão se impõe: quem está interessado no registro da história das pessoas removidas das vilas São Bento e Esperança? Há riqueza cultural nessas vilas. As pessoas “de fora” do aglomerado não sabem disso. O documentário é um registro dessa riqueza pela própria voz dos moradores. Evidencia-se a importância do registro oral pelos próprios moradores, pois as elites não estão interessadas nisso.


Favela em Diáspora




O documentário de curta-metragem, Favela em Diáspora, produzido em 2017, expõe o processo de retirada compulsória das famílias residentes no Morro do Papagaio. Produzido pela Renca Produções e Interações Culturais, o curta-documental narra a insatisfação dos moradores vítimas da expropriação, mostrando a importância desses territórios para sua vida e história. Além disso, reclamam da forma hierárquica e autoritária que esse processo foi feito, alegando que a prefeitura de Belo Horizonte pouco se importou para as reais vontades e necessidades dos sujeitos que ali viviam.

Portanto, ao criar um espaço para que esses sujeitos invisibilizados pelo estado possam expressar suas opiniões e denunciar sua migração compulsória, a fonte em questão preserva sua memória e escreve uma história outra daquela que negligencia as populações das favelas. Para isso, a autora e diretora do curta-documental, Gabriela Matos, intercala relatos dos moradores e imagens dos locais de que foram retirados, produzindo um impacto ao espectador quando as palavras de carinhos dos antigos residentes contrastam com os escombros de suas antigas casas. Tudo isso, em uma imagem em preto e branco com o argumento de que quando se tira as cores de uma imagem torna-se possível perceber outros detalhes.


Referências

BURKE, Peter (org.).  A escrita da história: novas perspectivas.  São Paulo: Unesp, 1992, p. 42 e segs.

MEMÓRIAS DO AGLOMERADO 2. Direção: Mariana Castelo Branco. Produção MUQUIFU. Local: Belo Horizonte/MG. Distribuidora: Canal Kelly Amaral de Freitas, 18 fev. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dfY71rw0uzk>. Acesso em: 26 jun. 2021.

NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In: Fontes históricas [S.l: s.n.], 2005. 

RODRIGUES, Flávia Lima. Uma breve história sobre o cinema documentário brasileiro. CES Revista, [S.l.], v. 24, n. 1, p. 61-73, abr. 2016.

FAVELA EM DIÁSPORA. Direção de Gabriela Matos. Belo Horizonte: Renca Produções e Interações Culturais, 2018. (22 min) Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=rP7P72I5Dkg>. Acesso em: 04  Ago. 2021.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Das chamas um farol

Procuro fazer nessa postagem a melhor compilação possível de material para que não se perca a memória sobre o impacto do incêndio, mas também pensei numa forma de promover a reflexão e a valorização do conhecimento já produzido sobre a instituição museológica Museu Nacional, sua história e seus diferentes acervos. Sendo assim peço aos leitores que espalhem o máximo possível essa postagem e o convite para que quem desejar contribuir deixe nos comentários textos críticos e rememorações que estão circulando no calor do momento, mas também as referências que conhecer de pesquisas [monografias, dissertações, teses, livros, artigos em periódicos] que abordem os temas marcados. Façamos o maior esforço coletivo possível para reunir aqui esse material, que me comprometo depois a incorporá-las à postagem para sua melhor difusão. Todos serão mantidos da forma que me chegarem e expressaram, obviamente, a perspectiva de seus autores. 


Para dar o pontapé inicial escolhi a excelente entrevista concedida por Eduardo Viveiros de Castro, um dos nosso mais conceituados antropólogos, autor de vários livros e do conceito de perspectivismo ameríndio [teoria a partir da visão ameríndia do mundo], e professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicada pelo Público, de Portugal. 


Um destaque, só como aperitivo:
"Certamente as pessoas que estão passando fome e estão desempregadas não diriam que a cultura é a coisa mais importante mas a ideia de que o povo despreza a cultura não é verdadeira. Quem despreza a cultura é a burguesia, o agro-negócio, os deputados ruralistas, os que estão interessados em devastar o país para produzir soja para vender para a China."


Também insiro o relato tocante de Aparecida Vilaça, também antropóloga e professora do mesmo programa, publicado pelo jornal Nexo. [como o site não permite cortar e colar, recomendo abrir e fazer a leitura]

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Um-museu-em-chamas-visto-por-uma-de-suas-antrop%C3%B3logas

© 2018 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.

Recolhi ainda alguns textos de pessoas que me são próximas e por quem nutro admiração e respeito intelectual. Agradeço a elas imensamente a contribuição a este esforço.

***

Por Regina Helena Alves da Silva, historiadora e professora do Depto. de História e das Pós-Graduações em História e Comunicação da UFMG.

Pronto, a questão dos acervos, museus, espaços de ciência pelos quais tanto lutamos ganhou relevância no país e no mundo. A custa do que? de que? das nossas almas...
Hoje fiquei vendo as repercussões do incêndio que destruiu o Museu Nacional.... tem muito tempo que muita gente diz do perigo disso acontecer.... acontecer onde aconteceu e acontecer em centenas de outros lugares pelo país.
Uma comoção nacional ver as imagens do fogo, de repente muita gente entendeu que o Museu existia, o que era ele.
Mas ai comecei a ver a partidarização imbecil que nos domina discutir de quem é a culpa do incêndio. Vou resolver essa parte de uma vez: é nossa.
Vi coxas acusando o PT, vi bolsominions perguntando pra que museu e dizendo que tudo é culpa do PT, vi petistas dizendo que tudo é culpa dos tucanos, do golpe e claro... do PSOL...
Enfim, em um momento tão doloroso pra todxs nós que passamos a vida com a História, o patrimônio cultural, a memória, a ciência e a produção do conhecimento, ficamos a mercê da imbecilidade que domina o país com as explicações medíocres e toscas dos últimos tempos.
Sim todos temos culpas nessa área, todos nós.
A "terceirização" dessa área começou com 
a Lei Rouanet em 1991 no governo Collor, que vingou nos governos FHC. Desde então tudo é Lei Rouanet, acabou a gestão publica da cultura no país e tudo virou Lei Rouanet. 
Hoje o sinistro da Cultura deu uma coletiva dizendo que a Lei Rouanet estava disponível e perguntou porque a UFRJ não a usou....
Nós que ja fomos gestorxs de espaços culturais sabemos muito bem o que virou a politica cultural no país... virou uma política de editais, uma política onde lugares da importância do Museu Nacional tem que fazer projetos pra concorrer com shows, eventos, viagens, festivais, e sei la mais o que.
Professores da universidade assumem esses lugares e descobrem o mundo da infinita falta.
Todos absurdados porque não tinha "um moderno sistema de combate ao incêndio", alguém ai sabe quanto custa isso? quanto custa o projeto pra fazer o sistema? sabem quanto custa um seguro pra um lugar desses? claro que não.... mas vai você gastar com alguma desses coisas pra ver.... caem todos de pau dizendo que esta jogando dinheiro publico na lata do lixo.... e ainda riem....
Passei por tudo isso por 4 longos anos... e como me recusava a transformar um espaço da universidade em galeria de exposição paguei um preço alto por minhas escolhas para impedir que o prédio que administrei não pegasse fogo.... eu e muita gente passamos por isso.
Vimos os espaços públicos de cultura, de acervos, de pesquisa serem reduzidos a lugares de luta cotidiana para manutenção do que é de todos nós.
Vi um monte de gente dizendo: privatiza.... Não dá nem pra responder quem tem uma saída dessas pra esses lugares como o Museu Nacional... privatizar um lugar desses é solução dada por quem não sabe nada de nada e não consegue sequer entender a importância da Historia de onde habita.
O Museu queimou, foi a crônica de um desastre anunciado. Agora todos querem achar culpados, já disse, somos todos nós. Os tucanos que acham que tudo tem que ser privatizado e não sabem administrar a coisa pública. Os petistas que transformaram tudo em política de editais. O desgoverno golpista porque é constituído de canalhas que agora vêm a público dizer que "iam" fazer alguma coisa, mas não deu tempo.
Pra completar, em nome da tosquera que é esse desgoverno golpista, votaram uma PEC que diz conter gastos públicos.... só rindo de tamanha imbecilidade. Quem quer governar deveria no mínimo saber como faze-lo e não dizer que é melhor ferrar tudo porque não sabem como administrar seus gastos.
Fiquei ontem aqui sentada no sofá da minha casa, com meus filhos do lado, chorando..... eles não entendiam porque e olhavam as chamas na televisão tentando saber porque a mãe deles chorava. Consegui dizer que era porque estava queimando tudo aquilo pelo qual vivi minha vida inteira e que agora eu não poderia mais leva-los pra conhecer Luzia, pra ouvir cantos indígenas que não existem mais, pra conhecer um acervo africano que não existe em outro lugar do mundo.
Mas, principalmente, disse a eles que essas coisas estavam naquele lugar pra nos lembrar sempre que não podemos congelar a vida de quem nos constituiu, que Luzia era nosso começo e que, nossos índios, os africanos eram a memória do que o Estado português e brasileiro foi e é com seu povo e com os outros povos que subjugou e dominou. Disse a eles que lugares como o Museu Nacional são importantes porque guardam tudo que vamos nos tornando como povo, absolutamente tudo que fizemos. E que isso é importante principalmente para não apagarmos a memória do que já destruímos e de tudo que criamos e inventamos.
Disse a eles que muitos desses lugares guardam a história de quem nos dominou mas que isso era importante porque assim saberíamos sempre como eles foram e como eles guardaram nossas historias derrotadas ou não.
Mas principalmente disse a eles que eu chorava porque nunca mais poderia ir la com eles pra que eles entendessem o tamanho do que fomos e somos e que isso é fundamental pra que eles continuem......
Enfim, textão de novo porque a tristeza é tão profunda que não sei o que fazer

***
Por Rita Lages Rodrigues, historiadora e professora da Escola de Belas Artes da UFMG.

Tive a infelicidade de entrar no Museu do Amanhã em julho deste ano. Meu filho desejava ir ao Museu. Ao ver o fogo no Mseu Nacional pela tv, pensava: por que não o levei ao Museu Nacional? Arrependimento. Entre aparatos tecnológicos de pobreza conceitual, fiquei estarrecida com o museu sem acervo e com a pseudo interatividade de seu aparato tecnológico. Mesmo na sala de inteligência artificial, a decepção foi imensa. Faltava inteligência. Pra que um gasto tão grande para um museu cujas informações poderiam estar na internet e cuja fruição se daria praticamente da mesma forma? Fiquei olhando para logos de banco e Fundação Roberto Marinho e pensando nas distorções da distribuição de verba para a cultura. Na excrescência da tal Lei Rouanet. Espaços sem acervo, que não produzem pesquisa são espetacularizados para a venda, sem produzir nada além desse espetáculo vazio. Nós pagamos, os espaços recebem uma frequência de público alta em função da propaganda massiva de redes de televisão e bancos e justificam assim, em números, a sua "relevância". No caso das mega exposições do CCBB, outro espaço merecedor de crítica, é necessário também pensar no dinheiro público gasto para trazer acervos de fora, em projetos curatoriais sofríveis como o da exposição do Basquiat.
Tá, o prédio do Museu do Amanhã é um bom lugar pra selfies. É o único elogio que consigo fazer. Mas é um elefante branco pra população brasileira.

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Por Makely Ka, cantautor, poeta, produtor e ativista cultural, atuante na contra-indústria da cultura. 

Estive no Museu Nacional em 2004 e planejava voltar com meus filhos, cada vez mais interessados em história, paleontologia e cultura indígena. Mas para além de todo o acervo eu tinha interesse em um item muito específico. Pesquiso há alguns anos a história do antigo reino do Daomé - hoje República do Benim - para um trabalho que venho desenvolvendo sobre o personagem Francisco Félix de Souza, o Chachá.
Consta na historiografia que esse brasileiro conhecido como um dos maiores traficantes de escravos da época chegou à costa africana no final do século 18 e trabalhou na recuperação da Fortaleza de São João Batista de Ajudá, localizada na cidade de Uidá. Preso e torturado na capital histórica Abomé, ele teria conseguido escapar com a ajuda do príncipe Gakpé. Com apoio de Portugal o brasileiro ajudou o príncipe a derrubar o rei Adandozan (seu irmão paterno, conhecido pela crueldade com que governava) e assumir o trono do Daomé como o rei Ghezo. O monarca deposto foi preso e sua história apagada da linha sucessória real. Seu trono, peça exclusiva de cada governante esculpida em madeira com riqueza de detalhes simbolizando a ligação material do humano com o sagrado, precisava desaparecer, embora aparentemente não pudesse ser destruído por questões religiosas.
A peça não consta do acervo no Museu Histórico de Abomé. Há indícios de que o trono teria vindo para o Brasil em 1811 junto de outros objetos. Mas Adandozan foi deposto somente em 1818. Pouco provável que durante seu reinado o monarca tenha enviado o próprio trono para um país estrangeiro. A outra hipótese é que o trono teria chegado ao Brasil em 1822, quatro anos depois da queda do rei, como presente a Dom Pedro I pela declaração da independência. Segundo Pierre Verger muito provavelmente a mobília esculpida em uma só peça que ardeu no incêndio do museu tratava-se do trono real de Adandozan - enviado por Gakpé como retaliação por seu irmão ter vendido a rainha Ná Agontimé, sua mãe, como escrava.
Mulher do rei Agongló, após a morte do marido a rainha teria sido enviada ao Brasil como cativa e vivido no Maranhão, onde foi reconhecida sua linhagem real. Rebatizada como Maria Jesuína, os historiadores contam que ela comprou a própria alforria e a de seus súditos fundando a Casa das Minas, importante centro cultural e religioso onde ainda hoje se cultua os voduns, entidades da antiga religião daomeana e origem do tambor de crioula.
Outro detalhe interessante é que no Museu Histórico de Abomé os tronos da dinastia real não são mais os originais, queimados no ataque à cidade promovido pelo rei Behanzin em 1892. Portanto a peça que virou carvão no Museu Nacional do Rio de Janeiro era provavelmente o mais antigo e talvez o único trono original da dinastia dos reis daomeanos. Agora não dá mais para saber.
Cada um dos milhões de objetos que estavam ali carregava uma história, estava repleto de significado e simbologia, ligava um ponto da longa trajetória da nossa civilização e do nosso planeta ao presente em que vivemos. Tenho a impressão que vamos levar ainda muito tempo para entender a dimensão e as consequências do que aconteceu.
A revista científica Nature comparou o ocorrido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, uma catástrofe que destruiu o acervo de toda a antiguidade, o conhecimento de vários povos, línguas e culturas já extintas. Meu filho disse em tom de brincadeira que catástrofe maior do que essa para a ciência só o meteoro no Golfo do México, que extinguiu há milhões de anos a maior coleção paleontológica que já existiu. Mas a verdade é que os moleques ficaram bem tristes. E eu fiquei envergonhado, por fazer parte da geração que não vai deixar esse legado para eles.


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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Cidades mortas, acervos vivos

Cidades Mortas (2007), do historiador e estudioso do urbanismo Mike Davis, é um dos mais argutos diagnósticos do século XXI, publicado ainda na sua aurora (2002) e nos rastros de chamas e fumaça do 11 de setembro. O papel do medo na cultura contemporânea, a ascensão do fascismo, a perseguição aos imigrantes, o aperfeiçoamento do aparato de vigilância, a insustentabilidade do capitalismo e as contradições da globalização, tá tudo ali.


Seu segundo capítulo, Ecocídio na terra de Marlboro, é um contundente ensaio sobre a calamidade ambiental e social resultante da destruição e contaminação radiotiva pelo emprego reiterado de artefatos nucleares na "zona de sacrifício nacional" determinada pelo Pentágono no Oeste estadunidense, envolvendo estados como Califórnia, Nevada, Utah, e, em sua periferia, Colorado e Wyoming. O impacto de tais experimentos, cuja extensão talvez possa ser equiparada ao desconhecimento que os encobre, é de maior magnitude que o do desastre de Chernobyl, cuja exposição o autor compara, chamando a atenção para a relação do mesmo com o degelo e ocaso da antiga URSS. Uma das linhas de força do livro é mostrar que a Guerra Fria, mesmo sem ter se tornado "quente", deixou um rastro de vítimas e destruição, particularmente entre populações depauperadas e com pouco poder  político, sobrevivendo em regiões que já eram inóspitas. [foto acima, Carole Gallagher]



O que me fez escrever esse texto aqui é que essa denúncia contundente da calamidade atômica feita por Davis constitui-se como um ensaio sobre acervos fotográficos de caráter artístico e documental, como as séries "The Pit" e "Bravo 20" dos Desert Cantos de Richard Misrach [aqui para conhecer um pouco mais de sua obra] ao trabalhos de grupos de fotógrafos ativistas como os Fotógrafos Atômicos, como Carole Gallagher e seu trabalho American Ground Zero, que conjuga história oral e registro fotográfico, mas retomando as referências compartilhadas que conferem "autoridade histórica" (DAVIS, 2007, p.56) aos projetos, como o arquivo dos grandes levantamentos científicos e topográficos do Oeste feitos no século XIX e os registros da Grande Depressão pelos fotógrafos da FSA (Farm Security Administration), como Dorothea Lange [foto abaixo, dela, Migrant Mother, 1936].  



O valor de manter e dar acesso, seja a pesquisadores ou ao público em geral, de acervos dessa natureza, é inestimável. Escrevo essas linhas com particular convicção na semana em que o grupo de pesquisa ESTOPIM, do qual sou um dos coordenadores, inicia a mostra e oficina Horizonte em Foco no Museu da Imagem e do Som BH, na sua unidade Cine Santa Teresa, cujo intuito é justamente mobilizar o acervo da instituição para refletir sobre a cidade, seu história e seu patrimônio cultural. Também me motiva o retorno às aulas nesta semana, até porque leciono Função social dos museus, além de Tipologia de museus na graduação em Museologia e da disciplina Memória, Patrimônio e Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na ECI/UFMG. Estou fortemente inclinado a incluir o Mike Davis na bibliografia. 


segunda-feira, 13 de março de 2017

A volta ao mundo em 80 museus - 2. Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago do Chile


Universidade Federal de Minas Gerais
Curso: Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus
Prof.: Luiz Henrique Assis Garcia
Aluna: Elizabeth Castro Moreno

Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago do Chile 
 
Estive recentemente em Santiago do Chile e visitei o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, um dos museus mais emocionantes que já vi. O objetivo do museu, inaugurado em 2010, vai muito além de retratar o que ocorreu no período da ditadura militar no Chile. Em sua exposição permanente, além de mostrar os fatos ocorridos entre 1973 e 1990 através de imagens, documentários, depoimentos, cartas, fotos, recortes de jornais, a exposição nos transporta à realidade vivida pelo povo chileno nesse período e compreende-se como os acontecimentos que afetaram a vida de milhares de famílias contribuíram para formar a consciência da nação. 

 
Como museóloga em formação, não pude deixar de admirar a expografia da mostra. O rico acervo documental, de imagens e artefatos é apresentado de forma didática e comovente, causando um impacto muito grande nos visitantes. Percebe-se a profunda a relação entre os objetos/documentos expostos e a memória desse povo (fato museal). Logo na entrada, uma mensagem: El Museo es una escuela. El artista aprende a comunicar-se, el público aprende a hacer conexiones. 
 
O edifício, projetado para ser esse museu, é obra de uma equipe de arquitetos brasileiros, de São Paulo (Mario Figueiroa, Lucas Fehr e Carlos Dias) e impressiona pela imponência e simplicidade de linhas. Um enorme bloco de paredes de vidro verde e estruturas metálicas é apoiado em dois blocos de concreto (Figura 2).  
No seu interior, vãos livres são usados como espaço expositivo, permitindo o percurso livre do visitante. A iluminação é natural, com o auxílio de alguma iluminação indireta no teto. O mobiliário é composto por cubos brancos ou vermelhos e alguns painéis em madeira.  O museu é acessível a pessoas com necessidades especiais, pelo espaço e variedade de recursos utilizados para a comunicação; são usadas imagens, gravações e vitrines acessíveis.
 
No primeiro andar são apresentados vários documentários sobre o cerco ao Palácio La Moneda, pelos militares, em 11 de setembro de 1973, exigindo a renúncia de Salvador Allende. Os bombardeios ao Palácio, os tanques na Praça da Constituição, a detenção de pessoas nas ruas, o último discurso de Allende. Acompanhando os acontecimentos como se fosse ao vivo, é possível se envolver com os relatos e vídeos a ponto de, em alguns momentos, esperar-se um desfecho diferente para os fatos. No espaço “Repressão e Tortura” ouve-se os testemunhos de pessoas que foram detidas e submetidas a torturas físicas e mentais. São expostos e descritos os objetos e técnicas de tortura utilizadas. Um aparelho de eletrochoque ligado à uma cama de ferro é o cenário de uma dessas sala, onde são apresentados vídeos com entrevistas em que os ex-detentos relatam os sofrimentos a que eram submetidos. Segundo informações do museu, no dia 11 de setembro foram registradas 598 mortes, 274 detenções com desaparecimento e 19.083 prisões (presos políticos torturados).  

Um dos espaços mais comoventes é chamado “El Dolor de los Ninõs”, onde estão expostas as cartas e desenhos das crianças deportadas e adotadas em outros países da América do Sul e Europa (Figura 3). Nessas cartas, enviadas aos familiares no Chile, as crianças pedem notícias dos pais e avós e relatam o seu sofrimento por estarem longe da família, vivendo entre pessoas com outros hábitos e culturas. Em uma carta emocionante, um menino de 9 ou 10 anos adotado por uma família austríaca, relata com tristeza como era tratado como diferente pelas crianças da escola, que estranhavam sua pele “marrom” e seus olhos pretos. Com uma espontaneidade infantil, ele pergunta aos parentes porquê as crianças brancas de olhos azuis não aceitam que existam pessoas de outras cores, e comenta que em seu país todos são marrons e ele sempre foi muito querido e feliz. Em outra carta, por se aproximar o dia dos avós, uma criança escreve para D. Lúcia, esposa de Pinochet, apelando para o seu lado bom e pedindo noticias de seus avós, desaparecidos políticos. Outro setor bastante impressionante é a exposição dos artefatos feitos pelos presos para serem entregues a seus filhos, como bonecas feitas de pedaços de tecido ou couro, desenhos ou poemas escritos em pequenos pedaços de papel, colares ou adornos ou as cartas escritas pelos presos aos familiares antes de serem executados. 
 
No segundo andar, no setor da Verdade e Justiça, em um extenso corredor, são apresentados recortes de jornais, cartazes, vídeos, mostrando os movimentos criados pelas famílias dos desaparecidos, na busca por seus entes queridos. São apresentadas as organizações formadas para denunciar os abusos cometidos pelos militares, as ações na justiça, as manifestações populares. Toda a extensão de uma parede, do primeiro ao segundo andar é coberta por um mural com fotos de centenas de desaparecidos (Figura 4). Através de um monitor com tela touch, é possível selecionar uma foto e acessar seus dados, como idade, sexo, profissão, local onde foi visto pela ultima vez e os informes das Comissões da Verdade sobre o seu caso. É um setor, chamado de “Ausência e Memória” para se velar os desaparecidos. Centenas de velas elétricas artificiais cercam o ambiente. 


Um ultimo espaço é reservado para a “Esperança”. Música, poemas, pinturas, gravuras, são mostradas como expressões artísticas produzidas durante a ditadura, quando a censura limitava qualquer tipo de exibição. Um vídeo leve e divertido mostra a campanha desenvolvida na televisão para o plebiscito de 1988, que decidiu sobre o futuro político do país. Conhecido como “No” foram criados vários clipes para incentivar a população a votar “Não” à permanência de Pinochet no poder. O percurso termina com o fim da ditadura. 
 
Mas a exposição não é só sobre o Chile. No hall de entrada há centenas de fotos que retratam algum tipo de violação dos direitos humanos, dispostas em um enorme mapa-múndi (Figuras 5 e 6). A mostra é baseada nos Relatórios das Comissões da Verdade, designadas para apurar violações dos direitos humanos em todo o mundo e criar políticas de reparação nos países de origem. 

 


Abaixo desse mapa, pequenas placas contem informações sobre as datas de fundação dessas comissões em cada país, o período investigado, os objetivos e os resultados obtidos. Investigações sobre sequestros, detenções, assassinatos, desaparições, torturas, atos de barbárie, maus tratos e outros atentados contra a integridade física e ou mental de pessoas, práticas discriminatórias, tráfico de drogas, são alguns dos objetivos dessas comissões (Figura 7). É com certo alívio que se vê que muitos casos foram encerrados e os objetivos atingidos. Há informações sobre o número de vítimas atingidas, o número de corpos encontrados, e a data de encerramento das investigações.
Infelizmente, a placa do Brasil sobre as investigações dos crimes cometidos durante a ditadura militar, no período de 1946 a 1988, informa que a investigação ainda não foi encerrada e ainda não há resultados conclusivos. 
 
A exposição do hall informa também que em todos os locais onde há investigações, por iniciativas das comunidades locais, são construídos Memoriais, como o objetivo de dar maior visibilidade aos crimes cometidos e como forma de homenagear as vítimas dos abusos. Em cemitérios, prisões, sítios onde são achadas ossadas das vitimas, ou em bairros onde estas viviam, se instalam monumentos, placas comemorativas de mármore, cobre, madeira ou esculturas para recordar os ausentes (Figuras 8 e 9). Lugares de memória. Fotos desses memoriais e a descrição pormenorizada de cada um pode ser vista em vídeos. A exposição desse conjunto de memoriais é bastante impactante para qualquer visitante. Os relatos sobre os acontecimentos no Chile apresentados no museu foram elaborados pela Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação (1990), pela Corporação Nacional de Reparação e Reconciliação (1996), pela Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (2004) e pelo Relatório da Comissão Presidencial Assessora para a Qualificação de Presos Políticos Desaparecidos e Executados Vitimas de Prisão Política (2011). 
 
O Museu da Memória e dos Direitos Humanos é um museu que, sem dúvida, atinge os objetivos de preservação da herança patrimonial e de comunicação dessa herança.
Em várias ocasiões, durante os três dias que passei em Santiago, tive oportunidade de conversar com chilenos na rua, em bares e restaurantes, e todos com quem conversei demonstravam uma forte consciência nacional. Este e outros museus locais são bem conhecido pelo povo. Em todos os museus que visitei vi crianças acompanhadas pelos parentes ou escolas, em visitas guiadas ou espontâneas, um exemplo que nosso país precisa seguir. Com exceção do hall de entrada, a exposição não pode ser fotografada e algumas imagens foram, portanto, obtidas em sites da internet.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Memória, Sociedade e Informação - DISCIPLINA OPTATIVA PPGCI

Este semestre, por um bom motivo, não vou ofertar optativa na graduação. Finalmente, depois de longo e tenebroso inverno, vou atuar novamente em Pós Graduação. O Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação da ECI/UFMG passa por intensa reformulação e passará a contar com linhas de pesquisa e disciplinas alinhadas com um projeto de investigação dos campos da Cultura, do Patrimônio, da Memória Social e da Museologia, com o qual estou comprometido. 
Eis aí a ementa da disciplina:

Partindo da distinção traçada por Aristóteles entre lembrança (mneme) e recordação (anamnesis), a disciplina propõe um estudo dos usos sociais da memória. Traça um panorama que considera as transformações históricas e as diferentes perspectivas conceituais adotadas por variadas correntes de pensamento, incluindo a memória social e os estudos de patrimônio, a tradição da mnemônica, as relações entre memória e narrativa, as relações entre memória e teoria crítica, e as recentes discussões sobre a chamada memória cultural. Esse aparato teórico embasará um debate sobre a memória e a informação na sociedade contemporânea, envolvendo as relações entre passado/presente e a comodificação da nostalgia; as políticas de patrimônio e de rememoração/esquecimento de experiências históricas traumáticas; o impacto das NTICs no contexto da sociedade do espetáculo e das redes sociais em meio digital; seja em contextos institucionais de bibliotecas, arquivos e museus ou em espaços não intitucionalizados que estejam envolvidos nas disputas públicas em torno da memória. 

 



Algumas das leituras são velhas conhecidas. Mas claro, ter a oportunidade de debater com maior densidade alguns clássicos e textos de referência é algo digno de comemorar. Além dos principais estudiosos brasileiros e das figuras consagradas com quem sempre podemos aprender, teremos ainda o que para muitos poderá ser novidade, como trabalhos de estudiosos latino-americanos e uma vasta bibliografia em inglês, perpassando especialmente os Estudos de Museu, antropologia, geografia cultural e trabalhos mais recentes sobre Memória. Uma pequena amostra:

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BENJAMIN, Walter.  Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG / São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3a ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
RICOEUR, Paul. A Memória, a Historia, o Esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007. 
SAMUEL, Raphael.  Theatres of Memory: Past and Present in Contemporary Culture v. 1. London: Verso, 1994.

Alguns destaques da 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ANDERSON, Gail (Ed.). Reinventing the Museum: historical and contemporary perspectives on the paradigm shift. Walnut Creek: Altamira Press, 2004.  
ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011, 453p.
BARRETT, Jennifer. Museums and the Public Sphere. Wiley-Blackwell, 2012.
DICKINSON, Greg; BLAIR, Carole; OTT, Brian L. (eds.). Places of Public Memory: The Rhetoric of Museums and Memorials. University Alabama Press, 2010.
ERLL, Astrid. Memory in Culture. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.
HOOPER-GREENHILL, E. Museums and the shaping of knowledge. London: Routledge, 1992.
HUYSSEN, Andreas . Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Standford: Stanford University Press, 2003.
HERZFELD, Michael. A place in History. Princeton: Princeton University Press , 1991.
KARP, Ivan.; LAVINE, Steven, ROCKEFELLER FOUNDATION. Exhibiting cultures: the poetics and politics of museum display. Washington: Smithsonian Institution Press, 1991.
KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara. Destination Culture: Tourism, Museums, and Heritage. California: University of California Press; First Printing edition, 1998.
LOWENTHAL, David. The Past is a Foreign Country Cambridge and. New York: Cambridge University Press, 1985.
PEARCE, Susan M. On collecting: an investigation into collecting in the European tradition. London: Routledge, 1995.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. SP: Editora Companhia das Letras, 2003.
SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.
SARLO, Beatriz. Tiempo presente. Buenos Aires: Siglo XXI, 2003.
SPENCE, J. D. O palácio da memória de Matteo Ricci. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
SIMINE, Silke ARNOLD-de.Mediating Memory in the Museum: Trauma, Empathy, Nostalgia. Palgrave Macmillan, 2013.
VIDAL-NAQUET. Pierre. Os Assassinos da Memória. Campinas: Papirus, 1988.
YATES, Frances A. A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.


Como de costume, são abertas vagas para estudantes que queiram fazê-la como isolada. A princípio posso oferecer 3 vagas, e sugiro que quem se interessar procure se informar o quanto antes. Vai ser uma concorrência apertada.

Contatos da Secretaria da Pós:
Fone: (31) 3409-5207 (Seção de ensino) - (31) 3409-6103 (Colegiado)
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