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sábado, 26 de agosto de 2017

CONTRIBUIÇÕES DO III CONGRESSO MINEIRO DE PSIQUIATRIA PARA A REFORMA PSIQUIÁTRICA EM MINAS GERAIS [Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus 2017]

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
CURSO: Museologia
DEPARTAMENTO: Teoria e Gestão da Informação
DISCIPLINA: Metodologia da pesquisa histórica em museus                         [6°p. museologia]
PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia
ALUNOS: André Luiz Lara Lima
                Daniel Xavier Henriques
                Igor Cândido Costa
                Luana do Carmo Pirajá Ferraz Santos
                Maria de Lourdes Oliveira e Silva

                Soraia Oliveira de Vasconcelos Botelho

O III Congresso Mineiro de Psiquiatria é considerado um momento importante para a Reforma Psiquiátrica em Minas Gerais e a vocalização de uma “mobilização iniciada no final dos anos 60 pelos psiquiatras da ‘turma do [hospital] Galba’” (GOULART, 2015). Ocorrido entre os dias 15 e 21 de novembro de 1979 na Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), em Belo Horizonte, sob a organização do Centro de Estudos Galba Velloso e a coordenação do médico psiquiatra Cézar Rodrigues Campos, esse foi um evento que, segundo Silva & Goulart (2011), promoveu um “conjunto de iniciativas, ações e produtos que foram, se não determinantes, no mínimo, imprescindíveis para a consolidação de uma produção crítica em relação às instituições psiquiátricas à Reforma”.
Diferentemente, dos encontros anteriores, de 1970 e 1971, que já apresentavam um clima de crítica contra a degradante situação da assistência psiquiátrica no Estado, o III Congresso apresentou um potencial instituinte na política de saúde mental mineira e brasileira. Para além de apresentar o problema do ponto de vista técnico (médico), o congresso aproveitou o processo de abertura política e o fim da censura à imprensa, para dar enfoque político-social nas propostas de um novo modelo asilar e também poder contar com a participação de jornalistas e sindicatos que pudessem se mobilizar junto aos profissionais de saúde para a construção de respostas incisivas para a Reforma Psiquiátrica (SILVA & GOULART, 2011).
Assim, o III Congresso Mineiro de Psiquiatria, que foi uma grande produção política em prol da ruptura do ciclo vicioso e desumano do tratamento psiquiátrico vigente, reuniu um número expressivo de participantes. Foram mais de 600 pessoas, entre médicos, psiquiatras, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais e estudantes, além de familiares dos internos e a imprensa, reunidas em torno dos seguintes temas: “Assistência Psiquiátrica em Minas Gerais”, “Condições de Trabalho dos Profissionais em Saúde Mental”, “Espaço da Psiquiatria” e “Alternativas de Trabalho em Saúde mental”.
Mantendo essa perspectiva de descontinuidade da lógica manicomial, o congresso apresentou ainda dois outros momentos que marcariam positivamente o cenário nacional de desinstitucionalização da loucura. O lançamento do curta-metragem “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton, e a participação de Franco Basaglia, precursor do movimento de reforma psiquiátrica italiano, e de Robert Castel, sociólogo francês. Segundo Silva & Goulart (2011), o documentário e a vinda desses dois nomes internacionais foi planejada “por grupos que já se mobilizavam com a causa manicomial, sendo uma importante jogada política na época”, causando desconforto em muitos dirigentes públicos, como o então Secretário Adjunto da Saúde, José Expedito Janotti, que “declarou que a mídia visual (televisiva) estaria impedida de entrar nos hospitais psiquiátricos”. Esse embate com a Secretaria de Saúde acabou criando maior expectativa nos participantes do III Congresso, que cobraram soluções dos órgãos públicos. No entanto, estes mantiveram uma atitude defensiva, criando uma atmosfera de tensão em um evento que se configurava cada vez mais político.
O III Congresso Mineiro de Psiquiatria, após sete dias de manifestações, terminou com as autoridades governamentais fazendo promessas para mudar os rumos da assistência psiquiátrica e com os congressistas ratificando “o seu repúdio à política de saúde mental, pública e privada, existente em todo o país” (SILVA & GOULART, 2011). Ainda segundo esses autores, um documento foi produzido e encaminhado ao Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), no qual estava acordado: a criação de alternativas terapêuticas com a participação dos sindicatos e demais representantes da classe; o fortalecimento do movimento nacional de trabalhadores de saúde mental; a formulação de novas políticas de assistência psiquiátrica; e a repulsa à mercantilização e privatização da medicina. Ainda foi decidido pelo “compromisso permanente pela humanização da psiquiatria, a partir da extinção dos hospitais e sua substituição pelo tratamento ambulatorial” (SILVA & GOULART, 2011). Deliberações essas que marcaram a luta antimanicomial na década de 1980 e trouxeram importantes conquistas, como o “Plano de Reorientação da Assistência Psiquiátrica”, de 1982, elaborado pelo Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária (CONASP) e implementado pelo INAMPS.


A Reforma Psiquiátrica

A Reforma Psiquiátrica foi um movimento que tomou forma em meados da década de 1970 e se baseou, principalmente, no “questionamento incisivo das políticas públicas de saúde mental e do modelo assistencial centrado nos hospitais psiquiátricos e em estratégias de exclusão” (GOULART & DURÕES, 2010). Em um período que, tanto no cenário brasileiro como mundial, cresciam as críticas às redes assistenciais que previam internações autoritárias e arbitrárias e a total reclusão do doente mental, a Reforma Psiquiátrica no Brasil, segundo Goulart & Durões (2010), ganhou força com a Reforma Sanitária e a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), configurando-se em um “conjunto de iniciativas de cunho político, social, legislativo e cultural” que visavam à desconstrução dos espaços asilares e a efetivação de modelos alternativos de tratamento.
As críticas ao modelo assistencial tradicional vigente explodiram em Minas Gerais e no Brasil. E os horrores do tratamento desumanizado sofrido pelos internos nos hospitais psiquiátricos ganharam repercussão na mídia, criando-se “as condições de mobilização necessárias para o sucesso de duas outras iniciativas mineiras: o III Congresso Mineiro de Psiquiatria e o documentário Em nome da razão, de Helvécio Ratton” (GOULART, 2015). Mas o protagonismo de Minas Gerais para a Reforma Psiquiátrica foi além desses eventos. Dentro do Instituto Raul Soares (IRS), primeiro hospital psiquiátrico público de Belo Horizonte, “ocorreram importantes debates, embates e iniciativas que informam sobre os rumos e as contradições do processo de construção da política de saúde mental brasileira” (GOULART & DURÕES, 2010). Conforme esses autores, o processo mineiro de reforma culminou em uma nova legislação, em 1989, a Lei Paulo Delgado, que só foi possível devido ao contexto histórico-político vivido pelo país de declínio da ditadura militar.
No entanto, apesar das conquistas legislativas, o processo de desinstitucionalização sempre foi complexo. Até o ano de 2001 vigorou no Brasil o Decreto nº 24.559, de 1934, que dava respaldo a uma rede assistencial que se apoiava “no uso indiscriminado de psicofármacos e no isolamento dos doentes mentais, sem projeto clínico ou terapêutico real” (GOULART, 2015). E afirmando Goulart & Durões (2010), a Reforma Psiquiatra sempre marcada por descontinuidades e retrocessos. Deste a década de 1990 esteve em tramitação no Congresso um Projeto de reforma do sistema psiquiátrico, a Lei nº 10.216, que teve como base a Lei Paulo Delgado e somente foi aprovado em 2001. Essa lei substituiu o Decreto anterior e tinha como intento desmantelar o aparato asilar baseado em internações involuntárias (PINTO & FERREIRA, 2010).

Cezar Rodrigues Campos e a Turma do Galba


Foto de Cézar Rodrigues Campos. Disponível em: <goo.gl/ygyYwq>. Acesso em: 17 jun. 2017. 

Cézar Rodrigues Campos (1940-1999, São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais) foi um médico e psiquiatra, considerado um militante na luta antimanicomial (SILVA et al., 2011). Ele foi uma importante figura no processo de Reforma Psiquiátrica Mineira com um percurso profissional que “permite vislumbrar toda uma lógica perversa de funcionamento institucional e as tentativas de sua superação ou promoção de mudanças na política de saúde mental mineira” (SILVA & GOULART, 2011). Campos fez parte da “turma do Galba”, como ficou conhecido o grupo de médicos psiquiatras residentes do Hospital Galba Velloso (HGV) e integrantes do núcleo de pesquisas sobre psicotrópicos de referência, criado na década de 1960. Esses profissionais foram militantes na Reforma Psiquiátrica Mineira, e, como integrante, Campos pode criar, em 1970, a Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), oriunda do antigo Departamento de Psiquiatria da Associação Médica de Minas Gerais, bem como organizar na década de 1970 o I, II e III Congresso Mineiro de Psiquiatria (SILVA et al., 2011; GOULART, 2014; GOULART, 2015).



Março de 1970 – Simpósio Nacional sobre Depressão. Parte da “turma do Galba”. Da esquerda para a direita: Cristina e Rodrigo Teixeira de Salles, Marcio Sampaio, Roberto Rangel, Eunice Rangel, José Ronaldo Procópio, Antônio Leite Rangel, Jorge Paprocki, Maurício Sartori, Maria Muniz Passos (Lia), Delcir Antonio da Costa e Antônio Carlos Corrêa. Disponível em: <goo.gl/YA2au2>. Acesso em: 17 jun. 2017.

Nas décadas de 1970 e 1980, Campos também trabalhou como preceptor da Residência em Psiquiatria do Instituto Raul Soares, se destacando como professor na disciplina Psicologia Social (SILVA et al., 2011). Ele ainda foi, entre 1986 e 1987, superintendente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) e, até 1993, Coordenador de Saúde Mental da Fundação. Em sua biografia ainda consta, participação como ativista no Movimento de Luta Antimanicomial e na constituição do Fórum Mineiro de Saúde Mental, em 1987, bem como Secretário de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, de 1993 a 1996, quando implantou os primeiros serviços de saúde mental substitutivos aos hospitais psiquiátricos de Minas Gerais e elaborou a Lei Estadual 11.802 (Lei Carlão), de 1995, que dispõe sobre a promoção de saúde e a reintegração social do portador de sofrimento mental.

Franco Basaglia e a Psiquiatria Democrática


Foto de Franco Basaglia. Disponível em: <goo.gl/59vpUa>. Acesso em: 17 jun. 2017.

Franco Basaglia foi um médico e psiquiatra, nascido no ano de 1924 em Veneza, Itália, e falecido em 1980. Foi o precursor da reforma psiquiátrica italiana e importante liderança na luta sócio-política de desinstitucionalização da loucura, um processo que visava a “desmontagem e a desconstrução do aparato prático-teórico-discursivo da psiquiatria” e que previa “o resgate de cidadania do doente mental” (GOULART, 2015). Basaglia e sua equipe estiveram à frente da luta antimanicomial na Itália, iniciada ainda na década de 1960 e denominada de Psiquiatria Democrática a partir de 1973. Eles iniciaram importantes mudanças na assistência psiquiátrica italiana tendo como experiência os hospitais psiquiátricos de Gorizia e Trieste, onde realizaram críticas teóricas e práticas à psiquiatria e implementaram novas formas de tratamento para a loucura (OLIVEIRA, 2011). O modelo basagliano buscava uma inversão do saber psiquiátrico da época, deixando a doença de ser colocada em evidência, para dar foco no sujeito e devolver ao portador de sofrimento mental a sua liberdade e recuperar a sua dignidade e cidadania (OLIVEIRA, 2011; PINTO & FERREIRA, 2010; FERREIRA, 2012).
Franco Basaglia esteve no Brasil pela primeira vez em 1978, mesmo ano que ocorreu na Itália a aprovação da Lei nº 180 (Lei Basaglia) para participar do “I Simpósio Internacional de Psicanálise, Grupos e Instituições”, que ocorrei no Rio de Janeiro. Em 1979, retornou mais duas vezes, “para a realização de conferências e visitas aos manicômios no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte” (OLIVEIRA, 2011). Com os hospitais psiquiátricos de Belo Horizonte e Barbacena, Basaglia ficou horrorizado com a situação, chamou-os de “campos de concentração” e “casas de tortura”. Nesse mesmo ano, participa na capital do III Congresso Mineiro de Psiquiatria (OLIVEIRA, 2011). Segundo Goulart (2015), a sua participação nesse evento foi fortuita para a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Para Oliveira (2011), a vinda do médico “dividiu nosso processo de reforma em antes e pós”, já que até aquele momento as discussões no Brasil tinham inspiração nas psiquiatrias norte-americana e francesa.



Documentário “Em nome da Razão”



Referências Bibliográficas

FERREIRA, Walter. Reforma psiquiátrica e atenção psicossocial: contextualização sócio histórica, desafios e perspectivas. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, ISSN 1984-2147, Florianópolis, v.4, n.9, p.52-71, 2012.

GOULART, Maria Stella Brandão. A política de saúde mental mineira: rumo à consolidação. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, v. 8, p. 194-213, 2015. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/gerais/v8nspe/04.pdf>. Acesso em: 09 abr. 2017.

GOULART, Maria Stella Brandão. Comunidades terapêuticas: conceito e prática de uma experiência dos anos sessenta. Revista de Psicologia, v. 5 - n. 2, p. 53-69, jul./dez. 2014. Disponível em: <http://periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/1476>. Acesso em: 13 jun. 2017.

GOULART, Maria Stella Brandão; DURÕES, Flávio. A reforma e os hospitais psiquiátricos: histórias da desinstitucionalização. Psicologia & Sociedade; 22 (1): 112-120, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v22n1/v22n1a14.pdf>. Acesso em: 09 abr. 2017.

GOULART, Maria Stela Brandão. Em nome da razão: quando a arte faz história. Rev Bras Crescimento Desenvolvimento Hum, p.36-41, 2010.

OLIVEIRA, Carla Luiza. O pensamento de Franco Basaglia na área da Saúde Mental. In: 16º Encontro Nacional ABRAPSO, 2011, Recife. Anais... Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2011. Disponível em: <goo.gl/Kh3EJ8>. Acesso em: 12 jun. 2017.

PINTO, Alessandra Teixeira Marques; FERREIRA, Arthur Arruda Leal. Problematizando a reforma psiquiátrica brasileira: a genealogia da Reabilitação psicossocial. Psicologia em Estudo, v. 15, n. 1, p. 27-34, jan./mar. 2010.

SILVA, Diego Patrick da; ABREU, Marcela Alves de; DIAS, Hernani L. Chevreux Oliveira Coelho. Cezar Rodrigues Campos: de psiquiatra a militante da reforma. In: I Encontro de Pesquisadores em História da Saúde Mental, 2011, Florianópolis. Anais... Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011. Disponível em: <http://www.encontrohistoriasm.ufsc.br/files/2011/09/revista.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2017.

SILVA, Diego Patrick da; GOULART, Maria Stella Brandão. A Reforma Psiquiátrica mineira e Cezar Rodrigues Campos: uma história a ser desvelada. In: 16º Encontro Nacional ABRAPSO, 2011, Recife. Anais... Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2011. Disponível em: <goo.gl/fyw5yJ>. Acesso em: 12 jun. 2017.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Do livro em códice ao mundo digital: historiadores pensam as transformações da forma, da técnica e da cultura

Assisti hoje no SESC Palladium ao evento da série Literaturas: questões do nosso tempo, com Robert Darnton (EUA) e Roger Chartier (FR), mediado por Guiomar de Grammont. Historiadores de peso, das mais importantes referências para a história cultural e os estudos sobre livro, edição e leitura, ambos com vasta obra e carreiras coroadas de mérito, dispensando maiores apresentações. O formato da mesa me pareceu bastante interessante, um respiro ante o que estamos acostumados. Ao invés de falas razoavelmente longas seguidas de debate, algumas perguntas lançadas pela mediadora, que ambos responderam com concisão sem perder densidade, por vezes complementando e pontuando a fala do outro, embora de fato tenha sido a pergunta comum o principal modo de atar a conversa. E qualquer historiador sabe o valor de boas perguntas para estabelecer os rumos de uma reflexão histórica. As questões lançadas giraram em torno das mutações da cultura escrita no mundo ocidental: Devemos enfatizar as continuidades fundamentais ou as rupturas radicais, e qual o efeito de eventos como o nascimento do códex, a invenção da imprensa, as inovações nas práticas de leitura ou a alfabetização universal? Resistirá o livro, ante as inovações tecnológicas como o kindle, o e-book? A digitalização favorecerá a salvaguarda dos registros do conhecimento, ou seu modus operandi facilitará seu esquecimento num infindável e indiferenciado mar de bites? Qual o peso da intervenção da censura sobre a produção de um texto? O conhecimento histórico é útil para compreender mais acuradamente as transformações do nosso tempo? Pode o historiador ser objetivo? Qual a pertinência atual de conceitos de autoria, direitos autorais e propriedade intelectual? Quais as responsabilidades de pesquisadores, instituições e cidadãos ante esse quadro atual?

É digno de nota que Chartier tenha tomado antes a palavra para, em claro português com talvez algumas pitadas de portunhol, fazer, em seu nome e também no de Darnton, uma declaração contundente diante da grave situação política no Brasil. O público lançou um Fora, Temer, talvez de forma até bem tímida, o que considero preocupante se levarmos em conta que a maioria, sem muito medo de errar, era composta por estudantes universitários das áreas ligadas às Humanidades, Letras e Artes. Eu entre os que gritamos, logo a seguir nos deleitamos com uma linha de Chartier sobre motivos a temer que foi claramente seu modo de insinuar o próprio Fora, Temer.
Não tenho, nesse momento, como transcrever e aprimorar todas as notas que tomei durante as falas. Na medida do possível e do horário, espero trazer aqui uma síntese orientada pelas questões que são de recorrente pauta deste blog, aproveitando também um ou outro apontamento que me ocorra, considerando que hoje mesmo a aula da disciplina Memória, Sociedade e Informação que leciono na pós tratou justamente das interseções entre História, Literatura, Narrativa e Memória a partir da obra de Walter Benjamin, que aliás acabou sendo alvo de uma menção muito rápida numa fala de Darnton.
Tudo isso tem muito a ver com o modo como os historiadores interpretam a mudança, inclusive quando se trata de aspectos tecnológicos. Lembrando aqui a velha discussão entre apocalípticos e integrados proposta por Umberto Eco, a história nos dá perspectiva para ficar fora dessa dicotomia. Como assinalou Darnton, fala-se em era da informação mas toda "era" tem "informação", ainda que os suportes sejam outros. Da mesma forma quando falamos em tecnologia é preciso ir além do senso comum e compreender que historicamente as sociedades sempre transformam o mundo que habitam usando diversas tecnologias. Paralelamente, Chartier apontou que se o livro resiste e coexiste no atual cenário de digitalização profunda - inclusive das relações sociais - entre permanências e mudanças constatamos mortes quando certos objetos desaparecem - ou eu poderia acrescentar, são deslocados para outros espaços sociais, como as máquinas de escrever que vão para os acervos dos museus. Aqui pontuo que Benjamin, no verbete sobre o colecionador no trabalho das Passagens, já percebera a operação colecionadora que desligava o objeto de suas funções originais para inseri-lo em outra relação.
A posição crítica ante ante esse novo cenário, que cumpre ao pesquisador da História adotar mediante um trabalho rigoroso e as regras que definem um método a partir do qual ele (re)apresenta o passado no presente, representa um ganho na medida em que permite superar leituras esquemáticas, simplificadoras, em que é perdida a natureza mesma das mudanças e de seu complexo entrelaçamento. Chartier sistematizou muito bem uma análise tipológica das mutações em torno do texto, do livro e da leitura, separando as mudanças de ordem morfológica (que dizem respeito ao suporte do texto), tecnológica (recursos de edição e reprodução), e cultural (modos de leitura e circulação). Ao distinguir, nos modos de leitura, a mudança na relação entre fragmento e totalidade do texto, quando se passa da forma manuscrita ou impressa, em que a forma material impõe uma percepção tátil da totalidade à qual pertence qualquer trecho que lemos, para o formato digital em que o fragmento se autonomiza, talvez ele não estivesse muito longe das discussões propostas por Benjamin sobre declínio da experiência, perda da aura, ou mesmo entre a narração e a informação. São tópicos a serem desenvolvidos ainda. Também seria indispensável pensar aí proposições de estudiosos latino-americanos como García Canclini e Martín-Barbero, tão atentos aos gestos de descoleção e recoleção, às mediações dos meios e papel ativo dos ditos receptores. Chartier e Darnton, mesmo sem aprofundar, foram enfáticos em reconhecer a diferença da experiência histórica das gerações mais novas que já se formam como "nativos digitais" [alguns desses apontamentos nessa entrevista de Chartier ao jornal Hoje em dia]. Mesmo quando não mudam necessariamente os livros, mudam os leitores e as práticas de leitura. Nesse sentido, as últimas considerações de ambos me pareceram bastante inspiradoras para pensar as práticas no contexto próprio dos museus. Darnton concentrou sua fala na democratização da riqueza cultural e do conhecimento, alertando para os perigos da censura nos regimes autoritários e da comercialização desenfreada da sociedade de mercado. Chartier destacou o papel das políticas públicas na formação de um cidadão leitor e de um leitor cidadão - o que igualmente é válido para o cidadão público de museu - e condenou o equívoco de se estabelecer qualquer equivalência entre as diferentes formas de escrita, constatando sua convivência e possível complementariedade. Seria de bom alvitre que os profissionais do campo da Museologia incorporassem esse raciocínio para pensar a política de acervo e os programas de exposições das instituições, pois o que enseja é o entendimento que o digital e as manifestações da cultura material de épocas as mais diversas não são mutuamente excludentes ou se sucedem numa ordem cronológica e evolutiva, mas coexistem historicamente e cumpre ao museu prover inclusive as evidências que permitam compreender essa coexistência. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Acervos públicos, sentidos do patrimônio e interpretação da História

A notícia de que o atual governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mandou retirar do gabinete de governo o quadro "Alegoria da morte de Estácio de Sá" (Antônio Parreiras, 1911), alegando que a mesma traz má sorte ou está "carregada" (palavras que teriam sido ditas pelo músico Jorge Ben Jor), produz espanto e uma série de inquietações. Antes de tudo,  assombra um gesto público dessa natureza, da parte de um político ocupando uma cadeira importante, que intenta criar algum tipo de distração ante problemas de gestão e finanças do estado que governa, apelando para esse tipo de interpelação pela irracionalidade, superstição. Ao mesmo tempo, tal gesto absolutamente criticável faz pensar também sobre os diferentes sentidos do patrimônio e as possíveis interpretações da História das quais participam. Retrato alegórico da empreitada colonial, com toda sua violência e imposição de modelo civilizacional, a pintura, figurava no gabinete do governador como elemento integrado à construção simbólica de identidade, inicialmente do Estado-Nação, uma vez que encomendada pelo então Prefeito do o Rio de Janeiro Inocêncio Serzedelo Corrêa no tempo em que a cidade era a Capital Federal. Nesse sentido é como o atestado de que o embate entre "civilização" e "barbárie" teve nos colonizadores os vencedores, dos quais o moderno estado brasileiro se colocava como continuador. Estácio de Sá, desse modo, apresenta-se como mártir da conformação de um Estado Nacional do qual não teve em vida a menor ciência. Posteriormente podemos considerar que a obra foi ressignificada para compor a narrativa iconográfica que constrói a identidade do Rio como estado sem deixar de afirmar sua centralidade para a nação brasileira. Mas, em algum momento, surge a dúvida:  que sentidos alegorias como essa, que demandam uma atitude contemplativa e conhecimento de certos códigos culturais, podem ganhar, nos tempos em que o oculocentrismo combinou-se à circulação acelerada de imagens no espaço público, nas múltiplas mídias e nas redes internéticas? Quão público é o gabinete do governador - o que implica perguntar - quem ultimamente olhava esse quadro?
O deslocamento da pintura - indiferentemente da motivação aparentemente irracionalista ou calcada numa pueril tentativa do governador de angariar a simpatia do eleitorado supersticioso que ele acredita representar, ou eventualmente de desviar o debate público no momento em que se questiona justamente sua capacidade de governar - acaba por paradoxalmente lançar a mesma na rede e nas mídias, talvez reacendendo um potencial de ressonância que estava adormecido enquanto estava na parede enquanto cumpria uma função residual se comparada à que exerceu nos tempos em que certos artefatos significavam muito nesse tipo de espaço através do qual se narrava uma certa história e se afirmava uma dada forma de poder. Se por um lado um motivo patético traz o quadro à baila, por outro às vezes só assim o que esquecido se coloca novamente no horizonte de nossas atenções.
Hoje nossa interpretação da colonização é bastante diversa daquela do início do século XX, e por aí podemos tomar certamente "Alegoria da morte de Estácio de Sá" desde um ângulo crítico que revela a lógica de violência e imposição, as contradições e assimetrias nas quais se ergueu a Colônia, e as implicações disso na formação do território e da nação brasileira nos séculos seguintes. A pintura portanto pode representar um testemunho relevante dessa história, e ao mesmo tempo instigar reflexões sobre temas e tensões distintivas e intestinas de nossa sociedade. Se o governador a retira da parede e esconde numa sala ainda menos frequentada do palácio de governo, parece, sintomaticamente, um gesto produtor de amnésia. Se decidir transferi-lo a algum museu, acena a possibilidade de torná-lo acessível a um público maior. Nesse último caso, me coloco favorável, desde que seja feitas a pesquisa e comunicação museológica condizentes para que a trajetória do quadro seja considerada elemento chave para pensar seu sentido contemporâneo.
  






terça-feira, 13 de outubro de 2015

A exposição versus a indiferença - o museu como espaço político

"Pela primeira vez, um grande museu de arte recebe uma exposição que tem como tema a prostituição. Estamos falando da “Splendour and Misery: Pictures of Prostitution, 1850-1910″, em cartaz desde o dia 22 de setembro no Musée d’Orsay, em Paris, que explora o sexo por dinheiro através de obras criadas entre o anos 1850 até 1910 por grandes artistas." [matéria completa, aqui] 

A repercussão em torno dessa exposição motivou artigo publicado na RHBN: Em tempos de avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo, exposições temporárias do Museu d’Orsay evidenciam o potencial político da arte. Eneida Quadros Queiroz [completo, aqui]



Sem tempo para uma reflexão mais longa, deixo apenas a convicção de que os museus constituem espaço político e a sociedade só tem a ganhar quando eles se reconhecem enquanto tanto e partem daí para propor exposições e outras ações cujo efeito rompe a indiferença e provoca o debate com o objetivo de ampliar nosso entendimento sobre fenômenos diversos que compõem a vida social, como no caso a prostituição. Fica o convite para os leitores das matérias deixarem aqui algumas considerações sobre o assunto.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Pesquisa em História sobre museus

Como parte de suas atividades como bolsista CAPES/Reuni, a pesquisadora Joelma Nascimento, que recentemente defendeu sua tese de doutorado no PPGHIS-UFMG, realizou um  pequeno levantamento de trabalhos recentes produzidos em Programas de Pós-graduações em História concernentes ao campo da museologia, selecionando pesquisas de doutorado e mestrado em História que estritamente possuam os museus como objeto central de análise. O levantamento foi realizado através dos sites dos sistemas de buscas das Bibliotecas Digitais das Universidades.

Considero essas referências para compor a bibliografia complementar das disciplinas que leciono na graduação em museologia da UFMG, especialmente Tipologia de Museus e Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus. Como isso no fundo é uma pesquisa em andamento, irei fazendo atualizações periódicas nesta postagem.



Documento: Tese de Doutorado

Título em português: Darwinismo, raça e gênero: conferências e cursos públicos no Rio de Janeiro (1870-1889) [link]
 

Palavras-chave em português: Ciência, Darwinismo, Gênero, Raça.

Resumo em português: O presente trabalho pretende delimitar os contornos de um discurso científico/cientificista, presente de modo mais intenso no último quartel do Oitocentos, que fundamentou argumentos de projetos modernizadores da nação, quais sejam, a aplicação da teoria de Darwin à sociedade, a hierarquização racial da sociedade e a criação de uma boa mãe de família burguesa, nos moldes europeus. Estas três propostas modernizadoras foram apresentadas e discutidas nos seguintes espaços públicos de vulgarização científica as Conferências Populares da Glória, os cursos públicos do Museu Nacional e as que denominei Avulsas, pois não se encaixavam nas duas categorizações anteriores todos realizados na capital imperial entre os anos de 1870 e 1889.

Documento: Tese de Doutorado

Título em português: Os estudos físicos de antropologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro: cientistas, objetos, idéias e instrumentos (1876-1939) [link]

Palavras-chave em português: Antropologia (pesquisa e história), Museus, Rio de Janeiro. 

Resumo em português: Este trabalho analisa o processo de institucionalização da Antropologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro entre 1876-1939. Operando com as continuidades e descontinuidades do período, a pesquisa foca nas mudanças políticas e institucionais e tenciona observar o desenvolvimento da atividade científica da Antropologia. Pretendemos caracterizar esta prática científica, identificar os cientistas, reconstruir sua rede de intercâmbio entre cientistas e instituições, conhecer seus problemas e questões discutidas, e como eles faziam suas pesquisas e construíam conhecimento.




Data de Defesa 2012-03-16



Título em português A formação do Museu Republicano Convenção de Itu (1921-1946) [link]
Palavras-chave em português: Cultura material; Exposições; História dos museus; Museologia
Museus de história; Primeira República

Resumo em português:Esta dissertação, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo (USP), vincula-se também ao Programa de Pesquisas em História da Cultura Material do Museu Paulista/USP, na linha de pesquisa História dos Museus e das Exposições. Seu objeto de estudo é a formação do Museu Republicano Convenção de Itu, extensão do Museu Paulista no interior do Estado (o primeiro museu histórico brasileiro dedicado à República), emblemático por ter-se constituído como projeto de alguns dos chamados republicanos históricos, que estiveram à frente do governo brasileiro na Primeira República. Seu recorte cronológico abrange desde o momento que antecede a inauguração do Museu, realizada em 1923, até o final da gestão de Affonso Taunay, seu primeiro Diretor, em 1946. Os museus de história têm suscitado reflexões de diferentes autores, em diferentes perspectivas. A contribuição que pretendemos dar para esta discussão desenvolve-se não na perspectiva da História Política, mas sim da Cultura Material e da Museologia, isto é, a partir do exame de seu acervo e sua exposição.