terça-feira, 16 de outubro de 2018

Visita ao Museu de Arte da Pampulha com grupo de idosas [Função Social dos Museus 2018]


Disciplina: Função Social dos Museus
Prof. Luiz H. Garcia
Integrantes do grupo: Bernardo Fonseca, Diogo Vieira de Melo, Fabio da Fonseca e Gabriel Carneiro.

Ao longo da disciplina Função Social dos Museus do Curso de Museologia da UFMG, foi discutido a problemática e o potencial dos museus para que essas instituições sejam capazes de ser mais um meio de promoção de desenvolvimento social. Para isso é necessário que esses lugares sejam capazes de receberem a diversidade do público que existe. Sendo assim, ao decorrer das discussões com os integrantes do grupo foi pensado a relação do idoso com a sociedade e os espaços culturais.

Ainda é preciso lembrar que grande parte desta reflexão vem do artigo 30 do estatuto do idoso que diz:

É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
Assim como segue a definição de museus que segundo o ICOM o mesmo deve estar a “serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público”, sendo assim, torna-se mais do que claro a necessidade de equidade para que o público idoso assim como todo o público de museu possa usufruir de tudo que a instituição oferece de forma acessível.
Foi então que no domingo, dia 16 de setembro de 2018, nosso grupo de trabalho realizou a atividade de campo da disciplina, o projeto consistiu em realizar uma visita com um público de idosas no Museu de Arte da Pampulha(1) (MAP) em Belo Horizonte. A atividade foi programada ao longo da semana com a mobilização de mulheres integrantes do Grupo Cultural Meninas de Sinhá(2) do bairro Alto Vera Cruz de Belo Horizonte. Uma experiência com idosas que já se encontram inseridas em atividades culturais cotidianamente, porém com um questionamento entre nós, pois várias delas se apresentam em espaços museológicos como artistas cantadoras, mas será que estes espaços estão preparados para recebê-las como público. Após um convite, foi combinado o passeio com três integrantes, Maria Gonçalves (80 anos), Geralda Aparecida (79 anos) e Diva Altina (79 anos). Como transporte optamos pelo carro por vantagens relativos a segurança, conforto e agilidade para pessoas que demandam maior atenção e por ser uma experiência piloto. Em razão do bairro Alto Vera Cruz se localizar na região leste da cidade e o MAP na norte, o encontro para a saída foi combinado às 8h30 com chegada prevista para às 9 horas, conforme se procedeu.



            


Durante e após a atividade o grupo pode refletir vários aspectos, como no caso qual seria a logística para realizar a visita pensando então na mobilidade urbana, o museu se localiza na orla da Lagoa da Pampulha, onde o seu acesso é privilegiado para pessoas que possuem automóveis, já para transporte público existe uma certa limitação, poucas linhas de ônibus atendem a região, e dependendo da localização e preciso ainda pegar mais de uma linha de transporte como no caso das Meninas de Sinhá, que se localiza em uma área periférica da cidade. Lembrando ainda a lei de gratuidade de passagem e garantia de assento para os idosos em transporte público.

Outro ponto a ser levantado foi sobre o próprio trabalho que vem sendo desenvolvido pela instituição, o museu enfrenta uma série de dificuldades com relação a suas exposições, que funcionam somente através de editais de ocupação artística, fazendo com que ocorra assim uma ausência de curadoria fixa que poderia trabalhar com o acervo já existente no museu, deixando assim muitas vezes o espaço com períodos sem exposições, como pode assim ser constatado com a visita de campo, que ocorreu em seu espaço mais sem um acervo exposto, tornando menos atrativo e deixando de desempenhar o seu papel como museu de arte.

Tendo em vista que existem diversas formas de mobilização do público idoso, refletimos sobre a possibilidade de se desenvolver projetos que podem ser executados em parcerias por museus, por instituições de longa permanência para idosos - ILPIS, em grupos organizados, como também em outras instituições públicas como os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), além de iniciativas privadas, para o desenvolvimento de projetos de visitas em museus como estratégia de combate à ociosidade e o encontro com as possibilidades oferecidas pelas instituições museais, e desse modo contribuindo para uma vida mais ativa dos idosos, população crescente no Brasil.  Atualmente atividades como esta são possíveis de serem executados em grande escala através de investimento sociais que tenham por objetivo a aplicação de recursos destinados ao desenvolvimento de ações de atendimento à pessoa idosa.

       A necessidade de uma grande diversidade de público nos museus, é uma reafirmação da democracia nesses espaços que são em tese, públicos. É através da valoração da diversidade que se é possível se pensar em um desenvolvimento social. Ao que se parece que o hábito de visitar os museus não está nas raízes da população brasileira, é necessário também essas políticas para atrair o público. Então esse público idoso além de merecerem nosso respeito, precisam ser incluídos em espaços que também são seus por direito, fugindo de ideais demagogas ou paternalistas, mas acreditando que as vezes é necessário que ajude a pessoa a dar o primeiro passo, para que de forma autônoma ela possa caminhar, e sobretudo pensando numa necessidade genuína da valoração do mais velho para nosso aprendizado.



Links:

(1)http://www.belohorizonte.mg.gov.br/local/atrativos-turisticos/culturais-lazer/museu-de-arte-da-pampulha

(2)http://meninasdesinha.org.br/

Intervenção Urbana - Museu pra quê? [Função Social dos Museus 2018]

Disciplina: Função Social dos Museus
Prof.: Luiz H. Garcia

Alun@s: Claudia Beatriz Ribeiro de Souza Carneiro Rodrigues Camelo; Elizabeth Castro Moreno; Liziane Fernanda Silveira; Lucas Ferreira de Vasconcellos; Polianna Christina Dias Santos; Taynah Lilyane da Silva Carlos Perfeito e Vinicius Santos da Silva.

Introdução
O Projeto Museu Para Quê nasceu de uma investigação desenvolvida anteriormente por um grupo de alunos na disciplina “Museus e Cidade”, ofertada pelo prof. Luiz Henrique Garcia, no curso de Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo de campo realizado nessa fase revelou que os principais fatores que limitam a visitação ao Museu de Arte da Pampulha (MAP) estavam relacionados com a falhas de comunicação entre a instituição e a população. Na época, foram identificados suportes de divulgação física instalados pelo Museu Abílio Barreto na Rua Rio de Janeiro (Praça Sete), que se mostravam desativados. Estava aí a oportunidade de utilizá-los para iniciar um diálogo com a população a respeito dos museus da cidade. No segundo semestre de 2018 demos continuidade a essa proposta, durante a disciplina “Função Social dos Museus”.


A intervenção
A proposta de levantar questionamentos sobre os museus da cidade foi realizada em três locais: Praça Sete de Setembro - que possui um fluxo intenso de transeuntes -, entorno do MAP - para chamar a atenção do público em potencial – e Escola de Ciência da Informação (ECI) da UFMG.

Nos três nichos expositores existentes na Rua Rio de Janeiro foram fixados cartazes tipo “lambe-lambes” com arte gráfica desenvolvida pelo grupo. As reflexões foram agrupadas, portanto, usando três módulos, com os respectivos questionamentos: (1) Museus e a cidade: “Museu pra quê?” e “Onde estão os museus na cidade?”; (2) MAP e arte: “Belo Horizonte tem museu de arte?” e “O que tem no Museu de Arte da Pampulha?”; (3) Museu e Público: “Quanto custa ir ao museu?” e “Quem quer, quem pode ir ao museu?”. Ao lado de cada um dos lambes foram instalados painéis em branco, como espaço para manifestação dos passantes (FIGURAS 1 e 2).

          FIGURA 1                                 FIGURA 2                               FIGURA 3




Foram produzidos cerca de 100 cartazes, em formato A4 e em impressão P&B, com questionamentos sobre os museus da cidade, que foram afixados tanto na Praça Sete (em tapumes, bancos e postes), quanto ao longo da orla da Lagoa da Pampulha - próximo ao MAP, Casa do Baile e Igreja de São Francisco de Assis. (FIGURA 3). Um lambe-lambe foi fixado na ECI, ficando como um espaço de diálogo dentro de um meio acadêmico habituado às vivências museais.


A escolha por lambes se deu porque a arte, a política e as disputas de poder, permeiam todos os espaços da cidade através dos lambes e stickers, ao “ocupar espaços fora dos campos institucionalizados da arte e tocar as realidades sociais de perto” (Campbell, 2015, p. 20). A cidade passa a servir de campo e contracampo, onde convivem no mesmo espaço pequenas lutas e resistências que dialogam, sobrepõem, alteram-se no mesmo espaço. São ações que refletem acerca do cotidiano, do que afeta na relação com a cidade e com o outro. Como expressa Brígida Campbell (2015), as obras que são colocadas na esfera pública buscam muitas vezes pequenas utopias de transformação do comum, tensionando as relações de poder. Também relacionado à questão territorial, as fronteiras são rompidas ao se estabelecer espaços coabitados através das intervenções realizadas por lambes e stickers, embaralhando imagens pelo processo colaborativo e desestabilizando as divisões que as cidades contemporâneas oferecem, produzindo espaços para vivências coletivas e lúdicas.

Para a promoção e registro da intervenção urbana, foi criado um suporte digital @museupraque na plataforma Instagram, com o uso da hashtag #museuemquestao. Sua coordenação, nessa ação, visa discutir sobre o Museu de Arte da Pampulha, além da reprodução do conteúdo nas ruas - prolongando a experiência da intervenção no que diz respeito ao espaço e à durabilidade do impacto e abrangendo o convite à reflexão. O endereço eletrônico foi divulgado em todos os painéis em branco e cartazes A4 espalhados pelos locais de intervenção.

Durante toda a semana foi realizado o acompanhamento, à distância, da intervenção na Praça Sete, algumas abordagens de passantes e o acompanhamento do Instagram com elaboração, em conjunto, das respostas aos comentários. 


Interações
A proposta da ação é a de instigar a reflexão. A ideia de proporcionar um espaço para a interação das pessoas, seja pelo Instagram ou pelos próprios painéis, consiste em uma das possibilidades, porém o fato do transeunte ler e, a partir disso refletir sobre as questões ali colocadas é o objetivo principal, provocar a curiosidade e um possível interesse.
A Galeria de Imagens apresenta uma mostra da participação do público na intervenção física e digital (1).

Lambe-lambe ECI; Cartaz Praça Sete; Instagram

Segundo JEUDY, 1990 “do ponto de vista dos princípios, conclui-se que a museologia popular não está dirigida aos objetos a conservar ou a exibir a um público, mas sim aos sujeitos sociais. São os modos de pensar, de fazer e de falar, além dos objetos e edifícios, que se tornam objetos de uma investigação museológica”.



Reflexões
Ao vivenciar o processo de criação das intervenções, além da observação direta dos espaços e conversas informais feitas nos locais, o grupo pode perceber que é necessário intervir, questionar a relação que os museus estão estabelecendo com o próprio entorno ou cidade. Se o museu é um lugar de memória, como podemos desconsiderar o território? Se a população não se apropria dos museus da cidade, não é simplesmente por não irem a museus, mas sim pela falta de relação com os primeiros. Acredita-se que uma continuidade dessa intervenção deverá questionar e dialogar, não só com o público mas também com a instituição museu, levando essas reflexões para dentro do espaço. O grupo envolvido já estuda parcerias com a setor educativo do MAP, buscando novas formas de concretizar o diálogo. Como estimular a consciência crítica, a reflexão sobre nossa realidade, patrimônio, memória, se o museu se encontra tão distanciado de seu público? Somente uma instituição inserida no contexto social em que vivemos poderá fortalecer a consciência cultural e levar à uma ação participativa da sociedade.


Associando aos estudos museológicos e a experiência vivenciada pelo grupo, abrem-se alguns questionamentos: como o diálogo do museu, como função social destes, pode ser ampliado ou problematizado a partir das tensões já existentes? Como estas tensões podem ser aproveitadas exatamente para produzir um espaço dialógico, dentro e fora dos museus? O projeto, infelizmente, teve como cenário a recém-tragédia do incêndio do Museu Nacional, e acreditamos que a ação obteve maior força interna e ímpeto de protesto por mudanças a partir justamente da exposição completa e incontestável do sucateamento e descaso em que os museus se encontram em nosso país. Esta intervenção, mesmo que em pequena escala de alcance, pode ser um dos caminhos para provocar reflexões e olhares diferentes do comum no dia-a-dia da cidade viva.


REFERÊNCIAS

CAMPBELL, Brígida. Arte para uma cidade sensível. São Paulo: Invisíveis Produções, 2015.
JEUDY, Henri Pierre. Memórias do social. Rio de Janeiro: Forense-Universitaria, 1990. 146p. (intro + cap.1)
NAVARRO, Luiz. Pele de propaganda: lambes e stickers em Belo Horizonte {2000-2010}. Belo Horizonte. Ed. do Autor, 2016. 



Nota:
(1) Transcrições do lambe-lambe, frases ao lado, de cima para baixo: “Para que a história de quem somos atravesse gerações”; “Para provar que existimos”; “Para compartilhar a história e o conhecimento para a próxima geração”; “Apoio isto”; Transcrição cartaz, comentário abaixo da pergunta, escrito em lápis: “Para a vida ter sentido”.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Relato sobre o XI ENEMU

Meu nome é Raphael Cassimiro e participei do último ENCONTRO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE MUSEOLOGIA (XI ENEMU), e este é meu depoimento.


Este foi uns melhores eventos acadêmicos que pude participar, pura e simplesmente pela percepção que tive. Este evento me enriqueceu politicamente sobre os assuntos da museologia tanto quanto um semestre letivo. Esse foi um dos sentimentos compartilhados por mim e outros estudantes em algumas das conversas duradouras que tivemos no alojamento do XI ENEMU, que aconteceu nos dias 24 a 28 de setembro de 2018, em Recife.


https://www.instagram.com/xienemurecife2018/?hl=pt-br
https://www.facebook.com/xienemurecife/




(print tirado da primeira chamada do evento com tema no instagram em maio/2018)


Imaginávamos corpos se afetando, afinal era o tema do evento, mas não fazíamos ideia de como os nossos corpos iriam se afetar neste evento. Participaram cerca de 150 pessoas, o'que afeta bastante em questão de espaço físico, mas, afeta porque ultrapassou o número de estudantes dos últimos 3 anos de evento. E neste ano durante a plenária final, foram criados vários cargos e até nova comissão, o que mostra como os alunos da museologia estão interessados nacionalmente nos assuntos do curso.




O evento aconteceu em vários espaços museológicos importantes para o Brasil, como o Instituto Ricardo Brennand, o Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco, onde aconteceram mesas redondas,e minicursos. Os GTS aconteceram na biblioteca central da UFPE, e a mesa redonda sobre criação do ENEMU e plenária final na ADUFEPE (Associação dos docentes da UFPE) , no auditório cujo espaço tinha vários registros da luta e memória dos professores na época e pós ditadura.



Este evento contou com mesas muito importantes para os museus na atualidade, algumas delas:


“Queer museu”, “Representatividade e Censuras na Atualidade”, “Acessibilidade nos Museais”, “Diálogo entre Ausências e Caminhos para Inclusão Museologia e Gênero: Construção Social da Mulher nos Espaços Museais.”

Outras temas também fizeram parte, como museologia e negritude, empoderamento LGBT nos museus, os rumos da museologia no Brasil, saúde mental e movimento estudantil.

Junto da programação, no último dia o circuito de museus e o minicurso. No circuito de museus foi possível visitar 3 instituições museológicas,o Museu do Trem, o Paço do Frevo, e Museu Cais do Sertão, ao final da visita, estávamos diante do marco zero, um ponto turístico muito importante em Recife Antigo, onde fizemos uma manifestação contra os cortes de gastos nos museus, contra as privatizações e contra a substituição do Ibram pela Abram. (video)



Uma das mesas que marcou bastante politicamente foi a Mesa de Representação estudantil como forma de resistência: ENEMU:14 anos de história, que trouxe Henrique de Vasconcelos Cruz- museólogo/FUNDAJ- museu Homem do Nordeste, representante da comissão Organizadora do ENEMU(2004); Paula Coutinho- Museóloga/ Instituto Ricardo Brennand- Co-Fundadora da executiva nacional de estudantes de museologia; e Edson Augusto Lima- estudante de museologia da UFMG, representante do sudeste na Executiva Nacional dos Estudantes de Museologia 2017/2018.

Entendi que essa mesa foi muito importante para o evento como um todo, primeiro porque trouxe o pessoal da primeira executiva do evento e do primeiro ENEMU, até um atual estudante e representante também da executiva. Essa disposição de falas fez entender que nas situações políticas conflituosas os alunos têm que se envolver, como eles fizeram com o posicionamento dos estudantes na política nacional de museus. E como nós agora estudantes estamos lutando pelas instituições. Eles nos mostraram porque eles precisavam se articular, e nós entendemos como foi importante nos articularmos neste evento de 2018 e as conclusões que tiramos como alunos sobre os acontecimento. E como vamos nos posicionar no próximo ano.

Tudo isso serviu para mim e acredito que para meus colegas, de inspiração. Inspiração que foi para plenária final, que durou incansáveis 4 horas, mas que nos deu indicativas de crescimento do movimento em todas as universidade que tiveram representantes no evento. E também, como foi sugerido, a eleição de novos cargos para expansão da executiva, democratizando-a e sendo mais participação. É  assim que venho acreditando que o movimento estudantil da museologia deve seguir.


Gostaria de pontuar também como foi e está sendo a representação dos alunos da UFMG. No último ENEMU que aconteceu em Aracaju, a delegação da UFMG alcançou 12 participantes e destes, foram eleitos na plenária final 4 estudantes para participarem da Executiva Nacional dos Estudantes de Museologia, executiva que organiza o ENEMU. Estes foram, Bruno Diniz, na comissão temática, Layla Merly, na comissão financeira, Edson Augusto, como representante do sudeste, e eu que também fiz parte da comissão temática. Apesar da vontade dos estudantes da UFMG e das várias tentativas de conseguir um ônibus esse ano, vários alunos se decepcionaram com a dificuldade de ir para o evento. Apesar disso, ainda conseguimos a participação de 5 estudantes da UFMG de museologia e 1 estudante de conservação e restauro. A maioria das viagens foi bancada pelos próprios alunos, uma ajuda financeira da PRAE (pró reitoria de assuntos estudantis) e com uma força de vontade imensa fomos para Recife. E desta vez, voltamos para UFMG com dois representantes na Executiva nacional, Edson Augusto(guto) foi eleito Vice Coordenador Geral da Executiva, e Marcus D’lazzari eleito como parte da comissão de comunicação.

Quando digo que esse evento foi um dos melhores que já participei, digo isso porque apesar de toda as cargas de discussões que tivemos, há toda uma imensa troca cultural. Me lembro dos primeiros períodos, quando estudávamos as festas religiosas. Achava que enquanto lia alguns textos sobre as mesmas, estava entendendo do que se tratava. Porém em uma das noites culturais indicadas pelas meninas da museologia da UFPE, fomos assistir a passagem do maracatu em uma das ruas de Recife. Foi maravilhoso, e o sentimento que eu tive assistindo, foi muito diferente da expectativa criada quando li textos e vi fotos, só lá , naquele momento, eu acho que entendi o'que aquelas pessoas estavam fazendo.



Obrigado! (Na foto, estão estudantes de museologia da UFMG que participaram do XIENEMU: Partindo da esquerda sempre! Raphael, Marcus D’lazzari, Nathália Marques , Edson Augusto, Amanda Marzano). 



quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Das chamas um farol

Procuro fazer nessa postagem a melhor compilação possível de material para que não se perca a memória sobre o impacto do incêndio, mas também pensei numa forma de promover a reflexão e a valorização do conhecimento já produzido sobre a instituição museológica Museu Nacional, sua história e seus diferentes acervos. Sendo assim peço aos leitores que espalhem o máximo possível essa postagem e o convite para que quem desejar contribuir deixe nos comentários textos críticos e rememorações que estão circulando no calor do momento, mas também as referências que conhecer de pesquisas [monografias, dissertações, teses, livros, artigos em periódicos] que abordem os temas marcados. Façamos o maior esforço coletivo possível para reunir aqui esse material, que me comprometo depois a incorporá-las à postagem para sua melhor difusão. Todos serão mantidos da forma que me chegarem e expressaram, obviamente, a perspectiva de seus autores. 


Para dar o pontapé inicial escolhi a excelente entrevista concedida por Eduardo Viveiros de Castro, um dos nosso mais conceituados antropólogos, autor de vários livros e do conceito de perspectivismo ameríndio [teoria a partir da visão ameríndia do mundo], e professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicada pelo Público, de Portugal. 


Um destaque, só como aperitivo:
"Certamente as pessoas que estão passando fome e estão desempregadas não diriam que a cultura é a coisa mais importante mas a ideia de que o povo despreza a cultura não é verdadeira. Quem despreza a cultura é a burguesia, o agro-negócio, os deputados ruralistas, os que estão interessados em devastar o país para produzir soja para vender para a China."


Também insiro o relato tocante de Aparecida Vilaça, também antropóloga e professora do mesmo programa, publicado pelo jornal Nexo. [como o site não permite cortar e colar, recomendo abrir e fazer a leitura]

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Um-museu-em-chamas-visto-por-uma-de-suas-antrop%C3%B3logas

© 2018 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.

Recolhi ainda alguns textos de pessoas que me são próximas e por quem nutro admiração e respeito intelectual. Agradeço a elas imensamente a contribuição a este esforço.

***

Por Regina Helena Alves da Silva, historiadora e professora do Depto. de História e das Pós-Graduações em História e Comunicação da UFMG.

Pronto, a questão dos acervos, museus, espaços de ciência pelos quais tanto lutamos ganhou relevância no país e no mundo. A custa do que? de que? das nossas almas...
Hoje fiquei vendo as repercussões do incêndio que destruiu o Museu Nacional.... tem muito tempo que muita gente diz do perigo disso acontecer.... acontecer onde aconteceu e acontecer em centenas de outros lugares pelo país.
Uma comoção nacional ver as imagens do fogo, de repente muita gente entendeu que o Museu existia, o que era ele.
Mas ai comecei a ver a partidarização imbecil que nos domina discutir de quem é a culpa do incêndio. Vou resolver essa parte de uma vez: é nossa.
Vi coxas acusando o PT, vi bolsominions perguntando pra que museu e dizendo que tudo é culpa do PT, vi petistas dizendo que tudo é culpa dos tucanos, do golpe e claro... do PSOL...
Enfim, em um momento tão doloroso pra todxs nós que passamos a vida com a História, o patrimônio cultural, a memória, a ciência e a produção do conhecimento, ficamos a mercê da imbecilidade que domina o país com as explicações medíocres e toscas dos últimos tempos.
Sim todos temos culpas nessa área, todos nós.
A "terceirização" dessa área começou com 
a Lei Rouanet em 1991 no governo Collor, que vingou nos governos FHC. Desde então tudo é Lei Rouanet, acabou a gestão publica da cultura no país e tudo virou Lei Rouanet. 
Hoje o sinistro da Cultura deu uma coletiva dizendo que a Lei Rouanet estava disponível e perguntou porque a UFRJ não a usou....
Nós que ja fomos gestorxs de espaços culturais sabemos muito bem o que virou a politica cultural no país... virou uma política de editais, uma política onde lugares da importância do Museu Nacional tem que fazer projetos pra concorrer com shows, eventos, viagens, festivais, e sei la mais o que.
Professores da universidade assumem esses lugares e descobrem o mundo da infinita falta.
Todos absurdados porque não tinha "um moderno sistema de combate ao incêndio", alguém ai sabe quanto custa isso? quanto custa o projeto pra fazer o sistema? sabem quanto custa um seguro pra um lugar desses? claro que não.... mas vai você gastar com alguma desses coisas pra ver.... caem todos de pau dizendo que esta jogando dinheiro publico na lata do lixo.... e ainda riem....
Passei por tudo isso por 4 longos anos... e como me recusava a transformar um espaço da universidade em galeria de exposição paguei um preço alto por minhas escolhas para impedir que o prédio que administrei não pegasse fogo.... eu e muita gente passamos por isso.
Vimos os espaços públicos de cultura, de acervos, de pesquisa serem reduzidos a lugares de luta cotidiana para manutenção do que é de todos nós.
Vi um monte de gente dizendo: privatiza.... Não dá nem pra responder quem tem uma saída dessas pra esses lugares como o Museu Nacional... privatizar um lugar desses é solução dada por quem não sabe nada de nada e não consegue sequer entender a importância da Historia de onde habita.
O Museu queimou, foi a crônica de um desastre anunciado. Agora todos querem achar culpados, já disse, somos todos nós. Os tucanos que acham que tudo tem que ser privatizado e não sabem administrar a coisa pública. Os petistas que transformaram tudo em política de editais. O desgoverno golpista porque é constituído de canalhas que agora vêm a público dizer que "iam" fazer alguma coisa, mas não deu tempo.
Pra completar, em nome da tosquera que é esse desgoverno golpista, votaram uma PEC que diz conter gastos públicos.... só rindo de tamanha imbecilidade. Quem quer governar deveria no mínimo saber como faze-lo e não dizer que é melhor ferrar tudo porque não sabem como administrar seus gastos.
Fiquei ontem aqui sentada no sofá da minha casa, com meus filhos do lado, chorando..... eles não entendiam porque e olhavam as chamas na televisão tentando saber porque a mãe deles chorava. Consegui dizer que era porque estava queimando tudo aquilo pelo qual vivi minha vida inteira e que agora eu não poderia mais leva-los pra conhecer Luzia, pra ouvir cantos indígenas que não existem mais, pra conhecer um acervo africano que não existe em outro lugar do mundo.
Mas, principalmente, disse a eles que essas coisas estavam naquele lugar pra nos lembrar sempre que não podemos congelar a vida de quem nos constituiu, que Luzia era nosso começo e que, nossos índios, os africanos eram a memória do que o Estado português e brasileiro foi e é com seu povo e com os outros povos que subjugou e dominou. Disse a eles que lugares como o Museu Nacional são importantes porque guardam tudo que vamos nos tornando como povo, absolutamente tudo que fizemos. E que isso é importante principalmente para não apagarmos a memória do que já destruímos e de tudo que criamos e inventamos.
Disse a eles que muitos desses lugares guardam a história de quem nos dominou mas que isso era importante porque assim saberíamos sempre como eles foram e como eles guardaram nossas historias derrotadas ou não.
Mas principalmente disse a eles que eu chorava porque nunca mais poderia ir la com eles pra que eles entendessem o tamanho do que fomos e somos e que isso é fundamental pra que eles continuem......
Enfim, textão de novo porque a tristeza é tão profunda que não sei o que fazer

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Por Rita Lages Rodrigues, historiadora e professora da Escola de Belas Artes da UFMG.

Tive a infelicidade de entrar no Museu do Amanhã em julho deste ano. Meu filho desejava ir ao Museu. Ao ver o fogo no Mseu Nacional pela tv, pensava: por que não o levei ao Museu Nacional? Arrependimento. Entre aparatos tecnológicos de pobreza conceitual, fiquei estarrecida com o museu sem acervo e com a pseudo interatividade de seu aparato tecnológico. Mesmo na sala de inteligência artificial, a decepção foi imensa. Faltava inteligência. Pra que um gasto tão grande para um museu cujas informações poderiam estar na internet e cuja fruição se daria praticamente da mesma forma? Fiquei olhando para logos de banco e Fundação Roberto Marinho e pensando nas distorções da distribuição de verba para a cultura. Na excrescência da tal Lei Rouanet. Espaços sem acervo, que não produzem pesquisa são espetacularizados para a venda, sem produzir nada além desse espetáculo vazio. Nós pagamos, os espaços recebem uma frequência de público alta em função da propaganda massiva de redes de televisão e bancos e justificam assim, em números, a sua "relevância". No caso das mega exposições do CCBB, outro espaço merecedor de crítica, é necessário também pensar no dinheiro público gasto para trazer acervos de fora, em projetos curatoriais sofríveis como o da exposição do Basquiat.
Tá, o prédio do Museu do Amanhã é um bom lugar pra selfies. É o único elogio que consigo fazer. Mas é um elefante branco pra população brasileira.

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Por Makely Ka, cantautor, poeta, produtor e ativista cultural, atuante na contra-indústria da cultura. 

Estive no Museu Nacional em 2004 e planejava voltar com meus filhos, cada vez mais interessados em história, paleontologia e cultura indígena. Mas para além de todo o acervo eu tinha interesse em um item muito específico. Pesquiso há alguns anos a história do antigo reino do Daomé - hoje República do Benim - para um trabalho que venho desenvolvendo sobre o personagem Francisco Félix de Souza, o Chachá.
Consta na historiografia que esse brasileiro conhecido como um dos maiores traficantes de escravos da época chegou à costa africana no final do século 18 e trabalhou na recuperação da Fortaleza de São João Batista de Ajudá, localizada na cidade de Uidá. Preso e torturado na capital histórica Abomé, ele teria conseguido escapar com a ajuda do príncipe Gakpé. Com apoio de Portugal o brasileiro ajudou o príncipe a derrubar o rei Adandozan (seu irmão paterno, conhecido pela crueldade com que governava) e assumir o trono do Daomé como o rei Ghezo. O monarca deposto foi preso e sua história apagada da linha sucessória real. Seu trono, peça exclusiva de cada governante esculpida em madeira com riqueza de detalhes simbolizando a ligação material do humano com o sagrado, precisava desaparecer, embora aparentemente não pudesse ser destruído por questões religiosas.
A peça não consta do acervo no Museu Histórico de Abomé. Há indícios de que o trono teria vindo para o Brasil em 1811 junto de outros objetos. Mas Adandozan foi deposto somente em 1818. Pouco provável que durante seu reinado o monarca tenha enviado o próprio trono para um país estrangeiro. A outra hipótese é que o trono teria chegado ao Brasil em 1822, quatro anos depois da queda do rei, como presente a Dom Pedro I pela declaração da independência. Segundo Pierre Verger muito provavelmente a mobília esculpida em uma só peça que ardeu no incêndio do museu tratava-se do trono real de Adandozan - enviado por Gakpé como retaliação por seu irmão ter vendido a rainha Ná Agontimé, sua mãe, como escrava.
Mulher do rei Agongló, após a morte do marido a rainha teria sido enviada ao Brasil como cativa e vivido no Maranhão, onde foi reconhecida sua linhagem real. Rebatizada como Maria Jesuína, os historiadores contam que ela comprou a própria alforria e a de seus súditos fundando a Casa das Minas, importante centro cultural e religioso onde ainda hoje se cultua os voduns, entidades da antiga religião daomeana e origem do tambor de crioula.
Outro detalhe interessante é que no Museu Histórico de Abomé os tronos da dinastia real não são mais os originais, queimados no ataque à cidade promovido pelo rei Behanzin em 1892. Portanto a peça que virou carvão no Museu Nacional do Rio de Janeiro era provavelmente o mais antigo e talvez o único trono original da dinastia dos reis daomeanos. Agora não dá mais para saber.
Cada um dos milhões de objetos que estavam ali carregava uma história, estava repleto de significado e simbologia, ligava um ponto da longa trajetória da nossa civilização e do nosso planeta ao presente em que vivemos. Tenho a impressão que vamos levar ainda muito tempo para entender a dimensão e as consequências do que aconteceu.
A revista científica Nature comparou o ocorrido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, uma catástrofe que destruiu o acervo de toda a antiguidade, o conhecimento de vários povos, línguas e culturas já extintas. Meu filho disse em tom de brincadeira que catástrofe maior do que essa para a ciência só o meteoro no Golfo do México, que extinguiu há milhões de anos a maior coleção paleontológica que já existiu. Mas a verdade é que os moleques ficaram bem tristes. E eu fiquei envergonhado, por fazer parte da geração que não vai deixar esse legado para eles.


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domingo, 2 de setembro de 2018

À luz de um museu em chamas

Assisti recentemente a Mãe! de Darren Aronofsky, diretor de quem admiro vários filmes, como Pi, Réquiem para um sonho, Fonte da Vida e Cisne Negro. Deixei passar um longo depois de algumas resenhas, não muito conclusivas. Gosto do seu cinema porque é cinema em que a imagem está a serviço de uma Visão, ou seja, de uma ideia que é preciso traduzir no que se vê. É dos raríssimos que consegue fazer isso em Hollywood. E por isso ganha de um lado, perde de outro. 
O filme tem, num de seus planos narrativos, a história de uma casa que pega fogo, é restaurada num esforço de trabalho, e é novamente incendiada num ato extremo induzido por uma humanidade em frisson barbárico. A história que conta é uma parábola, ou talvez seja a compilação da bíblia do gênese ao juízo final, ou ainda uma grande alegoria da sociedade contemporânea. Como em muito de seus filmes ele faz um pêndulo entre um plano de narrativa épico e outro corriqueiro. Problemas mundanos do relacionamento de um casal vivendo numa casa de campo são a metonímia da humanidade em crise incapaz de criar e manter a criação, incapaz de manter sua casa - a Terra - em ordem, ou num plano maior, a encenação do drama judaico-cristão em seus impasses entre sagrado e profano, criador e criaturas. Sua versão concentrada da história da civilização predatória que geramos é uma ambígua mescla de eterno retorno com profecia apocalíptica.
Agora fico sabendo dessa verdadeira desgraça de incêndio completo do bicentenário Museu Nacional, no Rio [matéria de El País] [depoimento de aluna da UFRJ]. Um museu arde em chamas, e nas sombras da noite clamam as vozes dos outros, dos idos, mas andamos cegos e surdos, andamos embebidos em gasolina, em óleo e ódio libidinosos incendiando o futuro do pretérito. É uma verdadeira alegoria do momento do país, lamentavelmente. Tudo pega fogo e desaba, por decisões que são resultado direto de uma visão rapace sobre o Estado, desvios monstruosos de recursos públicos, manutenção de privilégios absurdos em todos os poderes, e não apenas em esfera federal, intermináveis isenções fiscais a todo tipo de empresa que devasta nossa terra, e tudo isso adornado por debates estéreis e um sistema político decrépito, ainda por cima contestado por uma horda de fascistas, interesseiros e incompetentes que pretendem simplesmente aprofundar toda essa ruptura que segue seu curso há vários anos. 
Logo virão as desculpas dos responsáveis, o jogo de empurra das responsabilidades e a imputação à fatalidade, ao acaso ou forças desconhecidas da 'natureza'. Pesquisei um bocado e certamente se pode dizer que em qq desastre natural há um componente social - ainda que este incêndio, após investigações , não se mostre criminoso. Mais leituras para agregar informações e perspectivas:

Terra:Museu Nacional: fiação exposta, gambás e cupins entre os alertas ignorados que anunciavam tragédia


BBC: Museu Nacional: cientista arromba porta de prédio em chamas para recuperar peças 'insubstituíveis'

EBC: Gasto da União no Museu Nacional caiu mais de dez vezes desde 2011


BBC: Em 2017, mais brasileiros foram ao Louvre, em Paris, do que ao Museu Nacional


Folha/UOL: Nossa elite só se interessa por museu na Europa, diz pesquisador da UFRJ

"Em 2017, o orçamento executado do MinC foi de cerca de R$ 552 milhões". Pouco mais do que a receita de um grande clube da série A, por exemplo. Entendeu o tamanho do buraco? "Historicamente, a parte que cabe à Cultura é de uns 0,07% ou 0,08% do orçamento da União". Entendeu? Os invariáveis defensores do estado mínimo, acham que vai acontecer o que com "tudo isso"? Enquanto isso evidente suspeição paira sobre a saída o presidente do IBRAM na sexta anterior [comunicado Minc], o que no mínimo revela muito do estado de penúria e visão equivocada da Falta de política de cultura nesse país. Já passou muito da hora de colocar certos pingos nos is. E nesse sentido, gostaria de acrescentar, além do que já disse à Rádio UFMG, o que escrevi comentando as recorrentes argumentações que pretendem jogar todo o peso do incêndio do MN no colo do Golpe - ainda que os cortes recentes sejam mesmo gritantes. O fato de reconhecer ganhos não é incompatível com fazer críticas responsáveis cuja finalidade, a meu ver, não é desmoralizar nem desconsiderar o que foi feito em períodos anteriores. Acho equivocado e esquivo esse recurso de um "álibi" propiciado por candidaturas mil vezes piores para se justificar que não se faça críticas ao PT. Que democracia almejamos? Que tipo de intelectuais somos se nos furtamos a discutir, com propriedade de causa, as políticas públicas, seus acertos e erros? Correr disto é nivelar por baixo, ainda mais porque são críticas sérias. Discutir orçamento não se reduz a constatar um aumento ou diminuição do montante total. Temos que ir muito mais a fundo. Nem todos esse milhões, afinal, poderiam repor o que foi perdido no MN domingo, só pra dar um exemplo. Se não tivermos a capacidade de compreender os erros em toda sua extensão, estaremos queimando o museu uma segunda vez, porque diante dessa perda temos a obrigação de evitar - ou fazer tudo ao nosso alcance, pelo menos - que outras aconteçam. Para o entendimento das questões de administração pública, universitária, políticas de cultura, funcionamento de Lei Rouanet e as decisões sobre o que financiar, complemento com as pontuações dos professores Carlos Fico e Wilson Gomes, a matéria do Lupa (uol), da BBC, El País e Uol, esta última com oportunas considerações sobre o Museu do Amanhã. 

Nem o incêndio do Museu da Língua Portuguesa (de consequências bem menos dramáticas , aliás) serviu de aviso. Nem as intempéries anteriores do próprio museu [matéria da Folha SP].  Vale ver a matéria da Record. Acho que nunca na vida escutei a palavra 'museu' ser dita tantas vezes, em tantos lugares. De uma forma difusa, e pouco informada, as pessoas tateiam o assunto mas se mostram, via de regra, sensíveis à perda e com um pouco mais de disposição para saber do que não conhecem. Disse à reportagem do Hoje em dia que diante desta perda irreparável "a sociedade agora deve refletir sobre o quanto o cuidado com o patrimônio é um tema central nas agendas políticas dos próximos anos”. É assim que devemos interpelar o público enquanto o calor de chamas tão terríveis não se dissipa, pois só assim podemos ter algum desdobramento consequente após essa desgraça. Antes que eu me arrependa, mesmo que no calor dessa hora, na consternação do luto, é preciso dizer o seguinte: não é o primeiro nem último museu do mundo que pega fogo. Há cidades inteiras que foram abaixo, destruídas por guerras, bombas atômicas, vulcões, tsunamis. Patrimônio e vidas incalculáveis se perderam. Não há retorno. Não se trata de atenuar nada. Isso não é possível. Não se trata de desculpar quem ou que quer que seja. Quem sejam apuradas as devidas responsabilidades, mas com muita atenção para evitar os bodes expiatórios. Se trata de tirar o sentido político profundo do âmago dessa catástrofe anunciada. 




Podemos diante dela ficarmos emparedados no imobilismo, mas podemos também tomar decisões sérias e consequentes. Temos que olhar mesmo bem dentro do crânio das órbitas cheias de cinzas [vídeo mostrando o interior destruído], e além [vídeo com visita pelo interior antes da destruição] [vídeo doc 200 anos do MN]. Olhar para o passado não para sucumbir ao pesar, mas para fazer o necessário trabalho de luto sem desistirmos da luta [cinejornal de 1956, do Arquivo Nacional]. Temos que parar tudo e reconstruir, com o que temos, o que sabemos, e é preciso, para início da conversa, um grande esforço coletivo porque não há São Sebastião que resolva isso.


Não adianta chorar o leite derramado. Há uma opção pela barbárie, e é isso que temos de combater. Há, nesse exato momento, um incontável acervo, um sem número de museus, e outras instituições que são responsáveis pelo patrimônio cultural e científico brasileiros, à beira da morte, de várias formas, não só por incineração, mas por afogamento, estrangulamento, asfixia. Estão muitas delas a uma distância relativamente pequena de onde vivemos, estudamos, trabalhamos. Está na hora de fazer alguma coisa séria a respeito. Vamos chorar essa perda mas vamos reagir. É precisa uma movimentação nacional. É preciso agendar conversas com todos os candidatos progressistas e cobrar uma agenda concreta. É preciso fazer um diagnóstico imediato dos casos mais dramáticos.

Só nos resta, com gosto amargo na boca, fazer dessas chamas um farol.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Cidades mortas, acervos vivos

Cidades Mortas (2007), do historiador e estudioso do urbanismo Mike Davis, é um dos mais argutos diagnósticos do século XXI, publicado ainda na sua aurora (2002) e nos rastros de chamas e fumaça do 11 de setembro. O papel do medo na cultura contemporânea, a ascensão do fascismo, a perseguição aos imigrantes, o aperfeiçoamento do aparato de vigilância, a insustentabilidade do capitalismo e as contradições da globalização, tá tudo ali.


Seu segundo capítulo, Ecocídio na terra de Marlboro, é um contundente ensaio sobre a calamidade ambiental e social resultante da destruição e contaminação radiotiva pelo emprego reiterado de artefatos nucleares na "zona de sacrifício nacional" determinada pelo Pentágono no Oeste estadunidense, envolvendo estados como Califórnia, Nevada, Utah, e, em sua periferia, Colorado e Wyoming. O impacto de tais experimentos, cuja extensão talvez possa ser equiparada ao desconhecimento que os encobre, é de maior magnitude que o do desastre de Chernobyl, cuja exposição o autor compara, chamando a atenção para a relação do mesmo com o degelo e ocaso da antiga URSS. Uma das linhas de força do livro é mostrar que a Guerra Fria, mesmo sem ter se tornado "quente", deixou um rastro de vítimas e destruição, particularmente entre populações depauperadas e com pouco poder  político, sobrevivendo em regiões que já eram inóspitas. [foto acima, Carole Gallagher]



O que me fez escrever esse texto aqui é que essa denúncia contundente da calamidade atômica feita por Davis constitui-se como um ensaio sobre acervos fotográficos de caráter artístico e documental, como as séries "The Pit" e "Bravo 20" dos Desert Cantos de Richard Misrach [aqui para conhecer um pouco mais de sua obra] ao trabalhos de grupos de fotógrafos ativistas como os Fotógrafos Atômicos, como Carole Gallagher e seu trabalho American Ground Zero, que conjuga história oral e registro fotográfico, mas retomando as referências compartilhadas que conferem "autoridade histórica" (DAVIS, 2007, p.56) aos projetos, como o arquivo dos grandes levantamentos científicos e topográficos do Oeste feitos no século XIX e os registros da Grande Depressão pelos fotógrafos da FSA (Farm Security Administration), como Dorothea Lange [foto abaixo, dela, Migrant Mother, 1936].  



O valor de manter e dar acesso, seja a pesquisadores ou ao público em geral, de acervos dessa natureza, é inestimável. Escrevo essas linhas com particular convicção na semana em que o grupo de pesquisa ESTOPIM, do qual sou um dos coordenadores, inicia a mostra e oficina Horizonte em Foco no Museu da Imagem e do Som BH, na sua unidade Cine Santa Teresa, cujo intuito é justamente mobilizar o acervo da instituição para refletir sobre a cidade, seu história e seu patrimônio cultural. Também me motiva o retorno às aulas nesta semana, até porque leciono Função social dos museus, além de Tipologia de museus na graduação em Museologia e da disciplina Memória, Patrimônio e Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na ECI/UFMG. Estou fortemente inclinado a incluir o Mike Davis na bibliografia.