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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Memória, Sociedade e Informação - DISCIPLINA OPTATIVA PPGCI

Este semestre, por um bom motivo, não vou ofertar optativa na graduação. Finalmente, depois de longo e tenebroso inverno, vou atuar novamente em Pós Graduação. O Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação da ECI/UFMG passa por intensa reformulação e passará a contar com linhas de pesquisa e disciplinas alinhadas com um projeto de investigação dos campos da Cultura, do Patrimônio, da Memória Social e da Museologia, com o qual estou comprometido. 
Eis aí a ementa da disciplina:

Partindo da distinção traçada por Aristóteles entre lembrança (mneme) e recordação (anamnesis), a disciplina propõe um estudo dos usos sociais da memória. Traça um panorama que considera as transformações históricas e as diferentes perspectivas conceituais adotadas por variadas correntes de pensamento, incluindo a memória social e os estudos de patrimônio, a tradição da mnemônica, as relações entre memória e narrativa, as relações entre memória e teoria crítica, e as recentes discussões sobre a chamada memória cultural. Esse aparato teórico embasará um debate sobre a memória e a informação na sociedade contemporânea, envolvendo as relações entre passado/presente e a comodificação da nostalgia; as políticas de patrimônio e de rememoração/esquecimento de experiências históricas traumáticas; o impacto das NTICs no contexto da sociedade do espetáculo e das redes sociais em meio digital; seja em contextos institucionais de bibliotecas, arquivos e museus ou em espaços não intitucionalizados que estejam envolvidos nas disputas públicas em torno da memória. 

 



Algumas das leituras são velhas conhecidas. Mas claro, ter a oportunidade de debater com maior densidade alguns clássicos e textos de referência é algo digno de comemorar. Além dos principais estudiosos brasileiros e das figuras consagradas com quem sempre podemos aprender, teremos ainda o que para muitos poderá ser novidade, como trabalhos de estudiosos latino-americanos e uma vasta bibliografia em inglês, perpassando especialmente os Estudos de Museu, antropologia, geografia cultural e trabalhos mais recentes sobre Memória. Uma pequena amostra:

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BENJAMIN, Walter.  Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG / São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3a ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
RICOEUR, Paul. A Memória, a Historia, o Esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007. 
SAMUEL, Raphael.  Theatres of Memory: Past and Present in Contemporary Culture v. 1. London: Verso, 1994.

Alguns destaques da 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ANDERSON, Gail (Ed.). Reinventing the Museum: historical and contemporary perspectives on the paradigm shift. Walnut Creek: Altamira Press, 2004.  
ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011, 453p.
BARRETT, Jennifer. Museums and the Public Sphere. Wiley-Blackwell, 2012.
DICKINSON, Greg; BLAIR, Carole; OTT, Brian L. (eds.). Places of Public Memory: The Rhetoric of Museums and Memorials. University Alabama Press, 2010.
ERLL, Astrid. Memory in Culture. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.
HOOPER-GREENHILL, E. Museums and the shaping of knowledge. London: Routledge, 1992.
HUYSSEN, Andreas . Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Standford: Stanford University Press, 2003.
HERZFELD, Michael. A place in History. Princeton: Princeton University Press , 1991.
KARP, Ivan.; LAVINE, Steven, ROCKEFELLER FOUNDATION. Exhibiting cultures: the poetics and politics of museum display. Washington: Smithsonian Institution Press, 1991.
KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara. Destination Culture: Tourism, Museums, and Heritage. California: University of California Press; First Printing edition, 1998.
LOWENTHAL, David. The Past is a Foreign Country Cambridge and. New York: Cambridge University Press, 1985.
PEARCE, Susan M. On collecting: an investigation into collecting in the European tradition. London: Routledge, 1995.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. SP: Editora Companhia das Letras, 2003.
SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.
SARLO, Beatriz. Tiempo presente. Buenos Aires: Siglo XXI, 2003.
SPENCE, J. D. O palácio da memória de Matteo Ricci. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
SIMINE, Silke ARNOLD-de.Mediating Memory in the Museum: Trauma, Empathy, Nostalgia. Palgrave Macmillan, 2013.
VIDAL-NAQUET. Pierre. Os Assassinos da Memória. Campinas: Papirus, 1988.
YATES, Frances A. A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.


Como de costume, são abertas vagas para estudantes que queiram fazê-la como isolada. A princípio posso oferecer 3 vagas, e sugiro que quem se interessar procure se informar o quanto antes. Vai ser uma concorrência apertada.

Contatos da Secretaria da Pós:
Fone: (31) 3409-5207 (Seção de ensino) - (31) 3409-6103 (Colegiado)
e-mail: ppgci@eci.ufmg.br

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um museu do PCC

Assistindo essa reportagem, não pude deixar de pensar em quão distantes os museus estejam de abordar os grandes conflitos que constituem o teor dos dias correntes. Nas tensões disparadas desde o ano passado, que tomaram o corpo de poderosas manifestações coletivas, a sociedade brasileira colocou em questão diversos de seus problemas estruturais, dentre os quais a segurança pública, o papel da polícia e do sistema judiciário. O saldo até então é essencialmente de sangue e barbárie, ainda que ao menos se pode constatar que alguns debates ocorrem e podem dar sinais de que mudanças são necessárias e desejadas. Enquanto um agente carcerário anônimo se ocupa de reunir um acervo cujo objetivo é contar um parte da história de uma facção criminosa e sua presença no cotidiano dos presídios, assombra-nos o silêncio dos museus. Se são eles espaços em que está colocada a possibilidade de entendimento, de compreensão, é sintomático que pouco ou nada tenham a dizer sobre essa ou outras formas de violência que marcam esse momento da história. E esse desconhecimento tem, certamente, um enorme custo social.



O museu da facção from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Vão livre?

O artigo "O MASP e a casa da sogra", de Raquel Rolnik, abordando a ocupação do vão livre do MASP, põe em discussão vários assuntos que foram abordados nas disciplinas que lecionei nesse semestre que se encerra: Tipologia de museus, Função social dos museus e Museu e cidade.Assim para marcar o encerramento das atividades reproduzo aqui alguns trechos, convidando que se interessar a ler o texto completo e deixar aqui algum comentário ou impressão. E boas férias! (Luiz H. Garcia)

"Há duas semanas o "Estadão" [aqui] defendeu em seu editorial o cercamento do vão livre do Masp como forma de proteger o museu da ameaça de "viciados", "traficantes", "moradores de rua" e "grupos de manifestantes" que tomaram conta do espaço.
O jornal reverberou declarações do curador do museu, Teixeira Coelho, que, diante da recusa do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional em aceitar seu pedido de instalação de grades no vão livre, classificou tal posição como 'um atraso'."


"Não é à toa que o Masp se tornou um dos símbolos de São Paulo, além de um dos lugares mais apropriados pelos paulistanos. Poucos são os espaços da cidade que estabelecem uma relação tão bem-sucedida entre o público e o privado, a cultura, a arte e a vida cotidiana dos cidadãos.
Na contramão dos equipamentos culturais desenhados para serem monumentos de celebração a uma arte-mercadoria, glamourizada e identificada com as elites, o Masp nasceu para ser uma espécie de antimuseu, radicalmente aberto para a cidade."



"Não são as grades nem a repressão policial que vão enfrentar a situação de vulnerabilidade em que se encontram muitos paulistanos. Se eles estão ali, expondo a precariedade e a situação limite de sua existência, é porque, simplesmente, não há nada nem ninguém que os acolha, propondo alternativas reais para essa situação.
A imagem das barracas armadas no Masp só afirma a urgência de implementação de políticas que avancem nesta direção. Uma boa gestão de cidade mantém a qualidade de seus espaços públicos cuidando tanto de seu estado físico de conservação quanto da vulnerabilidade de parte de seus cidadãos.
Se o vão livre do Masp tem sido cada vez mais palco de manifestações, é justamente por acolher de forma tão eloquente uma das reivindicações centrais dos protestos recentes: a necessidade de constituição de uma esfera verdadeiramente pública no Brasil"