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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A paisagem sonora como patrimônio cultural

Dentre as pesquisas que venho realizando nos últimos anos, um dos principais veios é o que relaciona a música popular e o patrimônio cultural urbano, na forma das canções, seus significados e memórias atribuídos socialmente, especialmente em lugares relacionados e nas formas institucionais e informais de apropriação e patrimonialização ali catalizadas. Os estudos sobre espaço urbano que empreendo, desde o início da pós-graduação, me levaram ainda ao conceito de paisagem sonora, o que rendeu investigações bastante instigantes e muitas gravações, vídeos e fotografias, realizadas especialmente em conjunto com pesquisadores do Centro de Convergência de Novas Mídias (CCNM) da UFMG. Há alguns anos cedemos uma pequena parte desse material para figurar na exposição O Museu e a Cidade sem Fim em 2013. 

Alguns dos principais trabalhos realizados sobre essas temáticas estão disponíveis aqui.

Uma possível confluência destes interesses vem da progressiva criação sítios eletrônicos e arquivos digitais públicos e privados, muitos deles de caráter colaborativo, constituindo coleções de registro em áudio ou audiovisuais referentes a paisagens sonoras, reconhecidos como patrimônio cultural. Quando estive em Londres em 2015 apresentando um dos trabalhos do CCNM assisti uma matéria da BBC bem completa sobre a política que o National Trust estava adotando para registrar os sons da costa inglesa. Na disciplina que leciono este semestre no PPGCI-UFMG "Memória, patrimônio e informação", se de um lado costumo criticar o que podemos chamar de uma fetichização do tecnológico, por outro estou sempre promovendo junto com a turma debates que englobem formas historicamente variadas de registro. Assim, recebi com satisfação esse material gentilmente encaminhado pela discente Pétalah Lotti, um conjunto de links que permite conhecer bons exemplares de projetos associados ao assunto. Fica meu agradecimento e o convite aos leitores para navegar no mar internético de sons que nos levam a tantas cidades e partes do mundo. 

Mapa sonoro de Lisboa

Cities and Memory

MAPA SONORO DA CIDADE DE SÃO PAULO

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Em dia com a museologia: podemos descolonizar os museus?

Essa pergunta, em outras palavras, já vem sendo feita desde a década de 1970. Desde a Mesa de Santiago. Entretanto, se perguntar é relativamente fácil, responder parece ser uma tarefa bem mais árdua. À qual não me furto. Por isso mesmo proponho disciplinas optativas como Museu, espaço e poder e Museu e cidade. Em alguns momentos parece que as respostas vêm de uma troca de sinal, de uma proposta muito repetitiva calcada na construção de identidade.  A fala de Javier Royer Rezzano, coordenador do Sistema Nacional de Museus do Uruguai, me parece que vai um pouco além:

“A colonização não vem apenas de fora, é feita também a partir de dentro, é como a divisão Norte/Sul, que não é só global, existe na nossa própria casa”, observa. “O museu tem de falar de todos e com todos – ricos e pobres, dominantes e dominados, elites e excluídos –, porque, quer queira quer não, é um espaço político.”

A matéria do Público [completa, aqui] lança uma visada crítica a partir de questionamentos como  "(...) esta mudança não se faz sem a consciência de que o museu é também um território de conflito, em que se vão cruzar visões díspares em resposta a perguntas fundamentais: O que é uma obra de arte? A que nos  referimos quando falamos de história nacional? Como se mostra o extermínio dos povos indígenas?

A resposta portando não deverá ser a de um museu ecumênico, neutro, no fundo impossível, mas de um museu que se posiciona e explicita seu posicionamento. Que diz de onde fala. Que não esconde os conflitos, e sim os assume como constitutivos da experiência social e da construção dos conhecimentos. Não um museu espelho, que sacia a demanda narcisista, mas um museu que promove a reflexão, que desloca o público, que interfere no cotidiano.

Julgo oportuna a inclusão inclusão do link para o texto completo da tese "Máscaras guardadas: musealização e descolonização" de Bruno Brulon Soares, de quem já conheço alguns trabalhos voltados para o contexto recente da museologia. Um estudo de caso, voltado para o cenário francês, mas que permite embasar reflexões interessantes. Transcrevo o resumo, abaixo:

 RESUMO:
 A tese tem o objetivo de investigar os processos de musealização na França, entre os museus dos Outros e os museus de Si, como classificados por especialistas da antropologia, refletindo sobre as especificidades e a historicidade dessas categorias a partir do estudo de museus etnográficos tradicionais e ecomuseus. A  pesquisa tem como objeto social de análise os enunciados das instituições e a construção de performances culturais nas diferentes matrizes de museus colocadas em  perspectiva pela teoria antropológica. Através de uma análise etnográfica e histórica  procura-se entender os processos de musealização atualmente no  Musée du quai Branly, considerando a vida museal dos objetos transformados em ‘obras de arte’ e os seus sentidos para os atores desse museu. Na análise do desenvolvimento dos ecomuseus na França, buscou-se, com o estudo do Ecomuseu da comunidade urbana do Creusot Montceau-les-Mines, esboçar uma reflexão sobre a musealização dos contextos através da valorização do ‘patrimônio íntimo’, ressignificado pelo grupo social local. À luz dos casos selecionados, interessa analisar os movimentos identitários da representação do Outro e a de si nos museus. É este permanente construir-se e ver-se através do Outro, que caracteriza a relação etnográfica que queremos entender para elucidar os processos  pelos quais os museus escolhem o que“guardar para transmitir”.
 

Palavras-chave:
Museu. Museu etnográfico. Ecomuseu. Processos de musealização