Mostrando postagens com marcador Coleções. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coleções. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de abril de 2017

Há controvérsias

 A Revista Época publicou online agora em abril uma matéria com o seguinte título: 
Lei obriga os museus brasileiros a tomar mais cuidado com seu acervo [ver completa]

 (Foto: Pedro Farina/ÉPOCA)

Em tempo, queria dizer algumas coisas. Tornou-se um clichê que as matérias que abordam o patrimônio cultural recorrentemente partam de pautas calcadas na polêmica e na denúncia. É desagradavelmente irônico que se mencione o estatuto dos museus numa matéria assim, e nos 8 anos em que está em vigor não deva ter sido citado em matérias que abordassem seus efeitos positivos. Não quero varrer as falhas para debaixo do tapete, mas simplesmente analisar a forma como a grande imprensa cobre esses assuntos. Como formadores de opinião que são, esses veículos perdem sistematicamente a oportunidade de levar ao cidadão uma informação mais qualificada a respeito do trabalho que é feito pelas pessoas que atuam no Ibram, nas instituições museológicas e outros órgãos que atuam no campo do Patrimônio. Adoram também se autopromover lançando mão do que na verdade foi realizado justamente por aqueles que criticam. Vejamos:

 "Assim foram criadas relíquias como a forca que matou Tiradentes, a espada que Pedro I ergueu no Grito do Ipiranga, a farda usada por Marechal Deodoro na Proclamação da República, criações que a reportagem de ÉPOCA tenta desmistificar ao longo desta reportagem."
A forma como o texto é redigido dá a entender que a desmitificação dessas relíquias é fruto da reportagem, e não que é um trabalho feito há décadas por inúmeros pesquisadores, ao qual a reportagem está tendo acesso por entrevistas ou pesquisas (não quero generalizar aqui, mas repórter de hoje não faz pesquisa, liga pro pesquisador, pergunta o que quer saber, só escreve se gostou da resposta, nem sempre fala obrigado e muito menos cita quem lhe forneceu a informação). Há um tremendo equívoco na redação mesmo, pois basta ler a matéria para perceber que o questionamento sobre o objeto está sendo feito na própria instituição. Mas aqui sejamos francos. Os museus falham absurdamente em levar esse conhecimento, esse questionamento sobre seu acervo, as lacunas de documentação e inconsistências da aquisição para o público. Não conseguem muitas vezes ver que uma abordagem crítica desses artefatos e da forma como passaram a figurar em seu acervo e exposições seria formadora de uma forma que a reverência acrítica e acobertada por narrativas nebulosas jamais pode ser.
Outra coisa irritante é como adoram imputar tudo à instância pública, como se não houvessem várias instituições privadas que incorressem nessas mesmas falhas - e talvez a maioria delas, muitas vezes laudatórias porque foram criadas para exaltar pessoas, empresas, grupos sociais específicos que costumam ser seus patrocinadores.
Mas essas não são, nem de longe, as principais controvérsias a serem abordadas quando se trata dos museus brasileiros. Por mais que tente a matéria não consegue evitar o senso comum e uma visão meio fetichista, concentrada na suposta autenticidade que poderia ser apurada dos itens que elenca.Ora, sendo assim, se a espada fosse comprovadamente de D.Pedro I, por exemplo, a construção de uma interpretação sobre a Independência poderia continuar lançando mão da relíquia 'autenticada'? Mesmo picotadas pela impiedosa edição que comumente as redações aplicam às falas dos especialistas, podemos entrever nos trechos que restaram que o posicionamento dos profissionais é crítico e revela, ao contrário do que a matéria insinua desde a manchete, que não é ter ou não a lei que faz o museu reinterpretar seu acervo, e sim a atuação de pessoal capacitado e comprometido, especialmente se tiver boas condições de trabalho. O que a matéria apura, em relação a isso? 
A controvérsia mesmo, a meu ver, recai sobre o sentido social e político das instituições, no caso com o foco da matéria recaindo um pouco mais para os museus históricos, e, portanto, para as interpretações da História do Brasil que eles ajudam a produzir e difundir. Seria realmente querer demais que a revista conseguisse elucidar para o leitor a compreensão atual que historiadores, museólogos e demais profissionais envolvidos nesse trabalho desenvolveram sobre o que é o resultado das investigações em História e como a controvérsia e o embate de interpretações são constitutivas do que será a sua narração, e que, muito mais que autenticar o que quer que seja, o objetivo maior é auxiliar o público a desenvolver a capacidade de refletir sobre como e porque uma determinada versão do passado é produzida, como os artefatos compõem as tramas, e como o conhecimento da História é transformado por meio de incessantes contestações baseadas no estudo das evidências.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Função social e política de acervos em dois museus de Belo Horizonte



UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA D INFORMAÇÃO
MUSEOLOGIA

Monitoria: Função Social dos Museus
Bolsista: Julianne Paranhos
Orientador: Luiz Henrique Assis Garcia

Função social e política de acervos em dois museus de Belo Horizonte
Julianne Paranhos

Os museus são espaços que lidam diretamente com a percepção do tempo social e histórico a partir da organização de acervos e coleções, sejam eles tridimensionais, documentais, audiovisuais, dentre outros suportes. Por esta perspectiva, a ideia de que esta instituição se encarrega apenas do passado é uma falácia: os museus são espaços de encontro entre tempos. Com função social múltipla – seja para conservar, pesquisar, entreter e expor as culturas, as identidades e as memórias – os museus também devem atuar na busca de elementos potenciais para ampliar e completar suas coleções e dessa forma aprofundar sua atuação como espaços de representação simbólica.
Entender os museus, enquanto público ou como pesquisadores e profissionais, é ter em mente a necessidade de experimentá-los pela vivência. É preciso estar nos museus. Desta forma, os alunos da disciplina Função Social dos Museus, oferecida pelo curso de Museologia da UFMG e lecionada pelo Professor Luiz Henrique Assis Garcia, desenvolveram no segundo semestre de 2016 trabalhos de pesquisa através do contato direto com o Museu da Imagem e do Som (MIS) e o Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), com o intuito de proporcionar uma experiência prática e de pesquisa. A partir de uma parceria entre o curso de Museologia (UFMG/ECI) e a Fundação Municipal de Cultura (FMC) - através da Diretoria de Museus – formalizada no projeto de extensão Concepção e implementação de protocolo de política de acervos – registro de doadores potenciais, os alunos da disciplina tiveram a oportunidade de conhecer e se aproximar da realidade destas instituições por meio de reuniões com profissionais destes museus e da FMC, visitações e realização de entrevistas.
A partir do contato mais direto com a natureza dos acervos destes museus, as atividades por eles desenvolvidas e da relação destas instituições com a cidade de Belo Horizonte, foram realizados breves diagnósticos. O passo seguinte foi a identificação de potenciais doadores habitantes da cidade de Belo Horizonte, como uma das formas pelas quais os museus podem preencher possíveis lacunas em seus acervos.
No caso do Museu da Imagem e do Som os alunos [Grupo: Bianca Ribeiro; Haelton Oliveira; Isac Santana; Larissa Oliveira; Letícia Carvalho / Grupo: Dayana Mesquita; Hudson Diaz; Luísa Lourenço; Thais Adriane; Thais Diaz; Thelma Palha] diagnosticaram a saturação de acervos tridimensionais e a necessidade de novas tipologias como acervos iconográficos e filmográficos assim como a necessidade de inserir a produção contemporânea. No primeiro, a busca pela lacuna em uma coleção nos leva a repensar o acervo e à necessidade de aplicar e desenvolver políticas de descarte. No segundo e terceiro itens encontram-se a chave pela qual serão planejados métodos de reconhecimento dos doadores. Neste caso os alunos identificaram dois doadores residentes da cidade e três instituições, sendo estas o Museu dos Militares Mineiros (acervo: audiovisual); Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino (acervo: audiovisual); e Centro de Memória da Veterinária (acervo: audiovisual e tridimensional).
Já no caso do Museu Histórico Abílio Barreto as lacunas observadas referem-se, por exemplo, à ausência de um acervo que remeta à economia informal, as ocupações e assentamentos, grupos folclóricos e congados que atuam na cidade [Grupo: André Luiz Lara Lima; Daniel Xavier Henriques; Luana do Carmo Pirajá Ferraz Santos; Maria de Lourdes Oliveira e Silva / Grupo: Alessandra Guimarães, Amanda Marzano, Daniela Barbosa, Gabriela Gomes e Igor Costa]. Como proposta, foram identificados como possíveis doadores ao museu os colecionadores Jeferson Rios e Antônio Objeteiro. De outro lado, pensando que esta forma de trabalho proposta ao MIS e MHAB pode contribuir para uma representação da cidade em sua dinâmica - o estar na cidade e assim, suas apropriações e ocorrências culturais cotidianas - foram identificados, por exemplo, artistas e fotógrafos cujos trabalhas estão ou diretamente ligados à experiência urbana ou ao seu consumo e apropriação com é o caso do Duelo de MC’s, que motivou a apropriação do viaduto de Santa Teresa.
A identificação dos possíveis doadores, além de ser um meio pelo qual os museus podem ampliar seus acervos, diversificar os recortes curatoriais e ainda ampliar a compreensão sobre suas naturezas institucionais e finalidade enquanto espaços da representação simbólica do social e da memória possibilita, por meio da pesquisa de campo, sua aproximação com a sociedade e faz de sua função social para além da ideia de “lugar de coisa velha”. Como um lugar dinâmico e que transita entre tempos, esse tipo de ação museológica proporciona aos museus um meio de aproximação com a sociedade e a construção de seus espaços como lugares mais democráticos.




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Espíritos do Antigo Egito

Ando pensando que seria interessante discutir especificamente o caso do colecionismo de objetos do Egito Antigo no século XIX, considerando o contexto brasileiro.

Da matéria do Jornal Hoje [completa aqui]

"(...) O Brasil é um dos poucos países a manter intacta uma múmia do Antigo Egito. Isso porque os pesquisadores do Museu Nacional do Rio estão usando a tomografia computadorizada para desvendar os segredos guardados durante milhares de anos. (...) É a maior coleção da América Latina. As relíquias do Egito Antigo foram compradas em 1826 por Dom Pedro I. Elas mostram a importância da mumificação para os egípcios. “Até recentemente era comum desenfaixar as múmias. Você pegava o corpo, e pra saber o que tinha lá dentro, você acabava destruindo o corpo. Hoje em dia a gente consegue ter uma visão até melhor do que se abrisse o corpo”, explica o egiptólogo Antonio Brancaglion Junior.


sábado, 8 de março de 2014

Coleção Hannah Arent e os vestígios de uma trajetória intelectual

 A Coleção Hannah Arendt inclui centenas de volumes com com anotações e indicações às margens. A principal missão do projeto é preservar e catalogar todos os itens de sua biblioteca pessoal. Certamente uma preciosa fonte de pesquisa para os que desejam ampliar a compreensão sobre a trajetória intelectual e aspectos específicos da obra de Arendt. Se projetos de digitalização massiva de arquivos e bibliotecas tem grande impacto sobre o acesso aos conjuntos documentais e ao patrimônio cultural de forma geral, não é menos relevante reconhecer que isso se deve ao esforço inicial de reunir, preservar, organizar e pesquisar um acervo qualquer. Usufruamos. LINK


The Hannah Arendt Collection includes hundreds of volumes with marginalia and annotations, and it is our goal in perserving this collection, to scan and digitize all of the pages with Arendt's unique markings. The examples below (in PDF format) represent the beginning of this process, which has been supported by a generous grant from the Andrew W. Mellon Foundation. Each listing indicates the size in megabytes and total number of scans (including covers, title pages and table of contents where appropriate). This collection is organized alphabetically by the author's last name. Click the cover image on the left to view/download PDF.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um museu do PCC

Assistindo essa reportagem, não pude deixar de pensar em quão distantes os museus estejam de abordar os grandes conflitos que constituem o teor dos dias correntes. Nas tensões disparadas desde o ano passado, que tomaram o corpo de poderosas manifestações coletivas, a sociedade brasileira colocou em questão diversos de seus problemas estruturais, dentre os quais a segurança pública, o papel da polícia e do sistema judiciário. O saldo até então é essencialmente de sangue e barbárie, ainda que ao menos se pode constatar que alguns debates ocorrem e podem dar sinais de que mudanças são necessárias e desejadas. Enquanto um agente carcerário anônimo se ocupa de reunir um acervo cujo objetivo é contar um parte da história de uma facção criminosa e sua presença no cotidiano dos presídios, assombra-nos o silêncio dos museus. Se são eles espaços em que está colocada a possibilidade de entendimento, de compreensão, é sintomático que pouco ou nada tenham a dizer sobre essa ou outras formas de violência que marcam esse momento da história. E esse desconhecimento tem, certamente, um enorme custo social.



O museu da facção from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Tipologia de Museus - Por que colecionamos?

Coleção Particular: Maria Alice Faria

? POR QUE COLECIONAMOS ?

Este trabalho foi desenvolvido em Novembro de 2013 como critérios 
de  avaliação parcial na disciplina Tipologia de Museus, ofertada no 
Curso de Museologia pela Escola de Ciência da Informação (ECI),  na
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ministrada pelo 
Profº Luiz Henrique Garcia.

Grupo: Amélia, Maria Ângela, Thelma, Vivien

flâmulas I frascos de perfumes I bolas de gude I tickets de metrô I xícaras I tampinhas I sapatos I rolhas I carrinhos I licoreiras I imaginária barroca I figurinhas I fósseis I latas I cartões de telefone I papéis de bala I chaveiros I pinturas I  selos postais I esculturas I rótulos I chaveiros I artefatos I miniaturas I
Segundo Pomian, entende-se por coleção, qualquer conjunto de objetos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas, sujeitos a uma proteção especial num local fechado preparado para esse fim, e expostos ao olhar público.
Algumas pessoas possuem um “museu particular”, quase sempre subprodutos da sociedade de consumo, como latas, cartões de telefone, tickets de metrô, papéis de bala, rótulos, tampinhas de refrigerantes, entre outros. Não existe um fator determinante para este fenômeno, mas, parece corresponder, em certos indivíduos, a um instinto, um impulso.
Segundo estudiosos, dos sete aos doze anos, a criança coleciona os mais variados objetos - bolas de gude, miniaturas, chaveiros, selos postais. Residiria, nesse fato, a necessidade de classificação do mundo exterior que a ajudaria a fixar as suas idéias. 
Durante a puberdade, ela pára de colecionar. Outro período ocorre entre os quinze e vinte e cinco anos e se afirma entre os que possuem uma vocação, às vezes hereditária.
Nesse universo, existem os diferentes graus de colecionadores: curiosos, que juntam coisas raras, exóticas, novidades; o simples amador, que coleciona pelo simples prazer ou sedução em juntar coisas ou determinado objeto; ou o colecionador especializado cuja coleção tem uma razão de ser e segue critérios específicos.
Entre os motivos da paixão colecionadora, relacionam-se algumas causas habituais: sentimento à tradição, respeito ao passado e por coisas antigas, culto às relíquias. Mas, a razão de uma coleção pode ser somente pelo amor à arte.
Mas, e da coleção ao Museu?
A palavra museu, do grego mouséion, foi dado na Antiguidade aos santuários dos templos dedicados às musas, construído sobre a colina de Helicon em Atenas (Grécia) e recebia, como doações, oferendas destinadas aos deuses inspiradores dos artistas – relíquias, vasos, coroas, jóias, esculturas.
No século III a.C, Ptolémée Philadelphe previu no centro de seu pakácio de Alexandria (Egito) um mouseión que compreendia, entre outros, uma biblioteca, um anfiteatro, um refeitório, um observatório, salas de trabalho, jardim botânico e zoológico, um conjunto que agregava a Universidade, a academia e um templo sob autoridade de um padre. Os primeiros museus foram estabelecimentos religiosos como os próprios objetos de arte e o ensinamento tradicional. Eles agrupavam tesouros depositados nos templos em testemunho de reconhecimento aos deuses.
Vale salientar , que o Louvre  antes de se tornar museu, foi residência da nobreza francesa, assim como outros que serviram de depósito para colecionar objetos de saques durante a Revolução Francesa .
 Segundo F.H. Taylor, os museus constituem “um mal necessário”, são “asilos póstumos”, dizia Thoré. Na realidade, são locais destinados a receberem objetos, que muitas vezes não estavam destinados a permanecerem juntos e que se encontram num local que não foi feito para acolhê-los. São fragmentos de uma época, testemunhos de um passado morto, de relíquias de antigos cultos. Eles testemunham o desgaste das coisas, as mudanças de hábito.
Somente há algumas décadas os responsáveis por museus começaram a discutir e reformular conceitos para que esses deixassem de ser privilégio de poucos, depósito de obras primas, para se tornarem polivalentes, atuantes, inseridos em comunidades, sedutores...
Mas, afinal, Por que Colecionamos? Para que servem os museus? Para Luc Benoist, um dos papéis do museu, e talvez o mais belo, seja o de se tornar galeria daqueles que não podem ter a sua própria coleção, o seu próprio museu. Para quem gosta e freqüenta, os museus teriam ainda uma outra função: emprestariam a esses “habitués”, uma coleção, tornando-os, colecionadores sem coleção.

paixão I conhecimento I curiosidade I prazer I hobie I poder I sedução I vaidade I nacionalidade I fantasia I prestígio I ostentação



Bibliografia:
POMIAN K. COLEÇÃO. In enciclopedia einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moed, 1994. V.1: Memória- História. pg. 51-86

CHAUMIER, Serge. L’object de musée. Dijon: Mousée de la vie bourgüignome: 23 avril a 20 septembre 2010 ( tout garder? tout jeter? et reiventer?)

BENOIST, Luc. Musées et muséologie, Paris, Presses universitaires de France, coll. « Que sais-je? », 1960.

Link de acesso ao site do Museu do Louvre: 
www.louvre.fr  


Tipologia de Museus - A contribuição germânica para a formação das coleções na Europa (século XX)



A contribuição germânica para a formação das coleções na Europa no século XX

 Grupo: Diego Almeida, Giovanni Augusto, Moisés Silva, Samara Silva, Wesley John.* 

Este trabalho foi desenvolvido em Novembro de 2013 como critérios de avaliação parcial na disciplina Tipologia de Museus, ofertada no Curso de Museologia pela Escola de Ciência da Informação (ECI), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ministrada pelo Profº Luiz Henrique Garcia.

Como se deu a formação das coleções artísticas na Europa no século XX? Essa pergunta pode ser respondida voltando aos anos entre guerras e durante a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha tinha, sob sua posse, inúmeras pinturas e esculturas de Braque, Van Gogh [figura 1], Picasso, Klee, Matisse, Kokoschka e muitos outros. O partido nazista, prestes a tomar poder, subjugando a nova república liberalista, que permitia que estas pinturas e esculturas fossem chamadas de arte, consideradas modernistas, começa a fazer sua revolução. A revolução do partido nazista era muito mais do que apenas política e econômica. Era uma revolução cultural também. 

  

A Igreja Auvers-sur-Oise, Van Gogh. Junho de 1890, óleo sobre tela.Musée D'Orsay, Paris, França - Figura 1 

Em 1939 foi organizado, pelos alemães, um leilão em Lucerna, para leiloar 126 quadros e esculturas de 36 diferentes artistas. Estes quadros e esculturas não eram de baixo valor ou demonstrativos e sim grandes, alguns era obras primas de alguns dos artistas. Essas obras vinham de vários museus públicos da Alemanha. Frequentando o leilão estava vários Marchands de todas as partes da Europa e até dos Estados Unidos. Porém, muitos Marchands não compareceram por medo de o leilão ser uma fachada para o financiamento do partido nazista. Apesar de o leiloeiro garantir que os museus receberiam todo o lucro do leilão, o medo dos Marchands se tornou realidade. O partido nazista foi financiado com a venda das obras de arte deste leilão.
Hitler bania todo e qualquer tipo de obra modernista, judia, que não fosse alemã, que não tratasse fielmente a natureza, que tratasse os eventos da guerra, obras inacabadas, obras polonesas entre muitas outras. Só aceitava o que ele considerava arte. Com esse princípio, Hitler começa uma jornada em “cortar o mal pela raiz”, em tirar todas estas obras de arte da Alemanha. Começou com o confisco de obras começando pelos museus alemães, impediu muitos artistas de pintar o que não fosse aprovado por ele, que não tratasse a natureza realmente como era, ou eventos das guerras, ou ainda artes inacabadas. Estes artistas não poderiam nem comprar suprimentos artísticos como telas, pincéis, tintas. Rosenberg afirmava que a raça nórdica ariana (de onde vinham os alemães) produzira não somente as catedrais alemãs, mas a escultura grega e as obras-primas da Renascença italiana. Hitler concordava com essa ideia. Este era um dos motivos para essa revolução cultural
Hitler começa a construção do Haus der Deutchen Kunst, um museu que representasse toda a cultura alemã com pinturas e esculturas produzidas pelos alemães e que fosse considerada verdadeiramente alemã. Nesse trajeto de confisco das obras de artes proibidas, Hitler também selecionava aquelas que ele queria que fosse colocadas dentro do Haus der Deutschen Kunst [figura 2]. Criaram também um concurso onde artistas poderiam levar suas obras para serem avaliadas e se entrariam no museu. As condições para participar era você deveria ser alemão puro e não retratar, em suas pinturas, o que Hitler descartava e odiava. Um grande esforço do partido nazista de se posicionar como a cultura superior na Europa. Foi criada a Câmara de Cultura do Reich. Todos artistas, seja pintor, escultor, músico, escritor, arquitetos, poeta, tinham que ser membros desta câmara para poderem trabalhar. 

München, Goebbels na Casa da Arte alemã, 27 de fevereiro de 1938, fotografo desconhecido - Figura 2
 

Houve varias tentativas de introduzir o expressionismo e o modernismo dentro da Alemanha, por alguns alemães que eram fascinados por estes movimentos, como uma tradição alemã aceitável. Schardt, montando uma exposição com obras deste caráter, foi despedido e chamado de “mula” pelo ministro da cultura. Todas as obras que foram confiscadas e que era odiadas por Hitler foram se amontoando em um armazém levantando o questionamento: o que fazer com este “lixo”? Os oficiais e as pessoas que detinham altos cargos no governo começam a vender este “lixo” para os países a sua volta. Vendiam por que rendia dinheiro para eles e ajudava a financiar o partido nazista. É daí que veio o leilão de Lucerna.
Com a invasão da Polônia pelos alemães, Hitler se apossou de muitas pinturas, esculturas, jóias e muitos despojos. Mandou as jóias para a Alemanha para serem derretidas e disponibilizou os quadros para “quem quisesse e quem pudesse”. Hitler não considerava os poloneses como raça, assim como os judeus e negros e não considerava seus quadros como arte.
Europa Saqueada, de Lynn H. Nicholas - Figura 3
Olhando por esta perspectiva, temos uma noção de como se deu a formação das coleções artísticas em toda a Europa. Com o partido nazista vendendo tudo, os países da Europa passaram a comprar tudo, formando as coleções de artísticas das outras nações. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos criaram uma equipe de elite para voltar a Europa e resgatar todas as obras de arte que encontrarem, sendo pinturas ou esculturas, e levar de volta para os Estados Unidos. Há muitas obras em vários museus americanos. Sendo assim, o período das guerras foi de grande importância para a formação das coleções artísticas e para os museus de artes também, onde estas obras foram colocadas e se encontram até hoje. Recomendamos a leitura do livro de Lynn Nicholas Europa saqueada: o destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial [Figura 3] para quem se interessar por maiores informações sobre o assunto.

* Discentes do curso de Museologia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. 

Referência: NICHOLAS, Lynn H. Europa saqueada: o destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 538p. 

Links para as imagens: 
Figura 1:  http://www.musee-orsay.fr/en/visit/ (acesso em 22/11/2013)
Figura 2: http://www.bundesarchiv.de/index.html. (acesso em 22/11/2013)
Figura 3:  googleimages.com (acesso em 22/11/2013)