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sábado, 13 de abril de 2019

O OUTRO É O NOVO E O DIFERENTE DE MIM: A RELAÇÃO ENTRE MUSEUS E A ALTERIDADE DOS CONTATOS - Tipologia de museus 2018

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA
TIPOLOGIA DE MUSEUS
LUIZ HENRIQUE GARCIA
DANIEL BATISTA, ELISON SILVA E LUCAS THIAGO

O OUTRO É O NOVO E O DIFERENTE DE MIM: A RELAÇÃO ENTRE MUSEUS E A
ALTERIDADE DOS CONTATOS

Inicio esse texto com um empenho de mensurar contatos culturais a partir da definição de
“contato” que, segundo o dicionário Priberam, se compõe por contiguidade, convívio,
comunicação, influência e proximidade. A conexão estabelecida por esses elementos
semânticos na composição de “contato” revela a complexa teia que as relações humanas
desenvolvem desde há muito, ainda antes da revolução agrícola, ocorrida há cerca de dez
mil anos. O contato entre diferentes grupos humanos ainda faz emergir as distinções, o
intento em dominar a técnica, o conhecimento, os valores e os sujeitos sociais, e o
estabelecimento de códigos de linguagem, crenças e outros elementos culturais comuns
dentre eles.

James Clifford (1999), ao escrever sobre os contatos de viagens em “Itinerarios
Transculturales” se depara com a complexidade que envolvem as identidades e suas
relações dentro e fora do seu contexto sociocultural. Isso porque identidade se mostra um
bem da relação que o ser constrói com o meio ambiente e consigo mesmo. É por meio da
comunicação sensível-interpretativa que os sujeitos interpretam, conhecem, categorizam e
classificam as suas experiências em um processo cognitivo e de ação. Também o é por via
da sua ação sobre o lugar e os seus semelhantes que as experiências se tornam memórias
individuais e coletivas, formando um movimento de internalização e externalização das
experiências e compreensão da realidade articulada entre eles em dado espaço e qualidade
dos seus contatos.

Poderíamos dizer que ao longo da história das sociedades humanas, as relações de poder
teriam como objetivo tornar homogêneo os signos, a cultura e a compreensão da realidade
de um indivíduo, subtraindo a subjetividade das experiências e a percepção do ser
enquanto indivíduo ao se valorizar a comunidade, os elementos resultados das experiências
coletivas naquele espaço, ainda inseridos nos limites das distinções entre os corpos que
compõem aquela sociedade como idade, gênero, etnia e as necessidades especiais de
cada corpo.

Para a filosofia, os contatos entre diferentes corpos formam uma estrutura de afetos, a qual
se relacionam de acordo com as categorias de distinção construídas por eles para
diferenciar os papéis sociais e qualidades dos sujeitos que compõem o grupo. Ao se
afetarem por meio das distinções das identidades, esses indivíduos criam a ética, advinda
da compreensão das implicações das ações sobre o outro e o ambiente que interagem
(SPINOZA, 2013). Dessa forma, o compartilhamento experiências coletivas e individuais -
orientadas pela ética - elegeriam memórias coletivas que caracterizariam a identidade para
a manutenção de uma tradição a ser mantida, pois ela conferiria a coerência social e o
sentimento de pertencimento aos sujeitos.

A complexidade dos contatos analisados por Clifford (1999) se daria pelo trânsito das
identidades em um mundo interconectado pela isonomia de alguns elementos culturais e a
tecnologia a permitir trocas de conhecimentos e experiências entre culturas evidenciando os
contrastes de maneira a desenvolver desigualdades entre elas. A migração seria um
exemplo do que esse contato causaria sobre os indivíduos expatriados ou viajantes: quem
se desloca do seu lugar para outro leva como referência a sua cultura, suas memórias,
experiências de uma vida que lhe incorporam e o torna quem ele é comprimido em seu
nome, em seu corpo para um outro contexto sociocultural, um lugar onde as referências são
outras, onde ele seria parte de uma minoria com pouca ou nenhuma expressão naquela
esfera social, um corpo a se adaptar àquela estrutura sociopolítica que orienta a construção
identitária de quem ali habita. Esse contato proporciona ao estrangeiro estranhamentos, a
amplitude das diferenças identitárias e dos fatores de distinção entre ele e os demais. À
medida que o contato se daria, seria possível dizer que o estrangeiro sofreria uma certa
contaminação daquela cultura, uma dosagem necessária para lidar com a burocracia e
estabelecer relações de acordo com a ética daquela sociedade. À transculturalidade haveria
um limite de transmissão de elementos culturais visto que o sujeito manteria consigo
elementos de sua cultura nativa, vivenciada e experimentada ao longo da sua vivência
naquele lugar. Algo que, para Clifford (1999), seria intrigante, pois os estudos sobre
interculturação e transculturalidade apontam para uma transmissão em que se consideraria
a adaptação dos sujeitos ao novo contexto político-sócio-cultural, também tendo como
obstáculo o desenvolvimento do pertencimento à uma cultura não praticada nesse novo
lugar. Quais seriam, portanto, as influências que manteriam os indivíduos conectados à sua
cultura nativa ou ancestral na contemporaneidade?

Nas sociedades complexas, as construções identitárias sofrem influência da globalização na
medida que se percebem inseridas em uma estrutura em que os câmbios atualizam a sua
cultura, principalmente pela dinâmica de mercado. Trata-se de sociedades que se projetam
para o futuro em prol do progresso, rompendo com a manutenção das tradições na medida
em que inserem novas técnicas e tecnologias no circuito social, aumentando a rotatividade
dos elementos culturais e seus objetos, reduzindo o tempo para a obsolescência das
tecnologias e das modas, tornando-os pertencentes de um passado demasiado distantes da
prática quotidiana. Nelas, o passado se mostra presente enquanto referência estética,
assumindo a plasticidade da canonização dos seus elementos e da criação de lugares de
memória, que para Nora (1994) seria a ruptura com o equilíbrio para lidar com a ascensão
da “consciência de si sob o signo do terminado”. Se a memória pode ser entendida como
resultado da experiência, nessas sociedades em que a temporalidade é fragmentada entre
passado, presente e futuro, na qual o passado seria algo distante da realidade, uma
nostalgia presente nos relatos de experiências ou na estética das coisas, e dele o futuro
emerge como uma construção contínua de um projeto social, e o presente se desponta
como um tempo em que os indivíduos se relacionam com as suas memórias e as projeções
de um futuro essas sociedades, portanto, se organizam sob dois afetos centrais de
temporalidade, a esperança e o medo: a esperança de um futuro melhor e o medo do que
esse futuro poderá se tornar, ou seja, um tempo das incertezas permeado pelo desamparo
(SAFATLE, 2016). A criação dos lugares de memória se tornaria uma contrapartida às
incertezas temporais e de identidade das sociedades complexas. Segundo Nora (1994), ao
se perder os meios de reviver a memória elas concebem esses lugares para reverenciarem
uma memória esfacelada.

Esses lugares se tornam, portanto um espaço de publicização de evidência material da
existência humana, compreendendo as singularidades das relações entre humanos e o
meio ambiente que interagem. Dessa forma, despontando, talvez, como um movimento
paralelo ou de resistência à homogenia da identidade nacional. Um movimento de
resistência das subjetividades por direitos e igualdade por compreenderem seus corpos
enquanto políticos, indivíduos estruturantes da complexidade social, articulam-se
conscientes de que as políticas e éticas que lhes afetam têm como gatilho os seus lugares
sociais e geográficos. Esse movimento contemporâneo de valorização da subjetividade
retorna faz emergir um passado pela valorização da ancestralidade, de uma identidade a
ser apropriada pelo Estado para a manutenção da sua legitimidade e atualização da
identidade nacional.



Museu do Homem , França.

A musealização dos elementos da cultura material remonta à toda a construção do sujeito
social nessas sociedades. E os museus enquanto lugares de legitimação de uma cultura,
conferem importância aos objetos musealizados os tomando como signos da identidade dos
grupos e os fatos sociais que afetam as subjetividades. Se os museus públicos, portanto,
surgem no século XIX como cenário da história, ao salvaguardar o patrimônio nacional, no
século XXI as lutas das subjetividades por direitos atualizam esse fenômeno, tornando-o
meio de comunicação das suas relações na estrutura social em uma ação de
descentralização do poder sobre as suas memórias - outrora detido pelo Estado e uma elite
intelectual e econômica.

Michael Ames (1992) questiona a quem pertence o direito sobre os objetos de uma cultura,
ao iniciar uma discussão sobre espólios e o direito que alguns grupos e sociedades
demonstram possuir ao incluírem nos museus elementos da cultura material de outros
grupos e sociedades, narrando-o de acordo com as suas construções sociais sobre
realidade, ética e seus valores. Esses contatos estabelecidos pela alteridade destitui o outro
sobre si, ao interpretá-lo de acordo com um background composto por experiências e
construções sociais vividos por uma coletividade diferente da representada. Essa
destituição ocorreria pela compreensão de ambos sobre suas identidade, afirmadas para si
próprios e que agora as afirma para o outro que o destitui de suas convicções sobre si,
apresentando-se enquanto singular e detentor de uma verdade que seria total e totalizante,
provocando ao outro questionamentos sobre os seus atributos. Esse contato estabelece,
portanto, distinções entre ambos e uma hierarquia entre ambos, uma superioridade
legitimada pela força seguida pelos esforços da aculturação do grupo dominado (SAFATLE,
2016). Essa relação de imperialismo cultural pode ser percebida na reflexão de Ilana Goldstein
(2008) sobre a criação do Museu do Homem na França nos anos 1920, e mais tarde
atualizada na construção do Musée du Quai Branly. Ela analisa a aproximação da arte e
antropologia em um período em que povos indígenas das Américas, África e aborígenes
australianos eram percebidos como exóticos, resultado da crença cristã de heresia desses
povos, e mais tarde, no século XVIII, atualizada pela ciência estruturalista que definia esses
povos como incapazes de desenvolverem as suas culturas pelo que se considerava
“déficits” cognoscitivos, dentre outras formas de pejorativização dessas populações e suas
culturas.

Estudos baseados no estudo “ Origin of Species ” de Charles Darwin (1859), impulsionou
vários estudos baseados na evolução das culturas humanas baseadas na evolução da
cultura material e anatomia dos corpos de povos ameríndios, negros e algumas populações
da Ásia, bem como novas expedições colonialistas tendo a evolução como pretexto.
Foi influenciada sob esse contexto que a arte e a antropologia encontraram a sua
renovação no século XX. A arte se afirmava moderna e modernista ao se apropriar das
técnicas e estética indígenas ameríndias e africanas, enquanto a antropologia desenvolvia
estudos que criticavam a abordagem evolucionista das culturas difundidas nos séculos
anteriores, inseria nas coleções de museus objetos etnográficos e os expunha orientados
por uma narrativa eurocentrada. A arte moderna na Europa foi marcada por artistas que
pretendiam legitimar uma vanguarda reconhecendo a genialidade dos artistas africanos,
asiáticos e a estética ameríndia em um ato de justaposição a eles marcado pelo intento de
renovação canônica, em que a arte e o artista do outro continente seria compositor do plano
de fundo da sua projeção e da renovação artístico-cultural europeia. Enquanto os objetos europeus ganharam em suas legendas o título de obra de arte as africanas e ameríndias foram descritas como objetos etnográficos e sua produção artística como “arte primitiva”, estabelecendo uma hierarquia entre as culturas, destituindo-as dos atributos que a constitui e a legitima uma singularidade que não caberia entre ambas a hierarquia e a exotização dos seus corpos e elementos culturais.

Outro exemplo que suscita a espetacularização do outro se encontra na canção escrita por
Gilberto Gil e Caetano Veloso, cantada por Rita Lee e os d’Os Mutantes em que fazem uma
alegoria à política Romana para manter a população fiel à ordem estabelecida por seus
líderes a fim de conquistarem seu apoio.

“Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer”
(Veloso/Gil, gravado por Os Mutantes. Panis et Circensis , 1968. Grifo nosso)

“Panis et Circensis” teve origem na Sátira X do humorista e poeta da Roma Antiga Juvenal.
Alegava-se que bastava satisfazer a população com o entretenimento (dos Coliseus) e com
a alimentação para que seguissem totalmente ignorantes perante à política “Pão e Circo”.
Sua sátira, apesar de bastante antiga, é retrato de outros períodos históricos. Pensar em
museus, identidade e poder é igualmente pensar sobre a exploração colonialista durante o
período das grandes navegações europeia e na neocolonialização dos séculos XX e XXI.
Durante as explorações predatórias do desbravamento das Américas, África e Oceania, se
depararam não somente com os povos indígenas destes locais mas com a fauna, flora e os
sítios arqueológicos de civilizações antigas - como os antigos Templos Maoris ou
majestosas construções dos povos Mayas - que denotaram a ambição do povo europeu de
se apropriar de bens para consolidar a soberania de suas nações sobre o território e
aquelas culturas.

John M. Mackenzie, (2011) afirma que os os museus durante o período colonial,
interessavam-se da expressão ocidental convictiva da racionalidade, em contrapartida dos
gabinetes de curiosidades que continham o que se era desconhecido e repleto de
incógnitas, estimulando-os à percepção exótica dos objetos. Este ponto de divergência
entre museus e gabinetes de curiosidades se dá pela reunião de objetos curiosos e, até
mesmo, atribuindo-se o misticismo sobre eles nos gabinetes, enquanto nos museus,
exibiam e comunicavam o que era tangível e conhecido pela ciência estruturalista.
Este Pão e Circo que citei anteriormente se dá pela busca incansável do imperialismo de
capturar elementos materiais de outras culturas e reuní-los em um único lugar para
exposição como ocorrido em 1851 na grande Exibição do Palácio de Cristal com o intuito de demonstrar a globalização científica europeia. Paralelamente, enquanto nos territórios
colonizados os museus demonstravam o progresso (do ponto de vista europeu) exibiam um
espetáculo para suprimir os possíveis “gaps ” entre o progresso das metrópoles e colônias.
Tais “gaps” podem ser atribuído aos ideais iluministas que se afloraram no século XVIII, que
defendiam a razão, o homem como sujeito único e livre que age em prol do
desenvolvimento tecnológico e científico por intermédio do conhecimento sobre si e do
mundo. Os museus, portanto, tinham, no século XIX um caráter civilizatório; utilizavam do
conhecimento científico com o intuito de exporem o desenvolvimento através da
espetacularização, como forma de promoção das metrópoles e seus líderes.


A canção “Panis et Circensis” interpretada por Rita Lee e Os Mutantes em 1968 - que deu
origem ao tropicalismo brasileiro - faz tal alegoria do passado distante dos períodos
greco-romanos a fim de se manter a ordem social e a coerência identitária nas colônias que
tinham os museus como meio de comunicação para a promoção do progresso da metrópole
e da colônia, tendo a ciência e a educação como artifícios para a manutenção do sistema
político e a identidade dos conterrâneos.

Assim, os espetáculos dos museus aconteciam quando se promoviam grandes exposições
a fim de derrubar fronteiras de espaço e tempo que evidenciavam o gap entre o progresso
das colônias e das metrópoles, e tinham o intuito de demonstrar que tal progresso era
global e globalizante, ao passo que reforçavam a soberania das metrópoles sobre as
colônias.


REFERÊNCIAS
 
AMES, Michael M. Cannibal tours and glass boxes: the anthropology of museums .
Vancouver: UBC Press, 1992.

CLIFFORD, James . Quatro museus da costa norocidental: reflexões de viagem. In:
Itinerarios transculturales. Barcelona: Gedisa, 1999.

DIAS, Anderson. Política do Pão e Circo. Disponível em:
http://www.parafrasear.net/2007/11/poltica-do-po-e-circo.html. - (Acesso em 21/11/2018 às
18h33m)

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée
Branly. Horiz.antropol. [online]. 2008, vol.14, n.29 [cited 2013-08-27], pp. 279-314.

MACKENZIE, John M. Museums and empire: natural history, human cultures and colonial
identities .Manchester: Manchester University Press, New York: distributed exclusively in the
USA by Palgrave Macmillan, 2009.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.
Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Exposição Universal de Chicago de 1893: imperialismo e racismo em exibição

Em preparação ao 2º seminário da disciplina optativa Museu, espaço e poder, Museu, cultura e imperialismo: tempo, espaço e relações de poder, em que um dos temas centrais serão os zoos humanos, acabei reunindo algum material sobre a Exposição Universal de Chicago de 1893, a ser abordada a partir do texto
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KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. Dahomeyans: espetáculo e ciência na Exposição Universal de Chicago (1893). RESGATE - Vol. XVIII, No. 19 - jan./jul. 2010, p.122-134. 

Como aponta a autora, "Tais exibições, a princípio, vinham supostamente cumprir a função de informar e suscitar o respeito por aquele “outro”, mas teravam por incutir mais sentimentos de superioridade no branco de ascendência européia, ajudando a reafirmar teorias racistas então em voga e, assim sendo, “justificando” e “desculpando” o crescente imperialismo. O que se fazia era selecionar, colecionar, exibir, analisar, medir, classificar, retratar, descrever, controlar e arquivar os “outros” e a sua imagem. (...)Sua presença ao vivo e seus retratos eram explorados para estudos, curiosidade e diversão. Seus cadáveres eram disputados por escolas de medicina, museus e coleções." (KOUTSOUKOS, 2010, pp.123-124)


 Para adentrar um pouco mais no assunto, aos interessados indico o texto de Josh COLE,, “Culturaland racial stereotypes on the Midway”, que a autora cita. Vale ver ainda o material fotográfico disponibilizado pelo Getty Institute e uma cópia digitalizada do mapa e do Catálogo  das exibições no Midway Plaisance, a área periférica da Exposição dedicada aos povos selvagens , incluindo os daomeanos abordados no texto de Koutsoukos. 






 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Brasil vai a Paris em 1889 - citações traduzidas


Entre as leituras realizadas este semestre na disciplina optativa "Museu, espaço e poder", no curso de graduação em museologia da UFMG, estava este texto

BARBUY, Heloisa . O Brasil vai a Paris em 1889: um lugar na exposição universal. Anais do Museu Paulista (Impresso), São Paulo, v. 4, p. 211-261. [completo, aqui]

Incluo o resumo, como está disponível no scielo:

A A.[autora] estuda, de um ponto de vista museográfico, o significado da presença brasileira na Exposição Universal de Paris, de 1889. Com base em documentação rica e em grande parte ignorada ou pouco explorada, revela esforços empreendidos para apresentar o Brasil como um país atraente para estrangeiros e analisa o repertório alegórjco mobilizado, juntamente com a retórica de diferentes tipos de exposições, sejam de produtos naturais, manufaturados, científicos ou artísticos.
Unitermos: Exposição internacional. História das exposições, século XIX. Museografia, século XIX. Exposição Universal, Paris, 1889: presença brasileira.

Em meio a seminários e outras atividades, a aluna Thelma Palha fez a gentileza de traduzir as citações das fontes impressas em francês citadas pela autora. Além disso se dispôs a compartilhar a tradução através deste blog. Agradeço a ela novamente por essa preciosa contribuição, pois dessa forma mais leitores podem ter uma visão acurada do significativo trabalho de pesquisa empreendido pela autora. Aos interessados, sugiro baixar o texto e acompanhar pelos números a sequência das citações. Boa leitura!


1-       Vocês são homens de sentimentos elevados, vocês são de uma nação generosa. Vocês têm uma dupla vantagem de uma terra virgem e de uma raça antiga. Um grande passado histórico vos identifica ao continente civilizador: vocês reúnem a luz da Europa ao Sol da América. [Victor Hugo, Carta aos brasileiros, apud Marchand & Héros 1889:3-4]
2-       Se suprimíssemos do Champ-de-Mars os palácios e os pavilhões construídos pelas três Américas, ficaríamos ainda menos surpresos do grande vazio que produziria sua ausência que o desaparecimento da nota alegre, clara, luminosa, algumas vezes grandiosa, que esses edifícios projetam no conjunto Champs-de-Mars. [Varigny 29/01/1890:266]
3-       É um dos traços mais remarcáveis da exposição a grande praça ocupada pelos Estados latinos da América do Sul. Cada um deles se alojou num palácio próprio e as arquiteturas desses edifícios acrescentam muito ao pitoresco do Champ-de-Mars. [Rousselet 1890:201]
4-         Em resumo, é preciso suspender todo julgamento até o momento em que as instalações estiverem completas; mas o que é fácil sentir é que esses países nos mostrarão, sobretudo, a riqueza e a variedade da produção de seu solo. São lugares que, após estarem, há muito tempo adormecido, acordam enfim e querem entrar no grande movimento industrial provocado pela Europa. [Biart 1890:9]
5-       Elas [as Américas] têm consciência que o futuro é delas, e nós, os anciões, que lhes mostramos o caminho, que, sobre essas novas terras, despejamos há séculos, o excesso de nossa população, nossos pobres e deserdados, nos podemos estar certo, seguros dos resultados obtidos por estes exilados da Europa.  São eles, homens do norte e do sul, Ingleses e Franceses, Portugueses e Italianos, Espanhóis e Irlandeses, que criaram essas repúblicas prósperas e este vasto Império do Brasil, colocando em valor essas terras incultas, aumentada por esse ato comum de humanidade. [Varigny 29/01/1890:266]
6-       Este ano de 1889 será uma data importante na história dos jovens povos do Novo Mundo. Eles eram poucos no movimento econômico do globo; a política, as guerras civis, onde pudesse colher honras, dinheiro, uniformes, tinham absorvido a existência da maior parte entre eles e as prodigiosas riquezas naturais de seu solo e de seu subsolo continuam inutilizados e parecem continuar a ser sempre. É sob esta impressão que adormeceram os Parisienses nas últimas exposições. Percorrendo os palácios da América latina, eles devem convir que o quadro mudou. [Rousselet]
7-       Quem mantém este ritmo inesperado? Na maioria dos casos a imigração européia. Um sangue novo rejuvenesceu essas raças um pouco moles. Os únicos Estados que até nossos dias tinham escapado ao torpor geral, eram, precisamente, esses, onde os elementos eram os mais numerosos, onde a influência científica e literária vindas da Europa era maior: a Argentina, o Brasil, o Chile. São eles que matém, hoje, a cabeça do movimento. [Rousselet 1890:201-2]
8-      O Brasil veio à Paris, não para se impor aos olhos, mas para se fazer constatar pela velha Europa que ele não é indigno, pelos seus progressos realizados, de entrar mais facilmente ainda no conserto econômico dos grandes Estados. O Brasil veio à Paris não para procurar a vã satisfação de recompensas honoríficas, mas para dar um nó mais solidamente nos laços  que o prendem a Europa, para abrir de novo saídas a suas matérias primeiras, e, sobretudo, para dar confiabilidade à todos aqueles que estiverem prontos a escolhê-lo para sua nova pátria, para lá trabalhar ou fazer frutificar seu capital. Por sermos Americanos do Sul, nós não somos menos Americanos, quer dizer, práticos. [Santa-Anna Nery 1889b:X]
9-      O Brasil tem necessidade de uma população numerosa para colocar em valor as riquezas extraordinárias de sua terra.
10-  O Brasil é um país novo, que compra no estrangeiro a maior parte dos alimentos e dos objetos que precisa.
11-  O Brasil é um país agrícola, onde o café produz mais que em qualquer parte do mundo.
12-  O Brasil é um país livre, absolutamente livre. O estrangeiro cansado do jugo da Europa hierarquizada e militarizada, nele se reencontra, desembarcando, todas as grandes liberdades modernas praticadas há tempos, ao mesmo tempo em que o acolhimento, é o mais cordial.
 13-  Se o Brasil é um pa´si livre, ele é ao mesmo tempo um país de ordem. Nada de revolução a temer.
14-  A Itália, Portugal e Alemanha nos dão os braços que nós precisamos. A Inglaterra nos fornece o capital necessário para nosso equipamento. A França não nos fornece nem braço nem capital. Bem mai! Uma circular do governo de 16/05 proibe a imigração para o Brasil.
15-  Dessa revista, precisamente rápida, riquezas que a América abrange a nossos olhos, recursos cada dia mais consideráveis que ela nos revela, um fato se revela e se impõe: o papel que ela é chamada à representar na evolução econômica e industrial que se anuncia. O que será esse papel, as conseqüências, que resultarão para a Europa, a iniciativa recentemente tomada pelos Estados Unidos para mudar a seu favor os benefícios e assegurar a sua direção, é o que nos resta estudar.
16-  Sua situação geográfica, seu clima nos permitem prever a grandeza futura de seus Estados nascentes, e podem nos inspirar medos para o futuro. Em um século, o México, a Guatemala, o Peru, o Brasil, renovarão ou terão renovado o milagre do crescimento prodigioso dos Estados Unidos. Serão países com os quais contaremos e que, graças a seus recursos incalculáveis, estarão à frente das artes, que são o fruto da maturidade das nações ou ao menos dos empreendimentos industriais e comerciais.
17-   Ele corre sob um túnel de folhagens, ao longo de árvores, essas terríveis árvores, muito próximas da via, e da qual advertimos em todas as línguas do globo.
18-  ...mesmas pretensões marítimas, mas quantas mais naturais para o país que possuí o Rio de janeiro! Mesmas pretensões geográficas, mas quantas melhores justificadas aqui, o interesse que tem a geografia o império do Brasil sendo bem conhecido pelos Franceses.
19-  O Brasil, propriamente falando, não é uma nação industrial; de qualquer forma, sua indústria manufatureira não para de progredir nos seus diferentes ramos...
20-  Há lá a mais bela coleção de madeira – 40 mil espécies! – que pudesse sonhar um marcineiro; há pedaços de borracha bruta, algodões, esponjas camadas de minerais de em ouro, prata e diamante, produtos farmacêuticos para curar todas as doenças, e, para tornar mais atraente a visita dessas coleções, juntam-se móveis de estilo antigo, quadros e aquarelas representando lugares os mais pitorescos do Brasil, coleções de medalhas onde vêem as primeiras moedas cunhadas na América pelos Holandeses em 1645: esta curiosa série pertence ao Senhor, o Conde Cavalcanti; a Sra. Cavalcanti emprestou, ela mesma, seu estojo, que contém quatro ou cinco milhões de diamantes e de pedras preciosas. Não nos esquecemos, a mais preciosa, a não menos rara de todas as pedras que podemos ver, quer dizer, o famoso meteoro de Bendego, que caiu do céu em 1784.
21-   Nós achamos ainda produtos análogos a esses que nós vimos em outros pavilhões. As maravilhosas riquezas naturais do Brasil estão demonstradas pelas magníficas amostras de madeiras e por uma exposição muito interessante de borracha, que é produzida pela seiva de diversas árvores, recolhida por meio de incisões e submetida a uma preparação particular. O cacau, o açúcar, o café, etc. são as principais produções dessa vasta região, representada dignamente na exposição.
No piso térreo, o público se comprime em volta da cópia em madeira do meteorito de Bendego. O original, conservado no museu do Rio de Janeiro, pesa 5,360 kg. e é composto, principalmente, por ferro e níquel.
22-  As selvas do Brasil fornecem ao marcineiro um inesgotável tesouro de madeiras preciosas; nos as vemos, desenvolvidas sob forma de pirâmides no piso térreo, enquanto que no andar superior nos apresentam móveis de estilo fabricados por artistas indígenas; a maior parte dessas madeiras não são empregadas, eu creio, nas marcenarias européias, onde nós nos servimos quase que exclusivamente de exemplares vindos de nossos países como o carvalho, a nogueira, a pereira, a oliveira, etc. (...) Não podemos, então, prever  ainda qual a saída para essas madeiras brasileiras, que são tão belas, de um grão tão fino, que nos damos conta, podem ser artisticamente trabalhadas.
Com as pirâmides de madeira alternam outros compostos de minerais ou de pedras de ornamento: entre esses últimos observamos os magníficos mármores com veios negros de Gandarela. Por todo lado se elevam enormes pilhas de borracha. Um pequeno salão, muito elegante, exibe algumas espécies de café, cacau e de erva mate, planta cuja infusão dá um chá muito apreciado na América do Sul e que poderemos degustar aqui, como no Paraguai.   
23-  De lá vieram essas madeiras raras cujos grânulos enormes chamam a atenção; do norte essas pedras preciosas, diamantes, esmeraldas; do Rio Grande do Sul, essas ágatas, essas ametistas e essas coralinas, esses minerais de ouro; depois esses vinhos, esses tabacos e o café do qual o Brasil produz a metade do
que o mundo consome. Mas sua prosperidade atual não é nada ao lado do que o futuro lhe reserva. Quando essas vastas florestas forem abertas, quando as regiões ainda pouco conhecidas do oeste forem invadidas pela civilização, não será mais, como hoje, por um milhão que numerarão a importação e a exportação do Império. De outro modo elevado será a parte contributiva do Brasil ao movimento industrial e comercial do universo.
24-  Vocês desejam conhecer ao certo o que achamos no hall e nos dois andares das galerias decoradas de flores em camafeu sobre fundo dourado e de guirlandas? Cafés, cacaus, baunilhas, açúcar, cana de açúcar, tabaco, mármores, amostras de madeiras, produtos manufaturados de todo tipo, alguns quadros ruins, algumas esculturas de escolares. Produtos agrícolas e primeiras matérias expostas atestam os imensos recursos de um solo onde nenhum tesouro seja raro, mesmo o ouro e os diamantes.
25-  Cultivamos hoje o café em todos os países intertropicais. Entre os países produtores, o primeiro rang pertence ao Brasil, que praticamente só produz quantidade de café que todos os outros países reunidos e que durante a campanha do 1/7/1888 à 30/6/1889 exportou 6,300.00 sacos de 60 kilos ou 378 milhões de kilogramas (...) Os países onde nós [os franceses] nos abastecemos são, por ordem de importância, o Brasil, Haiti, a Venezuela, a Índias Inglesas, os Estados Unidos, a Nova Granada, as Costas da África, etc.
26-  Nós já fizemos muito; nós ainda temos mais para fazer. É impossível parar sem comprometer tudo que foi tentado até aqui. Vamos então!E para o progresso!
27-  No entanto (num período posterior), as exposições internacionais haviam aparecido. O diretor do museu, por sua instrução não menos que por sua atividade, se achava à frente das exposições preparatórias organizadas no Rio de Janeiro nessa época, e não deixou de contribuir fortemente no aumento das coleções do museu adicionando o excedente dessas exposições. Era pouco, mas era qualquer coisa se refletirmos sobre a pobreza desse estabelecimento. Até lá, o Museu brasileiro viu entrar somente duas vezes em suas galerias coleções do mais alto interesse e capazes de atrair por seu valor, a atenção dos mais ricos museus europeus. Eu quero falar das coleções egípcias que o Imperador Pedro I havia comprado(...). A segunda aquisição consistia no rico presente feito pelo rei Ferdinando de Nápoles, ao Imperador Dom Pedro I, seu genro, presente composto por numerosos vasos etruscos e em bronze de Pompéia, que sua Majestade doou ao Museu.
28-  É uma preciosa ocasião de constatar, por exemplo, a soma muito imponente de trabalhos realizados a cada ano, por um grupo de sábios brasileiros: MM.Cruls, Derby, Gorceix, Freire e tantos outros.
29-  O panorama do Rio de Janeiro é cheio de charme à noite. O espectador está sobre uma colina entre a cidade e as montanhas que formam o anfiteatro em volta dela; diante da cidade está a baía. Os fundos bem vistos  e as montanhas verdejantes formam contrastes com as águas azuis do mar. A cidade, suas construções, suas ruas, seus monumentos se apresentam bem à vista do espectador. Esse panorama é tratado com os procedimentos de decoração de Cicéri; certos efeitos se devem pela espessura das pinturas que formam, de alguma forma, um baixo relevo; mas o conjunto, repetimos, é agradável.
30-  Esse panorama foi imaginado e colocado em obra com muita arte por um artista brasileiro, de um talento comprovado.
31-  No âmbito do divertimento, mudança de cenário ou de instrução, um imaginário coletivo que se desenvolve será cedo ou tarde recuperado pela propaganda, pela publicidade, pelo comércio.