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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Repatriamento de acervos sonoros de Madagascar

O repatriamento de acervos sonoros de Madagascar

Texto: Lígia Dutra

Edição: Luiz H. Garcia

O repatriamento de acervos tornou-se um tema constante nas últimas décadas, principalmente quando se trata da restituição dos diferentes tipos de acervos sob o domínio dos países europeus para os países africanos. De acordo com os autores Karine Lima da Costa e Kimberly Terrany Alves Pires, esses movimentos em torno da repatriação tornaram-se expressivos nos últimos 50 anos, devido à percepção sobre a importância da cultura material de variados povos. Diante desse clima e em conjunto com a data comemorativa criada pela UNESCO para destacar a importância do Patrimônio Audiovisual, a Academia Austríaca de Ciências resolveu restituir acervos fonográficos fruto da coleta e pesquisa da diversidade sonora de Madagascar, realizada pelos etnólogos da Universidade de Viena, como August Schmidhofer, Gerhard Kubik, Lotte Schomerus-Gernböck, e Michael Weber, ambos com interesse na musicalidade da cultura africana [aqui para ler mais sobre o projeto].

Madagascar é um país situado próximo à costa sudeste da África, possui um panorama musical bastante diferenciado, talvez devido a diversidade de etnias, dialetos, crenças e culturas, que podem estar conectadas pela música e os objetos que a reproduzem. E depois deste contexto, que tal desfrutar um pouco da rica sonoridade coletada por estes pesquisadores? Os áudios a seguir são das regiões de Província de Fianarantsoa e Província de Toliara produzidos sob o estudo da Lotte Schomerus-Gernböck e através do link do site worldmusicstore, sinta-se livre para fruir os diferentes tipos de informações sobre a musicalidade malgaxe como as variadas cerimônias, rituais e instrumentos tradicionais classificados por August Schmidhofer, como maravony (cítara de caixa), gorodo (acordeão) e bandolim. Por fim, quem tiver o interesse, comente abaixo quais foram suas sensações, lembranças e percepções após a fruição desses arquivos sonoros.



Título Música: Convocação para a luta [para ouvir, clique]
Projeto: Schomerus-Gernböck: expedição a Madagascar 1961
Região: Província de Toliara
Conteúdo: Peça instrumental; Canções do Mahafaly com acompanhamento instrumental
Instrumento (s): Amponga2 (cilindro de cone) ; Sodivina1 (flauta longitudinal)
Execução de vogal: Cantor principal (solo vocal) ; Coro feminino (coro) , duas partes
Arquivo: B 7562 (trecho)
Duração (hh: mm: ss): 00:00:20

Título Música: Música de premiação e parabéns [para ouvir, clique]
Projeto: Schomerus-Gernböck: expedição a Madagascar 1961
Região: Província de Fianarantsoa
Conteúdo: Canções do Betsileo
Instrumento (s): Lukanga (cuspir alaúde, cancelado)
Execução de vogal: Cantor principal (solo vocal) ; Canto masculino (grupo de canto) , duas partes
Arquivo: B7568 (trecho)
Duração (hh: mm: ss): 00:00:20

Para consultar os arquivos de áudio:https://catalog.phonogrammarchiv.at/ausgabe_laender.php?sortieren=0&action=uebersicht&vonBis=0-9&id_land=28&art=alphabetisch&anfangsb=m

 
Mireille Rakotomalala and August Schmidhofer (Antananarivo, 26 September 2012)
Imagem de Arquivo sendo repatriado
Fonte: site iasa-web
Disponível em: https://www.iasa-web.org/phonogrammarchiv-repatriates-madagascar%E2%80%99s-acoustic-heritage


 
Imagem de encarte Gravado por August Schmidhofer do Instituto de Musicologia da Universidade de Viena.
Fonte: site worldmusicstore
Disponível em:https://www.worldmusicstore.com/collections/africa/products/mcm-3011

 

Referência:

COSTA, Karine Lima da; PIRES, Kimberly Terrany Alves.Repatriação e Restituição de bens culturais: caminhos possíveis. Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, V. 6, ed. especial, p. (1-12), mar. 2020.


 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Extensão: parceria Engaja ECI/UFMG e Retratistas do Morro


Por Lara Prado, bolsista de extensão (out-dez 2019)


 
"No projeto Retratistas do Morro, eu tive muita oportunidade de ter contato com uma comunidade que não conhecia, aliás, não sou de Belo Horizonte, então felizmente agora tenho mais consciência da história da cidade e isso é ótimo para minha estadia no local.
Além disso, desenvolvi a habilidade de limpeza física e química de negativos que é uma atividade muito importante, significativa e interessante para mim que gosto da área. A organização também é uma habilidade muito importante para o projeto. Sou muito grata por essa oportunidade e espero que eu possa desfrutar de mais projetos incríveis como esse!"



Do editor:
Em 2019, através do projeto de extensão Engaja (ECI-UFMG)  - que tem como intuito realizar estudos  e propor ações de engajamento de público e acervo em museus públicos de Belo Horizonte,  e estende-se a  demais instituições públicas e privadas de perfil semelhante na cidade - convidei o coordenador Guilherme Cunha a apresentar o Projeto Retratistas do Morro numa aula aberta da disciplina Função Social dos Museus, da graduação em Museologia da UFMG. A partir daí firmamos uma parceria, que ainda pretendemos aprimorar, que iniciou-se pela cooperação técnica a partir da seleção de bolsista de extensão por um período mais curto, remuneradas através de recursos do "Retratistas do Morro". Foram selecionadas as estudantes de graduação em Museologia da UFMG Lara Prado e Mariana Ferreira. O depoimento da Lara, além de apresentar as atividades que realizou, deixa registrado sua apreciação do valor iniciativa para sua formação.

O projeto Engaja, a partir da intercessão entre diferentes esferas (universidade, alunos, professores, grupo de pesquisa, poder público municipal, museus e citadinos) visa promover  no âmbito da cultura e do patrimônio uma perspectiva plural e colaborativa para a construção da memória coletiva, a projeção dos museus enquanto lugares de trocas e debate , a formação de alunos e o envolvimento da comunidade externa à universidade de forma a proporcionar maior compreensão sobre os museus, acervos e o patrimônio cultural, promovendo a participação efetivamente democrática em algumas de suas atividades.
 

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Acervo de Escritores Mineiros [Função Social dos Museus 2019]

ECI-UFMG
CURSO: Museologia
DISCIPLINA: Função Social dos Museus
PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia
NOMES:  Ana Cristina Matias
                 Anita Helena Vieira de Souza 
                 Junia Mara A. de Souza
                 Luciano
                 Maria Bernadete de Almeida Assis

A função social da museologia é uma reflexão a respeito dos espaços museais enquanto lugares de crítica social e política, os museus guardam em suas coleções os traços de uma memória que gradativamente representa um locus do que, de alguma forma será guardado. 
    As discussões que motivaram esse trabalho levam em consideração a relação entre o estar no museu e a construção das narrativas sobre o que representa esse espaço para a sociedade. Assim as reuniões técnicas se fizeram no sentido de refletir a respeito da ocupação dos espaços museais de forma crítica e democrática. 
O presente relato propõe analisar a atividade de campo no Acervo de Escritores Mineiros localizado na Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais, o acervo é um equipamento permanente de exposição e pesquisa que tem por sua guarda livros, documentos e objetos de escritores referenciais da história literária de Minas Gerais.
    Essa intervenção é o encadeamento da pesquisa realizada em 2016 na disciplina Usuários da Informação que teve como objeto de estudo a avaliação de público de diversos espaços da Universidade, a partir desse diagnóstico realizado na Escola de Letras da UFMG, observou-se que grande parcela dos estudantes não conhecem ou nunca visitaram o acervo dos escritores mineiros. Conforme o gráfico gerado na pesquisa. 


O objetivo central da mediação é promover a apresentação do espaço visando contribuir para a formação de público com finalidade de conhecimento e pesquisa, na busca de novas possibilidades de estudo do patrimônio universitário.
Para isso, foi proposto uma visita mediada como forma de apresentação do acervo, houve ampla divulgação entre os meios do público-alvo, a comunicação se deu pensando nas possibilidades de uso do espaço, houve a apresentação dos escritores e de seu acervo, a visita foi guiada seguida de discussões a respeito das obras, ao final os participantes puderam apresentar suas impressões sobre o acervo e em relação a visita. 
Foram ainda instalados na FALE e na praça de serviços  trechos literários dos principais autores do acervo, promovendo o chamamento para o conhecimento do espaço.
As avaliações do trabalho foram positivas mesmo que não tenhamos atingido amplamente o público desejado, observou-se que o espaço do acervo é atraente para os visitantes e a mediação é uma boa forma de causar interesse.
Contudo pode-se avaliar que uma boa forma de divulgação do acervo foi a instalação de painéis na Universidade, pois, esse recurso gera curiosidade dentre os estudantes. 


Email para divulgação: acemg@bu.ufmg.br
Telefone para divulgação: (31) 3409-6079



sábado, 8 de abril de 2017

Há controvérsias

 A Revista Época publicou online agora em abril uma matéria com o seguinte título: 
Lei obriga os museus brasileiros a tomar mais cuidado com seu acervo [ver completa]

 (Foto: Pedro Farina/ÉPOCA)

Em tempo, queria dizer algumas coisas. Tornou-se um clichê que as matérias que abordam o patrimônio cultural recorrentemente partam de pautas calcadas na polêmica e na denúncia. É desagradavelmente irônico que se mencione o estatuto dos museus numa matéria assim, e nos 8 anos em que está em vigor não deva ter sido citado em matérias que abordassem seus efeitos positivos. Não quero varrer as falhas para debaixo do tapete, mas simplesmente analisar a forma como a grande imprensa cobre esses assuntos. Como formadores de opinião que são, esses veículos perdem sistematicamente a oportunidade de levar ao cidadão uma informação mais qualificada a respeito do trabalho que é feito pelas pessoas que atuam no Ibram, nas instituições museológicas e outros órgãos que atuam no campo do Patrimônio. Adoram também se autopromover lançando mão do que na verdade foi realizado justamente por aqueles que criticam. Vejamos:

 "Assim foram criadas relíquias como a forca que matou Tiradentes, a espada que Pedro I ergueu no Grito do Ipiranga, a farda usada por Marechal Deodoro na Proclamação da República, criações que a reportagem de ÉPOCA tenta desmistificar ao longo desta reportagem."
A forma como o texto é redigido dá a entender que a desmitificação dessas relíquias é fruto da reportagem, e não que é um trabalho feito há décadas por inúmeros pesquisadores, ao qual a reportagem está tendo acesso por entrevistas ou pesquisas (não quero generalizar aqui, mas repórter de hoje não faz pesquisa, liga pro pesquisador, pergunta o que quer saber, só escreve se gostou da resposta, nem sempre fala obrigado e muito menos cita quem lhe forneceu a informação). Há um tremendo equívoco na redação mesmo, pois basta ler a matéria para perceber que o questionamento sobre o objeto está sendo feito na própria instituição. Mas aqui sejamos francos. Os museus falham absurdamente em levar esse conhecimento, esse questionamento sobre seu acervo, as lacunas de documentação e inconsistências da aquisição para o público. Não conseguem muitas vezes ver que uma abordagem crítica desses artefatos e da forma como passaram a figurar em seu acervo e exposições seria formadora de uma forma que a reverência acrítica e acobertada por narrativas nebulosas jamais pode ser.
Outra coisa irritante é como adoram imputar tudo à instância pública, como se não houvessem várias instituições privadas que incorressem nessas mesmas falhas - e talvez a maioria delas, muitas vezes laudatórias porque foram criadas para exaltar pessoas, empresas, grupos sociais específicos que costumam ser seus patrocinadores.
Mas essas não são, nem de longe, as principais controvérsias a serem abordadas quando se trata dos museus brasileiros. Por mais que tente a matéria não consegue evitar o senso comum e uma visão meio fetichista, concentrada na suposta autenticidade que poderia ser apurada dos itens que elenca.Ora, sendo assim, se a espada fosse comprovadamente de D.Pedro I, por exemplo, a construção de uma interpretação sobre a Independência poderia continuar lançando mão da relíquia 'autenticada'? Mesmo picotadas pela impiedosa edição que comumente as redações aplicam às falas dos especialistas, podemos entrever nos trechos que restaram que o posicionamento dos profissionais é crítico e revela, ao contrário do que a matéria insinua desde a manchete, que não é ter ou não a lei que faz o museu reinterpretar seu acervo, e sim a atuação de pessoal capacitado e comprometido, especialmente se tiver boas condições de trabalho. O que a matéria apura, em relação a isso? 
A controvérsia mesmo, a meu ver, recai sobre o sentido social e político das instituições, no caso com o foco da matéria recaindo um pouco mais para os museus históricos, e, portanto, para as interpretações da História do Brasil que eles ajudam a produzir e difundir. Seria realmente querer demais que a revista conseguisse elucidar para o leitor a compreensão atual que historiadores, museólogos e demais profissionais envolvidos nesse trabalho desenvolveram sobre o que é o resultado das investigações em História e como a controvérsia e o embate de interpretações são constitutivas do que será a sua narração, e que, muito mais que autenticar o que quer que seja, o objetivo maior é auxiliar o público a desenvolver a capacidade de refletir sobre como e porque uma determinada versão do passado é produzida, como os artefatos compõem as tramas, e como o conhecimento da História é transformado por meio de incessantes contestações baseadas no estudo das evidências.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Função social e política de acervos em dois museus de Belo Horizonte



UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA D INFORMAÇÃO
MUSEOLOGIA

Monitoria: Função Social dos Museus
Bolsista: Julianne Paranhos
Orientador: Luiz Henrique Assis Garcia

Função social e política de acervos em dois museus de Belo Horizonte
Julianne Paranhos

Os museus são espaços que lidam diretamente com a percepção do tempo social e histórico a partir da organização de acervos e coleções, sejam eles tridimensionais, documentais, audiovisuais, dentre outros suportes. Por esta perspectiva, a ideia de que esta instituição se encarrega apenas do passado é uma falácia: os museus são espaços de encontro entre tempos. Com função social múltipla – seja para conservar, pesquisar, entreter e expor as culturas, as identidades e as memórias – os museus também devem atuar na busca de elementos potenciais para ampliar e completar suas coleções e dessa forma aprofundar sua atuação como espaços de representação simbólica.
Entender os museus, enquanto público ou como pesquisadores e profissionais, é ter em mente a necessidade de experimentá-los pela vivência. É preciso estar nos museus. Desta forma, os alunos da disciplina Função Social dos Museus, oferecida pelo curso de Museologia da UFMG e lecionada pelo Professor Luiz Henrique Assis Garcia, desenvolveram no segundo semestre de 2016 trabalhos de pesquisa através do contato direto com o Museu da Imagem e do Som (MIS) e o Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), com o intuito de proporcionar uma experiência prática e de pesquisa. A partir de uma parceria entre o curso de Museologia (UFMG/ECI) e a Fundação Municipal de Cultura (FMC) - através da Diretoria de Museus – formalizada no projeto de extensão Concepção e implementação de protocolo de política de acervos – registro de doadores potenciais, os alunos da disciplina tiveram a oportunidade de conhecer e se aproximar da realidade destas instituições por meio de reuniões com profissionais destes museus e da FMC, visitações e realização de entrevistas.
A partir do contato mais direto com a natureza dos acervos destes museus, as atividades por eles desenvolvidas e da relação destas instituições com a cidade de Belo Horizonte, foram realizados breves diagnósticos. O passo seguinte foi a identificação de potenciais doadores habitantes da cidade de Belo Horizonte, como uma das formas pelas quais os museus podem preencher possíveis lacunas em seus acervos.
No caso do Museu da Imagem e do Som os alunos [Grupo: Bianca Ribeiro; Haelton Oliveira; Isac Santana; Larissa Oliveira; Letícia Carvalho / Grupo: Dayana Mesquita; Hudson Diaz; Luísa Lourenço; Thais Adriane; Thais Diaz; Thelma Palha] diagnosticaram a saturação de acervos tridimensionais e a necessidade de novas tipologias como acervos iconográficos e filmográficos assim como a necessidade de inserir a produção contemporânea. No primeiro, a busca pela lacuna em uma coleção nos leva a repensar o acervo e à necessidade de aplicar e desenvolver políticas de descarte. No segundo e terceiro itens encontram-se a chave pela qual serão planejados métodos de reconhecimento dos doadores. Neste caso os alunos identificaram dois doadores residentes da cidade e três instituições, sendo estas o Museu dos Militares Mineiros (acervo: audiovisual); Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino (acervo: audiovisual); e Centro de Memória da Veterinária (acervo: audiovisual e tridimensional).
Já no caso do Museu Histórico Abílio Barreto as lacunas observadas referem-se, por exemplo, à ausência de um acervo que remeta à economia informal, as ocupações e assentamentos, grupos folclóricos e congados que atuam na cidade [Grupo: André Luiz Lara Lima; Daniel Xavier Henriques; Luana do Carmo Pirajá Ferraz Santos; Maria de Lourdes Oliveira e Silva / Grupo: Alessandra Guimarães, Amanda Marzano, Daniela Barbosa, Gabriela Gomes e Igor Costa]. Como proposta, foram identificados como possíveis doadores ao museu os colecionadores Jeferson Rios e Antônio Objeteiro. De outro lado, pensando que esta forma de trabalho proposta ao MIS e MHAB pode contribuir para uma representação da cidade em sua dinâmica - o estar na cidade e assim, suas apropriações e ocorrências culturais cotidianas - foram identificados, por exemplo, artistas e fotógrafos cujos trabalhas estão ou diretamente ligados à experiência urbana ou ao seu consumo e apropriação com é o caso do Duelo de MC’s, que motivou a apropriação do viaduto de Santa Teresa.
A identificação dos possíveis doadores, além de ser um meio pelo qual os museus podem ampliar seus acervos, diversificar os recortes curatoriais e ainda ampliar a compreensão sobre suas naturezas institucionais e finalidade enquanto espaços da representação simbólica do social e da memória possibilita, por meio da pesquisa de campo, sua aproximação com a sociedade e faz de sua função social para além da ideia de “lugar de coisa velha”. Como um lugar dinâmico e que transita entre tempos, esse tipo de ação museológica proporciona aos museus um meio de aproximação com a sociedade e a construção de seus espaços como lugares mais democráticos.




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Acervos públicos, sentidos do patrimônio e interpretação da História

A notícia de que o atual governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mandou retirar do gabinete de governo o quadro "Alegoria da morte de Estácio de Sá" (Antônio Parreiras, 1911), alegando que a mesma traz má sorte ou está "carregada" (palavras que teriam sido ditas pelo músico Jorge Ben Jor), produz espanto e uma série de inquietações. Antes de tudo,  assombra um gesto público dessa natureza, da parte de um político ocupando uma cadeira importante, que intenta criar algum tipo de distração ante problemas de gestão e finanças do estado que governa, apelando para esse tipo de interpelação pela irracionalidade, superstição. Ao mesmo tempo, tal gesto absolutamente criticável faz pensar também sobre os diferentes sentidos do patrimônio e as possíveis interpretações da História das quais participam. Retrato alegórico da empreitada colonial, com toda sua violência e imposição de modelo civilizacional, a pintura, figurava no gabinete do governador como elemento integrado à construção simbólica de identidade, inicialmente do Estado-Nação, uma vez que encomendada pelo então Prefeito do o Rio de Janeiro Inocêncio Serzedelo Corrêa no tempo em que a cidade era a Capital Federal. Nesse sentido é como o atestado de que o embate entre "civilização" e "barbárie" teve nos colonizadores os vencedores, dos quais o moderno estado brasileiro se colocava como continuador. Estácio de Sá, desse modo, apresenta-se como mártir da conformação de um Estado Nacional do qual não teve em vida a menor ciência. Posteriormente podemos considerar que a obra foi ressignificada para compor a narrativa iconográfica que constrói a identidade do Rio como estado sem deixar de afirmar sua centralidade para a nação brasileira. Mas, em algum momento, surge a dúvida:  que sentidos alegorias como essa, que demandam uma atitude contemplativa e conhecimento de certos códigos culturais, podem ganhar, nos tempos em que o oculocentrismo combinou-se à circulação acelerada de imagens no espaço público, nas múltiplas mídias e nas redes internéticas? Quão público é o gabinete do governador - o que implica perguntar - quem ultimamente olhava esse quadro?
O deslocamento da pintura - indiferentemente da motivação aparentemente irracionalista ou calcada numa pueril tentativa do governador de angariar a simpatia do eleitorado supersticioso que ele acredita representar, ou eventualmente de desviar o debate público no momento em que se questiona justamente sua capacidade de governar - acaba por paradoxalmente lançar a mesma na rede e nas mídias, talvez reacendendo um potencial de ressonância que estava adormecido enquanto estava na parede enquanto cumpria uma função residual se comparada à que exerceu nos tempos em que certos artefatos significavam muito nesse tipo de espaço através do qual se narrava uma certa história e se afirmava uma dada forma de poder. Se por um lado um motivo patético traz o quadro à baila, por outro às vezes só assim o que esquecido se coloca novamente no horizonte de nossas atenções.
Hoje nossa interpretação da colonização é bastante diversa daquela do início do século XX, e por aí podemos tomar certamente "Alegoria da morte de Estácio de Sá" desde um ângulo crítico que revela a lógica de violência e imposição, as contradições e assimetrias nas quais se ergueu a Colônia, e as implicações disso na formação do território e da nação brasileira nos séculos seguintes. A pintura portanto pode representar um testemunho relevante dessa história, e ao mesmo tempo instigar reflexões sobre temas e tensões distintivas e intestinas de nossa sociedade. Se o governador a retira da parede e esconde numa sala ainda menos frequentada do palácio de governo, parece, sintomaticamente, um gesto produtor de amnésia. Se decidir transferi-lo a algum museu, acena a possibilidade de torná-lo acessível a um público maior. Nesse último caso, me coloco favorável, desde que seja feitas a pesquisa e comunicação museológica condizentes para que a trajetória do quadro seja considerada elemento chave para pensar seu sentido contemporâneo.
  






segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Tratamento e conservação do acervo do Museu Clube da Esquina



Projeto: MUSEU CLUBE DA ESQUINA: pesquisa de coleções e política de acervo
Orientador: Prof. Dr. Luiz H. Assis Garcia (ECI/UFMG)
Bolsista: Pollyanna Lacerda Machado.

Tratamento e conservação do acervo do Museu Clube da Esquina
Por Pollyanna Lacerda




O Museu Clube da Esquina (MCE) dispõe de acervo museológico e parte deste vem recebendo tratamento e conservação adequados sob guarda provisória em instalações da Biblioteca Universitária (BU) / Setor de Obras Raras, no contexto de uma parceria entre AAMUCE (Associação de Amigos do Museu Clube da Esquina) e UFMG para embasar conceitual e tecnicamente o processo de instalação de sua sede física, envolvendo ações de pesquisa e extensão. O acervo inicialmente inventariado conta com cerca de 600 itens[1] em diferentes suportes: papel, objeto tridimensional, discos de vinil e suportes audiovisuais - contendo fotografias/depoimentos/etc. Os procedimentos que vem sendo realizados visam assegurar a integridade dos materiais - respeitando a tríade básica da Museologia: pesquisa, comunicação e preservação. 
Segue uma descrição das duas primeiras etapas do processo, realizadas no período de 07 de maio a 08 de julho de 2015.


  1. Máquina FACIT
Os procedimentos de conservação e restauração das peças do Museu Clube da Esquina foram iniciados no dia 07 de maio de 2015. O primeiro item escolhido para restauro foi uma máquina de escrever (marca FACIT, modelo 1740/3511). Realizamos uma breve pesquisa para obter maiores informações quanto à composição de seus materiais e manual de uso para nos auxiliar em seu manuseio e tratamento adequado. Iniciamos os trabalhos sem fazer muitas intervenções, optando pela limpeza mecânica a seco com auxílio do aspirador de pó e algodão neutro, e em algumas partes, a limpeza aquosa, com o uso do álcool 70%.[2]Devido ao tamanho e peso da máquina, verificamos a necessidade de remanejá-la e acondicioná-la de outra maneira, pois a posição em que ficava dentro do armário não é recomendada. Para isso, foi feito pedido de uma caixa organizadora de plástico com dimensões maiores que 40 x 18 x 43 cm e também um material denominado ETHAFOAM, para perfeita armazenagem. A máquina foi acondicionada na caixa e envolta pelo ethafoam, permitindo que fique estável até mesmo quando em trânsito.


2. Material gráfico

Em continuidade aos procedimentos de tratamento do acervo, optamos realizar o armazenamento do material gráfico existente devido ao seu estado de guarda - embalagens de má qualidade que aceleram a deterioração dos materiais. Para tanto, adotamos alguns critérios recomendados para coleções como esta, baseando-nos também na publicação do Arquivo Nacional/RJ[3], são eles: armazenar apenas documentos do mesmo tamanho e categoria juntos, pois as diferenças de volume e peso criam riscos de danos físicos; os materiais empregados para fixar — como grampos, clipes e taxas, devem ser cuidadosamente removidos e, quando necessário, substituídos por materiais inoxidáveis[4]. Os objetos pesados e/ou volumosos devem ser armazenados separados dos mais leves, pois podem causar pressão desigual dentro das caixas. Os envelopes devem ser guardados em caixas de armazenagem de documentos que cumpram o padrão de qualidade arquivística, para tanto foi solicitada a compra do papel filifold 80gr² – pois oferece ótima resistência a dobras e vincos e mantém inalterada sua resistência ao tempo em qualquer ambiente[5]. Em contrapartida, o laboratório de conservação do Setor de Obras Raras forneceu as caixas. Outro aspecto importante é que todas as pastas dentro da caixa devem ser do mesmo tamanho e devem se adequar ao tamanho da caixa e devem ser empilhadas apenas de duas em duas, para facilitar o manuseio. (OGDEN, p.10, 2011).



Como estas peças já foram alvo de uma primeira catalogação, mantivemos no atual registro o número de inventário; criando outra série para a distribuição do material em diferentes caixas, de acordo com os critérios descritos anteriormente (tamanho, peso, categoria, etc.). As informações presentes no envelope pretendem facilitar a consulta nos casos de pesquisa, etc. evitando, em alguns casos o manuseio desnecessário.

Exemplo:
MUSEU CLUBE DA ESQUINA
MATERIAL GRÁFICO
ORDEM: x/x *
INVENTÁRIO: xxx **
HIGIENIZAÇÃO E ACONDICIONAMENTO:
CONSERVAÇÃO:
QUANTIDADE:
CONTEÚDO:

*Nova numeração de acordo com a sequência das caixas.
**Número já existente.

Neste acervo percebemos um sentido amplo da "esquina" em seu sentido simbólico, representando uma dimensão de mundo, tanto na atuação dos músicos, como na divulgação de shows, palestras, espetáculos, etc. em outros estados e países. Como exemplo, destacamos alguns folhetos de shows e folders.

Tendo em vista o andamento dos trabalhos, foi realizado um levantamento dos materiais necessários e o planejamento de atividades previstas para a continuidade dos procedimentos, incluindo aí Desenhos arquitetônico, Encadernações, Impressos em jornal, Discos de vinil (LPs) e capas.







[1] Mais informações, consultar o Relatório sobre início de atividades de hig. e acondicionamento.
[2] "Listagem de documentos entregues pela AAMUCE para a guarda provisória na UFMG em 02/02/2015". Disponível para consulta.
[3] OGDEN, Sherelyn. Armazenagem e manuseio. Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos: Arquivo Nacional. 2. ed. Rio de Janeiro, 2001. 49 p. [ONLINE] http://www.portalan.arquivonacional.gov.br/media/CPBA%201%20a%209%20Armazenamento.pdf
[4] Iremos utilizar a costura, aproveitando os furos já existentes.