sábado, 26 de agosto de 2017

A loucura da ditadura [Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus 2017]


UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIENCIA DA INFORMAÇÃO
CURSO DE MUSEOLOGIA

DISCIPLINA
METODOLOGIA DA PESQUISA HISTÓRICA EM MUSEUS

PROFESSOR
- Luiz Henrique Assis Garcia -

AUTORES 
AMANDA MARZANO - BRUNO DINIZ – PAULINE SILVA
LUÍSA LOURENÇO – BIANCA RIBEIRO
“O Uso dos Hospitais Psiquiátricos como aparelho repressor do Estado durante a Ditadura Militar.”


Fazendo uso da tradicional história acontecimental e narrativa, contextualizaremos a sombria realidade psiquiátrica brasileira, em um período de tempo que “coincide” com a vigência da Ditadura Militar no país. Vamos realizar uma elucidação a cerca da relação da Ditadura Militar Brasileira e as Instituições Manicomiais, lugares de exclusão social, isolamento e degradação humana, que tinham em seu regime interno o “comprometimento em manter a ordem social”. 

Entretanto, pouco se discute sobre como o regime de exceção não apenas foi conivente com horrores cometidos nesse período da História do Brasil, que ficou conhecido como Holocausto Brasileiro, mais do que isso, fez uso da deplorável situação dos hospitais psiquiátricos em prol dos seus objetivos. 

Dando foco aos presos políticos mais conhecidos e suas histórias, citaremos alguns casos e suas experiências. Como objeto de estudo também, nossa pesquisa pretende fazer com que o púbico tome conhecimento da relação entre os hospícios e os presos políticos, pois esse assunto ainda é tratado de forma superficial. 

Nossa pesquisa visa dar atenção ao fato de que INÚMEROS PRESOS POLÍTICOS NO BRASIL FORAM ENVIADOS PARA OS ANTIGOS MANICÔMIOS, MESMO SEM DIAGNÓSTICO ALGUM DE DOENÇAS MENTAIS, justamente pelo fato de que nestas instituições as pessoas eram literalmente trancafiadas e esquecidas, perdendo seu lugar na sociedade, além de muitas vezes serem verdadeiras cobaias de tratamentos com remédios, choques e cirurgias. 

Esse recurso de afastar opositores políticos através de sua internação compulsória foi muito utilizado pela Ditadura Militar de acordo com o que pudemos verificar em nossas leituras preliminares, como por exemplo: na Casa de Saúde Doutor Eiras que ficou conhecida como Paracambi, uma prisão política disfarçada de hospital. Um “armazém” em Paracambi, a 90 quilômetros do Rio de Janeiro, onde se confinavam pacientes mentais de todo o País. Assim era a Casa de Saúde Doutor Eiras [imagem 2], o maior manicômio privado da América Latina, na memória do psiquiatra Ricardo Vaz, funcionário da instituição. Homens e mulheres sedados com medicamentos passavam o dia amarrados a argolas de ferro. Era a versão fluminense dos campos de concentração psiquiátricos da repressão, entre os quais se destacavam os hospitais do Juquery [imagem 4], em São Paulo e o Colônia, de Barbacena [imagem 3]. 


No artigo “A história desvelada no Juquery: assistência psiquiátrica intramuros na ditadura cívico-militar”, Sakaguchi e Marcolan realizaram entrevistas com ex-funcionários do chamado Hospício do Juquery, fundado em 1898 no município de Franco da Rocha, São Paulo. 

Para eles, a política vigente entre 1964 e 1985 conferiu legitimidade à exclusão dos indivíduos ou setores sociais não totalmente enquadráveis nos dispositivos penais. 

Os governos militares consolidaram a articulação entre internação asilar e privatização da assistência, com a crescente contratação de leitos e clínicas conveniadas, que rapidamente cresceram para atender a demanda. Houve incrível aumento das internações e o número de internos que era de 7.099 em 1957 atinge 14.438 internos em 1968.


Em 2013, a Comissão Estadual da Verdade de São Paulo afirmou em suas conclusões que seus levantamentos “demonstraram” sobejamente, que essas instituições e seus profissionais foram historicamente usados no Brasil como instrumentos e agentes de poder e sujeição, seja por motivos políticos ou não. [...] (Sakaguchi e Marcolan, 2016)


Ao final desse projeto, fomos capazes de constatar e analisar que, embora o tema abordado não seja recente, o objeto de estudo provou-se ser “inédito”, onde pouco foi encontrado. Esta pesquisa pode ser tratada como o pioneira em um novo campo do conhecimento, cheio de possibilidades de estudo acadêmico. 

Muito ainda precisa ser feito para reparar os danos causados por esse período deplorável da história do país, pois essa mancha ainda está encrustada nas vidas de muitas pessoas, trazendo consigo marcas físicas e psicológicas em seu corpo, pessoas que lutaram pelo direito à liberdade e o bem comum da nação, almejando um futuro melhor para si e para seus compatriotas. 

Há muitos documentos que ainda encontram-se protegidos nas mãos militares, outros se perderam com o tempo. Somente quando o assunto não for mais tratado como tabu e a verdade trazida à tona é que seremos capazes de realizar uma pesquisa mais profunda e minuciosa.

Referências:

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Ditadura e Saúde Mental. https://www.cartacapital.com.br/sociedade/redemocratizacao-incompleta-perpetua-desigualdades-no-brasil-diz-relatorio-573.html/ditadura-e-saude-mental.pdf-5924.html. Acessado em: 01/05/2017.

SAKAGUCHI, Douglas Sherer; MARCOLAN, João Fernando. A história desvelada no Juquery: assistência psiquiátrica intramuros na ditadura cívico-militar:
http://www.scielo.br/pdf/ape/v29n4/1982-0194-ape-29-04-0476.pdf . Acessado em: 01/05/2017.

Para ouvir a loucura:
http://lemad.fflch.usp.br/sites/lemad.fflch.usp.br/files/Para%20ouvir%20a%20loucura%20o%20sil%C3%AAncio%20e%20a%20manipula%C3%A7%C3%A3o%20na%20Ditadura%20Militar%20(1964%20%E2%80%93%201985).pdf. Acessado em: 01/05/17
Coletivo Virtual, Os Amigos de 68 - Reportagem: Correio do Brasil, 2014.


CONTRIBUIÇÕES DO III CONGRESSO MINEIRO DE PSIQUIATRIA PARA A REFORMA PSIQUIÁTRICA EM MINAS GERAIS [Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus 2017]

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
CURSO: Museologia
DEPARTAMENTO: Teoria e Gestão da Informação
DISCIPLINA: Metodologia da pesquisa histórica em museus                         [6°p. museologia]
PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia
ALUNOS: André Luiz Lara Lima
                Daniel Xavier Henriques
                Igor Cândido Costa
                Luana do Carmo Pirajá Ferraz Santos
                Maria de Lourdes Oliveira e Silva

                Soraia Oliveira de Vasconcelos Botelho

O III Congresso Mineiro de Psiquiatria é considerado um momento importante para a Reforma Psiquiátrica em Minas Gerais e a vocalização de uma “mobilização iniciada no final dos anos 60 pelos psiquiatras da ‘turma do [hospital] Galba’” (GOULART, 2015). Ocorrido entre os dias 15 e 21 de novembro de 1979 na Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), em Belo Horizonte, sob a organização do Centro de Estudos Galba Velloso e a coordenação do médico psiquiatra Cézar Rodrigues Campos, esse foi um evento que, segundo Silva & Goulart (2011), promoveu um “conjunto de iniciativas, ações e produtos que foram, se não determinantes, no mínimo, imprescindíveis para a consolidação de uma produção crítica em relação às instituições psiquiátricas à Reforma”.
Diferentemente, dos encontros anteriores, de 1970 e 1971, que já apresentavam um clima de crítica contra a degradante situação da assistência psiquiátrica no Estado, o III Congresso apresentou um potencial instituinte na política de saúde mental mineira e brasileira. Para além de apresentar o problema do ponto de vista técnico (médico), o congresso aproveitou o processo de abertura política e o fim da censura à imprensa, para dar enfoque político-social nas propostas de um novo modelo asilar e também poder contar com a participação de jornalistas e sindicatos que pudessem se mobilizar junto aos profissionais de saúde para a construção de respostas incisivas para a Reforma Psiquiátrica (SILVA & GOULART, 2011).
Assim, o III Congresso Mineiro de Psiquiatria, que foi uma grande produção política em prol da ruptura do ciclo vicioso e desumano do tratamento psiquiátrico vigente, reuniu um número expressivo de participantes. Foram mais de 600 pessoas, entre médicos, psiquiatras, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais e estudantes, além de familiares dos internos e a imprensa, reunidas em torno dos seguintes temas: “Assistência Psiquiátrica em Minas Gerais”, “Condições de Trabalho dos Profissionais em Saúde Mental”, “Espaço da Psiquiatria” e “Alternativas de Trabalho em Saúde mental”.
Mantendo essa perspectiva de descontinuidade da lógica manicomial, o congresso apresentou ainda dois outros momentos que marcariam positivamente o cenário nacional de desinstitucionalização da loucura. O lançamento do curta-metragem “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton, e a participação de Franco Basaglia, precursor do movimento de reforma psiquiátrica italiano, e de Robert Castel, sociólogo francês. Segundo Silva & Goulart (2011), o documentário e a vinda desses dois nomes internacionais foi planejada “por grupos que já se mobilizavam com a causa manicomial, sendo uma importante jogada política na época”, causando desconforto em muitos dirigentes públicos, como o então Secretário Adjunto da Saúde, José Expedito Janotti, que “declarou que a mídia visual (televisiva) estaria impedida de entrar nos hospitais psiquiátricos”. Esse embate com a Secretaria de Saúde acabou criando maior expectativa nos participantes do III Congresso, que cobraram soluções dos órgãos públicos. No entanto, estes mantiveram uma atitude defensiva, criando uma atmosfera de tensão em um evento que se configurava cada vez mais político.
O III Congresso Mineiro de Psiquiatria, após sete dias de manifestações, terminou com as autoridades governamentais fazendo promessas para mudar os rumos da assistência psiquiátrica e com os congressistas ratificando “o seu repúdio à política de saúde mental, pública e privada, existente em todo o país” (SILVA & GOULART, 2011). Ainda segundo esses autores, um documento foi produzido e encaminhado ao Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), no qual estava acordado: a criação de alternativas terapêuticas com a participação dos sindicatos e demais representantes da classe; o fortalecimento do movimento nacional de trabalhadores de saúde mental; a formulação de novas políticas de assistência psiquiátrica; e a repulsa à mercantilização e privatização da medicina. Ainda foi decidido pelo “compromisso permanente pela humanização da psiquiatria, a partir da extinção dos hospitais e sua substituição pelo tratamento ambulatorial” (SILVA & GOULART, 2011). Deliberações essas que marcaram a luta antimanicomial na década de 1980 e trouxeram importantes conquistas, como o “Plano de Reorientação da Assistência Psiquiátrica”, de 1982, elaborado pelo Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária (CONASP) e implementado pelo INAMPS.


A Reforma Psiquiátrica

A Reforma Psiquiátrica foi um movimento que tomou forma em meados da década de 1970 e se baseou, principalmente, no “questionamento incisivo das políticas públicas de saúde mental e do modelo assistencial centrado nos hospitais psiquiátricos e em estratégias de exclusão” (GOULART & DURÕES, 2010). Em um período que, tanto no cenário brasileiro como mundial, cresciam as críticas às redes assistenciais que previam internações autoritárias e arbitrárias e a total reclusão do doente mental, a Reforma Psiquiátrica no Brasil, segundo Goulart & Durões (2010), ganhou força com a Reforma Sanitária e a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), configurando-se em um “conjunto de iniciativas de cunho político, social, legislativo e cultural” que visavam à desconstrução dos espaços asilares e a efetivação de modelos alternativos de tratamento.
As críticas ao modelo assistencial tradicional vigente explodiram em Minas Gerais e no Brasil. E os horrores do tratamento desumanizado sofrido pelos internos nos hospitais psiquiátricos ganharam repercussão na mídia, criando-se “as condições de mobilização necessárias para o sucesso de duas outras iniciativas mineiras: o III Congresso Mineiro de Psiquiatria e o documentário Em nome da razão, de Helvécio Ratton” (GOULART, 2015). Mas o protagonismo de Minas Gerais para a Reforma Psiquiátrica foi além desses eventos. Dentro do Instituto Raul Soares (IRS), primeiro hospital psiquiátrico público de Belo Horizonte, “ocorreram importantes debates, embates e iniciativas que informam sobre os rumos e as contradições do processo de construção da política de saúde mental brasileira” (GOULART & DURÕES, 2010). Conforme esses autores, o processo mineiro de reforma culminou em uma nova legislação, em 1989, a Lei Paulo Delgado, que só foi possível devido ao contexto histórico-político vivido pelo país de declínio da ditadura militar.
No entanto, apesar das conquistas legislativas, o processo de desinstitucionalização sempre foi complexo. Até o ano de 2001 vigorou no Brasil o Decreto nº 24.559, de 1934, que dava respaldo a uma rede assistencial que se apoiava “no uso indiscriminado de psicofármacos e no isolamento dos doentes mentais, sem projeto clínico ou terapêutico real” (GOULART, 2015). E afirmando Goulart & Durões (2010), a Reforma Psiquiatra sempre marcada por descontinuidades e retrocessos. Deste a década de 1990 esteve em tramitação no Congresso um Projeto de reforma do sistema psiquiátrico, a Lei nº 10.216, que teve como base a Lei Paulo Delgado e somente foi aprovado em 2001. Essa lei substituiu o Decreto anterior e tinha como intento desmantelar o aparato asilar baseado em internações involuntárias (PINTO & FERREIRA, 2010).

Cezar Rodrigues Campos e a Turma do Galba


Foto de Cézar Rodrigues Campos. Disponível em: <goo.gl/ygyYwq>. Acesso em: 17 jun. 2017. 

Cézar Rodrigues Campos (1940-1999, São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais) foi um médico e psiquiatra, considerado um militante na luta antimanicomial (SILVA et al., 2011). Ele foi uma importante figura no processo de Reforma Psiquiátrica Mineira com um percurso profissional que “permite vislumbrar toda uma lógica perversa de funcionamento institucional e as tentativas de sua superação ou promoção de mudanças na política de saúde mental mineira” (SILVA & GOULART, 2011). Campos fez parte da “turma do Galba”, como ficou conhecido o grupo de médicos psiquiatras residentes do Hospital Galba Velloso (HGV) e integrantes do núcleo de pesquisas sobre psicotrópicos de referência, criado na década de 1960. Esses profissionais foram militantes na Reforma Psiquiátrica Mineira, e, como integrante, Campos pode criar, em 1970, a Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), oriunda do antigo Departamento de Psiquiatria da Associação Médica de Minas Gerais, bem como organizar na década de 1970 o I, II e III Congresso Mineiro de Psiquiatria (SILVA et al., 2011; GOULART, 2014; GOULART, 2015).



Março de 1970 – Simpósio Nacional sobre Depressão. Parte da “turma do Galba”. Da esquerda para a direita: Cristina e Rodrigo Teixeira de Salles, Marcio Sampaio, Roberto Rangel, Eunice Rangel, José Ronaldo Procópio, Antônio Leite Rangel, Jorge Paprocki, Maurício Sartori, Maria Muniz Passos (Lia), Delcir Antonio da Costa e Antônio Carlos Corrêa. Disponível em: <goo.gl/YA2au2>. Acesso em: 17 jun. 2017.

Nas décadas de 1970 e 1980, Campos também trabalhou como preceptor da Residência em Psiquiatria do Instituto Raul Soares, se destacando como professor na disciplina Psicologia Social (SILVA et al., 2011). Ele ainda foi, entre 1986 e 1987, superintendente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) e, até 1993, Coordenador de Saúde Mental da Fundação. Em sua biografia ainda consta, participação como ativista no Movimento de Luta Antimanicomial e na constituição do Fórum Mineiro de Saúde Mental, em 1987, bem como Secretário de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, de 1993 a 1996, quando implantou os primeiros serviços de saúde mental substitutivos aos hospitais psiquiátricos de Minas Gerais e elaborou a Lei Estadual 11.802 (Lei Carlão), de 1995, que dispõe sobre a promoção de saúde e a reintegração social do portador de sofrimento mental.

Franco Basaglia e a Psiquiatria Democrática


Foto de Franco Basaglia. Disponível em: <goo.gl/59vpUa>. Acesso em: 17 jun. 2017.

Franco Basaglia foi um médico e psiquiatra, nascido no ano de 1924 em Veneza, Itália, e falecido em 1980. Foi o precursor da reforma psiquiátrica italiana e importante liderança na luta sócio-política de desinstitucionalização da loucura, um processo que visava a “desmontagem e a desconstrução do aparato prático-teórico-discursivo da psiquiatria” e que previa “o resgate de cidadania do doente mental” (GOULART, 2015). Basaglia e sua equipe estiveram à frente da luta antimanicomial na Itália, iniciada ainda na década de 1960 e denominada de Psiquiatria Democrática a partir de 1973. Eles iniciaram importantes mudanças na assistência psiquiátrica italiana tendo como experiência os hospitais psiquiátricos de Gorizia e Trieste, onde realizaram críticas teóricas e práticas à psiquiatria e implementaram novas formas de tratamento para a loucura (OLIVEIRA, 2011). O modelo basagliano buscava uma inversão do saber psiquiátrico da época, deixando a doença de ser colocada em evidência, para dar foco no sujeito e devolver ao portador de sofrimento mental a sua liberdade e recuperar a sua dignidade e cidadania (OLIVEIRA, 2011; PINTO & FERREIRA, 2010; FERREIRA, 2012).
Franco Basaglia esteve no Brasil pela primeira vez em 1978, mesmo ano que ocorreu na Itália a aprovação da Lei nº 180 (Lei Basaglia) para participar do “I Simpósio Internacional de Psicanálise, Grupos e Instituições”, que ocorrei no Rio de Janeiro. Em 1979, retornou mais duas vezes, “para a realização de conferências e visitas aos manicômios no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte” (OLIVEIRA, 2011). Com os hospitais psiquiátricos de Belo Horizonte e Barbacena, Basaglia ficou horrorizado com a situação, chamou-os de “campos de concentração” e “casas de tortura”. Nesse mesmo ano, participa na capital do III Congresso Mineiro de Psiquiatria (OLIVEIRA, 2011). Segundo Goulart (2015), a sua participação nesse evento foi fortuita para a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Para Oliveira (2011), a vinda do médico “dividiu nosso processo de reforma em antes e pós”, já que até aquele momento as discussões no Brasil tinham inspiração nas psiquiatrias norte-americana e francesa.



Documentário “Em nome da Razão”



Referências Bibliográficas

FERREIRA, Walter. Reforma psiquiátrica e atenção psicossocial: contextualização sócio histórica, desafios e perspectivas. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, ISSN 1984-2147, Florianópolis, v.4, n.9, p.52-71, 2012.

GOULART, Maria Stella Brandão. A política de saúde mental mineira: rumo à consolidação. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, v. 8, p. 194-213, 2015. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/gerais/v8nspe/04.pdf>. Acesso em: 09 abr. 2017.

GOULART, Maria Stella Brandão. Comunidades terapêuticas: conceito e prática de uma experiência dos anos sessenta. Revista de Psicologia, v. 5 - n. 2, p. 53-69, jul./dez. 2014. Disponível em: <http://periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/1476>. Acesso em: 13 jun. 2017.

GOULART, Maria Stella Brandão; DURÕES, Flávio. A reforma e os hospitais psiquiátricos: histórias da desinstitucionalização. Psicologia & Sociedade; 22 (1): 112-120, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v22n1/v22n1a14.pdf>. Acesso em: 09 abr. 2017.

GOULART, Maria Stela Brandão. Em nome da razão: quando a arte faz história. Rev Bras Crescimento Desenvolvimento Hum, p.36-41, 2010.

OLIVEIRA, Carla Luiza. O pensamento de Franco Basaglia na área da Saúde Mental. In: 16º Encontro Nacional ABRAPSO, 2011, Recife. Anais... Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2011. Disponível em: <goo.gl/Kh3EJ8>. Acesso em: 12 jun. 2017.

PINTO, Alessandra Teixeira Marques; FERREIRA, Arthur Arruda Leal. Problematizando a reforma psiquiátrica brasileira: a genealogia da Reabilitação psicossocial. Psicologia em Estudo, v. 15, n. 1, p. 27-34, jan./mar. 2010.

SILVA, Diego Patrick da; ABREU, Marcela Alves de; DIAS, Hernani L. Chevreux Oliveira Coelho. Cezar Rodrigues Campos: de psiquiatra a militante da reforma. In: I Encontro de Pesquisadores em História da Saúde Mental, 2011, Florianópolis. Anais... Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011. Disponível em: <http://www.encontrohistoriasm.ufsc.br/files/2011/09/revista.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2017.

SILVA, Diego Patrick da; GOULART, Maria Stella Brandão. A Reforma Psiquiátrica mineira e Cezar Rodrigues Campos: uma história a ser desvelada. In: 16º Encontro Nacional ABRAPSO, 2011, Recife. Anais... Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2011. Disponível em: <goo.gl/fyw5yJ>. Acesso em: 12 jun. 2017.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Exposição Universal de Chicago de 1893: imperialismo e racismo em exibição

Em preparação ao 2º seminário da disciplina optativa Museu, espaço e poder, Museu, cultura e imperialismo: tempo, espaço e relações de poder, em que um dos temas centrais serão os zoos humanos, acabei reunindo algum material sobre a Exposição Universal de Chicago de 1893, a ser abordada a partir do texto
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KOUTSOUKOS, Sandra Sofia Machado. Dahomeyans: espetáculo e ciência na Exposição Universal de Chicago (1893). RESGATE - Vol. XVIII, No. 19 - jan./jul. 2010, p.122-134. 

Como aponta a autora, "Tais exibições, a princípio, vinham supostamente cumprir a função de informar e suscitar o respeito por aquele “outro”, mas teravam por incutir mais sentimentos de superioridade no branco de ascendência européia, ajudando a reafirmar teorias racistas então em voga e, assim sendo, “justificando” e “desculpando” o crescente imperialismo. O que se fazia era selecionar, colecionar, exibir, analisar, medir, classificar, retratar, descrever, controlar e arquivar os “outros” e a sua imagem. (...)Sua presença ao vivo e seus retratos eram explorados para estudos, curiosidade e diversão. Seus cadáveres eram disputados por escolas de medicina, museus e coleções." (KOUTSOUKOS, 2010, pp.123-124)


 Para adentrar um pouco mais no assunto, aos interessados indico o texto de Josh COLE,, “Culturaland racial stereotypes on the Midway”, que a autora cita. Vale ver ainda o material fotográfico disponibilizado pelo Getty Institute e uma cópia digitalizada do mapa e do Catálogo  das exibições no Midway Plaisance, a área periférica da Exposição dedicada aos povos selvagens , incluindo os daomeanos abordados no texto de Koutsoukos. 






 

domingo, 16 de abril de 2017

A volta ao mundo em 80 museus - 3. Museu da Loucura em Barbacena

Um belo texto da grande amiga e colega de UFMG, professora da Escola de Belas Artes, Rita Lages Rodrigues, a quem agradeço a colaboração. A ideia da série "A volta ao mundo em 80 museus" começou justamente em conversas informais, nas quais sempre me pareceu ser absolutamente possível que o convidado a publicar pudesse imprimir sempre seu traço personalíssimo na escrita, falasse livremente mesclando razão e emoção como bem entendesse. Eu e ela dividimos a coordenação de um grupo de pesquisa e nesse momento estamos lendo A sociedade sem relato, de García Canclini, que traz justamente uma reflexão sobre a possibilidade de pensar a partir de entrecruzamentos entre as ciências sociais e as artes. O que ela escreveu inseriu nessa equação também os traços da memória social e da experiência particular, e sendo assim atingiu em cheio o que eu desejava desde o início. Eis aí:

Histórias de família.
Ontem foi dia de visita. Em Barbacena, há muito desejava conhecer o Museu da Loucura*. Pensava nas pessoas retiradas de sua humanidade e jogadas no inferno, para ser purgatório haveria de melhorar muito. Imaginava o sofrimento, compadecia-me das almas, o discurso científico de choques e lobotomia contra o afeto e a existência. Mais de cem anos atrás, meu bisavô esteve internado por 10 anos na Colônia, menos dolorosa a palavra colônia do que asilo ou manicômio ou hospício ou casa de loucos. Não sei se como interno pagante ou indigente. Se indigente, obrigado a trabalhos forçados, escravos do século XX. A loucura não permite direitos. Por dez anos sem receber visitas. Por 10 anos. Entendi ainda mais minha avó e seu afeto imenso, apesar da dureza, por minha Tia, também posta na caixinha da loucura. Nunca permitiu internação da filha. Imaginei esse bisavô vivendo à margem, retornando após 10 anos por decisão do genro que havia resolvido ir buscá-lo. Minha bisavó já com 4 ou 5 filhos, o mais novo da idade do tempo do bisavô na Colônia, que, após o retorno do marido, engravidou duas vezes mais, tendo meu pai dois tios temporões. Pensei muito nela, na sua lida na roça, na minha avó e duas irmãs que levaram à frente a sobrevivência da família. Parece que meu tio avô não queria muito saber do trabalho. Foram as mulheres a levarem a pequena propriedade nas costas. Meu bisavô retornou e teve vida após a internação. Não sei qual marca ficou em sua alma. Nem consigo imaginar.
No segundo andar do Museu engasguei existência. Até então havia sido forte - pra quê?- mas ao ver as fotos das reportagens de 1961 e 1978 os olhos e a voz não aguentaram, os olhos cheios d'água e a voz embargou pelo pranto, o fôlego se perdeu, falaram forte ao espírito. Saí de lá tentando racionalizar a dor e o sofrimento. Ainda não consegui. Não vou conseguir nunca. O afeto que nos constitui.


* as imagens incorporadas são de autoria do blog Vida sem paredes, a quem agradecemos o contato e cumprimentamos pelo ótimo trabalho.

sábado, 8 de abril de 2017

Há controvérsias

 A Revista Época publicou online agora em abril uma matéria com o seguinte título: 
Lei obriga os museus brasileiros a tomar mais cuidado com seu acervo [ver completa]

 (Foto: Pedro Farina/ÉPOCA)

Em tempo, queria dizer algumas coisas. Tornou-se um clichê que as matérias que abordam o patrimônio cultural recorrentemente partam de pautas calcadas na polêmica e na denúncia. É desagradavelmente irônico que se mencione o estatuto dos museus numa matéria assim, e nos 8 anos em que está em vigor não deva ter sido citado em matérias que abordassem seus efeitos positivos. Não quero varrer as falhas para debaixo do tapete, mas simplesmente analisar a forma como a grande imprensa cobre esses assuntos. Como formadores de opinião que são, esses veículos perdem sistematicamente a oportunidade de levar ao cidadão uma informação mais qualificada a respeito do trabalho que é feito pelas pessoas que atuam no Ibram, nas instituições museológicas e outros órgãos que atuam no campo do Patrimônio. Adoram também se autopromover lançando mão do que na verdade foi realizado justamente por aqueles que criticam. Vejamos:

 "Assim foram criadas relíquias como a forca que matou Tiradentes, a espada que Pedro I ergueu no Grito do Ipiranga, a farda usada por Marechal Deodoro na Proclamação da República, criações que a reportagem de ÉPOCA tenta desmistificar ao longo desta reportagem."
A forma como o texto é redigido dá a entender que a desmitificação dessas relíquias é fruto da reportagem, e não que é um trabalho feito há décadas por inúmeros pesquisadores, ao qual a reportagem está tendo acesso por entrevistas ou pesquisas (não quero generalizar aqui, mas repórter de hoje não faz pesquisa, liga pro pesquisador, pergunta o que quer saber, só escreve se gostou da resposta, nem sempre fala obrigado e muito menos cita quem lhe forneceu a informação). Há um tremendo equívoco na redação mesmo, pois basta ler a matéria para perceber que o questionamento sobre o objeto está sendo feito na própria instituição. Mas aqui sejamos francos. Os museus falham absurdamente em levar esse conhecimento, esse questionamento sobre seu acervo, as lacunas de documentação e inconsistências da aquisição para o público. Não conseguem muitas vezes ver que uma abordagem crítica desses artefatos e da forma como passaram a figurar em seu acervo e exposições seria formadora de uma forma que a reverência acrítica e acobertada por narrativas nebulosas jamais pode ser.
Outra coisa irritante é como adoram imputar tudo à instância pública, como se não houvessem várias instituições privadas que incorressem nessas mesmas falhas - e talvez a maioria delas, muitas vezes laudatórias porque foram criadas para exaltar pessoas, empresas, grupos sociais específicos que costumam ser seus patrocinadores.
Mas essas não são, nem de longe, as principais controvérsias a serem abordadas quando se trata dos museus brasileiros. Por mais que tente a matéria não consegue evitar o senso comum e uma visão meio fetichista, concentrada na suposta autenticidade que poderia ser apurada dos itens que elenca.Ora, sendo assim, se a espada fosse comprovadamente de D.Pedro I, por exemplo, a construção de uma interpretação sobre a Independência poderia continuar lançando mão da relíquia 'autenticada'? Mesmo picotadas pela impiedosa edição que comumente as redações aplicam às falas dos especialistas, podemos entrever nos trechos que restaram que o posicionamento dos profissionais é crítico e revela, ao contrário do que a matéria insinua desde a manchete, que não é ter ou não a lei que faz o museu reinterpretar seu acervo, e sim a atuação de pessoal capacitado e comprometido, especialmente se tiver boas condições de trabalho. O que a matéria apura, em relação a isso? 
A controvérsia mesmo, a meu ver, recai sobre o sentido social e político das instituições, no caso com o foco da matéria recaindo um pouco mais para os museus históricos, e, portanto, para as interpretações da História do Brasil que eles ajudam a produzir e difundir. Seria realmente querer demais que a revista conseguisse elucidar para o leitor a compreensão atual que historiadores, museólogos e demais profissionais envolvidos nesse trabalho desenvolveram sobre o que é o resultado das investigações em História e como a controvérsia e o embate de interpretações são constitutivas do que será a sua narração, e que, muito mais que autenticar o que quer que seja, o objetivo maior é auxiliar o público a desenvolver a capacidade de refletir sobre como e porque uma determinada versão do passado é produzida, como os artefatos compõem as tramas, e como o conhecimento da História é transformado por meio de incessantes contestações baseadas no estudo das evidências.