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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Museus em alta

Acompanhei a matéria na tv mais cedo, deste mesmo órgão de mídia. O aumento do público em si é fato relevante e suscita bons debates. Mas cabe ir um pouco além dos números. Tem hora que eu gostaria que o WB estivesse errado, mas "Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie"(a quem quiser se aprofundar, indico esse texto curto de Jeanne Marie Gagnebin).
Convido à reflexão, e a título de incentivo, vamos fazer uma enquete depois e o melhor comentário ganhará créditos bárbaros com o professor. Prometo considerar a opinião do público rsrs. 




quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ComCiência no CCBB - uma apreciação

Acabei de voltar de uma visita ao CCBB-BH para conferir a exposição ComCiência, de Patricia Piccinini. O site da instituição tem uma apresentação bastante completa, da qual reproduzo apenas a apresentação geral e deixo o link aos leitores:

Para trazer a questão das mutações genéticas para o território da arte, a artista australiana Patricia Piccinini se utiliza do realismo como linguagem, apresentando ao espectador um universo de criaturas desconhecidas, porém palpáveis e surpreendentemente afetuosas. ComCiência, um neologismo que carrega sentido duplo, conectando consciente e ciência, propõe ao público um percurso narrativo entre esculturas, desenhos, fotografias e vídeos. Curadoria: Marcello Dantas.

Como sempre manda o figurino, antes de qualquer coisa fui à cata de material para não fazer uma apreciação fundada apenas nas minhas próprias impressões e reações. Achei desde matérias que são pouco mais que press releases mais recheados (G1) , chiliquinhos curtos e grossos de críticos que esperam que suas opiniões impactantes nos façam relevar a preguiça de uma análise mais atenta (Folha) e até um texto bastante generoso, até demais (JB). Quando se trata de arte contemporânea ou trabalhos que a margeam, fico com a sensação de que se o conceito for minimamente instigante, nem precisa de muito desenvolvimento ou coerência, pois há um batalhão de críticos e meios prontos a lhe conceder uma consistência que muitas vezes o próprio trabalho não apresenta. Sinto que é bem o caso, como pretendo mostrar mais adiante.
Bem, sem mais delongas, passemos ao assunto da postagem. O conceito e a proposta estética são, a meu ver, bastante óbvios. As criaturas do mundo imaginário de sua criadora seriam aparentemente surpreendentes e eventualmente repulsivos, mas no fundo são bastante familiares e capazes de despertar empatia. Fica fácil percebê-las como pertencentes ao conjunto de uma mesma obra e a esse suposto mundo intermediário entre o presente e o futuro. Nas palavras de Piccinini "O mundo que crio existe em algum lugar entre o que conhecemos e o que está quase sobre nós (a imaginação, ou o futuro).". Sim, mas de fato nesse sentido são homogêneas até demais, ou seja, podemos dizer que pertencem a um mesmo set de filmagem. Isso se reflete nas escolhas de formas, de cores e até mesmo dos certos bichos que servem de inspiração para os devaneios genéticos bastante limitados que apresentam. Uma das primeiras sensações que me causou foi justamente de enfado pela monotonia das cores das peles dos seres, quebrada aqui e ali numa ou noutra sala, exceções fazendo valer a regra. Diz a matéria do JB "O incômodo provocado por esses monstrengos de silicone concebidos por Patricia nos mostra sobre nossos próprios sentimentos, ampliando nossa compreensão sobre questões complexas e delicadas como a imposição de padrões de beleza, o racismo e a xenofobia". Será mesmo? Se a tônica é a da aceitação, sem qualquer sugestão do conflito entre as possibilidades de interação entre as criaturas e as invariáveis crianças - aliás, pasteurizadas numa suposta postura sem pré-conceitos. Falta humanidade às crianças.
As esculturas, destaque entre as diversas linguagens artísticas empregadas, em seu hiper-realismo "pseudo-mágico" - já que representam um universo imaginado, ainda que não propriamente imaginativo - não alcançam nem de longo a visão especulada nos melhores trabalhos da ficção científica. Pense aí por exemplo na visão de H.G. Wells em A ilha do Dr. Moreau, há mais de cem anos. Fábio Cypriano, na Folha, ao menos intuiu a falta de originalidade ao comparar as obras aos personagens hollywoodianos de E.T. e Guerra nas Estrelas da vida. Essa comparação é reforçada pela informação de que seu estúdio de Melbourne "(...) em muito se assemelha a um espaço de criação de efeitos especiais para o cinema, com seus ateliês de pele, unha ou cabelo" (JB, 24/04/2016). Aliás, por relatos que obtive da apresentação que a própria artista fez na casa quando da inauguração, há um trabalho em série industrializado e standartizado, emprego ad nausea dos mesmos materiais, em que qualquer apuro técnico fica diluído. O hiper-realismo aí, longe de dar asas à imaginação, a prende a um universo referencial já esgarçado,do cinema blockbuster e do videogame, eventualmente do desenho animado e dos quadrinhos - a própria artista parece, inadvertidamente, dar a pista da banalidade que cerca hoje temas como bioengenharia e tecnologia: "Somos cercados por modificações genéticas escondidas em nossos alimentos e animais, sem ao menos dar conta! Eu não induzo o visitante a pensar qualquer coisa sobre engenharia genética, mas pergunto como eles se sentem frente a essas possibilidades". Ora, me parece que ela não entendeu bem que isso está é naturalizado. Aquele filminho manjado de microrganismos se reproduzindo que o diga. Aliás, tratando-se de animais domésticos, plantas, já estamos brincando de deus há milênios. Assim, fica evidente essa retórica pós-moderna de que tenho enorme preguiça, em que o desconhecimento mínimo de história faz as pessoas se sentirem à vontade para apresentar como uma sacada surpreendente algo óbvio, ou fenômenos antiquíssimos como novidades ou, no mínimo, famigeradas "releituras". Parece estar aí parte da explicação para o grande sucesso da exposição entre jovens e crianças, parcelas do público acostumadas a consumir essa estética, que portanto lhes é completamente familiar e confortável. Os jovens também se divertem com as fixações anais, sexuais, corporais. Também pode estar nessa correspondência com a experiência de transformação de seus corpos a empatia com a exposição - de resto, com o tema da mutação, como já nos ensinou o mestre Stan Lee ao criar os X-Men, algumas décadas atrás. Aliás, num dos poucos pontos em que a monotonia é quebrada de fato, na sala que expõe as "máquinas orgânicas", mais uma vez é fácil reconhecer a remissão à cultura de massa, desde a proposta dos robôs emocionais de Guerra nas Estrelas, Carangos e Motocas (esse só quem tem de 40 pra cima saberá...) aos onipresentes Transformers. Não vejo problema em que se estabeleça diálogo com essa estética da cultura massificada, seja qual seu formato. A arte tem bebido nessa fonte faz tempo, mas os bons trabalhos são os que não se limitam a emulá-la. 
Falo por fim alguma coisa de expografia. Basicamente, me pareceu em primeiro lugar que o discurso do curador Marcelo Dantas não encontra ressonância no que nossos sentidos nos informam. “É como se você tivesse entrado nesse circo, nessa casa mal-assombrada”. Hein? Teria sido interessante brincar com o conceito dos Freak Shows, mostras itinerantes de aberrações que povoaram o imaginário de outras gerações num tempo em que o espanto não era fornecido em lata pelo cinema. Mas isso iria chocar-se frontalmente com o conceito de aceitação proposto na fala da autora. Não há horror algum, e sim uma empolgação que se reflete no comportamento do público, sempre soltando exclamações e interrogando alguém se já viu isso ou aquilo. Pra não falar das recorrentes fotos e selfies. O outro ponto que destaco, que me causou profundo incômodo, foram os textos de parede, da autora ou do curador, excessivamente descritivos e explicativos. Não deixam nenhum espaço à interpretação, mastigando demais. Passam do ponto. Isso vindo de mim, eterno crítico das paredes lacônicas, é de se notar. Nisso concordo com o Cypriano, ainda que deixe pra ele o tom bombástico. Acho que se tem que explicar tanto é porque a obra não tem tanta capacidade de comunicação. Pra muita coisa basta um título bem bolado, ou poucas frases. Nem sei se é populista, porque afinal sem dados não podemos saber quanto do público lê os textos. Parece que alguns foram substituídos ou melhorados desde as mostras anteriores em CCBBs de outras cidades.  Que o CCBB tem sido eficiente em apresentar exposições de atração de público em massa, estamos cansados de saber. O que falta é ir além dos números. Essa afluência de um público que não está acostumado a frequentar museus e centros culturais deve ser celebrada, mas não acriticamente. Nesse sentido seria salutar que as instituições promovessem pesquisas qualitativas de público para gerar um conhecimento relevante sobre a forma como são percebidas as exposições e se é pertinente ou não a suspeita de que as obras são "diminuídas" quando a proposta adere a essa perspectiva de consumo cultural.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Procure conhecimento, meu filho

O porteiro José Carlos da Silva, 52 anos, costuma repetir o mesmo programa nos dias de folga. Pega o metrô na rua da Consolação, desce na estação da Luz e adentra o seu paraíso: a Pinacoteca do Estado de São Paulo.
"Gosto de passar o dia inteiro na Pinacoteca admirando a coleção do Almeida Júnior. Sou apaixonado por arte e louco por Caravaggio", diz. "Vou mais a museus e bibliotecas do que ao cinema, porque é de graça."

Uma história singular, mas que sugere várias reflexões interessantes, inclusive sobre os museus e seus públicos. Sempre acreditei que não se pode nivelar por baixo a linguagem e os conteúdos de uma exposição, e que ela deve oferecer justamente o estímulo para a busca do conhecimento. A história do José Carlos, ainda que só dele, diz muito sobre quão variado e fora do esperado pode ser o público que frequenta uma instituição museológica. É preciso aprender com ele, e estar à postos para oferecer mais possibilidades de estudo. Louvo a oferta de bolsa feita pelo MASP: "Um ano inteiro estudando arte, melhor ano da minha vida". Este público interessado, sedento pelo conhecimento, mas isolado dos museus por uma série de barreiras visíveis e invisíveis pode estar logo ali, no entorno mesmo.
Uma discussão que costumo propor em disciplinas como Função Social dos Museus e Museu e Cidade.Dentre tantas leituras indicadas eu destaco o texto de  Ana Rosas Mantecón. Usos y desusos del patrimonio cultural: retos para la inclusión social en la ciudad de México, publicada nos sempre bem cuidados Anais do Museu Paulista. Alguns trechos que destaco:

"La sacralización y monumentalización del patrimonio imponen barreras para que la población pueda apropiárselos en su vida cotidiana y están en la base de procesos de exclusión social"
[...] el reto no es aumentar audiencias, sino acrecentar la comprensión de los mecanismos de exclusión y las fuerzas actuantes en la institución y en el campo cultural, con el fin de poder intervenir en ellos; entablar diálogos cada vez más abiertos con sectores interesados y participantes y, de acuerdo con ello, de este modo brindar una gama variada y compleja de servicios adecuados, en relación con las colecciones u objetivos del museo y con las características socioculturales de los públicos efectivos y potenciales. El reto es que la relación museo-sociedad sea el verdadero soporte y fuerza de la institución.[...]
No se trata pues de simplificar o espectacularizar los recursos useográficos para hacer más rentable la institución, sino de atraer y atender a la mayor diversidad posible de públicos, reconociendo que el objetivo principal es el combate a la inequidad en el acceso a la cultura. [leia o texto completo]



Néstor García Canclini e Ana Rosas Mantecón

segunda-feira, 28 de abril de 2014

museologando: Públicos de cultura no Brasil

museologando: Públicos de cultura no Brasil: Na última quarta-feira (9/4), o Sesc e a Fundação Perseu Abramo apresentaram os números preliminares da pesquisa Públicos de Cultura – Háb...

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Um problema de pesquisa

http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2014/02/15/mae-e-proibida-de-amamentar-no-mis-e-mulheres-fazem-mais-um-mamaco/                                         Crédito da imagem: Foto: Matrice/Fonte: Folha de São Paulo

Um trecho da matéria:
"No dia 5 de fevereiro, a modelo Priscila Navarro Bueno, 23, estava visitando a exposição do David Bowie com o marido e a filha Julieta, de sete meses. Ela conta que logo no início da exposição a menina quis mamar e ela retirou o seio para alimentar a filha. “Cinco minutos depois um monitor veio até mim e perguntou se eu queria amamentar num local mais reservado, eu disse que não pois queria ver a exposição e ele se retirou”, comenta.
Priscila conta que continuou vendo a exposição até que uma segurança a cutucou. “Quando virei, ela olhou diretamente para os meus seis dizendo ‘ah, você não está amamentando’ já que a minha filha estava dormindo e não mais mamando”, diz. Segundo a mãe, as pessoas no entorno ficaram olhando e em seguida chegou uma outra monitora recomendando que “fosse para uma sala mais reservada pois não era permitido amamentar no MIS.”
A mãe conta que ela e o marido questionaram e a funcionária voltou a dizer que era proibido e que ela poderia fazer uma queixa no site caso não concordasse. “Fiquei envergonhada e sem saber o que responder, fui embora por estar constrangida”, comenta. Segundo Priscila, ela e o marido tinham visto apenas a primeira parte da exposição." F.S.P., 15/02/14 



Saindo um pouco da rotina das postagens, dessa vez o blog Metamuseu vem propor um problema de pesquisa e convidar seus frequentadores a deixar posições e hipóteses nos comentários
Como entender as restrições quanto à amamentação no espaço das instituições museológicas? 








segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Fazer pesquisa, formar público e criar sentido

Uma iniciativa simples dos Imperial War Museums do Reino Unido mostra como é possível fazer pesquisa, formar público e criar sentido para coleções e instituições.Para acompanhar clique aqui. Há também uma proposta de interação via internet. Talvez nem seja tão promissora...

Live events
Each artwork in the Imperial War Museums’ collection is full of unanswered questions, from its location to the types of planes depicted in a dogfight. To help solve these mysteries we will be running a series of live events around the country, bringing people together to help answer some of these tantalising questions. Will be posting more details about upcoming live events soon and updates on what has been discovered, so watch this space.



tradução:
Cada obra de arte na coleção dos  Imperial War Museums é cheia de perguntas sem respostas, de sua localização aos tipos de aviões descritos em um combate aéreo. Para ajudar a resolver estes mistérios, realizaremos uma série de eventos ao vivo em todo o país, reunindo as pessoas para ajudar a responder a algumas destas questões tentadoras. Serão postados mais detalhes sobre os próximos eventos ao vivo em breve e atualizações sobre o que foi descoberto, por isso esteja atento a este espaço.
 
Uma iniciativa nesta mesma linha ocorre há 10 anos no Arquivo Público  da Cidade de Belo Horizonte. O projeto Cestas da Memória "promove a valorização da memória dos funcionários públicos e dos cidadãos belo-horizontinos por meio do reconhecimento de fotos e documentos da cidade. Neste mês o projeto completa 10 anos de existência.Até agora, o projeto já identificou cerca de 18.000 fotografias do acervo do APCBH". (ver página do APCBH no facebook)
 
 
 
Nos trabalhos que realizei à frente do setor de pesquisa do Museu Histórico Abílio Barreto constatei a importância desse tipo de atividade, especialmente se conseguimos incluir o público de forma que sua participação se caracterize pelo diálogo com os pesquisadores, e que os resultados sejam compreendidos como contribuição que ajuda a reforçar o sentido público das ações das instituições museológicas.
Luiz H. Garcia

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A arte de ouvir o público - mas qual o sentido de ouvir?

Caros leitores, especialmente os alunos das disciplinas Tipologia de museus e Função Social dos Museus (2° semestre 2013). Separei aqui alguns trechos que dão bons pontos de discussão, mas o ideal é que leiam a matéria completa em http://oglobo.globo.com/cultura/museu-20-arte-de-ouvir-publico-6836646#ixzz2fvrksgaX
Depois deixem comentários por aqui, seria muito interessante e uma possibilidade das duas turmas interagirem de modo contínuo no restante do semestre.
Boa leitura.

Museu 2.0: a arte de ouvir o público
Audrey Furlanet
Publicado: 27/11/12 - 7h20

"— As pessoas desejam experimentação coletiva. Inteligentes são os museus que percebem isso. Vá à fila do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e você verá que as pessoas quase nunca estão sozinhas. Não se espera quatro horas numa fila sozinho — diz ele [Luis Marcelo Mendes], lembrando que a autorização para fotografar pode ser crucial na atração do público. — O barato da mostra do Escher (a mais vista do mundo em 2011, com mais de nove mil pessoas por dia, no CCBB do Rio) era o fato de poder fotografar e compartilhar. Esse é um verbo crucial no museu do futuro."

— A programação do MAM (Museu de Arte Moderna) é incrível, o trabalho de curadoria (de Luiz Camillo Osorio) tem sido espetacular, mas ir ao museu ainda é uma experiência ruim. Você precisa lidar com flanelinhas, moradores de rua, há lixo no entorno, o restaurante é caríssimo, o café nem sempre está aberto... — lista ele.

"Outro exemplo de “compreensão do outro” na museologia se deu em Denver, no Colorado, estado americano que tem a criação de gado entre as principais fontes de renda. Seu museu de arte contemporânea percebeu que, para que o público abraçasse a instituição, era preciso “expor” o que o povo de Denver tem em comum: o gosto por carne. Estava criada a ideia da mostra “Art meets beast”, que levou vários “artistas” da carne (açougueiros, cozinheiros...) ao museu para exibir sua “arte” e conversar com o público.

— O museu precisa entender o que é valioso para o outro, e não para si mesmo. No museu do futuro, todo o poder emana do povo."

Aproveitando, fica a dica: A magia de Escher, Palácio das Artes


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E como ficam os pesquisadores que querem citar e comentar seu material, com finalidade acadêmica e científica?