Em preparação ao 2º seminário da disciplina optativa Museu, espaço e poder, Museu, cultura e imperialismo: tempo, espaço e relações de poder, em que um dos temas centrais serão os zoos humanos, acabei reunindo algum material sobre a Exposição Universal de Chicago de 1893, a ser abordada a partir do texto
KOUTSOUKOS,
Sandra Sofia Machado. Dahomeyans: espetáculo e ciência na Exposição Universal de Chicago (1893). RESGATE - Vol. XVIII, No. 19 -
jan./jul. 2010, p.122-134.
Como aponta a autora, "Tais exibições, a princípio, vinham
supostamente cumprir a função de informar e suscitar o respeito por aquele “outro”, mas
teravam por incutir mais sentimentos de superioridade no branco de
ascendência européia, ajudando a reafirmar teorias racistas então em voga e, assim sendo,
“justificando” e “desculpando” o crescente imperialismo. O que se fazia era selecionar, colecionar,
exibir, analisar, medir, classificar, retratar, descrever, controlar e arquivar
os “outros” e a sua imagem. (...)Sua presença ao vivo e seus retratos eram
explorados para estudos, curiosidade e diversão. Seus cadáveres eram disputados
por escolas de medicina, museus e coleções." (KOUTSOUKOS, 2010, pp.123-124)
Discussões excelentes e atuais, promovidas pela Casa de Rui Barbosa. Retirei do canal da instituição no You Tube [acesso a todo conteúdo, aqui] duas que gostei especialmente.
1) Palestra “Centros de Memória”, proferida pela professora Ana Maria de Almeida Camargo, História/USP. 13/05/2015
"Ana
Maria de Almeida Camargo dá aula no Departamento de História da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo. Na ocasião do dia 13, a pesquisadora na área de documentação e
arquivos fala sobre a diversidade de características atribuídas aos
centros de memória. Além de examinar as soluções a que recorreram, na
tentativa de ajustar mecanismos preexistentes às demandas
contemporaneidade. A professora também pretende discutir o alinhamento
com os órgãos que os criaram; e, por fim, apresentar os elementos que
poderiam compor os perfis institucionais, tornando-os mais eficientes."
2) "Espectadores y lectores frente a las pantallas: políticas para escenas emergentes". Evento no auditório da FCRB em 17 de abril de 2015.
"Ana
Rosas Mantecón - antropóloga, professora e pesquisadora da Universidade
Autonoma Metropolitana do México. É especialista em pesquisas sobre
consumo cultural e recepção artística, com estudos sobre públicos de
museus, cinema, televisão, rock, turismo cultural, representações do
patrimônio arquitetônico em centros históricos, organizações que reúnem
creatividade e inclusão social, assim como análises de políticas
culturais urbanas. Seu próximo livro “Ir al cine. Antropologia de lós
públicos” será publicado este ano pela editora Gedisa.
Nestor
Garcia Canclini - professor na Universidade Autônoma Metropolitana do
México. Foi professor visitante nas universidades de Austin, Duke, Nova
Iorque, Stamford, Barcelona, Buenos Aires e São Paulo. Recebeu a bolsa
Guggenheim e vários prêmios internacionais por seus livros, entre eles, o
“book award de La Latin American Studies Association por Culturas
híbridas, que foi publicado no Brasil pela EdUSP. Entre os livros
editados no Brasil estão: Diferentes, desiguais e desconectados (UFRJ),
Consumidores e Cidadãos (UFRJ) e A sociedade sem relato (EdUSP). Em
2014, recebeu o Prêmio Nacional de Ciências e Artes no México."
Repassando o texto Museus, culturas, antropologias da coluna Sentidos do mundo (Ciência Hoje), mantida desde fevereiro de 2011 pelo antropólogo Luiz
Fernando Dias Duarte, pesquisador do Museu Nacional da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [completo, aqui].
"Ao lado das instituições tradicionais, de disposição mais universalista, como os museus ‘nacionais’ e os de ciência, proliferam atualmente importantes iniciativas de valorização e legitimação dos modos de vida, das culturas, de segmentos dominados ou desfavorecidos das sociedades modernas.
Quer se trate de culturas indígenas, de comunidades periféricas urbanas, de enclaves rurais ou de atividades artesanais ou alternativas, a disposição em registrar, objetivar, sistematizar testemunhos físicos, estáveis, dessas experiências identitárias parece tornar-se um recurso importante para a autoestima e para as lutas políticas de todos esses atores da cena pública moderna. Um bom exemplo é o do Museu da Maré (RJ), que se apresentou naquele seminário.
Essa é uma das muitas características dinâmicas que atravessam atualmente a relação entre museus, culturas e antropologias. A mesma tensão entre instituição e vida social se apresenta no desafio de tornar os museus mais ágeis e eficientes na comunicação com os saberes que representam e com as populações que desejam influenciar.
Num momento em que a própria objetivação excessiva do conceito de ‘cultura’ é motivo de crítica no pensamento antropológico, a luta por representação e expressão ‘cultural’ dos grupos minoritários cresce na agenda circundante, impondo intensa reflexão e cuidadosa participação dos antropólogos na assessoria a tais iniciativas.
Grandes desafios para nossa museologia, amparada pelo ativo Ibram, mas sempre oscilando, como nossas classes populares, na linha intermediária entre a dura miséria e alguma digna pobreza.
Enquanto preparo o início das aulas da disciplina optativa "Museu, espaço e poder" vou reunindo material e selecionando mais algumas leituras.
Encontrei por exemplo essa boa matéria da BBC:
"Uma exposição no museu do Quai Branly, em Paris, mostra como seres
humanos considerados "exóticos, selvagens ou monstros" foram exibidos
durante séculos em feiras, circos e zoológicos no Ocidente." A matéria é ilustrada por imagens da exposição, vale a pena conferir completa, aqui
Também retomo a leitura do bem cuidado Victorian Cities, do historiador britânico Asa Briggs. Tanto na introdução quanto no capítulo sobre Londres, é notável a quantidade de referências citadas, na literatura e na análise social, em que os diferentes, os excluídos, os ameaçadores, estejam no espaço imperial, estejam nos becos da grande metrópole, são associados em analogias que os colocam "no mesmo saco". Assim, a África é o continente negro (dark) e o East end a região escura (dark) de Londres, e seus moradores frequentemente eram comparados a selvagens polinésios ou africanos.
Guillermo Antonio Farini posa com pigmeus no Royal Aquarium de Londres. Foto: Pitt Rivers Museum, Universidade de Oxford.
Pôster do Circo Robinson anuncia um espetáculo com 'povos selvagens',
afirmando ser a maior exibição do século. Foto: grupo de pesquisas
Achac, coleção particular
... a pós-modernidade nos condena... não tem como evitar a gargalhada depois de mais um trecho de ironia e aguda crítica do certeiro Marshall Sahlins em "Esperando Foucault, ainda", sobremesa (como ele logo anuncia no começo do livro) para ser devorada o quanto antes. Relevância "(...) nos Estados Unidos muitos estudantes de antropologia não tem o menor interesse em outros tempos e lugares (...) qualquer outra etnografia (...) não passaria de uma "construção do outro" de nossa parte. Assim, se conseguirem o que querem e isso se converter em princípio da pesquisa antropológica, daqui a cinquenta anos ninguém vai prestar a menor atenção ao trabalho que eles vêm fazendo agora. Bem, talvez eles tenham sacado alguma coisa.
Dossiê Patrimônio cultural e museus da revista Vibrant
"VIBRANT – Virtual Brazilian Anthropology foi criada pela Associação
Brasileira de Antropologia com o propósito de dissiminar a antropologia
brasileira para além das fronteiras da língua portuguesa. Publica
artigos e audiovisuais em inglês, francês e espanhol de antropólogos
vinculados a instituições brasileiras, de modo a promover um maior
intercâmbio transnacional de idéias e ampliar a
diversidade antropológica."
"VIBRANT – Virtual Brazilian Anthropology was conceived by the Brazilian
Anthropological Association (ABA) as a medium for disseminating
Brazilian anthropology beyond the Portuguese-speaking world. The
presentation in English, French and Spanish of articles and audiovisual
materials produced by anthropologists working in Brazil is intended,
therefore, to promote greater transnational interchange of ideas and to
further awareness of the diversity within anthropology."