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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Instável Movimento


 
Subi João Pinheiro e me ocorreu ir ao CCBB ver a exposição Paul Klee - equilíbrio instável. Numa primeira visita, deixando de lado implicâncias com exposições "empacotadas", há qualidades a ressaltar, para além da óbvia relevância da arte de Klee. Gostei dos textos concisos, claros e consistentes, e da perspectiva didática assumida, com uma abordagem eminentemente cronológica que assume sem drama o caráter monográfico. Num bem bolado nicho, alia-se um vídeo bem produzido a alguns textos e uns poucos instrumentos de trabalho para elucidar as técnicas usadas pelo artista, de forma bastante compreensível para quem não lida com pintura ou conhece história da arte. Foge da marmota de reproduzir ateliê ou de usar interações digitais que se convertem em boas distrações lúdicas mas em si não são capazes de revelar a técnica em aplicação, como o vídeo logra razoavelmente bem – mais que isso, só praticando mesmo. Ali, talvez até mais do que no contato direto com as obras – aliás um problema é que várias que surgem nos vídeos, bem impactantes, não se encontram na exposição – revela-se ao olhar menos treinado a forma como um pintor é um investigador e um inventor. A mostra se ressente de ser centrada num único acervo, por mais que o Centro Paul Klee tenha 4 mil obras, das quais ali vemos pouco mais de uma centena. Esse porém se revela sobretudo na decisão que julgo equivocada de incluir a solitária cópia fac-símile de Angelus Novus, como um pedágio pago à expectativa do admirador de Benjamin que já decorou mentalmente aquela famosa tese sobre o “anjo da História”. Uma tremenda “auto-armadilha” dar um destaque todo especial justamente a uma obra que está ali apenas como pálida cópia. Essas exposições empacotadas, ainda que milionárias, muitas vezes não trazem as “joias da coroa” e tentam compensar no volume, muitas vezes com trabalhos preliminares ou redundantes, que podem interessar aos muito especialistas mas dificilmente captam a imaginação do grande público. 

As obras que mais me cativaram foram “Jovem proletário” e “Equilibrista”, esta última porque ressoou O trapezista de Kafka, inspiração de outros carnavais. Destaco justo aí as seções Fantoches e O mundo como palco, que trazem trabalhos que remetem figurativamente ao núcleo conceitual da exposição, com acrobatas, marionetes, palhaços e outros personagens que dizem da instabilidade e dos altos e baixos da vida de artista. Muito revelador aí o pequeno trecho de entrevista de seu filho Felix e outro vídeo contíguo que mostra uma das encenações dele com fantoches que ironiza o tempo de Klee na Bauhaus, tendo sido muitas vezes o pai e seu gato a sua única plateia. Uma última consideração cabe ante a insistência dessas curadorias empacotadas com o percurso linear. Nesta em especial será particularmente difícil voltar de trás pra diante, criando situações chatas junto a guardas de galeria, que não tem culpa do treinamento que recebem.
  
 
Depois, ainda deu tempo de uma corrida à Casa Fiat de Cultura para ver “Beleza em Movimento”, outra onda, exposição de design, especialmente de carros. Vou me permitir aqui sintetizar que curiosamente a sensação predominante foi de nostalgia, e nem tanto pelo inescapável DeLorean de De volta para o futuro (conto do nosso passado nos primórdios da globalização) mas por outros carros que me deram a nítida sensação de estar dentro do meu Supertrunfo de carros, em que inclusive muitos automóveis de salão, apresentados ali como “do futuro”, agora são exibidos como testemunhos do design do pretérito. Ainda deu tempo de encontrar uma querida colega de trabalho de meus primeiros tempos de prefeitura. Nesse ramo aqui, quando não vamos de encontro ao passado, é ele que vem em nossa direção.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Raiz - Ai Weiwei

Finalmente achei uma brecha na agenda combinada com boa logística para ir ao CCBB conferir RAIZ, com obras de (ou promovidas por) Ai Weiwei. Vi trabalhos instigantes de um rebelde com causas, conceito aliado a habilidade, diálogo com a tradição sem subserviência, entusiasmo pela novidade sem submersão. Achei também válido o esforço dele de criar obras novas em seu périplo pelo Brasil - a despeito de estereótipos que um contato tão imediato e mediado pelo curador Dantas não tinha a menor possibilidade de desfazer. Sem duvidar do impacto social "local" de trabalhos para os quais convoca artesãos e movimenta economias, saberes e comunidades, acho sempre estranho que esses artistas não problematizem nunca a dimensão de propriedade autoral que toca a si em contraponto ao anonimato que aliena do resultado os nomes e eventualmente os direitos daqueles que supostamente estão promovendo. Por fim, graças ao fortuito e agradável encontro com meu caríssimo Alex Cardoso, de quem cursei uma instigante optativa de Sociologia na graduação, e companheiro de inenarráveis noites enxadrísticas de uns anos atrás, acabei notando como o trabalho de Weiwei com os refugiados permite interrogar fronteiras entre arte e ciência, desde os recursos muito diversos que tem artistas e cientistas de renome para empreender, até como esse intercâmbio sugere que eventualmente os artistas saiam-se melhor como pesquisadores, do que estes últimos quando se pretendem artistas.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

100 anos de Athos Bulcão


Estive agora há pouco no CCBB conferindo a exposição "100 anos de Athos Bulcão" [informações gerais]. Fique agradavelmente surpreendido com o que vi. Se não há nada propriamente impressionante, em termos de pesquisa ou expografia, também não cai nas espetacularizações baratas ou lapsos graves que às vezes encontramos por aí. É, a meu ver, um trabalho correto, que não complica, não enche linguiça - fazia tempo que eu não sentia tanto a amplidão das salas do CCBB, invariavelmente preenchida por mobiliário expográfico em excesso para disfarçar a escassez de obras, o que desta vez não seria preciso - e consegue apresentar ao público um bom panorama retrospectivo da obra do artista, cumprindo o que se propõe numa exposição para celebrar esse tipo de efeméride. Sai-se particularmente bem em mostrar a diversidade de materiais e linguagens com que Athos Bulcão trabalhou, claro que inevitavelmente destacando a integração entre arte e arquitetura, com as obras para prédios públicos e o vínculo com o projeto modernista brasileiro. Claro que há um destaque para a azulejaria, mas talvez a promoção da mostra não esteja a contento, e ao centrar fogo nela, não consegue dar a ver antecipadamente ao público a multiplicidade de objetos e expressões que dispõe ao longo das salas. Além de obras acabadas que incluem pinturas, desenhos, fotomontagens, esculturas com finalidade acústica e até vestuário, maquetes, estudos, plantas e projetos deixam ver o processo de forma mais completa e esclarecedora. Combinado com depoimentos muito bem pinçados do artista - o que revela uma pesquisa competente - e com a alternância entre cinza e cores fortes nas paredes que conversam com o acervo exposto, esse material todo oferece ao público um bom ponto de partida para entender como Bulcão pensava e dava forma à sua criação, inclusive contando com a colaboração inadvertida dos operários da construção civil na colocação dos azulejos. Mas isso poderia, inclusive, se houvesse ousadia para tal, suscitar perguntas sobre autoria, colaboração e reconhecimento onde as fronteiras entre arte e trabalho, invenção e reprodução, entre outras, se borram. Nesse ponto esta e tantas outras exposições de arte silenciam, apesar de terem sido os próprios artistas os primeiros a brincarem com esse fogo.





Além disso, se é legítimo trazer obras de outros artistas para mostrar diálogos e repercussões em produções posteriores, faltou algo mais que mencionar os nomes destes em legendas. Agora, escorregada mesmo foi o aparato de interação, bobo, previsível, sem maiores opções para impulsionar a criatividade do público ou dar algum entendimento prático do trabalho do artista. Dispensável. Finalmente, se a exposição nos situa bem quanto a forte presença da criação de Bulcão no espaço público de Brasília, para outras cidades em que ela se apresenta nem tanto. Caberá provavelmente ao programa educativo compensar a falta de ênfase ao laço dele com BH, como mostrou muito bem a reportagem de Gustavo Werneck no Estado de Minas.  No geral vale a pena dar uma conferida, para ver, além das obras, claro, uma exposição bem realizada acima da média, sem se complicar.
Ah, tem também uma de curta duração "Dragão Floresta Abundante", fruto da residência do artista Christus Nóbrega na China. Muita coisa é clichê mas não deixa de ser oportunidade rara de ver material vindo de lá.