quinta-feira, 8 de março de 2018

Entre o nu e a assinatura: o papel da mulher nos museus de arte [Tipologia 2017]

ECI - UFMG - Museologia
Grupo: Beatriz, Bruno, Carina, Renata, Ronaldo.


“As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? Apenas 6% dos artistas em exibição são mulheres, mas 68% dos nus são femininos”

Quase sempre, o primeiro contato que temos com a arte é na escola, seja visitando um museu, seja frequentando as aulas de arte que fazem parte da grade escolar. Nessas classes, o indivíduo começa a ter as primeiras noções sobre os artistas, as coleções, os espaços culturais e museus. Por isso é tão importante que esse contato inicial com a arte seja estimulado de maneira prazerosa, instrutiva, preocupada com os conceitos que são ensinados, sem nunca esquecer de levar em conta o universo imenso e diverso que temos na área artística.

Quando o aluno é incentivado a expandir seu modo de ver, de se expressar e de se comunicar através do que está sendo apresentado a ele, tanto nos museus quanto dentro da sala de aula, ele se torna um cidadão capaz de se conhecer e se reconhecer dentro da sociedade de uma forma muito melhor.

A arte é uma construção social, por isso, definir um conceito único de arte se torna praticamente impossível. Ela possibilita a percepção individual de cada ser humano e, por ser quase um sinônimo de expressão de sentimentos, cada um percebe a obra artística de acordo com as próprias experiências de vida, criando um diálogo único com o que está sendo visto, ouvido ou sentido. Essa conversa permite que a arte ganhe um significado singular para cada pessoa, e é por isso que estimular desde cedo o contato com o universo artístico é tão importante.

O lugar mais comum para a arte é o museu. Com a instituição museal surgiram e foram desenvolvidos seus conceito como a museologia social que trata de reflexões que instituem o museu integral, ao serviço da sociedade, e, por outro, vinculam os museus a novas funções sociais, como agentes de comunicação e de intervenção social, tendo como epicentro o indivíduo e a comunidade, deixando o museu de ser encarado como mero local de armazenamento de coleções ou de memórias.

A partir disso, a museologia de género pode ser também entendida também como a feminização das funções de direção e de curadoria de museus ou de instituições museológicas, bem como a sua representação no próprio espaço do museu, a qual é considerada indispensável à concretização de políticas de boas práticas. O conceito de museologia de género é relativamente recente, tendo surgido nos anos 1990. Resultou da convergência de diferentes fatores, provenientes tanto da área específica da museologia como do campo dos estudos das mulheres e do género.

“Ser artista para a mulher é resgatar o mito de Lilith, substantivando predicados de valor: ser disciplinada, criativa, inovadora, autônoma, ter o domínio da técnica. Ser artista é abrir possibilidades e atributos, construindo a si mesma como sujeito”

O destino biológico da mulher ao longo da história sempre ficou restrito à esfera doméstica, nos cuidados da casa, filhos e maridos. A esfera cultural, por outro lado, foi restrita aos homens, cidadãos, que tinham papel de grande importância dentro da comunidade.

Desde a pré história o corpo feminino foi mistificado através do poder da geração da vida. A preservação da espécie fica como responsabilidade da mulher, portadora dessa desse processo magico. O mais comum exemplo dessas representação é a Vênus, tão normalmente encontrada dentro das obras de artes. É a partir daí que” a mulher perde espaço cultural cooperativo na medida que o homem passa a dominar a sua função biológica.”

Na Grécia antiga o corpo idealizado era o masculino, enquanto a fisionomia feminina era mostrada em grande parte vestida. Já na Idade Média o corpo feminino passa a ser porta de entrada para o pecado, enquanto a imagem da virgem passa a ser a idealização do feminino. A exaltação da beleza feminina se dá somente a partir do Renascimento onde a mulher se torna objeto de admiração pela sua imaculada beleza. Durante o renascimento a beleza passa a ser exterior, e a mulher passa a ter importância social pelo seu poder de sedução.



A partir do século XV, com a efervescência de corte que busca uma individualidade, construída a partir das identidades, aparece o estilo na arte e aparece também a emergência de uma nova linguagem: o corpo nu. O corpo feminino passa a ser celebrado ao longo do século XV ao XVIII. “A sensualidade da mulher adquire valor social: a venenosa nudez, o despudor. A mudança no imaginário erótico é representado. Vemos nas representações da mulher a partir do renascimento o refinamento do flerte juvenil; a tentação servil; a erotização da esposa; a infidelidade conjugal; prostitutas mais adequadas e discretas - a representação das artistas (cantoras e dançarinas) A mulher além de segundo sexo, passa a ser o belo sexo.” Os temas mitológicos e bíblicos são pretexto para despi-las e a ocorre a predominância do nu feminino sobre o masculino.

O êxito estético da imagem da mulher sob a imagem masculina, no entanto, não eliminou de fato as relações hierárquicas presentes na ideologia social, podendo até ter contribuído para reforçar um estereótipo equivocado e que é se é presente até hoje ( a mulher como um ser frágil, dócil, passível, condenado à dependência). Nesse processo todo de idealização da imagem feminina ocorre o aprisionamento da própria essência da mulher, que até hoje não se vê representada por tais imagens, sejam elas em obras de artes, esculturas, à até mesmo capas de revistas e outdoors.

É somente a partir da década de 70 que artistas, críticos e historiadores feministas começam a reivindicar o espaço da mulher artista dentro da história da arte, excluída pelo monopólio masculino, sendo que as qualidades femininas foram muito tempo vistas como negativas nas obras de arte e que, a história da arte tem construído um discurso do artista como herói (homem), o que descarta a mulher deste universo.

A conquista à alfabetização e escolaridade se deu de forma diferente entre homens e mulheres, assim como seus direitos como cidadão. Nascidas em famílias de alta condição social e de caráter mais libertário, de fato um pequeno número de mulheres obtiveram a oportunidade de se tornarem artistas. Mas a educação feminina sempre estava primordialmente relacionada aos hábitos domésticos.

“As lentas transformações se devem, provavelmente ao não reconhecimento da mulher como participante da sociedade no âmbito público e na cultura, não sendo necessário seus direitos a instrução”

Grandes mulheres passam a aparecer no meio das artes e protagonizam a luta pela assinatura até hoje. De forma representativa podemos citar Artemisia Gentilesch (1593) que sua história, como mulher e como artista, ganhou repercussão após sua temática agressiva contra homens. Artemisia, da Itália, é conhecida por influências de Caravaggio na sua pintura porém, ela a história que não se repercute e que realmente afetou diretamente o seu trabalho é de seu estupro. Após ser estuprada e, além disso, culpada por, momento, estar no lugar errado (um ateliê de arte), percebemos uma mudança brusca na sua forma de pintar. Artemisia Gentilesch não foi uma representante do barroco italiano apenas por admirar o trabalho de Caravaggio mas porque todo o horror e trauma que viveu e que só o barroco com suas cores fortes poderiam representar.

Além desta, podemos citar Berthe Morisot (1841) que é representante do impressionismo, apenas exaltado por assinaturas como a de Van Gogh e Manet. Kathe Kollwitz (1867), da Prussia, representante do expressionismo alemão tratava de questão sociais de seu tempo, entre duas guerras, além de dominar técnicas de gravura e litografia. Tamara Lempick (1898), fugida aos 14 anos com a família para paris para fugir dos horrores de Varsóvia, representa o art decó e a geometrização da pintura. Podemos citar também Frida Kahlo que, apesar de toda a sua maestria, ficou mais conhecida por sua relação perturbada com seu marido, o também pintor Diego Rivera. Além disso podemos citar ainda Anita Malfatti e Tarsila do Amaral além de Bertha Lutz pela sua influência tanto na briga por direitos feministas quando pelos museus de ciências naturais.

Um grupo de mulheres vem se destacando, mas elas já exercem suas atividades há pelo menos 32 anos, elas se auto intitulam Guerrilla Girls, usando máscaras de gorila para protestar de forma bem-humorada e ousada contra a desigualdade de gênero e de raça no mundo da arte – em inglês, a pronúncia das palavras guerrilha e gorila é semelhante. O questionamento central é: Por que há tão poucas artistas mulheres com obras em exposição nos museus e galerias de arte, se há tantas modelos nuas nas peças exibidas?

GUERRILLA GILRS: As mulheres, seus espaços da arte, todos os espaços da arte

Para exemplificar as possibilidades de expressão feminina no mundo da arte e confirmar os reflexos do mundo real no mundo da arte nasceu nos anos 1980 o grupo Guerrilla Girls. Formado por um grupo de mulheres buscou mostrar ao mundo que a desigualdade de gêneros também se refletia no campo das artes. O primeiro foco de atuação ocorreu em função da exposição “An international survey of recent painting and sculpture” (“Um panorama internacional da pintura e da escultura recente”) que ocorreu no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1984.

Qual a realidade da exposição de 1984?

A de apresentar um panorama artístico em que somente 13 dos 165 artistas de 17 países que expunham suas obras eram mulheres. Uma realidade no mundo das artes que refletia a desigualdade social entre homens e mulheres e que se intitulava como aquela que, à época, representava um conjunto dos mais importantes artistas do mundo.

O propósito do grupo é ter como foco as questões relativas à realidade das mulheres nos diferentes campos sociais, sejam pessoais ou profissionais, sejam privados ou públicos, sejam individuais ou coletivos. Iniciada com a exposição de uma situação diferenciada quanto ao gênero feminino no mundo das artes, as diferentes expressões do grupo buscaram expor questões sobre a participação das mulheres nos diferentes campos e uma relação com o mundo das artes.

Desde a formação elas são incógnitas e anônimas e contam com mais de 55 membros ao longo do tempo em que atuam com máscaras de gorila como forma de expressão e para se manterem “desconhecidas”. Realizaram mais de 100 projetos com propostas que compõem desde projetos de rua, cartazes e adesivos a exposições em museus em que “desnudam” um universo em que se tem práticas discriminatórias exemplificadas pelas desigualdades recorrentes nas exposições e no campo das artes. As formas de expressão do grupo se fazem em cartazes provocativos e reflexivos cartaz acerca da quantidade de mulheres em exposições, de maneira cronológica e perspectiva nos Museus de Nova York: “Quantas mulheres tiveram exposições individuais em Museus de Nova York no ano passado? como abaixo apresentado.



Se percebe do movimento uma preocupação com as questões de gênero no mundo das artes, seus reflexos e suas intenções. Ainda assim se percebe um campo a ser explorado, de busca da participação e da identidade feminina de maneira igualitária e libertária. Um grupo que busca desconstruir o modelo social e histórico de visão do mundo feminino, do mundo da mulher.
Elas estão por diferentes locais, pelo mundo. De diferentes maneiras, em suas expressões, seja em cartazes, livros, adesivos, ações, conversas, apresentações, workshops e exposições. No ano de 2017 foram diferentes manifestações, na Marcha das Mulheres em Washington DC e em Los Angeles e na “Occupy Museums Statement and Protest” no MoMA em Nova York. Durante o meses de setembro a novembro de 2017 participam de uma mostra em São Paulo no MASP com sua primeira retrospectiva sob o título “Guerrilla Girls: Gráfica, 1985-2017” no período de 01/12/2017 a 14/02/2018 com cerca de 100 dos trabalhos mais importantes cartazes em 30 anos de carreira.
Se não por obrigação ou dever, os museus de arte têm por uma questão de consciência essa dívida com as mulheres. Eles devem repensar a forma em que as mulheres estão representadas em suas galerias, elas não somente devem ocupar o posto de “objetos museais”, mas também o de criadoras desses objetos, de expositoras, de curadoras ou qualquer outro que lhes convir. Vá ao museu mais perto de você e conte os trabalhos assinados por mulheres. O desafio lançado pelas Guerrilla Girls há alguns anos mantém-se atual: a relação das mulheres com os museus define-se pela ausência, sobretudo ao nível dos discursos expositivos.
Aliás, de um modo geral, o simbolismo e a metáfora têm, nos museus da mulher, um lugar cativo. Portanto, é perceber que todas essas mulheres, - seja ela de Willendorf, de Milo ou de Malta - ganharam vida e estão por aí criando sua própria visão do que venha a ser a Vênus Moderna. Sendo assim, os lugares de memória, devem introduzir pontos de vista tendentes à igualdade, de modo a que também reflitam o protagonismo feminino no processo da construção humana.

Referencias:

EXPOSIÇÃO EX AFRICA: UMA REFLEXÃO SOBRE A ARTE CONTEMPORÂNEA AFRICANA [Tipologia 2017]


Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação
Museologia – 3º Período
Disciplina: Tipologia de Museus - Prof. Luiz Henrique Assis Garcia
Alunos: Cláudia Camelo, Cristina Fonseca e Polianna Santos.


           

Fonte: Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte - Inzilo, Mohau Modisakeng

            Ressignificar a história, transferindo o olhar para a outra margem do oceano, é a abertura para o diálogo entre o passado e o presente no atual mundo globalizado. A arte contemporânea se apresenta como o veículo portador de uma nova visão que está permitindo a arte não-ocidental penetrar e transcorrer pela cena artística mundial. No caminho da descolonização da arte, a exposição Ex Africa, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte, é espaço de reflexão e enfrentamento dos moldes escravistas propagados. Em formato blockbuster, internacionalmente padronizada e inserida na conformidade da indústria cultural, a exposição intenta discorrer sobre realidades que vão ao encontro da arte africana, através da expressão de dezoito artistas vindos de oito países da África.


Fonte: Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte - Fragments from the City, Abdulrazaq Awofeso

Fica evidente a potencialidade dos temas abordados, ao passo que os processos de transformações radicais que a África passou nas últimas décadas e a globalização generalizada se mesclam às inscrições deixadas pela história em todo o continente. Esse tem sido um debate internacional que aborda um pensamento descolonial do século XXI no campo da arte não-ocidental e, que propõe o deslocamento da ideia eurocêntrica de uma arte tradicional, que carrega o selo do artesanato e das referências etnográficas, para uma dimensão contemporânea da produção artística africana, politicamente engajada, interativa, diversificada e marcada por processos de intercâmbios e aculturações.



Exposição “l’Art des Lega d’Afrique Centrale”© musée du quai Branly

        Nos gabinetes de curiosidades, as coleções funcionavam como emblema de poder e prestígio social do colecionador, nas quais a Europa se embasava para definir e subjugar as sociedades não ocidentais, assim como, ainda hoje, as coleções de arte “primitiva” nos museus etnográficos também são baseadas em  relações de disputas e poder. O que a arte contemporânea africana traz à tona são questionamentos sobre os museus tradicionais onde a arte africana, tida como estagnada historiograficamente, sofre uma resistência à sua integração em acervos diversos, produzindo assim um discurso que aborda as relações de poder incorporadas nesses acervos.

Fonte: Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte - Genesis [Je n'isi isi] III, Kudzanai Chiurai

            São inegáveis as considerações que se pode fazer ao visitar Ex Africa. Deixa-se para trás experiências vividas em museus etnográficos, muitos deles agora tipificados como museus de arte, a exemplo do museu do Quai Branly, em Paris, França, cuja abordagem hoje de suas coleções tradicionais é predominantemente estética. Fundado a partir dos acervos de dois museus etnográficos e pela parceria entre o presidente Jacques Chirac, que intencionava deixar a marca de sua gestão no patrimônio cultural francês, e pelo amigo e colecionador de arte africana Jacques Kerchache, o Museu Branly sentiu as pressões anti-colonialistas pelas quais passavam os museus etnográficos, acusados de reificação e caricaturização das culturas alheias. Viu-se, então, tensionado a deslocar o olhar sobre suas coleções para uma via estetizante, que se insere ao mercado de arte, sem entretanto aprofundar a discussão acerca dos movimentos artísticos pós-coloniais e tão pouco abrir-se a eles.

Percebe-se, no discurso institucional, uma certa preocupação de dar espaço ao Outro e de contextualizar os contatos interculturais entre europeus e não-ocidentais. Contudo, predomina a intenção de transformar a nova instituição em um ponto turístico nacional e internacional, voltado ao lazer e à diversão acessíveis ao grande público (GOLDSTEIN, 2008).
       
            Neste sentido, fica evidente na exposição Ex Africa uma abertura ocidental aos diversos estilos de arte que coexistem no continente africano, superando o estigma da arte primeira e também o poder por detrás de uma exposição internacional que traz conceitos e problematizações próprios das sociedades contemporâneas africanas, no que tange às relações antepassadas entre os continentes e seus desdobramentos globalizantes.

A ideia da arte “etnográfica” designada assim pela sociedade ocidental, onde os povos não-ocidentais seriam capazes apenas de produzir uma arte “primitiva”, um artesanato, como uma manifestação tradicional padrão e não uma produção individual, é refutada nesta mostra. A exposição Ex Africa apresenta justamente a individualidade na arte contemporânea africana, visto que já na apresentação da exposição os nomes de todos os artistas estão indicados na parede de entrada, mostrando que esta individualidade não ofusca o sincronismo e a coerência existentes entre as obras e os artistas. Para PRICE (1996),

(...) adaptações, inovações e reelaborações criativas configuram as formas, em constante evolução, da música e da dança, tanto quanto das artes plásticas (e visuais) ... não é nenhuma arte "tradicional" passivamente herdada da África, mas sim a soma total de uma corrente de inovações, através das quais os artistas jogam com as formas tradicionais sem jamais deixá-las inalteradas.

Tudo isso na ótica da arte contemporânea africana, com suportes e técnicas variados, que utilizam fotografia, instalação, vídeo, pintura, escultura e até Afrobeat, música pop de Lagos (Nigéria), que surge como um pertinente exemplo de aculturação. É o que pudemos sentir e compreender na exposição Ex Africa, um recorte cultural do mundo não-ocidental, em especial o africano, com sua própria narrativa acerca de questões históricas, da natureza da criação individual, da autoria desta criação, das relações entre arte, religião, poder, mercado e sobretudo das relações pós-coloniais regionais e intercontinentais. Todas essas obras estão repletas de histórias a contar e ressignificar, ecoadas da outra margem do oceano.

Links:




r/fr/
REFERÊNCIAS:

AREIA,  Manuel Laranjeira Rodrigues de . Patrimónios Culturais Africanos: 1 As Velhas colecções e a nova África  Africanologia - Revista Lusófona de Estudos Africanos n. 2 (2009): Africanologia

EXPOSIÇÃO EX ÁFRICA, 2017, Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, MG. Catálogo Ex África, Belo Horizonte, MG, Ministério da Cultura, 2017.

GOLDSTEIN, Ilana, 2008, Reflexões sobre a arte “primitiva”: o caso do Museé Branly, Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 14, n. 29, p. 279-314, jan.| jun. 2008.

PRICE, Sally, 1996, A arte dos povos sem história, Afro-Ásia 18 (1996), p. 205-224.

A censura como instrumento de poder [Tipologia 2017]



ECI - UFMG - Museologia


Grupo: Isabela Rocha, Victor Zanini, Luiza Fortes, Caroline Moraes, Rafaella Almeida, Heloísa Hashimoto, Edson Augusto. 

A arte tem como uma das suas funções a elaboração de discursos e diálogos que buscam a quebra de paradigmas culturais/sociais. A arte em si, que nada mais é do que uma expressão livre nunca buscou impor e sim levar a discussão. A censura está sim impositiva, leva a ignorância de todos uma vez que se limita a interpretação da expressão, encerrando o debate em função dos valores de alguns. Geralmente vinculada a visão conceitual de (des)governos e preconceitos sociais que buscam moldar a estrutura e o padrão de expressão da sociedade. Através da leitura do livro “Europa Saqueada” de Lynn H. Nicholas é possível construir um paralelo de ligação entre a repressão de movimentos artísticos e governos de cada época. A repressão ao que é diferente e a censura sempre existiram deixando como questionamento a forma como é definido o conceito do que é arte e os limites de sua expressão, esta que é uma expressão de liberdade, do cotidiano e da experiência do ser humano. 

Segundo Zygmunt Bauman, há grande cinismo na sociedade, principalmente daqueles que tentam impor seus gostos à multidão e podemos dar vários exemplos disso como Michelangelo e a sua obra “Juízo Final” que foi censurada por ser considerada profana e imoral para os valores da fé católica da época. Como sabemos, tempos depois os nus de Michelangelo já estavam sendo um pouco mais aceitos e devidamente reverenciados, o que não preveniu que muitas obras ainda fossem censuradas e escondidas por panos em exposições. No ano de 1865 o quadro “Olympia” de Manet foi considerado extremamente vulgar por trazer uma nudez realista, diferente dos padrões que traziam um nu idealista do corpo. 

Se a censura social de determinado tipo de arte já se configura como imposição de determinados setores da sociedade, a destruição permanente da mesma também é instrumento de poder como podemos ver desde as ações do Terceiro Reich alemão aos recentes atos de terrorismo na Síria e no norte do Iraque. A manifestação artística é uma das formas mais primordiais de comunicação e expressão humana (tendo como exemplo a arte pré-histórica) e através dela podemos perceber a construção da identidade de determinadas sociedades, grupos e nichos específicos independente de sua época. Enquanto que através da censura, podemos perceber quais grupos são dominantes e quais são os invisibilizados. 

O uso de censura é termômetro para avaliação de políticas fascistas e a ação de se censurar nada mais é do que um ato de intolerância e um desrespeito ao estado democrático pois não é possível a real expressão artística sem a liberdade de expressão, limitando a capacidade de entendimento e diálogo, em função da manutenção de valores e dogmas. 


Bibliografia: 

LOURENÇO, Maria Cecilia França. Museus acolhem moderno.São Paulo: EDUSP, 1999. 293p. 

NICHOLAS, Lynn H. Europa saqueada: o destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 538p. 

BALDASSARRE, Maria Isabel. As origens do colecionismo de arte pública e privada em Buenos Aires. In: SOUZA, Eneida Maria de; MIRANDA, Wander Melo(Orgs.). Crítica e coleção. Belo Horizonte: UFMG, 2011. pp. 308-326. 

COSTA, Helouise. Da fotografia como arte à arte como fotografia: a experiência do Museu de Arte Contemporânea da USP na década de 1970. An. mus. paul. [online]. 2008, vol.16, n.2 [citado 2013-08-28], pp. 131-173 . 

MACHADO, Fernanda Tozzo. Os museus de arte no Brasil moderno: os acervos entre a formação e a preservação. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. 2009, 187 p. 

DEMARCHI, Rita de Cássia. Arte como conhecimento, patrimônio e identidade cultural 

Até onde pode ir a censura a obras de arte – REDE TVT: 


Um Império e dois Museus: Uma Breve História [Tipologia 2017]



UFMG - ECI - Museologia
Grupo: Letícia Castro, Miguel de Araújo, Paula Cury, Paschoal Colombini, Taynah Perfeito


Duas observações são correntes sobre Museus Históricos: são vinculados a formação dos Estados Nacionais e são construtores de uma Identidade Nacional. Nos domínios brasileiros, no período do Império, a História Nacional buscou se legitimar diante da visão do colonizador. Por essa perspectiva, os Museus Históricos foram criados sob um forte romantismo: a fantasia idílica dos indígenas e a celebração da natureza justificam a formação do acervo de grandes museus como de história natural. Os museus nacionais não eram, porém, aqueles detentores da flora e fauna, mas sim das riquezas culturais do Império.O primeiro grande museu foi criado em 1818, por D. João VI, com o nome de Museu Real, tendo o intuito de propagar o conhecimento e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil.  Após a independência do Brasil, o Museu Real transformou-se no Museu Nacional.Anos mais tarde, o Imperador Dom Pedro II teve um interesse em colecionar tudo que fosse exótico e que lhe chamasse a atenção, mas vale ressaltar que, em sua coleção, não havia nenhuma referência às culturas de origem africana. Sua coleção particular era mantida no Palácio onde funciona o atual Museu Imperial, apesar disso ela foi doada por ele ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, por conta do seu exílio imposto pelos republicanos.Ao transformar o palácio em museu, décadas depois, a coleção do imperador não foi mantida, preservando apenas os pertences da Família real como acervo. Antes, onde o acesso era privado, agora é um lugar público que nos possibilita a compreensão do que foi a vinda da família real para o Brasil, mostrando todas as suas regalias. Mesmo com o exílio, D. Pedro perpetuou-se sua imagem através do palácio, deixando-o como um lugar de memória nacional, repercutindo os resquícios da história real, tomada como soberana por tanto tempo.Tanto o Museu Imperial quanto o Museu Nacional do Rio de Janeiro possuem páginas online. No Museu Nacional, pode-se ver o grande número de peças de antigas civilizações e de história natural, representando a época em que o Brasil ainda se firmava através da tradição europeia  e imperialista, com um forte caráter cientificista que os museus primeiros carregavam.


Figura 1. CAIXÃO DE SHA-AMUN-EN-SU              Figura 2. BRAQUIÓPEDES FOSSILIZADOS
Acervo do Museu Nacional                                                             Acervo do Museu Nacional



Já no Museu Imperial, o site mais dinâmico nos permite fazer uma visita virtual completa. Nela, vemos os amplos cômodos  do Palácio Imperial e exemplos das vestimentas e dos costumes da família através tanto de um Tour Virtual quanto de Ambientes 360°. 


Figura 3. GABINETE DE ESTUDOS DO IMPERADOR D. PEDRO II


Figura 4. SALA DE MÚSICA E BAILE


Foi, então, com os Estados Nacionais, que os museus - qualquer que seja a tipologia - se estabeleceram, como donos de discursos universalizantes do imaginário nacional. De uma identidade que se consolida visando a metrópole, outras tantas são marginalizadas para ceder lugar a um teatro dominativo e normativo. Os museus históricos ainda se manifestam através das riquezas imperiais, mesmo que não mais aquelas naturais, mas agora construindo uma narrativa das elites brasileiras, deixando ainda pouco espaço para a representação de outros setores da sociedade.
Para os curiosos, fica, por fim, a indicação do episódio número 45 do canal Conhecendo Museu, da plataforma YouTube: Museu Imperial; e o episódio 13, do mesmo canal: Museu Nacional - UFRJ.


Referências:

Página Museu Nacional. Disponível em <http://www.museunacional.ufrj.br/index.html> Acesso em novembro 2017.

Página Museu Imperial. Disponível em <http://www.museuimperial.gov.br> Acesso em 2017.

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Os museus brasileiros e a constituição do imaginário nacional. Revista Sociedade e Estado, XV (2), 2000.

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Museus brasileiros e política cultural. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 2004, vol.19, n.55.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e DANTAS, Regina. O Museu do Imperador: quando colecionar é representar a nação.Rev. Inst. Estud. Bras.. 2008, n.46.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Optativa Museu e Cidade - edição 2018

Após um certo hiato, este semestre irei ofertar novamente a optativa Museu e Cidade. Já fiz algumas atualizações no programa e adianto que o diferencial dessa edição deverá ser a maior intensidade de trabalhos de campo. Espero também aproveitar material novo que recolhi durante a participação em eventos acadêmicos o ano passado e incorporar de forma bastante intensa as discussões, leituras e análise que estamos fazendo no contexto do grupo de pesquisa ESTOPIM, do qual sou um dos coordenadores. Nosso objetivo será refletir sobre o lugar dos museus na cidade, entendida como fenômeno histórico e social, considerando seu papel na cultura contemporânea. O foco principal será a questão do entorno dos museus, articulada a uma perspectiva de participação do público que ultrapasse a temática do acesso. 
Uma amostra do programa:

Ementa:
A cidade como fenômeno histórico e social. A experiência da modernidade e os museus no contexto urbano. Museus na cidade contemporânea: globalização, transformações no espaço e culturas urbanas. Cultura, memória e espaço público.










Bibliografia Básica
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes do fazer. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
SCHORSKE, Carl E. Viena fin-de-siècle: política e cultura. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.
SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 2003.


Bibliografia Complementar
APPADURAI, Arjun e BRECKENRIDGE, Carol. Museus são bons para pensar: o patrimônio em cena na Índia. Musas: Revista Brasileira de Museus e Museologia, n.3, p.10-26. Rio de Janeiro: Iphan, Demu, 2007.
ARANTES, Antônio (org.) O espaço da diferença. Campinas: Papirus, 2000.
ARANTES, Otília. Os novos museus. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n.31, p.161-169, out. 1991.
BALIBREA, Mari Paz. Memória e espaço público na Barcelona pós-industrial. Revista Crítica de Ciências Sociais, 67, Dezembro, 2003, pp. 31-54.
BARBUY, Heloisa . O Brasil vai a Paris em 1889: um lugar na exposição universal. Anais do Museu Paulista (Impresso), São Paulo, v. 4, p. 211-261.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
BONATES, Mariana "El Guggenheim y mucho más" - monumental urbanism and signature architecture in Bilbao. Pós. v.16 n.26, São Paulo, dezembro 2009, p.62-90.
CHAGAS, Mário & ABREU, Regina. Museu da Maré: memórias e narrativas a favor da dignidade social. Musas: Revista Brasileira de Museus e Museologia, n.3, p. 130-152. Rio de Janeiro: Iphan, Demu, 2007.
CHARLOT, Monica; MARX, Roland (Org.). Londres, 1851-1901: a era vitoriana ou o triunfo das desigualdades. Rio de Janeiro: J. Zahar, c1993.
DICKINSON, Greg; BLAIR, Carole; OTT, Brian L. Places of public memory: the rhetoric of museums and memorials . Tuscaloosa: University of Alabama Press, c2010. viii, 282 p.
FABRIS, Annateresa. Fragmentos urbanos: representações culturais. São Paulo: Studio Nobel, 2000.
FREIRE-MEDEIROS, Bianca. Favela como Patrimônio da Cidade? Reflexões e polêmicas acerca de dois museus. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro: FGV, Vol. 2, No 38, 2006, pp.49-66.
FORTUNA, Carlos; LEITE, Rogério Proença (orgs.). Plural de cidade: novos léxicos urbanos. Coimbra: Almedina, 2009.
GARCIA Canclini, Néstor. A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2003.
GIANNOTTI, Marco. À margem da rua: o novo espaço público. ARS (São Paulo) [online]. 2010, vol.8, n.16, pp. 33-37.
HAYDEN, Dolores. The power of place: urban landscapes as public history. Cambridge, Massachusetts: The MIT press, 1996.
HARVEY, David. Espaços de esperança. São Paulo, Loyola, 2004.
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HUYSSEN, Andreas. Escapando da amnésia... in: Memorias do modernismo. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.
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Avaliação: seminários, av. escrita e trabalho final

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Queermuseu, exposição sob censura



Tomamos conhecimento ontem de um fato lamentável, o encerramento em resposta a pressões censoras de uma exposição de arte, abrigada no Santander Cultural, em Porto Alegre. 

Para situar minimamento quem está lendo, transcrevo a apresentação que consta da página oficial Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira:

"O Santander Cultural apresenta a mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira com mais de 270 obras – oriundas de coleções públicas e privadas – que percorrem o período histórico de meados do século 20 até os dias de hoje. Aberta ao público a partir de 15 de agosto, trata-se de uma iniciativa inédita que explora a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura em períodos diversos. O Santander valoriza a diversidade e investe em sua unidade de cultura no Sul do País para que ela seja contemporânea, plural e criativa.

A exposição, que adota um modelo de disposição não cronológica e propõe desfazer hierarquias, mostra que a diversidade surge refletida no modelo artístico observada sob aspectos da variedade e da diferença. Pintura, gravura, fotografia, serigrafia, desenho, colagem, cerâmica, escultura e vídeo são apresentadas por meio de 85 artistas.
Este projeto é apoiado pelo Ministério da Cultura, patrocinado pelo Santander, realizado pelo Santander Cultural e Governo Federal e produzido pela Rainmaker Projetos e Produções."

Matéria do jornal do comércio:


A notícia circulou por vários portais de notícia e versões digitais de jornais. Para ler uma delas, aqui, contando a carta pública em que o banco se justifica e o posicionamento do curador Gaudêncio Fidelis. Destaco trechos mas sugiro fortemente a leitura completa do conteúdo da matéria.

Santander:
Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra. [...] Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.

Gaudêncio Fidelis:
Não fui consultado pelo Santander sobre o fechamento. Fiquei sabendo pelo Facebook. Logo em seguida, recebi uma rápida ligação da direção do museu, em que fui comunicado da decisão. Perguntaram se eu queria saber a opinião do banco sobre o assunto. Respondi que não precisava, uma vez que a nota divulgada já dizia tudo [...] As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos (de críticos) mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo.

É preciso que o campo da museologia e todas as áreas afins levem o debate e defendam a importância da liberdade de expressão dentro e fora das instituições. O Santander foi covarde, se deixou intimidar por essa censura fascista. A resposta do banco foi covarde, antes de mais nada, porque não foi coerente nem com seu impulso original de apoiar a mostra. É fascismo inclusive tentar confundir os valores da democracia e de algum tipo de opinião censora mobilizada. Isso parte de movimentos da leva do MBL e reverbera na capitulação por parte do banco. Não se pode calar a divergência que propõe diálogo com intimidação. 

Diga-se de passagem, é mister deixar marcado que esse recuo é efeito direto da privatização de decisões políticas e de recursos materiais no campo da cultura. Dada a relevância de acervos e ações dessa área para discutir os rumos de nossa sociedade, vemos com grande reserva qualquer movimento que delega tais responsabilidades a empresas, que, diga-se de passagem, já lucram o suficiente para bancar ações sem ter que fazê-lo com recursos públicos, e contraditoriamente não demonstram ser dignas ou responsáveis quando se trata de geri-los, submetendo quaisquer critérios ao seu fim primeiro de realizar seu próprio interesse econômico.

Nosso posicionamento deve ressaltar a importância dos museus e das exposições para a construção de uma sociedade democrática e plural, o papel da arte para colocar no foro público as questões candentes de uma sociedade e a defesa da liberdade de expressão que se coloca num espaço do debate, sem qualquer apologia do ódio, da violência ou da censura de opinião.

Claro que a liberdade de expressão tem limite. É preciso considerar por exemplo se a manifestação em questão incita a violência, incita o ódio e o preconceito. A classificação etária é um recurso que por vezes se faz necessário, dentro do razoável. Uma crítica responsável quanto a isso poderia levar a ajustes devidos, realizados em conjunto pela instituição e curadoria. A informação e o trabalho técnico adequado devem ser o norte do trabalho nas instituições culturais, não a ignorância e a censura. Agora o questionamento, a problematização, são da natureza da arte. Se essas expressões se colocam para justamente questionar os preconceitos e violências isso é salutar. Varrer o conflito para debaixo do tapete não é solução. As obras estão no Museu e não no templo ou espaço sagrado de quem quer que seja. A blasfêmia não é um conceito laico, e sim baseada em dogmas religiosos. Logicamente quando se trata de arte as digressões em termos dos seus limites numa sociedade que se quer aberta e democrática serão longas e comportam várias formas de crítica e mesmo repúdio. Mas há que se fazê-lo tendo como princípio o estado laico. Se isso fosse feito no espaço cerimonial, ou sem que ficasse evidente um contexto - ora, ali é uma exposição de arte - seria de fato o caso de repudiar. A iconoclastia praticada no contexto sagrado de uma religião é sim um ato intolerante, desrespeitoso e violento. De toda e qualquer religião, e diga-se de passagem o MBL e quem o respalda nunca se pronunciou contra violências constantemente perpetradas nesta seara. Ali É uma exposição e ali é preciso que o público compreenda o sentido das obras naquele contexto. Ignorar isso desencadeia uma escalada de censura que nos levará a reprimir o papel social da arte. E do conhecimento. Imagine que eu vá a um museu histórico em que o "santo sudário" é exposto, acompanhado de todas as explicações científicas que revelam que ele foi confeccionado no século XIII... os cristão seriam ofendidos? A ciência ficaria interditada? Apesar de ser difícil compreender a extensão do termo estado laico na nossa atualidade, é justo aí que se faz presente. Há vezes em que o outro exacerba a intolerância justamente para calar o que não lhe agrada.  Nesse caso vale lembrar ainda que ninguém é obrigado a entrar no Museu ou espaço de exposição. Mas precisamos também praticar no mínimo a tolerância com o que não concordamos caso queiramos viver entre diferentes numa democracia. O limite da liberdade é esse. A exposição não tira a liberdade de ninguém escrever una crítica depois de ir lá vê-la. Ou a liberdade de preferir não ir. Ou a liberdade de fazer outra.

Sendo assim concluo que é de extrema importância repudiar o gesto censor do MBL e seus apoiadores, condenar a covardia do Santander e afirmar categoricamente os museus e exposições como espaços privilegiados da diferença, do debate, e da reconstrução de nossa combalida democracia.





sábado, 26 de agosto de 2017

ARTE E LOUCURA [Metodologia da Pesquisa Histórica em Museus 2017]

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

METODOLOGIA DE PESQUISA HISTÓRICA EM MUSEUS - MUSEOLOGIA
PROFESSOR: LUIZ HENRIQUE GARCIA
Alunas: ALÍCIA FEITOZA – LUÍSA GUIMARÃES – VANESSA TORRES

ARTE E LOUCURA

Para os levantamentos de fontes a respeito da pesquisa com o tema que trata sobre a relação entre a arte e loucura, foi realizado um processo mais íntimo ao real cenário do qual estamos lidando. Por existir poucas pesquisas documentando a produção artística dos doentes mentais, foi necessário um contato direto com instituições relevantes que que carregam a bagagem histórica sobre o processo de transição entre a antiga forma de tratar os loucos dentro das instituições psiquiátricas, até o dado momento.

O museu da Loucura em Barbacena foi inaugurado no ano de 1996 no torreão do complexo de prédios que constituem o atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. A ideia de se criar um museu de psiquiatria, teve início na ocasião do III Congresso Mineiro de Psiquiatria em 1979, onde ocorreu uma exposição de fotos tiradas no período mais crítico do então Hospital Colônia. Entretanto, o projeto só se concretizou após o fortalecimento dos debates acerca da luta antimanicomial entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990. A instituição se propõe a informar e a convidar os visitantes a refletirem sobre temas como a: reforma psiquiátrica, a trajetória da luta antimanicomial e os tratamentos substitutivos em Barbacena. Para isso, utiliza-se de uma narrativa superficial focada na descrição e não na análise, apoiada em uma linha do tempo e um discurso parcial e reducionista (no sentido de limitar as maneiras de interpretação) do mediador que apenas enfatizava e justificava o discurso raso do museu. No que se refere a arte, o museu dedica uma pequena sala a trabalhos produzidos pelos antigos pacientes do hospital-colônia e atuais moradores das residências terapêuticas. onde mais uma vez o que prevalece é a narrativa tradicional sob o ponto de vista institucional; em detrimento a uma pesquisa de microhistória ou história oral, por exemplo, que mostrasse, sob a perspectiva do portador de sofrimento mental, o verdadeiro impacto que essas transformações (reforma psiquiátrica, mudanças no tratamento, inserção da arte como tratamento) ocasionaram na realidade dessas pessoas, sobretudo, no que se refere a qualidade de vida delas.

Na Fhemig fomos recebidas pelo diretor Marco Antônio Rezende, que nos levou para conhecer todo
o espaço em que consiste o conjunto arquitetônico e paisagístico (tombado pelo patrimônio histórico) que compõe o instituto Raul Soares e no decorrer da visita, nos deu todo o panorama da instituição que foi inaugurada no ano de 1924 com o propósito de resolver o problema da superlotação do Hospital Colônia de Barbacena. A princípio replicava os mesmos “métodos de tratamento” (isolamento, coerção e violência) do hospital-colônia, podemos perceber através da arquitetura que segue o modelo panótico – que visa o controle do corpo. E também através do acervo do centro de memória que integra a biblioteca com fotografias e equipamentos utilizados na época que antecede as discussões sobre a reforma psiquiátrica. (...) Em suma mesmo o Instituto Raul Soares não sendo um museu propriamente dito e nem mesmo o diretor Marco Antônio, não sendo um mediador, (ainda que tenha cumprido este papel nos levando para conhecer todo o espaço em que compõe o instituto). Acreditamos que a visita a FHEMIG, tenha nos fornecido muito mais subsídios para a pesquisa e para reflexão sobre os temas envolvidos pois através dela podemos perceber na prática como os espaços físicos foram se transformando e a forma de se apropriar desses espaços também foram se transformando a medida em que os tratamentos para a loucura também foram se modificando. e principalmente como a inclusão da arte no tratamento para a loucura foi essencial no decorrer desse processo.

Baseando-se na ideia de que o objeto da história é por natureza o homem, para que possivelmente a pesquisa chegasse em uma conclusão, foi realizada uma visita ao CERSAM de Venda Nova e no Centro de Convivência Centro-sul de Belo Horizonte. Apesar da carga que as idas ao Museu de Barbacena e a FHEMIG agregaram a pesquisa, isso foi apenas um passo inicial na caminhada da compreensão da Arte e Loucura. (...) A visita ao CERSAM aconteceu dado a um convite feito pela Professora Maria Stella Brandão Goulart, do departamento de Psicologia na Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais aos alunos participantes na execução da exposição curricular do curso de Museologia da UFMG. (...) Essa visita permitiu que todo o cenário antimanicomial compreendido através de documentos fosse vivenciado de uma maneira mais próxima e humana. Causou uma transformação na percepção dos fatos, possibilitando uma aproximação entre nós pesquisadoras e os inúmeros porquês, representados pelos ditos doentes mentais, através da arte considerada louca. Foi possível analisar as marcas do passado que afetam esse presente, compreendendo a força que os tratamentos substitutivos têm no processo de apoio ao cidadão que sofre de transtorno mental. Os tratamentos realizados através de encontros como comemorações, encontros artísticos, jogos e esportes buscam a estabilização dos quadros clínicos, a reconstrução da vida pessoal, o suporte necessário aos familiares e o convívio social. Tal experiência consentiu que realmente os ideais antimanicomiais estão no trilho mas falta um pouco para que caminhem junto com o trem. O que queremos dizer com isso é que infelizmente nas informações oficiais e institucionais constam o que não acontece na realidade com as atividades financeiras destinadas a saúde mental. A falta de dinheiro é muita e dessa forma não existe possibilidade de expansão no setor e muitas vezes de se manter. (...) O bonito de se concluir é que mesmo com as dificuldades institucionais e financeiras existes profissionais e voluntários que se unem a favor da inserção da arte na vida dessas pessoas tão carentes de atenção na vida social, que frequentam os Centros de Referência em Saúde Mental. Participar de um singelo momento da vida cotidiana daquelas pessoas permitiu o estreitamento entre a pesquisa e o seu objeto nesse momento. Compreender esse cenário nos permitiu uma nova visão do homem inserido nesse ambiente.
(...)
Olhar a fabricação de arte plástica como se fosse apenas um sintoma de doença mental, acaba limitando-a na procura por análises de doenças. Assim sendo, reduzi-la a artepsicótica é recusar a essas criações o código de arte e garantir o sinal de doença mental. Podemos aplicar o conceito de arte bruta, que nomeia as obras que são criadas por sujeitos que não se localizam no complexo do mercado da arte, indivíduos sem formação artística, afastados de atmosferas sofisticadas e intelectuais, nas obras produzidas no Centro de Convivência Centro Sul. Apesar disso é preciso entender que definir a arte nesses conceitos refreia outros aceitáveis sentidos que ela pode ter. Aqui se observa que o risco é sair de um conceito prévio de redução à arte num distúrbio, para uma redução que cria outra classe de arte formada por pessoas que se encontram insanas. O desenvolvimento artístico e o ímpeto para a criação não dependem de leis estagnadas, classe social, ou mesmo mental. A ambição, o anseio da arte pode aparecer em qualquer individuo. Normalidade e anormalidade psíquica são termos comuns para a ciência, porém no palco da arte, eles perdem qualquer superioridade significativa. Apesar da arte desenvolvida em ambientes como o Centro de Convivência Centro Sul poder ter uma semelhança com o ideal de arte bruta, no sentido das pessoas que a executam não terem uma formação artística, o lugar na qual ela é produzida e os atravessamentos que ali se instalam, refletem uma arte cuja origem se dá de forma marginal. Uma arte limítrofe, que trata do caráter de obstinação que ela assume frente ao saber psiquiátrico padronizador. Ver o sujeito apontado como louco, mas que é apto a criar, não deveria nos levar a um esforço de definição de biografia ou caça de traços psicológicos. Entendemos, portanto, que a criação se dá na administração do corpo e das forças que o cruzam. Usando como base Foucault para desenvolver o artigo, temos a oportunidade de apontar o início do processo de luta antimanicomial, como a origem de um novo método a respeito do tratamento dos indivíduos em sofrimento mental, após observar a falta de resultado das técnicas de intervenções era visível que a forma como a situação estava sendo encarada não trazia benefícios para as pessoas em situação de vulnerabilidade, muitas vezes causando transtornos ainda maiores, situação que culminou numa nova cultura de tratamento, visando humanizar os pacientes, trazendo-os para o convívio da sociedade e da família e trabalhando com eles formas de expressões artísticas, para, mais do que apenas analisar sua condição mental, deixá-lo a vontade para se comunicar com o mundo ao seu redor.

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Introdução dos ANAIS do V Fórum de Pesquisa Científica em Arte – Disponível em: