Mostrando postagens com marcador Patrimônio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Patrimônio. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Extensão: parceria Engaja ECI/UFMG e Retratistas do Morro


Por Lara Prado, bolsista de extensão (out-dez 2019)


 
"No projeto Retratistas do Morro, eu tive muita oportunidade de ter contato com uma comunidade que não conhecia, aliás, não sou de Belo Horizonte, então felizmente agora tenho mais consciência da história da cidade e isso é ótimo para minha estadia no local.
Além disso, desenvolvi a habilidade de limpeza física e química de negativos que é uma atividade muito importante, significativa e interessante para mim que gosto da área. A organização também é uma habilidade muito importante para o projeto. Sou muito grata por essa oportunidade e espero que eu possa desfrutar de mais projetos incríveis como esse!"



Do editor:
Em 2019, através do projeto de extensão Engaja (ECI-UFMG)  - que tem como intuito realizar estudos  e propor ações de engajamento de público e acervo em museus públicos de Belo Horizonte,  e estende-se a  demais instituições públicas e privadas de perfil semelhante na cidade - convidei o coordenador Guilherme Cunha a apresentar o Projeto Retratistas do Morro numa aula aberta da disciplina Função Social dos Museus, da graduação em Museologia da UFMG. A partir daí firmamos uma parceria, que ainda pretendemos aprimorar, que iniciou-se pela cooperação técnica a partir da seleção de bolsista de extensão por um período mais curto, remuneradas através de recursos do "Retratistas do Morro". Foram selecionadas as estudantes de graduação em Museologia da UFMG Lara Prado e Mariana Ferreira. O depoimento da Lara, além de apresentar as atividades que realizou, deixa registrado sua apreciação do valor iniciativa para sua formação.

O projeto Engaja, a partir da intercessão entre diferentes esferas (universidade, alunos, professores, grupo de pesquisa, poder público municipal, museus e citadinos) visa promover  no âmbito da cultura e do patrimônio uma perspectiva plural e colaborativa para a construção da memória coletiva, a projeção dos museus enquanto lugares de trocas e debate , a formação de alunos e o envolvimento da comunidade externa à universidade de forma a proporcionar maior compreensão sobre os museus, acervos e o patrimônio cultural, promovendo a participação efetivamente democrática em algumas de suas atividades.
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A paisagem sonora como patrimônio cultural

Dentre as pesquisas que venho realizando nos últimos anos, um dos principais veios é o que relaciona a música popular e o patrimônio cultural urbano, na forma das canções, seus significados e memórias atribuídos socialmente, especialmente em lugares relacionados e nas formas institucionais e informais de apropriação e patrimonialização ali catalizadas. Os estudos sobre espaço urbano que empreendo, desde o início da pós-graduação, me levaram ainda ao conceito de paisagem sonora, o que rendeu investigações bastante instigantes e muitas gravações, vídeos e fotografias, realizadas especialmente em conjunto com pesquisadores do Centro de Convergência de Novas Mídias (CCNM) da UFMG. Há alguns anos cedemos uma pequena parte desse material para figurar na exposição O Museu e a Cidade sem Fim em 2013. 

Alguns dos principais trabalhos realizados sobre essas temáticas estão disponíveis aqui.

Uma possível confluência destes interesses vem da progressiva criação sítios eletrônicos e arquivos digitais públicos e privados, muitos deles de caráter colaborativo, constituindo coleções de registro em áudio ou audiovisuais referentes a paisagens sonoras, reconhecidos como patrimônio cultural. Quando estive em Londres em 2015 apresentando um dos trabalhos do CCNM assisti uma matéria da BBC bem completa sobre a política que o National Trust estava adotando para registrar os sons da costa inglesa. Na disciplina que leciono este semestre no PPGCI-UFMG "Memória, patrimônio e informação", se de um lado costumo criticar o que podemos chamar de uma fetichização do tecnológico, por outro estou sempre promovendo junto com a turma debates que englobem formas historicamente variadas de registro. Assim, recebi com satisfação esse material gentilmente encaminhado pela discente Pétalah Lotti, um conjunto de links que permite conhecer bons exemplares de projetos associados ao assunto. Fica meu agradecimento e o convite aos leitores para navegar no mar internético de sons que nos levam a tantas cidades e partes do mundo. 

Mapa sonoro de Lisboa

Cities and Memory

MAPA SONORO DA CIDADE DE SÃO PAULO

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Cidades mortas, acervos vivos

Cidades Mortas (2007), do historiador e estudioso do urbanismo Mike Davis, é um dos mais argutos diagnósticos do século XXI, publicado ainda na sua aurora (2002) e nos rastros de chamas e fumaça do 11 de setembro. O papel do medo na cultura contemporânea, a ascensão do fascismo, a perseguição aos imigrantes, o aperfeiçoamento do aparato de vigilância, a insustentabilidade do capitalismo e as contradições da globalização, tá tudo ali.


Seu segundo capítulo, Ecocídio na terra de Marlboro, é um contundente ensaio sobre a calamidade ambiental e social resultante da destruição e contaminação radiotiva pelo emprego reiterado de artefatos nucleares na "zona de sacrifício nacional" determinada pelo Pentágono no Oeste estadunidense, envolvendo estados como Califórnia, Nevada, Utah, e, em sua periferia, Colorado e Wyoming. O impacto de tais experimentos, cuja extensão talvez possa ser equiparada ao desconhecimento que os encobre, é de maior magnitude que o do desastre de Chernobyl, cuja exposição o autor compara, chamando a atenção para a relação do mesmo com o degelo e ocaso da antiga URSS. Uma das linhas de força do livro é mostrar que a Guerra Fria, mesmo sem ter se tornado "quente", deixou um rastro de vítimas e destruição, particularmente entre populações depauperadas e com pouco poder  político, sobrevivendo em regiões que já eram inóspitas. [foto acima, Carole Gallagher]



O que me fez escrever esse texto aqui é que essa denúncia contundente da calamidade atômica feita por Davis constitui-se como um ensaio sobre acervos fotográficos de caráter artístico e documental, como as séries "The Pit" e "Bravo 20" dos Desert Cantos de Richard Misrach [aqui para conhecer um pouco mais de sua obra] ao trabalhos de grupos de fotógrafos ativistas como os Fotógrafos Atômicos, como Carole Gallagher e seu trabalho American Ground Zero, que conjuga história oral e registro fotográfico, mas retomando as referências compartilhadas que conferem "autoridade histórica" (DAVIS, 2007, p.56) aos projetos, como o arquivo dos grandes levantamentos científicos e topográficos do Oeste feitos no século XIX e os registros da Grande Depressão pelos fotógrafos da FSA (Farm Security Administration), como Dorothea Lange [foto abaixo, dela, Migrant Mother, 1936].  



O valor de manter e dar acesso, seja a pesquisadores ou ao público em geral, de acervos dessa natureza, é inestimável. Escrevo essas linhas com particular convicção na semana em que o grupo de pesquisa ESTOPIM, do qual sou um dos coordenadores, inicia a mostra e oficina Horizonte em Foco no Museu da Imagem e do Som BH, na sua unidade Cine Santa Teresa, cujo intuito é justamente mobilizar o acervo da instituição para refletir sobre a cidade, seu história e seu patrimônio cultural. Também me motiva o retorno às aulas nesta semana, até porque leciono Função social dos museus, além de Tipologia de museus na graduação em Museologia e da disciplina Memória, Patrimônio e Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na ECI/UFMG. Estou fortemente inclinado a incluir o Mike Davis na bibliografia. 


quarta-feira, 4 de julho de 2018

O Cine Teatro Brasil enquanto patrimônio cultural [Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus 2018]

Disciplina: Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus
Alunas:  Eliana Rodrigues, Jéssica Tôrres, Letícia Zignago, Maria Celina Machado, 
Viviane Ferreira
Prof.: Luiz H. Garcia


O Cine Brasil foi inaugurado em 1932, possuindo arquitetura no estilo art déco, muito difundido no período. Ir ao prédio era um evento por si só, já que era a construção mais alta da cidade e o terraço permitia o vislumbre de toda a Serra do Curral. Acompanhou a grande revolução cinematográfica do cinema mudo para o falado, do preto e branco ao colorido. O espaço foi concebido para receber várias formas de arte, como a ópera, música, teatro e o “carro chefe”, o cinema. Este tinha salas de espera e muito luxo em todas as instalações. Espaço importante de sociabilidade e tornou-se ponto de encontro e recebia até mesmo bailes de carnaval. Frequentar um cinema era um acontecimento social, e não somente diversão, era fonte de conhecimento. Celina Albano diz sobre a assiduidade dos freqüentadores: “Em bando, assistíamos à maioria dos filmes em cartaz, bons e ruins. Nós víamos o mundo por meio do cinema. Ele era nossa religião.” (ALBANO,  2008, p.51).

A pesquisa histórica nos permite conhecer e refletir sobre as relações da História com o tempo, com a memória e com o espaço, ampliando possibilidades para a construção do conhecimento, nesse caso, de um bem cultural, que engloba além da pesquisa, a preservação e a comunicação. No texto “Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico” o autor Garcia cita Mario Chagas, propondo os seguintes questionamentos:




“O que fazer com o objeto preservado? A preservação por si só não lhe confere, ou mesmo não lhe restitui, o caráter de documento. A preservação não justifica a si mesma, ela é um meio e não um fim. É necessário que ao lado da preservação se instaure o processo de comunicação. (...) Em contra partida, o processo de investigação amplia as possibilidades de comunicação do bem cultural e dá sentido à preservação. A pesquisa, compreendida como produção de conhecimento.” (p.24)


Podemos direcionar todas essas questões para o Cine Brasil enquanto patrimônio cultural: Por que preservá-lo? O que fazer com um monumento preservado? Em qual contexto social, político, econômico e cultural ele foi construído e utilizado? Qual relação que manteve com as diversas conjunturas sociais? Para conduzir essas interrogações, Garcia diz que a cidade, seu tempo e espaço devem ser problematizados. Um bem cultural tem valores culturais, simbólicos, financeiros e estéticos. O Cine Teatro Brasil é um monumento histórico local, um testemunho vivo, um “lugar de memória”. Faz parte de uma herança cultural da cidade, na época áurea do cinema de rua. Foi muito representativo para a sociedade belorizontina, “dos bons costumes” e ao mesmo tempo foi um espaço de diferenciação social, e não de inclusão. Faz parte de uma memória coletiva, e segundo Le Goff (1990), a memória é a propriedade de conservar informações a partir de um conjunto de funções psíquicas que nos permitem acessá-las e reinterpretá-las. Essas informações não são nada menos do que nossas lembranças.

 “O historiador, ocupado em compreender e fazer compreender, terá como primeiro dever recolocar em seu meio, banhados pela atmosfera mental de seu tempo, face a problemas de consciência que já não são exatamente os nossos” (BLOCH, 2001, p.64).


O Cine Brasil é um monumento histórico local, um “lugar de memória” que guarda uma herança cultural da cidade e da população belo horizontina. Faz parte de uma memória coletiva, que, conforme Le Goff, é constantemente reinterpretada e ressignificada. Assim, é certo que tanto o uso quanto a importância do prédio mudaram para a sociedade contemporânea, mas é inegável a história dos cinemas de rua de Belo Horizonte que o Cine Brasil carrega.


“Para interpretar os raros documentos que nos permitem penetrar nessa brumosa gênese, para formular corretamente os problemas, para até mesmo fazer uma ideia deles, uma primeira condição teve que ser cumprida: observar, analisar a paisagem de hoje. Pois apenas ela dá as perspectivas de conjunto de que era indispensável partir. Não, decerto, que se trate — tendo imobilizado, de uma vez por todas, essa imagem — de impô-la, tal qual, a cada etapa do passado sucessivamente encontrado, da montante à jusante” (BLOCH, 2001, p. 67).















Fontes

ALBANO, Celina. “Cine Pathé”. Belo Horizonte; Conceito, 2008.

BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CHAGAS, Mário de Souza. Em busca do Documento Perdido: a problemática da construção teórica na área da documentação. Novos rumos da Museologia. In: Cadernos de museologia. Lisboa: Centro de estudos de Sociomuseologia. U.L.H.T.v.2.1994, pp.29-47.
GARCIA, Luiz Henrique A. Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico. Cadernos de Pesquisa do CDHIS. Uberlândia: UFU, V. 23, N. 1 , 2010, pp. 23-39.

Site do Cine Brasil: https://cinetheatrobrasil.com.br

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano

Este semestre ofertarei a disciplina optativa Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano, às sextas. Fugindo um pouco do padrão, ela está estruturada a partir da leitura completa do seminal livro Culturas Híbridas, de Néstor García Canclini. A partir das formas de entrar e sair da modernidade, como ele mesmo diz, estabeleceremos roteiros possíveis para pensar sobre as implicações da história latino-americana para o cenário museológico no continente e no mundo, as relações entre história, tradição e memória contextualizadas pela dinâmica cultural híbrida, a questão do(s) lugar(es) da cultura popular considerando o fenômeno da globalização e a emergência de objetos culturais híbridos, buscando entender como são produzidos e circulam, como seus sentidos são disputados e transformados, como são escolhidos os monumentos e colecionados os acervos, e como finalmente, podemos entender melhor nossas complexidades e atuar em cenários institucionais ou informais, desenvolvendo políticas culturais nas áreas da museologia e do patrimônio condizentes com os desafios que essas complexidades impõem. 


Uma amostra da bibliografia proposta para auxiliar as discussões. A intenção é abranger diferentes temas, tipologias museológicas e contextos locais, na busca de uma disposição panorâmica que possa complementar o roteiro de leitura do livro e permitir aprofundamento em questões específicas.






P.S. 2018
Após 2 anos vou novamente ofertar a disciplina Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano (código TGI061 - TOPICOS EM INFORMAÇÃO E CULTURA D  ) às sextas-feiras no 1ºsem. de 2019. Acho que poderei fazer muitos incrementos em relação à primeira edição, em razão das viagens a trabalho que me permitiram colher material relevante em Havana, Montevidéu e Buenos Aires, do aproveitamento de pesquisas, especialmente aquelas que venho realizando junto com o grupo ESTOPIM, das disciplinas que ofertei na pós-graduação (em que cheguei a aproveitar textos que descobri montando esse programa aqui também) e do atual investimento que vamos fazendo em internacionalização para participar do Programa Print proposto pela CAPES. Mas sobretudo porque a distância no tempo da perspectiva para pensar o que foi bem sucedido e o que não, além de trazer as urgências dos contextos em transformação. Dentre os planos para estimular os trabalhos incluo realizar uma exposição sobre arte e engajamento político na América Latina, provavelmente tendo como carro-chefe a obra do uruguaio Joaquín Torres Garcia, autor, entre outros, de América Invertida (1943).



Bibliografia auxiliar

BERRÍOS, Pablo Salvador. El arte latinoamericano a través de la curadoría: políticas de representación y modos de inserción. PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, n. 9, 2015.

BIALOGORSKI, Mirta. Artesanías y patrimonialización en el Museo de Arte Popular José Hernández: el Banco de la Memoria del Campo Artesanal. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 31, 2004.

BURÓN DÍAZ, Manuel. Los museos comunitarios mexicanos en el proceso de renovación museológica. Revista de Indias, v. 72, n. 254, p. 177-212, 2012.

CARNOVALE, Vera. Memorias, espacio público y Estado: la construcción del Museo de la Memoria. Estudios AHILA de Historia Latinoamericana, v. 2, 2006.

COUSILLAS, Ana. El ciclo De la Feria al Museo: notas sobre la expe-riencia de exposiciones de artesanías urbanas curadas por artesanos en el Museo de Arte Popular del GCBA. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 47, 2004.

DE CARLI, Georgina. Vigencia de la Nueva Museología en América Latina: conceptos y modelos. Revista ABRA, v. 24, n. 33, p. 55-75, 2004.

ISE, María Laura. Arte Latinoamericano en los ochenta y noventa: una mirada desde algunas exhibiciones y catálogos. Nómadas, n. 35, p. 31-47, 2011.

LLOSA, Vargas. El Perú no necesita museos. El Comercio, March, v. 8, 2009.

NAVARRO, Óscar. Museos y museología: apuntes para una museología crítica. Museología e historia: un campo de conocimiento, XXIX Encuentro Anual del ICOFOM/XV Encuentro Regional del ICOFOM LAM, v. 5, p. 385-394, 2006.

PONCE, Ariel Guillermo. LA INFLUENCIA DE LOS CONTEXTOS INTERCULTURALES EN UN MUSEO DE LA ARGENTINA. Revista del Centro de Investigaciones Precolombinas, p. 63.

SABATÉ BEL, Joaquín et al. De la preservación del patrimonio a la ordenación del paisaje: intervenciones en paisajes culturales en Latinoamérica. 2011.

SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.

SERVIDDIO, Fabiana. Ser latinoamericano: lo precolombino como herramienta del discurso latinoamericanista en los años setenta.

SUESCÚN POZAS, María del Carmen. Los museos de Arte Moderno y la reconfiguración de lo local a través de lo foráneo: Transformando a Colombia en un País" abierto". Memoria y Sociedad, v. 3, n. 6, p. 135-142, 1999.

TAGÜEÑA, Julia. Los museos latinoamericanos de ciencia y la equidad Latin American science museums and equity. História, Ciencias, Saúde–Manguinhos, v. 12, p. 419-27, 2005.

VIÑUALES, Rodrigo Gutiérrez. Museos y espacios para el arte contemporáneo en Buenos Aires. Notas de actualidad. In: Museología crítica y arte contemporáneo. Prensas Universitarias de Zaragoza, 2003. p. 351-373.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O desafio da águia

A matéria Águia nazista continua sendo 'batata quente' no Uruguai [completa] evidencia bem a intensidade dos conflitos que se pode vivenciar quando o assunto é o patrimônio e a memória social:
"O conflito desta vez tem como motivo uma águia de bronze de quatro toneladas de peso e dois metros de altura que decorava a popa do Allmirante GrafSpee, o temido encouraçado alemão afundado na Baía de Montevidéu. Resgatada das águas em 2006, a águia é o símbolo de uma das embarcações mais notórias da Segunda Guerra, mas permanece trancada num armazém da Marinha uruguaia. Seu destino é incerto."
Enquanto governos, instituições, mídia e pessoas digladiam-se, penso se não seria melhor relegar o ornamento a uma apreciação menos espetacularizada, onde quer que fosse. Seria possível? 
E você leitor, qual solução iria propor?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Intervenção museal em ruínas


No Parque Arqueológico de Carnuntum [mais informações] [site oficial], Áustria, essa inteligente solução de comunicação museológica chama a atenção. Elegante, eficiente e simples, ao contrário de tanta parafernália que muitas vezes acaba por chamar mais a atenção do público do que o próprio patrimônio que se quer preservar e compreender.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Síntese da apresentação que realizei durante o 1° Seminário de Organização do Museu Clube da Esquina e Centro de Referência da Música de Minas, ocorrido hoje, 28/11/2014, na ECI/UFMG.

O objetivo principal foi pensar sobre o papel da pesquisa no contexto do museu, através da estruturação do Setor de Pesquisa da instituição. Isso envolve conceber uma equipe básica, permanente, cuja composição poderá ser reforçada em função de projetos ou programas específicos e do crescimento da instituição. As principais atividades do setor de pesquisa são qualificadas como programas permanentes considerando sua intensidade e regularidade. É fundamental que essas atividades estejam articuladas às quais estão vinculadas que são desempenhadas em outros setores dentro da estrutura administrativa. O acervo reunido e a infra-estrutura proposta permitem antever que o MCE-CRMM poderá se tornar um importante centro de pesquisa. Atualmente a música tem sido tratada como objeto de pesquisa por variados campos do saber, da musicologia à história, das ciências sociais ao direito, da comunicação às letras e artes.  Além disso, os temas que remetem aos conceitos geradores como identidades culturais, redes de sociabilidade, circularidades e trânsitos culturais na globalização, entre outros, também poderão fazer parte do campo de interesses e atividades da instituição e de seus freqüentadores. Pode ser um espaço dinamizado por debates e atividades acadêmicas de grupos de pesquisa diversos, inclusive aquelas abertas a um público mais amplo, propiciando interfaces entre ensino, pesquisa e extensão. Haverá possibilidade de exteriorizar parte da produção desses grupos em publicações e atividades de divulgação científica, considerando aí o imenso potencial da internet através de páginas, blogs e redes sociais. Por fim, considerando a implantação do ensino obrigatório de música nas escolas, há que se considerar as futuras necessidades de um conjunto de docentes que poderá encontrar no MCE-CRMM espaço para formação continuada, exercício da pesquisa e preparação de materiais para suas aulas. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tempo e patrimônio na Grécia



Um trecho do texto que apresentei na última terça-feira na Casa do Baile:

Michael Herzfeld, em seu livro A Place in History: Monumental and Social Time in a Cretan Town considera que “entre o tempo social e o monumental está posto um cisma discursivo”. O tempo social remete ao cotidiano, à experiência diária, é aberto e imprevisível. O tempo monumental, ao contrário, é redutivo e genérico. Ele descreve eventos como realizações de destinos supremos e reduz a experiência social à previsibilidade. Seu foco principal é o passado, um passado constituído por categorias e estereótipos. Nas suas formas extremas, representa o enquadramento temporal do Estado–Nação (HERZFELD, 1991, p.10).
A reavaliação do passado grego tem promovido a reconstrução do patrimônio clássico como caminho para a identidade européia (p.11). Os discursos hegemônicos tendem a enfatizar essa aproximação e simultaneamente demonizar o Oriente. Como demonstra Stavros Stavrides em seu texto Urban Identities: Beyond the Regional and the Global. The Case of Athens, nas Olimpíadas de 2004 enfatizou-se o duplo movimento de alçar Atenas ao padrão das grandes cidades modernas e globais européias, ao mesmo tempo em que se enfocou a particularidade, a “localidade” de sua identidade como “berço da civilização ocidental”. (STAVRIDES, 2008, p. 578). Desde o princípio, já que Atenas foi escolhida capital do nascente Estado Grego moderno, foram feitos esforços para destruir edificações e sítios que pudessem indicar um passado complicado, cheio de rupturas e hibridações. Apenas os monumentos clássicos e Bizantinos eram vistos como apropriados para definir A Atenas do XIX como herdeira da Atenas clássica. (STAVRIDES, 2008, p.579). 

Promoveu-se a unificação dos sítios arqueológicos com séria de áreas verdes e calçadas. Continuidade espacial estabelecendo uma continuidade histórica. As qualidades únicas da cidade são mediadas por uma teatralização seletiva do passado. Por outro lado, a estratégia de construir a identidade contemporânea da cidade implicava em levá-la em uma direção aparentemente oposta, pois precisava apresentar ambientações urbanas modernas reconhecidas como similares às de outras grandes cidades globais, familiares a turistas e cidadãos das metrópoles ocidentais. Emprego da arquitetura de grife. Stavrides identifica dois gestos neste sentido: O teto do Estádio Olímpico, projetado por Calatrava em contraponto aos prosfygika (edifícios modernistas) encobertos pelo “placar” com imagem panorâmica de Atenas incluindo os monumentos mais conhecidos. Jogaram a capa de um cenário espetacular sobre as edificações portadoras de um vocabulário arquitetônico considerado fora de moda. Enquanto os edifícios modernistas remetem a apropriações e identificações que compõem a história de Atenas, a imagem do painel remete a uma Atenas atemporal, de cartão postal para turista. Identificado a uma cultura global de consumo. Enquanto os edifícios modernistas remetem à racionalidade e eficiência, de custo mais baixo, o teto de Calatrava remete a um novo universalismo, o universalismo do consumo, está focalizado na aura do dispêndio.   
Isso pode envolver a valorização e recuperação do patrimônio de valor histórico e cultural, mas incorporado duplamente nesse movimento que o globaliza como espaço estandartizado de lazer e consumo e que o relocaliza como afirmação da identidade e da tradição em viés essencialista e fetichizado (LEITE, 2007, p. 292). Vemos nessa proposição uma chave importante para entender como uma política que ainda podemos considerar “fachidista” ou “tradicional”, perdura, ainda que reinserida numa nova lógica, o que Carlos Fortuna (1997) denominou “conservação inovadora do elemento tradicional” (apud LEITE, 2007, p. 65). Dessa forma os vestígios do passado apresentam-se em forma de pastiche, o que resulta num paradoxo constatado por Hartog (2013, p. 234): “(...) o mais autenticamente moderno hoje seria o passado histórico, mas colocado nas normas modernas. No final das contas, conservam-se apenas as fachadas”.
Esses mesmos jogos de força em torno do patrimônio podem ser vistos no caso do relativamente novo Museu da Acrópole. Sua abertura em Atenas (jun.2009) acrescentou uma nova urgência ao debate de 200 anos em torno das esculturas do Partenon. Os administradores do Museu Britânico deram uma resposta preventiva, deixando clara sua posição de que o novo museu não mudava sua visão de que as esculturas são parte do patrimônio compartilhado de todos e transcendem as fronteiras culturais (MARSHALL, 2012, p.34)

Em seguida, o arquiteto responsável pelo novo museu, Bernard Tschumi, mudou o tom do discurso que antes era pautado pela restituição ou repatriamento cultural, enfatizando somente um desejo de contribuir para a reunificação do Friso do Partenon. No Museu da Acrópole as esculturas originais que ainda permanecem em Atenas são expostas em combinação com réplicas que indicam a localização das demais porções.  Em seu ensaio sobre o tema,

 Athens, London or Bilbao? Contested narratives of display in the Parthenon galleries of the British Museum, Marshall (2012) considera uma quimera a pretensão de reunir todos os pedaços remanescentes de volta em Atenas.

A ideia de girar o relógio para trás para um tempo referencial num agora distante passado em que as esculturas poderiam estar completas é uma poderosa reivindicação, porém não menos utópica e fatalmente ilusória, tanto quanto o argumento do Museu Britânico de que está qualificado para falar em nome de toda a humanidade e reter as esculturas para o benefício dos cidadãos globais do mundo afora. (MARSHALL, 2012, p.42)

O pavilhão no museu tem uma parede de vidro que o coloca em diálogo com a visão do Partenon. A arquitetura representa a intenção de reunificação das esculturas. 
No Museu Britânico o emolduramento das esculturas promove um contexto expositivo que remete a um templo e à arquitetura do próprio Partenon,  assegurando a sala Elgin como espaço extraordinário/monumental  que prova que o museu e a civilização que o criou está à altura de guardar o patrimônio da antiga civilização mãe. Nas transformações urbanas operadas sob este contexto, sob a fachada da restituição cultural pode estar uma estratégia de dominação econômica e política.