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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Visita ao Intituto Tomie Ohtake - Exposição "O Rinoceronte: 5 séculos de gravuras do Museu Albertina"

No último dia de uma recente visita a São Paulo, aproveitei a dica do colega Amilcar Almeida Bezerra e fui conferir a exposição de gravuras da coleção do Museu Albertina no Instituto Tomie Ohtake. Obras de tirar o fôlego, inclusive a que dá título à mostra, da lavra de Albrecht Dürer, que ilustra um incontável número de livros, em campos tão diferentes quanto a biologia, a história e as artes. Entre outros trabalhos de artistas que admiro, me emocionou muito o "Modo de voar" de Goya, pela minha paixão de infância pela aviação, e por ilustrar a capa de um dos livros mais marcantes pra mim em toda a historiografia, "A noite dos proletários" de Jacques Rancière. Encontrei claro outros favoritos, como Klimt, Klee, Munch e Toulouse-Lautrec - evidente a preferência pela passagem século XIX-XX do coração... A disposição é essencialmente cronológica e não há maiores discussões ou criatividades expográficas. Depois de ter passado por exposições inovadoras no Museu do Ipiranga e na Pinacoteca, ficou uma certa sensação de acomodação, com seus prós e contras. Certamente que seria possível ir além da narrativa óbvia e valorizar mais o esforço de trazer uma coleção de valia como essa, e ainda precisamos insistir mais para que exposições de arte, mesmo canônicas, ambicionem ser mais efetivas em alcançar um público menos acostumado e familiarizado com tal linguagem e seus lugares-comuns, como já foi provado em outras ocasiões e instituições. Isso dito, é perfeitamente possível reconhecer a maestria dos traços de grandes artistas que atravessam os séculos.

Do site: https://www.institutotomieohtake.org.br/exposicoes/interna/gravuras-do-museu-albertina

"Os trabalhos reunidos em O Rinoceronte: 5 Séculos de Gravuras do Museu ALBERTINA são provenientes do maior acervo de desenhos e gravuras do mundo, o The ALBERTINA Museum Vienna, fundado em 1776, em Viena, que conta com mais de um milhão de obras gráficas. A seleção das 154 peças para esta mostra, organizada pelo curador chefe do museu austríaco, Christof Metzger, em diálogo com a equipe de curadoria do Instituto Tomie Ohtake, é mais um esforço da instituição paulistana de dar acesso ao público brasileiro a uma coleção de história da arte, não disponível em acervos do país.

Com trabalhos de 41 mestres, do Renascimento à contemporaneidade, a exposição, que tem patrocínio da CNP Seguros Holding Brasil, chega a reunir mais de dez trabalhos de artistas célebres, para que o espectador tenha uma visão abrangente de suas respectivas produções em série sobre papel. “A exposição constrói uma ponte desde as primeiras experiências de gravura no início do século XV, pelos períodos renascentista, barroco e romântico, até o modernismo e à arte contemporânea, com gravuras mundialmente famosas”, afirma o curador.

O recorte apresentado traça um arco, com obras de 1466 a 1991, desenhado por artistas marcantes em suas respectivas épocas, por meio de um suporte que, por sua capacidade de reprodução, desenvolvido a partir do final da Idade Média, democratizou ao longo de cinco séculos o acesso à arte. O conjunto, além de apontar o aprimoramento das técnicas, consegue refletir parte do pensamento, das conquistas e conflitos que atravessaram a humanidade no período.

Do Renascimento, cenas camponesas, paisagens, a expansão do novo mundo pautado pela razão e precisão técnica desatacam-se nas calcogravuras (sobre placa de cobre) de Andrea Mantegna (1431–1506), as mais antigas da mostra, e de Pieter Bruegel (1525–1569), e nas xilogravuras de Albrecht Dürer (1471 - 1528), pioneiro na criação artística nesta técnica, cuja obra “Rinoceronte” (1515) dá nome à exposição. O artista, sem conhecer o animal, concebeu sua figura somente por meio de descrições. O processo, que ecoou em Veneza, fez com que Ticiano (1488 – 1576) fosse o primeiro a permitir reprodução de suas obras em xilogravura por gravadores profissionais. Já a gravura em ponta seca, trabalho direto com o pincel mergulhado nas substâncias corrosivas, possibilitava distinções no desenho e atingiu o ápice nas obras de Rembrandt (1606–1669), que acrescentou aos valores da razão renascentista a sua particular fascinação pelas sombras.

Nos séculos XVII e XVIII, possibilitou-se com a meia tinta, o efeito sfumato, e com a água tinta, a impressão de diversos tons de cinza sobre superfícies maiores. Francisco José de Goya y Lucientes (1746–1828) foi um dos mestres desta técnica, aprofundando a questão da sombra em temas voltados à peste e à loucura. Enquanto Giovanni Battista Piranesi (1720–1778) tem a arquitetura como tônica de suas gravuras em água forte, na mesma técnica Canaletto (1697–1768) constrói panoramas de Veneza.

No século XIX com a descoberta da litografia, com o clichê e a autotipia foi possível realizar a impressão em grandes tiragens sem desgaste da chapa de impressão e a consequente perda de qualidade associada ao processo. Diante disso, artistas tiveram disponível um amplo espectro de técnicas, a exemplo de Henri de Toulouse-Lautrec (1864–1901), o primeiro pintor importante a se dedicar também ao movimento artístico dos cartazes. A metrópole, sua face boêmia e libertina foram amplamente reproduzidas pelo francês, um dos pós-impressionistas, como Édouard Vuillard (1868–1940), que revolucionaram a cromolitografia e influenciaram artistas do final do século XIX e começo do XX, como Edvard Munch (1863–1944), precursor do Expressionismo, movimento no qual notabilizaram-se Ernst Ludwig Kirchner (1880–1938), Max Beckmann (1884–1950) e Käthe Kollwitz (1867–1945). Das joias da coroa austríaca estão dois de seus principais representantes: Gustav Klimt (1862–1918) e Egon Schiele (1890–1918). Como reação ao expressionismo, encontra-se George Grosz (1893–1959), um dos fundadores da Nova Objetividade, corrente de acento realista e figurativo que respondeu ao febril Período entreguerras.

A exposição, realizada com a colaboração da Embaixada da Áustria no Brasil, reúne outros nomes seminais da história da arte moderna como Paul Klee (1879–1940), um conjunto de várias fases de Pablo Picasso (1881–1973), Henri Matisse (1869–1954), Marc Chagall (1887–1985); alcança ainda artistas pop, que se utilizaram particularmente da serigrafia a partir de 1960, como Andy Warhol (1928–1987), até chegar nos mais contemporâneos como Kiki Smith (1954–), além de outros mestres do século XX."

 

Francisco Goya, Os provérbios: modo de voar. 1810-1815

Jacopo Barbari, Vista de Veneza. 1500
Pieter Brugel, o velho. A tentação de St. Antônio, 1556

Paul Klee, Virgem na árvore. 1903

Gustav Klimt, põster da 1ª Exposição de Arte da Associação dos Artistas Plásticos de Sucessão Austríaca (após a censura). 1898 

Albrechet Dürer, O monstro marinho. 1493  
Marc Chagall, Os Pintores. 1923-1927 


Edvard Munch, Madonna. 1895-1902




Algumas obras pela Folha de São Paulo

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Exposição celebra os 50 anos de carreira de Rita Lee

 

Exposição do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, celebra os 50 anos de carreira de Rita Lee

[matéria do Jornal Nacional, aqui

texto: Bernardo Ferreira Campos

editor: Luiz H. Garcia


Sucesso, Aqui Vou Eu

 

Já estou até vendo

Meu nome brilhando

E o mundo aplaudindo

Ao me ver cantar

Ao me ver dançar

I wanna be a star!

Como Ginger Rogers, vou sapatear

Mais de mil vestidos vou poder usar

Num show de cores em cinemascope

Eu direi adeus

Aos sonhos meus

Sucesso, aqui vou eu!

 Luzes, câmera... ação... eu vou lutar, eu vou subir... eu vou ganhar e conseguir... será que algum dia famosa eu seria? Rita Lee já sabia que alcançar a fama não seria um problema e que todos os caminhos a levariam a ser a nossa eterna Rainha do Rock.

A Exposição “SAMSUNG ROCK EXHIBITION RITA LEE”, que ficará disponível até 20 de fevereiro de 2022, foi inaugurada no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e conta com a exibição dos acervos pessoais da cantora e a curadoria de seu filho João Lee: “Convido você a dar uma espiada nas lembranças que minha mãe guardou dos seus 50 anos trabalhando com música por este mundo afora, quando subia no palco e dividia com o público suas peripécias, cantando e dançando. Tempos inesquecíveis, maravilhosos e divertidos”.

Após sua saída turbulenta dos Mutantes e do início de sua carreira solo, Rita desde então produziu intensamente e teve várias parcerias ao longo de sua trajetória, como Lucinha Turnbull, conhecida como a primeira mulher a tocar guitarra no Brasil; a banda Tutti Frutti e seu esposo Roberto de Carvalho. Rita Lee representou a loucura, a rebeldia e a irreverência de ser mulher e roqueira em tempos de caretice, conservadorismo e Ditadura Militar. Coisas de quem canta e se orgulha de ser a ovelha negra da família...


 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Instável Movimento


 
Subi João Pinheiro e me ocorreu ir ao CCBB ver a exposição Paul Klee - equilíbrio instável. Numa primeira visita, deixando de lado implicâncias com exposições "empacotadas", há qualidades a ressaltar, para além da óbvia relevância da arte de Klee. Gostei dos textos concisos, claros e consistentes, e da perspectiva didática assumida, com uma abordagem eminentemente cronológica que assume sem drama o caráter monográfico. Num bem bolado nicho, alia-se um vídeo bem produzido a alguns textos e uns poucos instrumentos de trabalho para elucidar as técnicas usadas pelo artista, de forma bastante compreensível para quem não lida com pintura ou conhece história da arte. Foge da marmota de reproduzir ateliê ou de usar interações digitais que se convertem em boas distrações lúdicas mas em si não são capazes de revelar a técnica em aplicação, como o vídeo logra razoavelmente bem – mais que isso, só praticando mesmo. Ali, talvez até mais do que no contato direto com as obras – aliás um problema é que várias que surgem nos vídeos, bem impactantes, não se encontram na exposição – revela-se ao olhar menos treinado a forma como um pintor é um investigador e um inventor. A mostra se ressente de ser centrada num único acervo, por mais que o Centro Paul Klee tenha 4 mil obras, das quais ali vemos pouco mais de uma centena. Esse porém se revela sobretudo na decisão que julgo equivocada de incluir a solitária cópia fac-símile de Angelus Novus, como um pedágio pago à expectativa do admirador de Benjamin que já decorou mentalmente aquela famosa tese sobre o “anjo da História”. Uma tremenda “auto-armadilha” dar um destaque todo especial justamente a uma obra que está ali apenas como pálida cópia. Essas exposições empacotadas, ainda que milionárias, muitas vezes não trazem as “joias da coroa” e tentam compensar no volume, muitas vezes com trabalhos preliminares ou redundantes, que podem interessar aos muito especialistas mas dificilmente captam a imaginação do grande público. 

As obras que mais me cativaram foram “Jovem proletário” e “Equilibrista”, esta última porque ressoou O trapezista de Kafka, inspiração de outros carnavais. Destaco justo aí as seções Fantoches e O mundo como palco, que trazem trabalhos que remetem figurativamente ao núcleo conceitual da exposição, com acrobatas, marionetes, palhaços e outros personagens que dizem da instabilidade e dos altos e baixos da vida de artista. Muito revelador aí o pequeno trecho de entrevista de seu filho Felix e outro vídeo contíguo que mostra uma das encenações dele com fantoches que ironiza o tempo de Klee na Bauhaus, tendo sido muitas vezes o pai e seu gato a sua única plateia. Uma última consideração cabe ante a insistência dessas curadorias empacotadas com o percurso linear. Nesta em especial será particularmente difícil voltar de trás pra diante, criando situações chatas junto a guardas de galeria, que não tem culpa do treinamento que recebem.
  
 
Depois, ainda deu tempo de uma corrida à Casa Fiat de Cultura para ver “Beleza em Movimento”, outra onda, exposição de design, especialmente de carros. Vou me permitir aqui sintetizar que curiosamente a sensação predominante foi de nostalgia, e nem tanto pelo inescapável DeLorean de De volta para o futuro (conto do nosso passado nos primórdios da globalização) mas por outros carros que me deram a nítida sensação de estar dentro do meu Supertrunfo de carros, em que inclusive muitos automóveis de salão, apresentados ali como “do futuro”, agora são exibidos como testemunhos do design do pretérito. Ainda deu tempo de encontrar uma querida colega de trabalho de meus primeiros tempos de prefeitura. Nesse ramo aqui, quando não vamos de encontro ao passado, é ele que vem em nossa direção.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Raiz - Ai Weiwei

Finalmente achei uma brecha na agenda combinada com boa logística para ir ao CCBB conferir RAIZ, com obras de (ou promovidas por) Ai Weiwei. Vi trabalhos instigantes de um rebelde com causas, conceito aliado a habilidade, diálogo com a tradição sem subserviência, entusiasmo pela novidade sem submersão. Achei também válido o esforço dele de criar obras novas em seu périplo pelo Brasil - a despeito de estereótipos que um contato tão imediato e mediado pelo curador Dantas não tinha a menor possibilidade de desfazer. Sem duvidar do impacto social "local" de trabalhos para os quais convoca artesãos e movimenta economias, saberes e comunidades, acho sempre estranho que esses artistas não problematizem nunca a dimensão de propriedade autoral que toca a si em contraponto ao anonimato que aliena do resultado os nomes e eventualmente os direitos daqueles que supostamente estão promovendo. Por fim, graças ao fortuito e agradável encontro com meu caríssimo Alex Cardoso, de quem cursei uma instigante optativa de Sociologia na graduação, e companheiro de inenarráveis noites enxadrísticas de uns anos atrás, acabei notando como o trabalho de Weiwei com os refugiados permite interrogar fronteiras entre arte e ciência, desde os recursos muito diversos que tem artistas e cientistas de renome para empreender, até como esse intercâmbio sugere que eventualmente os artistas saiam-se melhor como pesquisadores, do que estes últimos quando se pretendem artistas.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

100 anos de Athos Bulcão


Estive agora há pouco no CCBB conferindo a exposição "100 anos de Athos Bulcão" [informações gerais]. Fique agradavelmente surpreendido com o que vi. Se não há nada propriamente impressionante, em termos de pesquisa ou expografia, também não cai nas espetacularizações baratas ou lapsos graves que às vezes encontramos por aí. É, a meu ver, um trabalho correto, que não complica, não enche linguiça - fazia tempo que eu não sentia tanto a amplidão das salas do CCBB, invariavelmente preenchida por mobiliário expográfico em excesso para disfarçar a escassez de obras, o que desta vez não seria preciso - e consegue apresentar ao público um bom panorama retrospectivo da obra do artista, cumprindo o que se propõe numa exposição para celebrar esse tipo de efeméride. Sai-se particularmente bem em mostrar a diversidade de materiais e linguagens com que Athos Bulcão trabalhou, claro que inevitavelmente destacando a integração entre arte e arquitetura, com as obras para prédios públicos e o vínculo com o projeto modernista brasileiro. Claro que há um destaque para a azulejaria, mas talvez a promoção da mostra não esteja a contento, e ao centrar fogo nela, não consegue dar a ver antecipadamente ao público a multiplicidade de objetos e expressões que dispõe ao longo das salas. Além de obras acabadas que incluem pinturas, desenhos, fotomontagens, esculturas com finalidade acústica e até vestuário, maquetes, estudos, plantas e projetos deixam ver o processo de forma mais completa e esclarecedora. Combinado com depoimentos muito bem pinçados do artista - o que revela uma pesquisa competente - e com a alternância entre cinza e cores fortes nas paredes que conversam com o acervo exposto, esse material todo oferece ao público um bom ponto de partida para entender como Bulcão pensava e dava forma à sua criação, inclusive contando com a colaboração inadvertida dos operários da construção civil na colocação dos azulejos. Mas isso poderia, inclusive, se houvesse ousadia para tal, suscitar perguntas sobre autoria, colaboração e reconhecimento onde as fronteiras entre arte e trabalho, invenção e reprodução, entre outras, se borram. Nesse ponto esta e tantas outras exposições de arte silenciam, apesar de terem sido os próprios artistas os primeiros a brincarem com esse fogo.





Além disso, se é legítimo trazer obras de outros artistas para mostrar diálogos e repercussões em produções posteriores, faltou algo mais que mencionar os nomes destes em legendas. Agora, escorregada mesmo foi o aparato de interação, bobo, previsível, sem maiores opções para impulsionar a criatividade do público ou dar algum entendimento prático do trabalho do artista. Dispensável. Finalmente, se a exposição nos situa bem quanto a forte presença da criação de Bulcão no espaço público de Brasília, para outras cidades em que ela se apresenta nem tanto. Caberá provavelmente ao programa educativo compensar a falta de ênfase ao laço dele com BH, como mostrou muito bem a reportagem de Gustavo Werneck no Estado de Minas.  No geral vale a pena dar uma conferida, para ver, além das obras, claro, uma exposição bem realizada acima da média, sem se complicar.
Ah, tem também uma de curta duração "Dragão Floresta Abundante", fruto da residência do artista Christus Nóbrega na China. Muita coisa é clichê mas não deixa de ser oportunidade rara de ver material vindo de lá. 

quinta-feira, 8 de março de 2018

Entre o nu e a assinatura: o papel da mulher nos museus de arte [Tipologia 2017]

ECI - UFMG - Museologia
Grupo: Beatriz, Bruno, Carina, Renata, Ronaldo.


“As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? Apenas 6% dos artistas em exibição são mulheres, mas 68% dos nus são femininos”

Quase sempre, o primeiro contato que temos com a arte é na escola, seja visitando um museu, seja frequentando as aulas de arte que fazem parte da grade escolar. Nessas classes, o indivíduo começa a ter as primeiras noções sobre os artistas, as coleções, os espaços culturais e museus. Por isso é tão importante que esse contato inicial com a arte seja estimulado de maneira prazerosa, instrutiva, preocupada com os conceitos que são ensinados, sem nunca esquecer de levar em conta o universo imenso e diverso que temos na área artística.

Quando o aluno é incentivado a expandir seu modo de ver, de se expressar e de se comunicar através do que está sendo apresentado a ele, tanto nos museus quanto dentro da sala de aula, ele se torna um cidadão capaz de se conhecer e se reconhecer dentro da sociedade de uma forma muito melhor.

A arte é uma construção social, por isso, definir um conceito único de arte se torna praticamente impossível. Ela possibilita a percepção individual de cada ser humano e, por ser quase um sinônimo de expressão de sentimentos, cada um percebe a obra artística de acordo com as próprias experiências de vida, criando um diálogo único com o que está sendo visto, ouvido ou sentido. Essa conversa permite que a arte ganhe um significado singular para cada pessoa, e é por isso que estimular desde cedo o contato com o universo artístico é tão importante.

O lugar mais comum para a arte é o museu. Com a instituição museal surgiram e foram desenvolvidos seus conceito como a museologia social que trata de reflexões que instituem o museu integral, ao serviço da sociedade, e, por outro, vinculam os museus a novas funções sociais, como agentes de comunicação e de intervenção social, tendo como epicentro o indivíduo e a comunidade, deixando o museu de ser encarado como mero local de armazenamento de coleções ou de memórias.

A partir disso, a museologia de género pode ser também entendida também como a feminização das funções de direção e de curadoria de museus ou de instituições museológicas, bem como a sua representação no próprio espaço do museu, a qual é considerada indispensável à concretização de políticas de boas práticas. O conceito de museologia de género é relativamente recente, tendo surgido nos anos 1990. Resultou da convergência de diferentes fatores, provenientes tanto da área específica da museologia como do campo dos estudos das mulheres e do género.

“Ser artista para a mulher é resgatar o mito de Lilith, substantivando predicados de valor: ser disciplinada, criativa, inovadora, autônoma, ter o domínio da técnica. Ser artista é abrir possibilidades e atributos, construindo a si mesma como sujeito”

O destino biológico da mulher ao longo da história sempre ficou restrito à esfera doméstica, nos cuidados da casa, filhos e maridos. A esfera cultural, por outro lado, foi restrita aos homens, cidadãos, que tinham papel de grande importância dentro da comunidade.

Desde a pré história o corpo feminino foi mistificado através do poder da geração da vida. A preservação da espécie fica como responsabilidade da mulher, portadora dessa desse processo magico. O mais comum exemplo dessas representação é a Vênus, tão normalmente encontrada dentro das obras de artes. É a partir daí que” a mulher perde espaço cultural cooperativo na medida que o homem passa a dominar a sua função biológica.”

Na Grécia antiga o corpo idealizado era o masculino, enquanto a fisionomia feminina era mostrada em grande parte vestida. Já na Idade Média o corpo feminino passa a ser porta de entrada para o pecado, enquanto a imagem da virgem passa a ser a idealização do feminino. A exaltação da beleza feminina se dá somente a partir do Renascimento onde a mulher se torna objeto de admiração pela sua imaculada beleza. Durante o renascimento a beleza passa a ser exterior, e a mulher passa a ter importância social pelo seu poder de sedução.



A partir do século XV, com a efervescência de corte que busca uma individualidade, construída a partir das identidades, aparece o estilo na arte e aparece também a emergência de uma nova linguagem: o corpo nu. O corpo feminino passa a ser celebrado ao longo do século XV ao XVIII. “A sensualidade da mulher adquire valor social: a venenosa nudez, o despudor. A mudança no imaginário erótico é representado. Vemos nas representações da mulher a partir do renascimento o refinamento do flerte juvenil; a tentação servil; a erotização da esposa; a infidelidade conjugal; prostitutas mais adequadas e discretas - a representação das artistas (cantoras e dançarinas) A mulher além de segundo sexo, passa a ser o belo sexo.” Os temas mitológicos e bíblicos são pretexto para despi-las e a ocorre a predominância do nu feminino sobre o masculino.

O êxito estético da imagem da mulher sob a imagem masculina, no entanto, não eliminou de fato as relações hierárquicas presentes na ideologia social, podendo até ter contribuído para reforçar um estereótipo equivocado e que é se é presente até hoje ( a mulher como um ser frágil, dócil, passível, condenado à dependência). Nesse processo todo de idealização da imagem feminina ocorre o aprisionamento da própria essência da mulher, que até hoje não se vê representada por tais imagens, sejam elas em obras de artes, esculturas, à até mesmo capas de revistas e outdoors.

É somente a partir da década de 70 que artistas, críticos e historiadores feministas começam a reivindicar o espaço da mulher artista dentro da história da arte, excluída pelo monopólio masculino, sendo que as qualidades femininas foram muito tempo vistas como negativas nas obras de arte e que, a história da arte tem construído um discurso do artista como herói (homem), o que descarta a mulher deste universo.

A conquista à alfabetização e escolaridade se deu de forma diferente entre homens e mulheres, assim como seus direitos como cidadão. Nascidas em famílias de alta condição social e de caráter mais libertário, de fato um pequeno número de mulheres obtiveram a oportunidade de se tornarem artistas. Mas a educação feminina sempre estava primordialmente relacionada aos hábitos domésticos.

“As lentas transformações se devem, provavelmente ao não reconhecimento da mulher como participante da sociedade no âmbito público e na cultura, não sendo necessário seus direitos a instrução”

Grandes mulheres passam a aparecer no meio das artes e protagonizam a luta pela assinatura até hoje. De forma representativa podemos citar Artemisia Gentilesch (1593) que sua história, como mulher e como artista, ganhou repercussão após sua temática agressiva contra homens. Artemisia, da Itália, é conhecida por influências de Caravaggio na sua pintura porém, ela a história que não se repercute e que realmente afetou diretamente o seu trabalho é de seu estupro. Após ser estuprada e, além disso, culpada por, momento, estar no lugar errado (um ateliê de arte), percebemos uma mudança brusca na sua forma de pintar. Artemisia Gentilesch não foi uma representante do barroco italiano apenas por admirar o trabalho de Caravaggio mas porque todo o horror e trauma que viveu e que só o barroco com suas cores fortes poderiam representar.

Além desta, podemos citar Berthe Morisot (1841) que é representante do impressionismo, apenas exaltado por assinaturas como a de Van Gogh e Manet. Kathe Kollwitz (1867), da Prussia, representante do expressionismo alemão tratava de questão sociais de seu tempo, entre duas guerras, além de dominar técnicas de gravura e litografia. Tamara Lempick (1898), fugida aos 14 anos com a família para paris para fugir dos horrores de Varsóvia, representa o art decó e a geometrização da pintura. Podemos citar também Frida Kahlo que, apesar de toda a sua maestria, ficou mais conhecida por sua relação perturbada com seu marido, o também pintor Diego Rivera. Além disso podemos citar ainda Anita Malfatti e Tarsila do Amaral além de Bertha Lutz pela sua influência tanto na briga por direitos feministas quando pelos museus de ciências naturais.

Um grupo de mulheres vem se destacando, mas elas já exercem suas atividades há pelo menos 32 anos, elas se auto intitulam Guerrilla Girls, usando máscaras de gorila para protestar de forma bem-humorada e ousada contra a desigualdade de gênero e de raça no mundo da arte – em inglês, a pronúncia das palavras guerrilha e gorila é semelhante. O questionamento central é: Por que há tão poucas artistas mulheres com obras em exposição nos museus e galerias de arte, se há tantas modelos nuas nas peças exibidas?

GUERRILLA GILRS: As mulheres, seus espaços da arte, todos os espaços da arte

Para exemplificar as possibilidades de expressão feminina no mundo da arte e confirmar os reflexos do mundo real no mundo da arte nasceu nos anos 1980 o grupo Guerrilla Girls. Formado por um grupo de mulheres buscou mostrar ao mundo que a desigualdade de gêneros também se refletia no campo das artes. O primeiro foco de atuação ocorreu em função da exposição “An international survey of recent painting and sculpture” (“Um panorama internacional da pintura e da escultura recente”) que ocorreu no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1984.

Qual a realidade da exposição de 1984?

A de apresentar um panorama artístico em que somente 13 dos 165 artistas de 17 países que expunham suas obras eram mulheres. Uma realidade no mundo das artes que refletia a desigualdade social entre homens e mulheres e que se intitulava como aquela que, à época, representava um conjunto dos mais importantes artistas do mundo.

O propósito do grupo é ter como foco as questões relativas à realidade das mulheres nos diferentes campos sociais, sejam pessoais ou profissionais, sejam privados ou públicos, sejam individuais ou coletivos. Iniciada com a exposição de uma situação diferenciada quanto ao gênero feminino no mundo das artes, as diferentes expressões do grupo buscaram expor questões sobre a participação das mulheres nos diferentes campos e uma relação com o mundo das artes.

Desde a formação elas são incógnitas e anônimas e contam com mais de 55 membros ao longo do tempo em que atuam com máscaras de gorila como forma de expressão e para se manterem “desconhecidas”. Realizaram mais de 100 projetos com propostas que compõem desde projetos de rua, cartazes e adesivos a exposições em museus em que “desnudam” um universo em que se tem práticas discriminatórias exemplificadas pelas desigualdades recorrentes nas exposições e no campo das artes. As formas de expressão do grupo se fazem em cartazes provocativos e reflexivos cartaz acerca da quantidade de mulheres em exposições, de maneira cronológica e perspectiva nos Museus de Nova York: “Quantas mulheres tiveram exposições individuais em Museus de Nova York no ano passado? como abaixo apresentado.



Se percebe do movimento uma preocupação com as questões de gênero no mundo das artes, seus reflexos e suas intenções. Ainda assim se percebe um campo a ser explorado, de busca da participação e da identidade feminina de maneira igualitária e libertária. Um grupo que busca desconstruir o modelo social e histórico de visão do mundo feminino, do mundo da mulher.
Elas estão por diferentes locais, pelo mundo. De diferentes maneiras, em suas expressões, seja em cartazes, livros, adesivos, ações, conversas, apresentações, workshops e exposições. No ano de 2017 foram diferentes manifestações, na Marcha das Mulheres em Washington DC e em Los Angeles e na “Occupy Museums Statement and Protest” no MoMA em Nova York. Durante o meses de setembro a novembro de 2017 participam de uma mostra em São Paulo no MASP com sua primeira retrospectiva sob o título “Guerrilla Girls: Gráfica, 1985-2017” no período de 01/12/2017 a 14/02/2018 com cerca de 100 dos trabalhos mais importantes cartazes em 30 anos de carreira.
Se não por obrigação ou dever, os museus de arte têm por uma questão de consciência essa dívida com as mulheres. Eles devem repensar a forma em que as mulheres estão representadas em suas galerias, elas não somente devem ocupar o posto de “objetos museais”, mas também o de criadoras desses objetos, de expositoras, de curadoras ou qualquer outro que lhes convir. Vá ao museu mais perto de você e conte os trabalhos assinados por mulheres. O desafio lançado pelas Guerrilla Girls há alguns anos mantém-se atual: a relação das mulheres com os museus define-se pela ausência, sobretudo ao nível dos discursos expositivos.
Aliás, de um modo geral, o simbolismo e a metáfora têm, nos museus da mulher, um lugar cativo. Portanto, é perceber que todas essas mulheres, - seja ela de Willendorf, de Milo ou de Malta - ganharam vida e estão por aí criando sua própria visão do que venha a ser a Vênus Moderna. Sendo assim, os lugares de memória, devem introduzir pontos de vista tendentes à igualdade, de modo a que também reflitam o protagonismo feminino no processo da construção humana.

Referencias: