sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Instável Movimento


 
Subi João Pinheiro e me ocorreu ir ao CCBB ver a exposição Paul Klee - equilíbrio instável. Numa primeira visita, deixando de lado implicâncias com exposições "empacotadas", há qualidades a ressaltar, para além da óbvia relevância da arte de Klee. Gostei dos textos concisos, claros e consistentes, e da perspectiva didática assumida, com uma abordagem eminentemente cronológica que assume sem drama o caráter monográfico. Num bem bolado nicho, alia-se um vídeo bem produzido a alguns textos e uns poucos instrumentos de trabalho para elucidar as técnicas usadas pelo artista, de forma bastante compreensível para quem não lida com pintura ou conhece história da arte. Foge da marmota de reproduzir ateliê ou de usar interações digitais que se convertem em boas distrações lúdicas mas em si não são capazes de revelar a técnica em aplicação, como o vídeo logra razoavelmente bem – mais que isso, só praticando mesmo. Ali, talvez até mais do que no contato direto com as obras – aliás um problema é que várias que surgem nos vídeos, bem impactantes, não se encontram na exposição – revela-se ao olhar menos treinado a forma como um pintor é um investigador e um inventor. A mostra se ressente de ser centrada num único acervo, por mais que o Centro Paul Klee tenha 4 mil obras, das quais ali vemos pouco mais de uma centena. Esse porém se revela sobretudo na decisão que julgo equivocada de incluir a solitária cópia fac-símile de Angelus Novus, como um pedágio pago à expectativa do admirador de Benjamin que já decorou mentalmente aquela famosa tese sobre o “anjo da História”. Uma tremenda “auto-armadilha” dar um destaque todo especial justamente a uma obra que está ali apenas como pálida cópia. Essas exposições empacotadas, ainda que milionárias, muitas vezes não trazem as “joias da coroa” e tentam compensar no volume, muitas vezes com trabalhos preliminares ou redundantes, que podem interessar aos muito especialistas mas dificilmente captam a imaginação do grande público. 

As obras que mais me cativaram foram “Jovem proletário” e “Equilibrista”, esta última porque ressoou O trapezista de Kafka, inspiração de outros carnavais. Destaco justo aí as seções Fantoches e O mundo como palco, que trazem trabalhos que remetem figurativamente ao núcleo conceitual da exposição, com acrobatas, marionetes, palhaços e outros personagens que dizem da instabilidade e dos altos e baixos da vida de artista. Muito revelador aí o pequeno trecho de entrevista de seu filho Felix e outro vídeo contíguo que mostra uma das encenações dele com fantoches que ironiza o tempo de Klee na Bauhaus, tendo sido muitas vezes o pai e seu gato a sua única plateia. Uma última consideração cabe ante a insistência dessas curadorias empacotadas com o percurso linear. Nesta em especial será particularmente difícil voltar de trás pra diante, criando situações chatas junto a guardas de galeria, que não tem culpa do treinamento que recebem.
  
 
Depois, ainda deu tempo de uma corrida à Casa Fiat de Cultura para ver “Beleza em Movimento”, outra onda, exposição de design, especialmente de carros. Vou me permitir aqui sintetizar que curiosamente a sensação predominante foi de nostalgia, e nem tanto pelo inescapável DeLorean de De volta para o futuro (conto do nosso passado nos primórdios da globalização) mas por outros carros que me deram a nítida sensação de estar dentro do meu Supertrunfo de carros, em que inclusive muitos automóveis de salão, apresentados ali como “do futuro”, agora são exibidos como testemunhos do design do pretérito. Ainda deu tempo de encontrar uma querida colega de trabalho de meus primeiros tempos de prefeitura. Nesse ramo aqui, quando não vamos de encontro ao passado, é ele que vem em nossa direção.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A volta ao mundo em 80 museus: Museu Picasso e Museu D'Orsay

Nova edição da série, com o convidado Túlio Ceci Villaça, meu caro amigo e autor/editor do excelente blog Sobre a canção, profissional de comunicação, músico, crítico cultural de gabarito com o qual já tive a satisfação de colaborar com linhas para a Revista Terceira Margem no artigo O pós-futuro do pós-brasil / notas a “o pós-futuro do pós-brasil”.  

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Em que medida conhecer os museus de uma cidade é conhecer a cidade, ou o país? Vim conhecer Londres e Paris ou seus museus? Flanar é sem dúvida a melhor maneira de conhecer Paris, e estar hospedado no banlieu (até amanhã, quando mudamos para mais para o Centro para os últimos dias) tem sido uma chave para o entendimento da cidade. Mas sim, conhecer museus também é conhecer lugares. Museus dialogam com suas cidades, não só com suas histórias, mas também com seus valores.


Fui ao Museu Picasso (A) e ao d'Orsay (B), este principalmente com a coleção impressionista, que é - impossível evitar - impressionante. Mas Picasso também é, talvez ainda mais por ser um só. Incrível como sua produção tão caudalosa não se dilui, como seu traço mesmo tão variado tem assinatura, e nunca se converte de assinatura a caricatura de si mesmo, como nada parece gratuito mesmo quando a liberdade é extrema. Que traço! Que capacidade criativa! Ele pintou telhas, pratos, pedras, fez esculturas usando carrinhos de brinquedo, usa a chuva como pretexto para dividir a imagem da cidade. É como se não bastasse, o Museu faz exposições temporárias de outros artistas relacionando suas obras com a do Picasso, e o da vez era o Alexander Calder! Sensacional. Botei dois vídeos no Integram, vejam porque vale a pena.



E o d'Orsay. Morei na Rua Rodin, num conjunto habitacional só de ruas com nome de impressionistas. E hoje a turma estava toda lá: Monet, Corot, Sisley, Vlaminck, Van Gogh, Gauguin e, claro, a Praça Manet, aquela da festa junina famosa. E outro raio de aula inesquecível. Ver quatro catedrais de Rouen lado a lado com suas variações de luz (aqui em fotos furrecas, preço desculpas, mas eu é que não vou botar filtro em impressionistas, eles inventaram os filtros) ver as bailarinas de Degas (outra Rua do IAPC), ver as luzes do Taiti e comparar com as de Arles, tudo isso é uma aula, não vejo outra palavra. E ver o Dejeuner sur l'herbe do Manet num Museu e sua releitura pelo Picasso no outro, ai é pós-graduação.
























Ora, claro que museus dialogam com a cidade, são a cidade, e é possível inclusive flanar neles. O impressionismo é Paris, Paris está impressa naquelas telas, assim como Debret é Di Cavalcanti são o Rio ou o holandês Franz Post é Recife, assim como o Museu Nacional é o Rio (não registrei, mas usei a camisa do Museu ontem). Lamentável é não conhecermos bem nossos próprios, porque eles são nós, assim como os de Paris são ela. A diferença entre nós e eles não está tanto na qualidade das obras e acervos. A, diferença é talvez que os franceses sabem disso.


Por Túlio Villaça, agosto de 2019. 


Imagens (fotos do autor, da esq. para dir., de cima para baixo):
1. Picasso, Boisgeloup sous la pluie;
2. Picasso, Le guenon e son petit;
3. e 4. Monet, Catedral de Rouen;
5. Monet, La rue Montorgueil, fête du 30 juin1878
6. Degas, Le foyer de la dance à l"Opéra de la rue Le Peletier
7. Manet, Le deujener sur l'herbe
8. Picasso, Le deujener sur l'herbe d"aprés Monet



 

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Museus em alta

Acompanhei a matéria na tv mais cedo, deste mesmo órgão de mídiaO aumento do público em si é fato relevante e suscita bons debates. Mas cabe ir um pouco além dos números. Tem hora que eu gostaria que o WB estivesse errado, mas "Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie"(a quem quiser se aprofundar, indico esse texto curto de Jeanne Marie Gagnebin).
Convido à reflexão, e a título de incentivo, vamos fazer uma enquete depois e o melhor comentário ganhará créditos bárbaros com o professor. Prometo considerar a opinião do público rsrs. 




sexta-feira, 24 de maio de 2019

Série Patrimônio e Música (1) Música sob a perspectiva da cultura material

Música sob a perspectiva da cultura material: de Bob Dylan ao Clube da Esquina


Por Augusto Fidencio, bolsista IC FAPEMIG

A cultura material se refere à nossa forma de lidar culturalmente com o mundo físico que nos cerca. Quando falamos em cultura material, imagina-se estarmos nos referindo a objetos, coleções, enfim, a “coisas”, mas como apontarei nos exemplos a seguir, e já foi percebido por pensadoras como Susan Pearce, tal conceito vai além disso.

Nossa relação com a música é um exemplo de que a imaterialidade é indissociável da cultura material. Em 1963, Bob Dylan se apresentou no Newport Folk Fest com apenas sua voz, um violão e uma harmônica (gaita de boca). Este foi um show muito importante em sua carreira, e o público o reconheceu como representante da ressurreição do folk americano. No festival de 1965, Bob decidiu algo diferente, e subiu no palco com uma guitarra elétrica modelo Stratocaster Sunburst, da Fender. Houve um retorno negativo imediato. Alguns diziam ter Dylan se vendido ao som mais popular na época, o crescente rock’n’roll, enquanto outros que o som da guitarra elétrica era desagradável. Houve o sentimento coletivo que o ídolo havia virado as costas ao seu público.




A mesma coisa aconteceu com os mineiros do Clube da Esquina. Milton Nascimento, já conhecido por suas interpretações de estilos regionais e populares, foi questionado quando os primeiros trabalhos junto com Lô Borges e Beto Guedes (e outros) chegaram aos palcos e às lojas*. Os músicos do Clube da Esquina começaram suas atividades também na década de 1960, e quando o álbum Clube da Esquina veio à tona em 1972, haviam influências diversas de jazz, rock, MPB, psicodélico, e era marcante a presença de instrumentos elétricos.

Como é possível pensar em nossa relação com a música sem ter em mente o impacto que a mudança de instrumentos tem nos fãs? A mudança de instrumentos trouxe o medo de uma mudança na identidade dos artistas. Os objetos servem como o intermédio do homem com a realidade, mas também consigo mesmo, com seus valores e maneiras de dar sentido à experiência.


* O primeiro trabalho em que isto se evidencia é o LP Milton, de 1970 [ouça] [Nota do Editor, LHAG]

sábado, 18 de maio de 2019

Todo dia é dia dos museus

Vai chegando ao fim uma semana particularmente movimentada, de trabalho, mobilização, realizações, ensejada pela Semana Nacional dos Museus, o Dia Internacional dos Museus e, inevitavelmente, pela conjuntura política brasileira.
Realizamos o Colóquio Internacional Patrimônio em Foco - Metodologias Participativas: dimensão social dos museus e do patrimônio cultural, através do grupo de pesquisa ESTOPIM. Depois, com calma, espero fazer uma postagem exclusiva sobre o evento. 
Rolou no dia 15 uma belíssima manifestação em defesa da Educação, uma das mais fortes em que já estive. Grande alento ver as pessoas se mobilizando novamente, em torno dos seus direitos e dos valores democráticos. 
Para mim tudo isso representou uma injeção de ânimo, num tempo em que ele anda faltando. Há projetos a seguir, e outros a começar, mesmo com as dificuldades que se apresentam. Isso também inclui o blog Metamuseu. Novidades virão. 
Mas tanto trabalho também nos faz eleger prioridades. Este ano deixei de mandar texto para o volume comemorativo da Revista Museu. Sendo assim, resolvi dar uma revisitada nos que enviei anteriormente, considerando válido reeditar o convite para que sejam lidos. Todos, aliás, vão muito bem de acessos, o que dá sensação de retribuição pelo tempo que consumiram. 

2016
A paisagem no museu, o museu na paisagem

"De imediato a escolha do tema “Museus e Paisagens Culturais” provoca diferentes possibilidades de reflexão, a partir do que está colocado como relação. Pensando no que escrever, acabei optando por tratar de alguma maneira da própria relação, da forma como se pode pensá-la historicamente. A pergunta que me move, portanto, tem dois lados, ou dois pontos de visada: de um lado interrogo como a paisagem entra no museu, e de outro como o museu entra na paisagem. Mas se quisesse poderia reformulá-la pela síntese: como museus e paisagens são mutuamente permeáveis."[+ na página]

2017
Há controvérsias: museus no tempo da pós-verdade e da aquém-história

"O espaço que oferece a Revista Museu é salutar para que possamos articular a docência e a pesquisa, o estudo de longo prazo e o comentário de conjuntura. É muito importante que um campo de conhecimento como a museologia possa também desenvolver o hábito de interferir nas arenas em que o debate se colocar, não só na academia, mas na sociedade de modo geral. O tema da 15ª Semana de Museus, Museus e Histórias controversas: dizer o indizível em museus mostra-se muito afinado com o tempo em que estamos e demonstra a disposição para romper silêncios e reconhecer esquecimentos, um exercício de crítica e autocrítica indispensável ao amadurecimento do nosso fazer. O questionamento e o dissenso são, indubitavelmente, o oxigênio da democracia. Os museus também não podem respirar bem sem eles." [ + na página; P.S.: esse me rendeu até uma réplica do jornalista, tão ruim que não me dei ao trabalho de treplicar] 

2018
Públicos, museus e o espaço da cidade: intensificando conexões 

Neste Dia Internacional dos Museus o ICOM propôs o tema “Museus hiperconectados: Novas abordagens, novos públicos”. Fiquei particularmente movido pela atenção guardada no texto da proposição em não resumir as conexões ao elemento digital. [...] Num dos tremendos paradoxos que constituem o mundo ‘hiper’ em que vivemos, as ferramentas que permitem comunicação instantânea e contatos imediatos, estão longe de garantir a densidade das conexões no plano da sociabilidade e da cultura. [...] Penso, resumidamente, que nem velocidade nem quantidade dão a melhor medida do que seria uma hiperconexão. Pode ser mais proveitoso considerar a densidade dessa conexão, sua multilateralidade, sua fertilidade, sua relevância para aqueles que dela participam, dentre outros critérios que poderiam ser elencados.  [+ na página]

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As datas comemorativas cumprem o papel de dar destaque àquilo que celebram. Mas, por contraste, deixam a ver que às vezes, sobre o mesmo objeto de atenção, paira, por longos períodos, uma notável falta de interesse. De repente são tantas atividades simultâneas para as quais nem sempre é possível se desdobrar. A imprensa, por exemplo, costuma se mover freneticamente em torno dessas datas e fora delas não dar praticamente nenhuma notícia ou destaque para museus, exposições e atividades da área. Silêncio que via de regra se rompe quando ocorrem fatos graves, como incêndios, roubos, e outros problemas. Me impressionou, neste sentido, essa questionável matéria de O Globo Mais da metade dos brasileiros acha os museus monótonos. Artistas e curadores dão ideias para 'espanar o pó' das instituições, um festival de senso comum opiniões pouco embasadas e enviesadas de gente que nem pesquisador da área é, e privilegiando o espaço a entes privados e animadores culturais.Quando picaretas como Marcelo Dantas e Gringo Cardia viram referência, aí quer o quê? Também truco a pesquisa e as conclusões, para não falar de seu realizador, Oi Futuro. Vamos ver os resultados e os métodos direito, mas seria importante passar a debater esse tipo de coisa que sai na imprensa, sempre sazonalmente e condicionado por ocasião. Enquanto remexemos as cinzas do Museu Nacional, me parece um despropósito ficar dando guarida a iniciativas de custo astronômico e concepção questionável como o Museu do Amanhã.
Por isso mesmo renovo minha disposição em manter esse blog, e começarei em breve uma iniciativa para ampliar o espaço para noticiar e debater o cenário museológico através da coluna "Em dia com a museologia", de forma diametralmente oposta à que adota esse tipo de noticiário. Já deixo aberto o convite a quem quiser se integrar a esta iniciativa. 



sábado, 13 de abril de 2019

O Construtivo Poder Desconstruidor da Arte- Tipologia de museus 2018


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA
TIPOLOGIA DE MUSEUS
Prof. LUIZ HENRIQUE GARCIA

[ Grupo 5]

O Construtivo Poder Desconstruidor da Arte

 
O leitor de The Rape of Europe (Europa Saqueada), de Lynn H. Nicholas, percebe o trabalho sistemático do Reich para perseguir artistas, destruir obras, invisibilizar estilos e estabelecer outros. A arte que não estava de acordo com o ideal nazista era chamada de degenerada, silenciada e substituída pela que era considerada arte pura.
No mesmo século, mas anos e quilômetros distantes, a tropicália se erguia no Brasil como um confronto ao totalitarismo do período militar. A intenção: dialogar o que é tradicionalmente brasileiro com uma vanguarda artística estrangeira, usando jogos de palavras, cores, artes plásticas, influências de outros estilos, e, principalmente, música. Como descrever a aventura auditiva de um álbum como Panis Et Circencis?

Hitler sabia o poder da arte para construir a realidade, assim como Caetano Veloso e Gilberto Gil sabiam de seu poder subversor.
O que aconteceu nos exemplos acima são processos simbólicos visando resultados políticos, sociais. Construir e fortalecer, ou e destruir e substituir "paisagens mentais" através da arte.




















De Napoleão pintado em pose imponente sobre seu cavalo por Jacques-Louis David em "O primeiro-cônsul Napoleão cruzando os alpes" a Till Lindemann no palco vestido de açougueiro, coberto de sangue cenográfico e com um microfone em formato de faca a idéia é a mesma:
construir uma imagem mental que transcende ao real, e estabelecê-la sobre a realidade.  


Entendemos isso quando lembramos que Pierre Bourdieu se refere ao poder simbólico como "Estruturado" e "Estruturante".

>Estruturado porque as duas figuras citadas, o líder político francês e o vocalista alemão criaram imagens que fazem parte de um imaginário crível, palatável. Uma roupa suntuosa e um cavalo poderoso, sangue e avental de açougueiro, são símbolos que as pessoas conhecem e reconhecem o significado. 
>Estruturante porque a partir de símbolos conhecidos é criada uma nova realidade, que se impõe sobre outra colocando características incríveis ou inesperadas no que era meramente mundano.
Vemos essas idéias subjacentes em detalhes ora mais sutis, ora mais visíveis, e hoje sabemos reconhecer. O diretor Michael Bay é criticado justamente por seu uso excessivo de jogos de câmera épicos e seu característico "Hero Shot" (onde uma câmera em movimento circular capta o protagonista de baixo para cima, dando idéia de grandeza e magnitude).
Hoje estamos atentos ao poder da arte em moldar idéias, que certamente ele não se reduz ao entretenimento. Assim como no caso da Tropicália, no exemplo a seguir temos um uso voltado ao empoderamento e emancipação.  
Não é impressionante que Paris, antro clássico de arte tradicional realize uma competição de arte urbana? Pois o bem recebido Urban Art Fair tem tido edições anuais na França, trazendo artistas de várias categorias para uma apresentação e competição baseada na iconografia das ruas.

Fubiz Media, Galerie Bartoux.

Ora, como tudo isso se comunica? A arte, em algum momento, teve seu poder sobre o imaginário coletivo entendido, amplamente utilizado, e a partir do século XX esse poder foi reconhecido institucionalmente. Museus têm a vocação de garantir acesso e preservação da história, assim como desenvolvimento social.   
Ainda que haja um longo caminho pela frente, hoje sabemos o poder emancipador de um museu ter hip-hop em seu auditório, ou Grafite em seu acervo. Sabemos o poder vocal de  uma cidade como Paris exibir artes urbanas como tão relevantes quanto as de artistas tradicionais.
Concluindo: o poder construtivo da arte é uma ferramenta para a perpetuação e manutenção da distinção social, mas, igualmente, sua capacidade destrutiva é uma alternativa, e muitas vezes a única, de subversão contra uma realidade impositiva. 

The Rape of Europa, Lynn H. Nicholas.

O Poder Simbólico, Pierre Bourdieu.


  

O OUTRO É O NOVO E O DIFERENTE DE MIM: A RELAÇÃO ENTRE MUSEUS E A ALTERIDADE DOS CONTATOS - Tipologia de museus 2018

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
GRADUAÇÃO EM MUSEOLOGIA
TIPOLOGIA DE MUSEUS
LUIZ HENRIQUE GARCIA
DANIEL BATISTA, ELISON SILVA E LUCAS THIAGO

O OUTRO É O NOVO E O DIFERENTE DE MIM: A RELAÇÃO ENTRE MUSEUS E A
ALTERIDADE DOS CONTATOS

Inicio esse texto com um empenho de mensurar contatos culturais a partir da definição de
“contato” que, segundo o dicionário Priberam, se compõe por contiguidade, convívio,
comunicação, influência e proximidade. A conexão estabelecida por esses elementos
semânticos na composição de “contato” revela a complexa teia que as relações humanas
desenvolvem desde há muito, ainda antes da revolução agrícola, ocorrida há cerca de dez
mil anos. O contato entre diferentes grupos humanos ainda faz emergir as distinções, o
intento em dominar a técnica, o conhecimento, os valores e os sujeitos sociais, e o
estabelecimento de códigos de linguagem, crenças e outros elementos culturais comuns
dentre eles.

James Clifford (1999), ao escrever sobre os contatos de viagens em “Itinerarios
Transculturales” se depara com a complexidade que envolvem as identidades e suas
relações dentro e fora do seu contexto sociocultural. Isso porque identidade se mostra um
bem da relação que o ser constrói com o meio ambiente e consigo mesmo. É por meio da
comunicação sensível-interpretativa que os sujeitos interpretam, conhecem, categorizam e
classificam as suas experiências em um processo cognitivo e de ação. Também o é por via
da sua ação sobre o lugar e os seus semelhantes que as experiências se tornam memórias
individuais e coletivas, formando um movimento de internalização e externalização das
experiências e compreensão da realidade articulada entre eles em dado espaço e qualidade
dos seus contatos.

Poderíamos dizer que ao longo da história das sociedades humanas, as relações de poder
teriam como objetivo tornar homogêneo os signos, a cultura e a compreensão da realidade
de um indivíduo, subtraindo a subjetividade das experiências e a percepção do ser
enquanto indivíduo ao se valorizar a comunidade, os elementos resultados das experiências
coletivas naquele espaço, ainda inseridos nos limites das distinções entre os corpos que
compõem aquela sociedade como idade, gênero, etnia e as necessidades especiais de
cada corpo.

Para a filosofia, os contatos entre diferentes corpos formam uma estrutura de afetos, a qual
se relacionam de acordo com as categorias de distinção construídas por eles para
diferenciar os papéis sociais e qualidades dos sujeitos que compõem o grupo. Ao se
afetarem por meio das distinções das identidades, esses indivíduos criam a ética, advinda
da compreensão das implicações das ações sobre o outro e o ambiente que interagem
(SPINOZA, 2013). Dessa forma, o compartilhamento experiências coletivas e individuais -
orientadas pela ética - elegeriam memórias coletivas que caracterizariam a identidade para
a manutenção de uma tradição a ser mantida, pois ela conferiria a coerência social e o
sentimento de pertencimento aos sujeitos.

A complexidade dos contatos analisados por Clifford (1999) se daria pelo trânsito das
identidades em um mundo interconectado pela isonomia de alguns elementos culturais e a
tecnologia a permitir trocas de conhecimentos e experiências entre culturas evidenciando os
contrastes de maneira a desenvolver desigualdades entre elas. A migração seria um
exemplo do que esse contato causaria sobre os indivíduos expatriados ou viajantes: quem
se desloca do seu lugar para outro leva como referência a sua cultura, suas memórias,
experiências de uma vida que lhe incorporam e o torna quem ele é comprimido em seu
nome, em seu corpo para um outro contexto sociocultural, um lugar onde as referências são
outras, onde ele seria parte de uma minoria com pouca ou nenhuma expressão naquela
esfera social, um corpo a se adaptar àquela estrutura sociopolítica que orienta a construção
identitária de quem ali habita. Esse contato proporciona ao estrangeiro estranhamentos, a
amplitude das diferenças identitárias e dos fatores de distinção entre ele e os demais. À
medida que o contato se daria, seria possível dizer que o estrangeiro sofreria uma certa
contaminação daquela cultura, uma dosagem necessária para lidar com a burocracia e
estabelecer relações de acordo com a ética daquela sociedade. À transculturalidade haveria
um limite de transmissão de elementos culturais visto que o sujeito manteria consigo
elementos de sua cultura nativa, vivenciada e experimentada ao longo da sua vivência
naquele lugar. Algo que, para Clifford (1999), seria intrigante, pois os estudos sobre
interculturação e transculturalidade apontam para uma transmissão em que se consideraria
a adaptação dos sujeitos ao novo contexto político-sócio-cultural, também tendo como
obstáculo o desenvolvimento do pertencimento à uma cultura não praticada nesse novo
lugar. Quais seriam, portanto, as influências que manteriam os indivíduos conectados à sua
cultura nativa ou ancestral na contemporaneidade?

Nas sociedades complexas, as construções identitárias sofrem influência da globalização na
medida que se percebem inseridas em uma estrutura em que os câmbios atualizam a sua
cultura, principalmente pela dinâmica de mercado. Trata-se de sociedades que se projetam
para o futuro em prol do progresso, rompendo com a manutenção das tradições na medida
em que inserem novas técnicas e tecnologias no circuito social, aumentando a rotatividade
dos elementos culturais e seus objetos, reduzindo o tempo para a obsolescência das
tecnologias e das modas, tornando-os pertencentes de um passado demasiado distantes da
prática quotidiana. Nelas, o passado se mostra presente enquanto referência estética,
assumindo a plasticidade da canonização dos seus elementos e da criação de lugares de
memória, que para Nora (1994) seria a ruptura com o equilíbrio para lidar com a ascensão
da “consciência de si sob o signo do terminado”. Se a memória pode ser entendida como
resultado da experiência, nessas sociedades em que a temporalidade é fragmentada entre
passado, presente e futuro, na qual o passado seria algo distante da realidade, uma
nostalgia presente nos relatos de experiências ou na estética das coisas, e dele o futuro
emerge como uma construção contínua de um projeto social, e o presente se desponta
como um tempo em que os indivíduos se relacionam com as suas memórias e as projeções
de um futuro essas sociedades, portanto, se organizam sob dois afetos centrais de
temporalidade, a esperança e o medo: a esperança de um futuro melhor e o medo do que
esse futuro poderá se tornar, ou seja, um tempo das incertezas permeado pelo desamparo
(SAFATLE, 2016). A criação dos lugares de memória se tornaria uma contrapartida às
incertezas temporais e de identidade das sociedades complexas. Segundo Nora (1994), ao
se perder os meios de reviver a memória elas concebem esses lugares para reverenciarem
uma memória esfacelada.

Esses lugares se tornam, portanto um espaço de publicização de evidência material da
existência humana, compreendendo as singularidades das relações entre humanos e o
meio ambiente que interagem. Dessa forma, despontando, talvez, como um movimento
paralelo ou de resistência à homogenia da identidade nacional. Um movimento de
resistência das subjetividades por direitos e igualdade por compreenderem seus corpos
enquanto políticos, indivíduos estruturantes da complexidade social, articulam-se
conscientes de que as políticas e éticas que lhes afetam têm como gatilho os seus lugares
sociais e geográficos. Esse movimento contemporâneo de valorização da subjetividade
retorna faz emergir um passado pela valorização da ancestralidade, de uma identidade a
ser apropriada pelo Estado para a manutenção da sua legitimidade e atualização da
identidade nacional.



Museu do Homem , França.

A musealização dos elementos da cultura material remonta à toda a construção do sujeito
social nessas sociedades. E os museus enquanto lugares de legitimação de uma cultura,
conferem importância aos objetos musealizados os tomando como signos da identidade dos
grupos e os fatos sociais que afetam as subjetividades. Se os museus públicos, portanto,
surgem no século XIX como cenário da história, ao salvaguardar o patrimônio nacional, no
século XXI as lutas das subjetividades por direitos atualizam esse fenômeno, tornando-o
meio de comunicação das suas relações na estrutura social em uma ação de
descentralização do poder sobre as suas memórias - outrora detido pelo Estado e uma elite
intelectual e econômica.

Michael Ames (1992) questiona a quem pertence o direito sobre os objetos de uma cultura,
ao iniciar uma discussão sobre espólios e o direito que alguns grupos e sociedades
demonstram possuir ao incluírem nos museus elementos da cultura material de outros
grupos e sociedades, narrando-o de acordo com as suas construções sociais sobre
realidade, ética e seus valores. Esses contatos estabelecidos pela alteridade destitui o outro
sobre si, ao interpretá-lo de acordo com um background composto por experiências e
construções sociais vividos por uma coletividade diferente da representada. Essa
destituição ocorreria pela compreensão de ambos sobre suas identidade, afirmadas para si
próprios e que agora as afirma para o outro que o destitui de suas convicções sobre si,
apresentando-se enquanto singular e detentor de uma verdade que seria total e totalizante,
provocando ao outro questionamentos sobre os seus atributos. Esse contato estabelece,
portanto, distinções entre ambos e uma hierarquia entre ambos, uma superioridade
legitimada pela força seguida pelos esforços da aculturação do grupo dominado (SAFATLE,
2016). Essa relação de imperialismo cultural pode ser percebida na reflexão de Ilana Goldstein
(2008) sobre a criação do Museu do Homem na França nos anos 1920, e mais tarde
atualizada na construção do Musée du Quai Branly. Ela analisa a aproximação da arte e
antropologia em um período em que povos indígenas das Américas, África e aborígenes
australianos eram percebidos como exóticos, resultado da crença cristã de heresia desses
povos, e mais tarde, no século XVIII, atualizada pela ciência estruturalista que definia esses
povos como incapazes de desenvolverem as suas culturas pelo que se considerava
“déficits” cognoscitivos, dentre outras formas de pejorativização dessas populações e suas
culturas.

Estudos baseados no estudo “ Origin of Species ” de Charles Darwin (1859), impulsionou
vários estudos baseados na evolução das culturas humanas baseadas na evolução da
cultura material e anatomia dos corpos de povos ameríndios, negros e algumas populações
da Ásia, bem como novas expedições colonialistas tendo a evolução como pretexto.
Foi influenciada sob esse contexto que a arte e a antropologia encontraram a sua
renovação no século XX. A arte se afirmava moderna e modernista ao se apropriar das
técnicas e estética indígenas ameríndias e africanas, enquanto a antropologia desenvolvia
estudos que criticavam a abordagem evolucionista das culturas difundidas nos séculos
anteriores, inseria nas coleções de museus objetos etnográficos e os expunha orientados
por uma narrativa eurocentrada. A arte moderna na Europa foi marcada por artistas que
pretendiam legitimar uma vanguarda reconhecendo a genialidade dos artistas africanos,
asiáticos e a estética ameríndia em um ato de justaposição a eles marcado pelo intento de
renovação canônica, em que a arte e o artista do outro continente seria compositor do plano
de fundo da sua projeção e da renovação artístico-cultural europeia. Enquanto os objetos europeus ganharam em suas legendas o título de obra de arte as africanas e ameríndias foram descritas como objetos etnográficos e sua produção artística como “arte primitiva”, estabelecendo uma hierarquia entre as culturas, destituindo-as dos atributos que a constitui e a legitima uma singularidade que não caberia entre ambas a hierarquia e a exotização dos seus corpos e elementos culturais.

Outro exemplo que suscita a espetacularização do outro se encontra na canção escrita por
Gilberto Gil e Caetano Veloso, cantada por Rita Lee e os d’Os Mutantes em que fazem uma
alegoria à política Romana para manter a população fiel à ordem estabelecida por seus
líderes a fim de conquistarem seu apoio.

“Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer”
(Veloso/Gil, gravado por Os Mutantes. Panis et Circensis , 1968. Grifo nosso)

“Panis et Circensis” teve origem na Sátira X do humorista e poeta da Roma Antiga Juvenal.
Alegava-se que bastava satisfazer a população com o entretenimento (dos Coliseus) e com
a alimentação para que seguissem totalmente ignorantes perante à política “Pão e Circo”.
Sua sátira, apesar de bastante antiga, é retrato de outros períodos históricos. Pensar em
museus, identidade e poder é igualmente pensar sobre a exploração colonialista durante o
período das grandes navegações europeia e na neocolonialização dos séculos XX e XXI.
Durante as explorações predatórias do desbravamento das Américas, África e Oceania, se
depararam não somente com os povos indígenas destes locais mas com a fauna, flora e os
sítios arqueológicos de civilizações antigas - como os antigos Templos Maoris ou
majestosas construções dos povos Mayas - que denotaram a ambição do povo europeu de
se apropriar de bens para consolidar a soberania de suas nações sobre o território e
aquelas culturas.

John M. Mackenzie, (2011) afirma que os os museus durante o período colonial,
interessavam-se da expressão ocidental convictiva da racionalidade, em contrapartida dos
gabinetes de curiosidades que continham o que se era desconhecido e repleto de
incógnitas, estimulando-os à percepção exótica dos objetos. Este ponto de divergência
entre museus e gabinetes de curiosidades se dá pela reunião de objetos curiosos e, até
mesmo, atribuindo-se o misticismo sobre eles nos gabinetes, enquanto nos museus,
exibiam e comunicavam o que era tangível e conhecido pela ciência estruturalista.
Este Pão e Circo que citei anteriormente se dá pela busca incansável do imperialismo de
capturar elementos materiais de outras culturas e reuní-los em um único lugar para
exposição como ocorrido em 1851 na grande Exibição do Palácio de Cristal com o intuito de demonstrar a globalização científica europeia. Paralelamente, enquanto nos territórios
colonizados os museus demonstravam o progresso (do ponto de vista europeu) exibiam um
espetáculo para suprimir os possíveis “gaps ” entre o progresso das metrópoles e colônias.
Tais “gaps” podem ser atribuído aos ideais iluministas que se afloraram no século XVIII, que
defendiam a razão, o homem como sujeito único e livre que age em prol do
desenvolvimento tecnológico e científico por intermédio do conhecimento sobre si e do
mundo. Os museus, portanto, tinham, no século XIX um caráter civilizatório; utilizavam do
conhecimento científico com o intuito de exporem o desenvolvimento através da
espetacularização, como forma de promoção das metrópoles e seus líderes.


A canção “Panis et Circensis” interpretada por Rita Lee e Os Mutantes em 1968 - que deu
origem ao tropicalismo brasileiro - faz tal alegoria do passado distante dos períodos
greco-romanos a fim de se manter a ordem social e a coerência identitária nas colônias que
tinham os museus como meio de comunicação para a promoção do progresso da metrópole
e da colônia, tendo a ciência e a educação como artifícios para a manutenção do sistema
político e a identidade dos conterrâneos.

Assim, os espetáculos dos museus aconteciam quando se promoviam grandes exposições
a fim de derrubar fronteiras de espaço e tempo que evidenciavam o gap entre o progresso
das colônias e das metrópoles, e tinham o intuito de demonstrar que tal progresso era
global e globalizante, ao passo que reforçavam a soberania das metrópoles sobre as
colônias.


REFERÊNCIAS
 
AMES, Michael M. Cannibal tours and glass boxes: the anthropology of museums .
Vancouver: UBC Press, 1992.

CLIFFORD, James . Quatro museus da costa norocidental: reflexões de viagem. In:
Itinerarios transculturales. Barcelona: Gedisa, 1999.

DIAS, Anderson. Política do Pão e Circo. Disponível em:
http://www.parafrasear.net/2007/11/poltica-do-po-e-circo.html. - (Acesso em 21/11/2018 às
18h33m)

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée
Branly. Horiz.antropol. [online]. 2008, vol.14, n.29 [cited 2013-08-27], pp. 279-314.

MACKENZIE, John M. Museums and empire: natural history, human cultures and colonial
identities .Manchester: Manchester University Press, New York: distributed exclusively in the
USA by Palgrave Macmillan, 2009.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.
Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.