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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Museus, Identidade e Poder

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Graduação em Museologia

Tipologia de Museus

Prof. Luiz Henrique Assis


Discentes: Ana Clara Marques Quintino de Souza Silva, Jéssica de Almeida Silva, Letícia dos Santos Lemes, Marcos Vinicius Caetano Versiani Paz, Yasmin Albertina Lopes Martins


Museus, Identidade e Poder


A evolução dos museus, desde gabinetes de curiosidades até museus etnográficos, está ligada diretamente à expansão colonial, justificando o confisco de artefatos e exposições que reforçam discursos coloniais. Casos como os de Saartjie Baartman e Julia Pastrana mostram como a ciência foi usada para legitimar desigualdades e o exotismo.

Saartjie Baartman, jovem sul-africana conhecida como "Vênus Negra", foi exibida em circos europeus como uma atração exótica, explorando suas características físicas para reforçar ideais racistas. Durante as exibições, era humilhada e até tocada por visitantes. Após sua morte, em 1815, seu corpo foi moldado e exposto no Musée de l'Homme, em Paris, onde permaneceu por décadas. Seus restos mortais só foram devolvidos à África do Sul em 1994, após pedidos de Nelson Mandela e da comunidade Khoikhoi. 

 


                                                     [Img 1 “Saartjie  Baartman”]

 

Julia Pastrana, nascida em Sinaloa, México, possuía ascendência indígena e hipertricose; condição que causa o crescimento excessivo de pelos. Exibida como atração nos EUA e Europa, Júlia foi intitulada de “mulher-macaco” e “selvagem”. Seu próprio marido organizava essas exibições. Após falecer em Moscou, foi embalsamada e seu corpo continuou sendo exposto em vários países.

 


                                                                        [Img 2“Julia Pastrana”]

 

No Brasil, a reprodução desses discursos também marca a musealização. Surgiu a ideia da Decadência do Índio, o qual seria uma etapa a ser ultrapassada.

Os colonizadores classificaram as muitas comunidades indígenas em duas: Os tupi-guaranis e os tapuias/botocudos. Os tupi-guaranis, falantes do tronco tupi, eram os povos da costa, “mansos". Com o objetivo de embranquecer a população, incentivou-se a miscigenação. Foram ainda romantizados como o “bom morto” - eles tornaram-se inspiração de obras como Iracema, retratados em quadros e poemas como a extensão humana do território brasileiro a ser moldado pelo português. 

 


 

                                            [img. 3 - Moema de Victor Meirelles]

 

Já os índios botocudos, falantes do tronco macro-jê, assim chamados por conta de seus adornos corporais, eram os “selvagens de dentro do mato”. Retratados como monstros canibais, o governo português, por meio de incentivos à “conquista” de terras e prisão dos índios, fomentou seu extermínio. Esses povos se tornaram objeto de estudo dos cientistas e pesquisadores evolucionistas, reunidos nos museus e exposições etnográficas, fotografados, expostos e classificados como o mais baixo grau de gente.  

 



 

[img. 4 - daguerreótipos de E. Thiesson, primeiras fotografias de indígenas.]


Um grande exemplo disso foi a expo antropológica de 1882 realizada no Museu Nacional do Rio de Janeiro, que contou com um zoológico humano - 7 indígenas foram enganados e levados ao Rio de Janeiro para serem expostos como o elo perdido entre macaco e homem. 

É a fabricação da alteridade pela criação e hierarquização de raças para a dominação de umas e o benefício de outras. O museu foi produto e produtor desse discurso, agindo como depósito de objetos etnográficos  e contribuindo para o apagamento da identidade indigena no Brasil. Até hoje os indígenas são vistos como “bichos do mato”, distantes do resto da população. 

 


 

 


                                             [ videos - brincar de índio ]

 

Ao longo do tempo, novas abordagens museológicas e etnográficas passaram a valorizar essas produções, principalmente a arte "primitiva", redescoberta pelas vanguardas artísticas no final do século XIX e início do XX. Essa arte passou a ser vista como uma fonte de renovação estética, desafiando as normas ocidentais.

A tensão entre tratar a arte "primitiva" como testemunho etnográfico ou criação estética é refletida nas curadorias dos museus, que precisam equilibrar "beleza" e "antropologia". Além disso, começou-se a valorizar as produções não-ocidentais, como as indígenas e africanas, como resultado de um profundo aprendizado cultural, desafiando a visão de que eram criações impulsivas.

Essa reavaliação também destaca as relações de poder envolvidas na aquisição e exibição desses objetos, especialmente no contexto globalizado, onde o mercado de souvenirs pode obscurecer seu valor original. A crítica às narrativas coloniais é essencial para uma apreciação justa da arte "primitiva", respeitando as culturas de origem e suas dinâmicas contemporâneas.

O Museu Quai Branly, em Paris, exemplifica a reavaliação da arte "primitiva" e das narrativas coloniais. Criado a partir de coleções etnológicas, ele se divide em zonas continentais e representa os desafios e contradições ao expor esses objetos. O museu sugere que, apesar de suas limitações, pode ser um espaço de diálogo e reflexão, oferecendo uma experiência crítica que vai além de uma simples apresentação estática de objetos, levando em conta as realidades culturais e sociais vivas.

Diante dessas práticas, surgiram novas museologias e mudanças na prática museológica. As mudanças na antropologia e etnologia também trouxeram uma nova maneira de estudar o objeto, investigando a fundo sua história e uso reais, ao invés de torná-lo mero suporte de ideias já prontas. Esta abordagem visa descolonizar narrativas e permitir que grupos originais recuperem um papel de liderança nas suas histórias e património. Estes espaços tornam-se locais de expressão autêntica e apreciação de vozes anteriormente marginalizadas. Nesse sentido, os museus assumem um papel de resistência, promovendo debates sobre identidade, memória e poder.

O desafio está em repensar não apenas as exibições, mas também os processos e as vozes envolvidas na construção dessas narrativas. A descolonização dos museus é um movimento fundamental para transformar essas instituições em verdadeiros espaços de inclusão e justiça histórica. 




Referências Bibliográficas:


ABREU, Regina .M.R.M. Tal antropologia qual museu? Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, v S7, p.121-143, 2008.


BRULON, Bruno. Descolonizar o pensamento museológico: reintegrando a matéria para re-pensar os museus. Anais do Museu Paulista:História e Cultura Material, v. 28, 2020.


BOTTALLO, Marilúcia. Os museus tradicionais na sociedade contemporânea: uma revisão. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, n. 5, p. 283-287, 1995.


CLIFFORD, James. Quatro museus da costa norocidental: reflexões de viagem. In: Itinerarios transculturales.Barcelona: Gedisa, 1999. 

 

DURAND, Jean-Yves. Este obscuro objecto do desejo etnográfico: o museu. in: Etnográfica, 2 (11). Revista do Centro de Estudos de Antropologia. Lisboa: CEAS / ISCTE. pp 373-385.

 

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée Branly.Horiz.antropol. [online]. 2008, vol.14, n.29 [cited 2013-08-27], pp. 279-314. 

 

KOK, Glória. A fabricação da alteridade nos museus da América Latina: representações ameríndias e circulação dos objetos etnográficos do século XIX ao XXI. ESTUDOS DE CULTURA MATERIAL/DOSSIÊ. Anais do Museu Paulista. P. 26 .2018. 


PAZ, Felipe Rodrigo Contri. Bustos raciais: uma biografia das Imagens-Artefato racialistas (1862-1930). 2020.


VIEIRA, Marina Cavalcante. A Exposição Antropológica Brasileira de 1882 e a exibição de índios botocudos: performances de primeiro contato em um caso de zoológico humano brasileiro. Horizontes antropológicos, v. 25, p. 317-357, 2019.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

IDENTIDADE E PODER

Universidade Federal de Minas Gerais

Escola da Ciência da Informação - Museologia

Grupo: Andreza Pinheiro; Esther Inácio; Fabiano Martins; Fabio D. Antunes; Iolanda Soares; Isadora Barbosa; Júlia Avelar

SEMINÁRIO 4 

IDENTIDADE E PODER 

Museus e Antropologia

O modelo hegemônico que existia nas instituições museais no início dos anos 90 passou por um processo onde recebeu muitas críticas internas e externas devido ao seu discurso antropológico que tinha um caráter de dominação.

“Beijo que mata as realidades que pretende preservar, a museografia de luvas de algodão branco, rigorosamente respeitadora dos seus preceitos metodológicos e técnicos, pode não ser a mais adaptada a pelo menos certos ramos da etnomuseologia” (DURAND, 2007, p.384)

O processo de descolonização foi essencial para o surgimento de novas condições dentro desses espaços. A etnomuseologia se juntou às ideias de uma ‘nova museologia’ e os ‘ecomuseus’, que se baseavam em construir uma relação mais próxima com a população, e proporcionar um enriquecimento próprio de conhecimento. Com isso, também incluía a descentralização do objeto e a ideia de interdisciplinaridade dentro dos museus. Anos depois que essas iniciativas foram implementadas e essa nova dinâmica dentro da museologia se iniciou, os resultados foram positivos e trouxe até uma determinada valorização do patrimônio imaterial, que naquela época não era reconhecido tal importância ainda.

Após todas essas constatações surge a ideia de fazerem um seminário organizado por várias instituições de estudo antropológico, que ocorreu na França em 6 de abril de 2007, onde visava dar a palavra aos antropólogos que estavam envolvidos em projetos que eram mais bem estruturados, que faziam mais sentido para a museologia etnográfica.

A partir de todo o contexto antropológico e museológico apresentado até aqui, surge uma questão, o que vem a ser a “arte primitiva”, que nada mais é do que um termo empregado para categorizar as artes produzidas pelos povos indígenas das civilizações não europeias, da América, Ásia, África e Oceania, e que abrange também a arte pré-história, a arte bruta, e a arte naif, no qual, reside aí um dos problemas com a denominação de “arte primitiva”, que agrupa expressões artísticas de culturas e tempos diferentes, coisas que não possuem ligações diretas, mas que sob os olhos da cultura dominante são associadas.

No livro “Cannibal boxes and glass tours”, o antropólogo Michael Ames discorre sobre o conceito de Arte Nativa, destacando que “para a Arte Nativa ser aceita na sociedade dominante, ela precisa permanecer imutável, exótica e “primitiva”. A evolução da forma, do estilo, e o distanciamento da arte da cultura onde o artista se encontra, é um privilégio reservado para a arte branca." (AMES, 1992). Essa noção de arte primitiva permeia as estruturas dos museus etnográficos, no qual, a produção do outro é colocada no lugar de exótico, e é colocada em exibição como algo estranho ao olho do normal.

No texto "Reflexões sobre a arte ‘primitiva’: o caso do Musée Branly", a escritora Ilana Goldstein apresenta um estudo do caso sobre Museu Branly, localizado na França, um museu etnográfico que se formou em cima da ideia de olhar para a arte dos outros povos de um ponto de vista sobretudo estético (GOLDSTEIN, 2008). A perspectiva sustentada seria a de que a beleza plástica das obras de arte, seriam capazes de falar por si só, sendo essa uma ideia não homogênea no meio da antropologia, diversos pensadores vão pensar na interpretação de objetos etnográficos em conjunto com seus contextos.

O Musée Branly foi projetado por Jean Nouvel e busca propor um diálogo entre culturas, além de retomar o papel e a importância que objetos, artefatos etnográficos e outros elementos como riquezas de uma “arte primitiva”, tão importante quanto as obras criadas após o surgimento da escrita e que os europeus da época minimizaram sua relevância como manifestação artística e cultural (GOLDSTEIN, 2008)

               Figura 1: Musée du quai Branly


Fonte:  Contemporary architecture in Paris / toothpicnations

Verifica-se que nas artes não ocidentais assumem a função de objetos dinâmicos e de testemunhos etnográficos das culturas que divergem das artes ocidentais, como manifestações estéticas que apresentam uma importante autoridade de comunicação dentro das sociedades que geram essas dimensões etnográficas, como objetos que possuíam valor de troca, como no caso do Museu Branly que abordou a arte primitiva dos povos sem escrita como uma das mais genuínas expressões artísticas da história, pois a percepção de barbárie vista pelos desbravadores europeus eram tidas como verdades absolutas, dentro do seu contexto histórico e ético, ao passo que tanto a história como a ética e a sociedade, são elementos adaptativos que se convergem, colidem e confrontam-se, enquanto se desenvolvem e após a inauguração do Musée Branly, estas “artes primitivas” foram alçadas ao que elas contém de maior valor, sua autêntica representação da história e da arte não escrita.

O Musée Branly possui grande relevância ao assumir o papel de agente capaz de suscitar reflexões acerca do que vem a ser a “arte primitiva” sob diferentes aspectos que incluem diferentes perspectivas, como a museológica, a etnográfica, a política e a artística, entre outras ciências por onde perpassa e se registra essa “arte primitiva” (GOLDSTEIN, 2008), pois o Musée Branly consegue estimular questionamentos como “Qual a importância de um artefato da antiguidade enquanto objeto e enquanto registro físico e a relevância de sua concepção para a era moderna?”.

Ao observarmos artes não ocidentais, estamos olhando para objetos que atuam como testemunhos etnográficos, como manifestações estéticas, e como mercadorias com valor de troca. Essas são dimensões distintas, mas que se sobrepõem e se relacionam, sendo assim, elas não devem ser esquecidas, é aí que reside um dos debates sobre a abordagem predominantemente estética que o projeto do Museu Branly assume. Antropologia e museu podem continuar a falar sobre o outro, porém não podem falar no lugar do outro, precisa ser uma ação em conjunto com aqueles ao qual eles desejam estudar.


Referencia Bibliografica:


DURAND, Jean-Yves. Este obscuro objecto do desejo etnográfico: o museu. in: Etnográfica, 2 (11). Revista do Centro de Estudos de Antropologia. Lisboa: CEAS / ISCTE. pp 373-385.

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée Branly.Horiz.antropol. [online]. 2008, vol.14, n.29 [cited

2013-08-27], pp. 279-314.

KOK, Glória. A fabricação da alteridade nos museus da América Latina: representações ameríndias e circulação dos objetos etnográficos do século XIX ao XXI. ESTUDOS DE CULTURA MATERIAL/DOSSIÊ. Anais do Museu Paulista. P. 26 .2018.

ABREU, Regina .M.R.M. Tal antropologia qual museu? Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, v S7, p.121-143, 2008

MACKENZIE, JohnM. Museums and empire: natural history, human cultures and colonial identities .Manchester: Manchester University Press, New York: distributed exclusively in the USA by Palgrave Macmillan, 2009, 286 p.

AMES, Michael M. Cannibal tours and glass boxes: the anthropology of museums . Vancouver: UBC Press, 1992.

https://www.scielo.br/j/anaismp/a/bqm45jwxRkHspfFcgYSsxfG/?lang=pt






segunda-feira, 12 de abril de 2021

Museus, Identidade e Poder: o caso do Musée Du Quai Branly e os processos de Repatriação - Tipologia de museus 2020

 

Universidade Federal de Minas Gerais

Escola de Ciência da Informação

Curso: Museologia 

Disciplina: Tipologia de Museus                                       

Docente: Luiz Henrique Assis Garcia

Discentes: Alexsandro Claudio da Silva; Daniel Violante; Lorena Brandão; Marcus Vinicius Dlazzari; Nathália Marques; Thaís Diaz


Musée du Quai Branly: 


O Museu do Quai Branly foi inaugurado em 2006, seu intuito era reunir em um único lugar o Museé de L’Homme e o Museu Nacional de Artes Africanas e da Oceania, na França. A sua exposição de longa duração é dividida em três unidades: América, Ásia, África & Oceania e conta com mais de 300 mil objetos. Ao olhar esses objetos, nota-se uma ligação com o período da França colonialista. 

          Sua concepção se deu, em grande parte, com a influência de duas grandes exposições do século XX: Primitivism in 20th Century Art, realizada no MoMA de Nova Iorque em 1984; e a exposição Magiciens de la Terre, no Centro Pompidou em 1989. Ambas exposições colocavam os objetos coletados de sociedades não-ocidentais na categoria de “artes primitivas”, trazendo aos objetos um ar folclórico, mágico, arcaico e irracional. 

Houve grandes debates de como tratar os objetos africanos, a partir da perspectiva se seriam testemunhos etnográficos ou criações estéticas. A inauguração do Museu do Quai Branly aconteceu em meio a várias tensões. Houve uma grande acusação ao então diretor do museu pela compra ilegal de peças Nigerianas e o início do debate sobre um possível aumento da visibilidade das “artes primitivas” e, consequentemente, sua valorização no mercado de arte mundial.


          Na fundamentação do Branly ainda se carece uma falta de revisão do processo colonial que deu origem a suas coleções e também sobre o caráter “estetizante”. A certeza que se tem é que os museus europeus são repositórios de objetos que foram saqueados durante o processo de colonização, nesse sentido, o Musée du Quai Branly abriga a grande maioria desses objetos. O debate sobre a repatriação tem sido central nesses últimos anos e essencial para revisar essas exposições e pensar qual o papel esses museus têm cumprido e podem cumprir. 


Repatriação: 


           A repatriação de acervos coloniais(*) é uma proposta que vem sido discutida em várias instâncias recentemente, e essa discussão têm se tornado cada dia mais acalorada. Enquanto diversas instituições europeias se utilizam de subterfúgios e discursos pouco convincentes sobre a repatriação, vemos surgir um grande movimento por parte de pesquisadores descendentes de povos colonizados e também de seus países de origem. Um exemplo seriam os restos humanos presentes em diversos museus e coleções privadas por toda a europa - é caro para um povo poder enterrar seus ancestrais dentro de suas crenças, a devolução destes itens certamente causaria impactos inéditos na história humana e em suas várias configurações de civilizações e sociedades. 

           A repatriação desses acervos passa a ser muito mais do que a mera devolução de peças, tratamos aqui também de espécimes e artefatos diversos, é um fato que o inchaço das coleções européias se dão a pilhagens e aquisições injustas. Segundo Leo Frobenius, o colonialismo despejou uma grande quantidade de objetos nos acervos dos museus europeus. Um exemplo são os mais de 25 mil  artefatos da Namíbia, dos Camarões e da Oceania que pertencem ao Museu Linden, em Stuttgart, 91% foram adquiridos entre 1884 e 1920. Entre os principais responsáveis por este grande volume estavam militares, que apesar de leigos a respeito do tema, levavam das colônias o que lhes agradava. 

         A repatriação é prevista em duas resoluções da ONU, onde é dito que “[...] a herança cultural de um povo condiciona o florescimento de seus valores artísticos e seu desenvolvimento em geral”, e que os países que roubaram os bens “[...] e que ainda não o fizeram, a proceder com a restituição das obras de arte, monumentos, peças museais, manuscritos e documentos a seus países de origem, sendo tais restituições calculadas para fortalecer a compreensão e cooperação internacional. [...] E sem encargos [...] visto que constitui apenas a reparação pelos danos causados.”


Devolver a seus países e povos de origem estes acervos é um primeiro passo para uma reparação histórica. As chagas causadas pelo colonialismo são incontáveis, a retomada de seus objetos pelos diversos povos é um movimento fundamental e no mínimo ético, se tratando do campo museal. A retirada destes objetos de seus locais de origem geraram mudanças culturais abruptas, restituí-las é para os povos uma forma de ressignificar suas existências, buscando resgatar o que lhes foi roubado e valorizar as práticas ancestrais.  


Coleção dos objetos roubados pela polícia civil do RJ
Foto: Oscal Liberal lPHAN


Caso esse tema te interesse, você pode ler mais sobre em:

Revista online “Latitude”, publicada pelo Goethe-Institut
Não faça isso por mim sem mim!, sobre participação e cooperação nos museus  
O patrimônio cultural imaterial e a globalização, sobre igualdade e globalização
Da vitrine para o espaço aberto, sobre concepção de museus
Coleções controversas, sobre a pilhagem colonial e os museus
Repensando o legado colonial, sobre a repatriação e seus debates
A herança colonial, sobre pesquisas de procedência
Post Sobre o “plágio” ou não de artistas europeus de obras, no perfil do …, 2019
Post sobre a devolução por parte da Holanda de bens roubados, no perfil museo.deleite, 2021

Referências:
DURAND, Jean-Yves. Este obscuro objecto do desejo etnográfico: o museu. in: Etnográfica, 2 (11). Revista do Centro de Estudos de Antropologia. Lisboa: CEAS / ISCTE. pp 373-385.

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée Branly. Horiz.antropol. [online]. 2008, vol.14, n.29 [cited  2013-08-27], pp. 279-314.

ONU. Resolução 3187 sobre Restituição de trabalhos de arte para países vítimas de

expropriação. Assembleia Geral das Nações Unidas, 1973. Disponível em:

<http://www.unesco.org/culture/laws/pdf/UNGA_resolution3187.pdf> 

Acesso em 10 de Março de 2021

ONU. Resolução 3391 sobre Restituição de trabalhos de arte para países vítimas de

expropriação. Assembleia Geral das Nações Unidas, 1975. Disponível em:

<http://www.unesco.org/culture/laws/pdf/UNGA_resolution3391.pdf> 

Acesso em 10 de Março de 2021

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lista de links na ordem

https://www.goethe.de/prj/lat/pt/spu/21736768.html
https://www.goethe.de/prj/lat/pt/spu/21761229.html
https://www.goethe.de/prj/lat/pt/spu/aus.html
https://www.goethe.de/prj/lat/pt/spu/21652951.html 

https://www.goethe.de/prj/lat/pt/spu/21677593.html 

https://www.goethe.de/prj/lat/pt/spu/21653138.html
https://m.facebook.com/photo.php?fbid=2917651218464452&id=100006588074778&set=pb.100006588074778.-2207520000..&source=42&ref=content_filter
https://www.instagram.com/p/CMZp-xjpBp1/ 

 *Nota do Editor:

Merece menção que o debate sobre repatriação de acervos, intensificado na segunda metade do século XX, incorpora também questões fora do recorte internacional, pois se debate por exemplo as restituições de acervos pertencentes a grupos ditos indígenas em museus do mesmo  território nacional em que estes vivem 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Os processos de escolha, fala e silêncio: Relação de poder entre opressor e oprimido [Tipologia de Museus 2019]

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação – Graduação em Museologia
Disciplina: Função Social dos Museus - Atividade: Trabalho Final
Professor: Luiz Henrique Garcia de Assis

Autores: Bervely Oliveira, Elson Said, Erika Santos, João Pedro Gouvêa

     Os museus do Ocidente têm um passado mais ou menos comum. A maioria deles teve início com o que se denominou “colecionismo”, um agrupamento de objetos com características semelhantes, organizados de diferentes maneiras, por diferentes pessoas, geralmente aquelas que tinham melhores condições econômicas para adquiri- los.

     Acompanhar a trajetória das coleções é um ponto central para a compreensão de como colecionadores apropriaram-se de coisas exóticas, fabulosas, fatos e significados de outros. Logo, pode-se dizer que a preposição estrutural que emerge neste paradigma é, então, a de domínio. Domínio da Natureza, do Passado e do Outro.

     Segundo o ICOM “O museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o patrimônio material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite”.

     Por sua natureza própria o conceito de museu está diretamente atrelado ao universo do conhecimento, pois se não tiverem como referência o mesmo, tratar-se-á de mera doutrinação.

     Os museus expressam determinada percepção do mundo e comunicam mensagens. Portanto, evocam a idéia de um passado que pode exercer ação concreta no presente, com base em uma determinada linguagem. A compreensão em relação ao (re)conhecimento de um país, da sua história, das suas tradições, da sua população, do seu território, do seu patrimônio, das suas crenças e das suas sensibilidades fazem parte de uma concepção simbólica.



     Portanto, os sentidos e valores atribuídos aos objetos sejam eles cognitivos, afetivos, estéticos e/ou pragmáticos não são sentidos e valores das coisas em si, mas da sociedade que os gera, conserva, e detém o monopólio dos veículos de comunicação para sua circulação e consumo. Trazendo implicações sociais como a estetização do social e a transformação da História em espetáculo.

     O universo material em conjunto com toda sua significação simbólica tem a existência marcada pela necessidade de dar conta da apreensão sensorial. Temos desse modo seu valor de uso convertido em valor cognitivo. Ou seja, são mobilizados para afirmação ou reforço de identidades, transmutando-se num ícone cultural, de valor, agora, puramente emblemático (sujeitos a permanente transformação).

     O discurso que constitui o museu é uma representação construída. Dentro disto a memória é um importante fator, pois, é a partir dos testemunhos que as narrativas serão formuladas. Teremos, portanto, discursos específicos para um recorte do real. Há de se ter cuidado então com a criação interpretativa e a manipulação ideológica, tendo em conta que as memórias são atravessadas por sensações e afetos. A cada novo resquício de memória agregam-se novas emoções.




Referências:

BELLAIGUE, Mathilde. Memória, Espaço, Tempo, Poder. MUSEOLOGIA E PATRIMÔNIO - v.2 n.2 - jul/dez de 2009 http://revistamuseologiaepatrimonio.mast.br/index.php/ppgpmus

CLIFFORD, James. Quatro museus da costa norocidental: reflexões de viagem. In: Itinerarios transculturales.Barcelona: Gedisa, 1999.

DURAND, Jean-Yves. Este obscuro objecto do desejo etnográfico: o museu. in: Etnográfica, 2 (11). Revista do Centro de Estudos de Antropologia. Lisboa: CEAS / ISCTE. pp 373-385.

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée Branly.Horiz.antropol. [online]. 2008, vol.14, n.29 [cited 2013-08-27], pp. 279-314.