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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Acervo de Escritores Mineiros [Função Social dos Museus 2019]

ECI-UFMG
CURSO: Museologia
DISCIPLINA: Função Social dos Museus
PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia
NOMES:  Ana Cristina Matias
                 Anita Helena Vieira de Souza 
                 Junia Mara A. de Souza
                 Luciano
                 Maria Bernadete de Almeida Assis

A função social da museologia é uma reflexão a respeito dos espaços museais enquanto lugares de crítica social e política, os museus guardam em suas coleções os traços de uma memória que gradativamente representa um locus do que, de alguma forma será guardado. 
    As discussões que motivaram esse trabalho levam em consideração a relação entre o estar no museu e a construção das narrativas sobre o que representa esse espaço para a sociedade. Assim as reuniões técnicas se fizeram no sentido de refletir a respeito da ocupação dos espaços museais de forma crítica e democrática. 
O presente relato propõe analisar a atividade de campo no Acervo de Escritores Mineiros localizado na Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais, o acervo é um equipamento permanente de exposição e pesquisa que tem por sua guarda livros, documentos e objetos de escritores referenciais da história literária de Minas Gerais.
    Essa intervenção é o encadeamento da pesquisa realizada em 2016 na disciplina Usuários da Informação que teve como objeto de estudo a avaliação de público de diversos espaços da Universidade, a partir desse diagnóstico realizado na Escola de Letras da UFMG, observou-se que grande parcela dos estudantes não conhecem ou nunca visitaram o acervo dos escritores mineiros. Conforme o gráfico gerado na pesquisa. 


O objetivo central da mediação é promover a apresentação do espaço visando contribuir para a formação de público com finalidade de conhecimento e pesquisa, na busca de novas possibilidades de estudo do patrimônio universitário.
Para isso, foi proposto uma visita mediada como forma de apresentação do acervo, houve ampla divulgação entre os meios do público-alvo, a comunicação se deu pensando nas possibilidades de uso do espaço, houve a apresentação dos escritores e de seu acervo, a visita foi guiada seguida de discussões a respeito das obras, ao final os participantes puderam apresentar suas impressões sobre o acervo e em relação a visita. 
Foram ainda instalados na FALE e na praça de serviços  trechos literários dos principais autores do acervo, promovendo o chamamento para o conhecimento do espaço.
As avaliações do trabalho foram positivas mesmo que não tenhamos atingido amplamente o público desejado, observou-se que o espaço do acervo é atraente para os visitantes e a mediação é uma boa forma de causar interesse.
Contudo pode-se avaliar que uma boa forma de divulgação do acervo foi a instalação de painéis na Universidade, pois, esse recurso gera curiosidade dentre os estudantes. 


Email para divulgação: acemg@bu.ufmg.br
Telefone para divulgação: (31) 3409-6079



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Do livro em códice ao mundo digital: historiadores pensam as transformações da forma, da técnica e da cultura

Assisti hoje no SESC Palladium ao evento da série Literaturas: questões do nosso tempo, com Robert Darnton (EUA) e Roger Chartier (FR), mediado por Guiomar de Grammont. Historiadores de peso, das mais importantes referências para a história cultural e os estudos sobre livro, edição e leitura, ambos com vasta obra e carreiras coroadas de mérito, dispensando maiores apresentações. O formato da mesa me pareceu bastante interessante, um respiro ante o que estamos acostumados. Ao invés de falas razoavelmente longas seguidas de debate, algumas perguntas lançadas pela mediadora, que ambos responderam com concisão sem perder densidade, por vezes complementando e pontuando a fala do outro, embora de fato tenha sido a pergunta comum o principal modo de atar a conversa. E qualquer historiador sabe o valor de boas perguntas para estabelecer os rumos de uma reflexão histórica. As questões lançadas giraram em torno das mutações da cultura escrita no mundo ocidental: Devemos enfatizar as continuidades fundamentais ou as rupturas radicais, e qual o efeito de eventos como o nascimento do códex, a invenção da imprensa, as inovações nas práticas de leitura ou a alfabetização universal? Resistirá o livro, ante as inovações tecnológicas como o kindle, o e-book? A digitalização favorecerá a salvaguarda dos registros do conhecimento, ou seu modus operandi facilitará seu esquecimento num infindável e indiferenciado mar de bites? Qual o peso da intervenção da censura sobre a produção de um texto? O conhecimento histórico é útil para compreender mais acuradamente as transformações do nosso tempo? Pode o historiador ser objetivo? Qual a pertinência atual de conceitos de autoria, direitos autorais e propriedade intelectual? Quais as responsabilidades de pesquisadores, instituições e cidadãos ante esse quadro atual?

É digno de nota que Chartier tenha tomado antes a palavra para, em claro português com talvez algumas pitadas de portunhol, fazer, em seu nome e também no de Darnton, uma declaração contundente diante da grave situação política no Brasil. O público lançou um Fora, Temer, talvez de forma até bem tímida, o que considero preocupante se levarmos em conta que a maioria, sem muito medo de errar, era composta por estudantes universitários das áreas ligadas às Humanidades, Letras e Artes. Eu entre os que gritamos, logo a seguir nos deleitamos com uma linha de Chartier sobre motivos a temer que foi claramente seu modo de insinuar o próprio Fora, Temer.
Não tenho, nesse momento, como transcrever e aprimorar todas as notas que tomei durante as falas. Na medida do possível e do horário, espero trazer aqui uma síntese orientada pelas questões que são de recorrente pauta deste blog, aproveitando também um ou outro apontamento que me ocorra, considerando que hoje mesmo a aula da disciplina Memória, Sociedade e Informação que leciono na pós tratou justamente das interseções entre História, Literatura, Narrativa e Memória a partir da obra de Walter Benjamin, que aliás acabou sendo alvo de uma menção muito rápida numa fala de Darnton.
Tudo isso tem muito a ver com o modo como os historiadores interpretam a mudança, inclusive quando se trata de aspectos tecnológicos. Lembrando aqui a velha discussão entre apocalípticos e integrados proposta por Umberto Eco, a história nos dá perspectiva para ficar fora dessa dicotomia. Como assinalou Darnton, fala-se em era da informação mas toda "era" tem "informação", ainda que os suportes sejam outros. Da mesma forma quando falamos em tecnologia é preciso ir além do senso comum e compreender que historicamente as sociedades sempre transformam o mundo que habitam usando diversas tecnologias. Paralelamente, Chartier apontou que se o livro resiste e coexiste no atual cenário de digitalização profunda - inclusive das relações sociais - entre permanências e mudanças constatamos mortes quando certos objetos desaparecem - ou eu poderia acrescentar, são deslocados para outros espaços sociais, como as máquinas de escrever que vão para os acervos dos museus. Aqui pontuo que Benjamin, no verbete sobre o colecionador no trabalho das Passagens, já percebera a operação colecionadora que desligava o objeto de suas funções originais para inseri-lo em outra relação.
A posição crítica ante ante esse novo cenário, que cumpre ao pesquisador da História adotar mediante um trabalho rigoroso e as regras que definem um método a partir do qual ele (re)apresenta o passado no presente, representa um ganho na medida em que permite superar leituras esquemáticas, simplificadoras, em que é perdida a natureza mesma das mudanças e de seu complexo entrelaçamento. Chartier sistematizou muito bem uma análise tipológica das mutações em torno do texto, do livro e da leitura, separando as mudanças de ordem morfológica (que dizem respeito ao suporte do texto), tecnológica (recursos de edição e reprodução), e cultural (modos de leitura e circulação). Ao distinguir, nos modos de leitura, a mudança na relação entre fragmento e totalidade do texto, quando se passa da forma manuscrita ou impressa, em que a forma material impõe uma percepção tátil da totalidade à qual pertence qualquer trecho que lemos, para o formato digital em que o fragmento se autonomiza, talvez ele não estivesse muito longe das discussões propostas por Benjamin sobre declínio da experiência, perda da aura, ou mesmo entre a narração e a informação. São tópicos a serem desenvolvidos ainda. Também seria indispensável pensar aí proposições de estudiosos latino-americanos como García Canclini e Martín-Barbero, tão atentos aos gestos de descoleção e recoleção, às mediações dos meios e papel ativo dos ditos receptores. Chartier e Darnton, mesmo sem aprofundar, foram enfáticos em reconhecer a diferença da experiência histórica das gerações mais novas que já se formam como "nativos digitais" [alguns desses apontamentos nessa entrevista de Chartier ao jornal Hoje em dia]. Mesmo quando não mudam necessariamente os livros, mudam os leitores e as práticas de leitura. Nesse sentido, as últimas considerações de ambos me pareceram bastante inspiradoras para pensar as práticas no contexto próprio dos museus. Darnton concentrou sua fala na democratização da riqueza cultural e do conhecimento, alertando para os perigos da censura nos regimes autoritários e da comercialização desenfreada da sociedade de mercado. Chartier destacou o papel das políticas públicas na formação de um cidadão leitor e de um leitor cidadão - o que igualmente é válido para o cidadão público de museu - e condenou o equívoco de se estabelecer qualquer equivalência entre as diferentes formas de escrita, constatando sua convivência e possível complementariedade. Seria de bom alvitre que os profissionais do campo da Museologia incorporassem esse raciocínio para pensar a política de acervo e os programas de exposições das instituições, pois o que enseja é o entendimento que o digital e as manifestações da cultura material de épocas as mais diversas não são mutuamente excludentes ou se sucedem numa ordem cronológica e evolutiva, mas coexistem historicamente e cumpre ao museu prover inclusive as evidências que permitam compreender essa coexistência. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os museus na literatura

Acabo de ler o romance O pintassilgo, da escritora estadunidense Donna Tartt. Sem a pretensão de fazer uma resenha completa [aqui uma cópia do texto de orelha], quero recomendar fortemente a leitura e explorar ainda de forma bem inicial esse tema dos museus na literatura. O romance, apesar de não deixar de arriscar pequenas inovações aqui e ali ( como emular a mensagem de texto por celular, usando tipografia destacada ) é herdeiro direto da tradição dos grandes romances dezenovistas, sobretudo por sua tonalidade dickensiana. As 700 e algumas páginas fluem deliciosamente, seja na narrativa em primeira pessoa do protagonista, seja nos diálogos vivos entre personagens bem construídos e bastante carismáticos. Me impressiona isso virar assunto de resenhas e matérias, já li livros menores que eram bem mais árduos de percorrer (e não piores por isso, claro). Além de escrever bem, fica claro que Tartt tem uma excelente formação - e certamente, como ocorre com os romancistas best sellers de atualmente, tem uma grande equipe trabalhando e pesquisando para ela (como fica claro pelos agradecimentos finais). Obviamente isso não diminui em nada seu mérito para dar corpo a esse estofo todo, com palavras de tirar o fôlego. 

Luís Miguel Queirós fez um boa síntese para o Público, explicando a partir do título:

Já a pintura de Fabritius está no epicentro da intrincada intriga do romance The Goldfinch, de Donna Tartt, que depois de dois best-sellers, A História Secreta (1992) e O Pequeno Amigo (2002) – ambos publicados em Portugal pela D. Quixote –, esteve 11 anos a escrever este seu terceiro livro. Theo, o protagonista, é um adolescente que vê a sua mãe morrer, vítima de um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, onde esta o levara a ver uma exposição de obras-primas da pintura holandesa. Num momento de pânico – e por razões que não vêm ao caso –, Theo rouba O Pintassilgo de Fabritius, que era a pintura favorita da sua mãe.   
Como diz a orelha : O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino. O jogo entre a morte, o desfazer do tempo, e as possibilidades de busca de transcendência, mesmo que inúteis - pois, diz Tartt pela voz de Theo, "a vida é catástrofe" - estão no cerne do romance, e também nas nossas preocupações quando tentamos entender porque guardamos certos objetos e tentamos enfrentar a irrefreável voragem do tempo. Demandaria um ensaio muito mais bem acabado destrinchar as profundas e variadas inter-relações traçadas ao longo do livro entre os museus, a experiência de vida dos personagens, o fio da narrativa e as reflexões conceituais que ensejam. A autora nos deixa, ao final, preciosos pensamentos que tangem as relações entre arte, vida, colecionismo, memória, cultura. Uma parte das suas observações sobre o quadro de Fabritius são aquelas que certamente diversos historiadores da arte já fizeram, mas, provavelmente, expressas de uma forma mais descompromissada com maneirismos dos textos acadêmicos típicos. Da boca de seu sócio, mentor e pai adotivo, por assim dizer, ele ouve que "se uma pintura realmente afeta  e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'ah, eu amo essa pintura porque ela é universal'. 'Eu amo essa pintura porque ela fala com toda a humanidade'. Não é por isso que você ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. Psst, você. Ei, garoto. Sim, você." 

A matéria do Público versa justamente sobre o impacto desse e de outro best-seller baseado em obra de sua coleção (Moça com brinco de pérola) no aumento da frequência de público no Museu Mauritshuis [conheça], em Haia, Holanda [vale ler toda]. O assédio às obras motiva alterações inclusive na expografia, como comenta Queirós no trecho: 

E os responsáveis do museu de Haia parecem partilhar a sua convicção, uma vez que já mudaram o seu Fabritius (o único que possuem) da parede lateral de uma escadaria, onde sempre estivera, para um lugar de honra na sala Jan Steen, onde passará a figurar isolado, num generoso espaço entre duas janelas.
Tal fenômeno guarda um nó interessante a ser desdado, que implica em buscar tanto a compreensão de como, nesse tempo que privilegia o texto curto, a assimilação rápida, um romance como O pintassilgo vira campeão de vendas, e, consequentemente, eleva o público de um museu. O livro, de certa forma - e claro, sem escapar da ambígua condição produzida por tomar corpo no contexto de produção, circulação e consumo em escala massiva - realiza assim o próprio leitmotiv que permeia suas páginas, o de que a arte - ou toda forma humana de impingir uma imortalidade, por mais ameaçada que seja - encontra um modo de perpetuar-se, até quando parece improvável:

"Ela existe; e continua existindo. E eu acrescento meu próprio amor à história das pessoas que amaram coisas belas, e cuidaram delas, e tentaram preservá-las e salvá-las enquanto as passavam literalmente de mão em mão, cantando de forma brilhante pelos destroços do tempo para a próxima geração de amantes, e a próxima".