segunda-feira, 25 de julho de 2016

Memória, Sociedade e Informação - DISCIPLINA OPTATIVA PPGCI

Este semestre, por um bom motivo, não vou ofertar optativa na graduação. Finalmente, depois de longo e tenebroso inverno, vou atuar novamente em Pós Graduação. O Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação da ECI/UFMG passa por intensa reformulação e passará a contar com linhas de pesquisa e disciplinas alinhadas com um projeto de investigação dos campos da Cultura, do Patrimônio, da Memória Social e da Museologia, com o qual estou comprometido. 
Eis aí a ementa da disciplina:

Partindo da distinção traçada por Aristóteles entre lembrança (mneme) e recordação (anamnesis), a disciplina propõe um estudo dos usos sociais da memória. Traça um panorama que considera as transformações históricas e as diferentes perspectivas conceituais adotadas por variadas correntes de pensamento, incluindo a memória social e os estudos de patrimônio, a tradição da mnemônica, as relações entre memória e narrativa, as relações entre memória e teoria crítica, e as recentes discussões sobre a chamada memória cultural. Esse aparato teórico embasará um debate sobre a memória e a informação na sociedade contemporânea, envolvendo as relações entre passado/presente e a comodificação da nostalgia; as políticas de patrimônio e de rememoração/esquecimento de experiências históricas traumáticas; o impacto das NTICs no contexto da sociedade do espetáculo e das redes sociais em meio digital; seja em contextos institucionais de bibliotecas, arquivos e museus ou em espaços não intitucionalizados que estejam envolvidos nas disputas públicas em torno da memória. 

 



Algumas das leituras são velhas conhecidas. Mas claro, ter a oportunidade de debater com maior densidade alguns clássicos e textos de referência é algo digno de comemorar. Além dos principais estudiosos brasileiros e das figuras consagradas com quem sempre podemos aprender, teremos ainda o que para muitos poderá ser novidade, como trabalhos de estudiosos latino-americanos e uma vasta bibliografia em inglês, perpassando especialmente os Estudos de Museu, antropologia, geografia cultural e trabalhos mais recentes sobre Memória. Uma pequena amostra:

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BENJAMIN, Walter.  Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG / São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3a ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
RICOEUR, Paul. A Memória, a Historia, o Esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007. 
SAMUEL, Raphael.  Theatres of Memory: Past and Present in Contemporary Culture v. 1. London: Verso, 1994.

Alguns destaques da 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ANDERSON, Gail (Ed.). Reinventing the Museum: historical and contemporary perspectives on the paradigm shift. Walnut Creek: Altamira Press, 2004.  
ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011, 453p.
BARRETT, Jennifer. Museums and the Public Sphere. Wiley-Blackwell, 2012.
DICKINSON, Greg; BLAIR, Carole; OTT, Brian L. (eds.). Places of Public Memory: The Rhetoric of Museums and Memorials. University Alabama Press, 2010.
ERLL, Astrid. Memory in Culture. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.
HOOPER-GREENHILL, E. Museums and the shaping of knowledge. London: Routledge, 1992.
HUYSSEN, Andreas . Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Standford: Stanford University Press, 2003.
HERZFELD, Michael. A place in History. Princeton: Princeton University Press , 1991.
KARP, Ivan.; LAVINE, Steven, ROCKEFELLER FOUNDATION. Exhibiting cultures: the poetics and politics of museum display. Washington: Smithsonian Institution Press, 1991.
KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara. Destination Culture: Tourism, Museums, and Heritage. California: University of California Press; First Printing edition, 1998.
LOWENTHAL, David. The Past is a Foreign Country Cambridge and. New York: Cambridge University Press, 1985.
PEARCE, Susan M. On collecting: an investigation into collecting in the European tradition. London: Routledge, 1995.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. SP: Editora Companhia das Letras, 2003.
SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.
SARLO, Beatriz. Tiempo presente. Buenos Aires: Siglo XXI, 2003.
SPENCE, J. D. O palácio da memória de Matteo Ricci. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
SIMINE, Silke ARNOLD-de.Mediating Memory in the Museum: Trauma, Empathy, Nostalgia. Palgrave Macmillan, 2013.
VIDAL-NAQUET. Pierre. Os Assassinos da Memória. Campinas: Papirus, 1988.
YATES, Frances A. A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.


Como de costume, são abertas vagas para estudantes que queiram fazê-la como isolada. A princípio posso oferecer 3 vagas, e sugiro que quem se interessar procure se informar o quanto antes. Vai ser uma concorrência apertada.

Contatos da Secretaria da Pós:
Fone: (31) 3409-5207 (Seção de ensino) - (31) 3409-6103 (Colegiado)
e-mail: ppgci@eci.ufmg.br

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os museus na literatura

Acabo de ler o romance O pintassilgo, da escritora estadunidense Donna Tartt. Sem a pretensão de fazer uma resenha completa [aqui uma cópia do texto de orelha], quero recomendar fortemente a leitura e explorar ainda de forma bem inicial esse tema dos museus na literatura. O romance, apesar de não deixar de arriscar pequenas inovações aqui e ali ( como emular a mensagem de texto por celular, usando tipografia destacada ) é herdeiro direto da tradição dos grandes romances dezenovistas, sobretudo por sua tonalidade dickensiana. As 700 e algumas páginas fluem deliciosamente, seja na narrativa em primeira pessoa do protagonista, seja nos diálogos vivos entre personagens bem construídos e bastante carismáticos. Me impressiona isso virar assunto de resenhas e matérias, já li livros menores que eram bem mais árduos de percorrer (e não piores por isso, claro). Além de escrever bem, fica claro que Tartt tem uma excelente formação - e certamente, como ocorre com os romancistas best sellers de atualmente, tem uma grande equipe trabalhando e pesquisando para ela (como fica claro pelos agradecimentos finais). Obviamente isso não diminui em nada seu mérito para dar corpo a esse estofo todo, com palavras de tirar o fôlego. 

Luís Miguel Queirós fez um boa síntese para o Público, explicando a partir do título:

Já a pintura de Fabritius está no epicentro da intrincada intriga do romance The Goldfinch, de Donna Tartt, que depois de dois best-sellers, A História Secreta (1992) e O Pequeno Amigo (2002) – ambos publicados em Portugal pela D. Quixote –, esteve 11 anos a escrever este seu terceiro livro. Theo, o protagonista, é um adolescente que vê a sua mãe morrer, vítima de um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, onde esta o levara a ver uma exposição de obras-primas da pintura holandesa. Num momento de pânico – e por razões que não vêm ao caso –, Theo rouba O Pintassilgo de Fabritius, que era a pintura favorita da sua mãe.   
Como diz a orelha : O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino. O jogo entre a morte, o desfazer do tempo, e as possibilidades de busca de transcendência, mesmo que inúteis - pois, diz Tartt pela voz de Theo, "a vida é catástrofe" - estão no cerne do romance, e também nas nossas preocupações quando tentamos entender porque guardamos certos objetos e tentamos enfrentar a irrefreável voragem do tempo. Demandaria um ensaio muito mais bem acabado destrinchar as profundas e variadas inter-relações traçadas ao longo do livro entre os museus, a experiência de vida dos personagens, o fio da narrativa e as reflexões conceituais que ensejam. A autora nos deixa, ao final, preciosos pensamentos que tangem as relações entre arte, vida, colecionismo, memória, cultura. Uma parte das suas observações sobre o quadro de Fabritius são aquelas que certamente diversos historiadores da arte já fizeram, mas, provavelmente, expressas de uma forma mais descompromissada com maneirismos dos textos acadêmicos típicos. Da boca de seu sócio, mentor e pai adotivo, por assim dizer, ele ouve que "se uma pintura realmente afeta  e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'ah, eu amo essa pintura porque ela é universal'. 'Eu amo essa pintura porque ela fala com toda a humanidade'. Não é por isso que você ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. Psst, você. Ei, garoto. Sim, você." 

A matéria do Público versa justamente sobre o impacto desse e de outro best-seller baseado em obra de sua coleção (Moça com brinco de pérola) no aumento da frequência de público no Museu Mauritshuis [conheça], em Haia, Holanda [vale ler toda]. O assédio às obras motiva alterações inclusive na expografia, como comenta Queirós no trecho: 

E os responsáveis do museu de Haia parecem partilhar a sua convicção, uma vez que já mudaram o seu Fabritius (o único que possuem) da parede lateral de uma escadaria, onde sempre estivera, para um lugar de honra na sala Jan Steen, onde passará a figurar isolado, num generoso espaço entre duas janelas.
Tal fenômeno guarda um nó interessante a ser desdado, que implica em buscar tanto a compreensão de como, nesse tempo que privilegia o texto curto, a assimilação rápida, um romance como O pintassilgo vira campeão de vendas, e, consequentemente, eleva o público de um museu. O livro, de certa forma - e claro, sem escapar da ambígua condição produzida por tomar corpo no contexto de produção, circulação e consumo em escala massiva - realiza assim o próprio leitmotiv que permeia suas páginas, o de que a arte - ou toda forma humana de impingir uma imortalidade, por mais ameaçada que seja - encontra um modo de perpetuar-se, até quando parece improvável:

"Ela existe; e continua existindo. E eu acrescento meu próprio amor à história das pessoas que amaram coisas belas, e cuidaram delas, e tentaram preservá-las e salvá-las enquanto as passavam literalmente de mão em mão, cantando de forma brilhante pelos destroços do tempo para a próxima geração de amantes, e a próxima".

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano

Este semestre ofertarei a disciplina optativa Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano, às sextas. Fugindo um pouco do padrão, ela está estruturada a partir da leitura completa do seminal livro Culturas Híbridas, de Néstor García Canclini. A partir das formas de entrar e sair da modernidade, como ele mesmo diz, estabeleceremos roteiros possíveis para pensar sobre as implicações da história latino-americana para o cenário museológico no continente e no mundo, as relações entre história, tradição e memória contextualizadas pela dinâmica cultural híbrida, a questão do(s) lugar(es) da cultura popular considerando o fenômeno da globalização e a emergência de objetos culturais híbridos, buscando entender como são produzidos e circulam, como seus sentidos são disputados e transformados, como são escolhidos os monumentos e colecionados os acervos, e como finalmente, podemos entender melhor nossas complexidades e atuar em cenários institucionais ou informais, desenvolvendo políticas culturais nas áreas da museologia e do patrimônio condizentes com os desafios que essas complexidades impõem. 


Uma amostra da bibliografia proposta para auxiliar as discussões. A intenção é abranger diferentes temas, tipologias museológicas e contextos locais, na busca de uma disposição panorâmica que possa complementar o roteiro de leitura do livro e permitir aprofundamento em questões específicas.






P.S. 2018
Após 2 anos vou novamente ofertar a disciplina Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano (código TGI061 - TOPICOS EM INFORMAÇÃO E CULTURA D  ) às sextas-feiras no 1ºsem. de 2019. Acho que poderei fazer muitos incrementos em relação à primeira edição, em razão das viagens a trabalho que me permitiram colher material relevante em Havana, Montevidéu e Buenos Aires, do aproveitamento de pesquisas, especialmente aquelas que venho realizando junto com o grupo ESTOPIM, das disciplinas que ofertei na pós-graduação (em que cheguei a aproveitar textos que descobri montando esse programa aqui também) e do atual investimento que vamos fazendo em internacionalização para participar do Programa Print proposto pela CAPES. Mas sobretudo porque a distância no tempo da perspectiva para pensar o que foi bem sucedido e o que não, além de trazer as urgências dos contextos em transformação. Dentre os planos para estimular os trabalhos incluo realizar uma exposição sobre arte e engajamento político na América Latina, provavelmente tendo como carro-chefe a obra do uruguaio Joaquín Torres Garcia, autor, entre outros, de América Invertida (1943).



Bibliografia auxiliar

BERRÍOS, Pablo Salvador. El arte latinoamericano a través de la curadoría: políticas de representación y modos de inserción. PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, n. 9, 2015.

BIALOGORSKI, Mirta. Artesanías y patrimonialización en el Museo de Arte Popular José Hernández: el Banco de la Memoria del Campo Artesanal. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 31, 2004.

BURÓN DÍAZ, Manuel. Los museos comunitarios mexicanos en el proceso de renovación museológica. Revista de Indias, v. 72, n. 254, p. 177-212, 2012.

CARNOVALE, Vera. Memorias, espacio público y Estado: la construcción del Museo de la Memoria. Estudios AHILA de Historia Latinoamericana, v. 2, 2006.

COUSILLAS, Ana. El ciclo De la Feria al Museo: notas sobre la expe-riencia de exposiciones de artesanías urbanas curadas por artesanos en el Museo de Arte Popular del GCBA. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 47, 2004.

DE CARLI, Georgina. Vigencia de la Nueva Museología en América Latina: conceptos y modelos. Revista ABRA, v. 24, n. 33, p. 55-75, 2004.

ISE, María Laura. Arte Latinoamericano en los ochenta y noventa: una mirada desde algunas exhibiciones y catálogos. Nómadas, n. 35, p. 31-47, 2011.

LLOSA, Vargas. El Perú no necesita museos. El Comercio, March, v. 8, 2009.

NAVARRO, Óscar. Museos y museología: apuntes para una museología crítica. Museología e historia: un campo de conocimiento, XXIX Encuentro Anual del ICOFOM/XV Encuentro Regional del ICOFOM LAM, v. 5, p. 385-394, 2006.

PONCE, Ariel Guillermo. LA INFLUENCIA DE LOS CONTEXTOS INTERCULTURALES EN UN MUSEO DE LA ARGENTINA. Revista del Centro de Investigaciones Precolombinas, p. 63.

SABATÉ BEL, Joaquín et al. De la preservación del patrimonio a la ordenación del paisaje: intervenciones en paisajes culturales en Latinoamérica. 2011.

SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.

SERVIDDIO, Fabiana. Ser latinoamericano: lo precolombino como herramienta del discurso latinoamericanista en los años setenta.

SUESCÚN POZAS, María del Carmen. Los museos de Arte Moderno y la reconfiguración de lo local a través de lo foráneo: Transformando a Colombia en un País" abierto". Memoria y Sociedad, v. 3, n. 6, p. 135-142, 1999.

TAGÜEÑA, Julia. Los museos latinoamericanos de ciencia y la equidad Latin American science museums and equity. História, Ciencias, Saúde–Manguinhos, v. 12, p. 419-27, 2005.

VIÑUALES, Rodrigo Gutiérrez. Museos y espacios para el arte contemporáneo en Buenos Aires. Notas de actualidad. In: Museología crítica y arte contemporáneo. Prensas Universitarias de Zaragoza, 2003. p. 351-373.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Acervos públicos, sentidos do patrimônio e interpretação da História

A notícia de que o atual governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mandou retirar do gabinete de governo o quadro "Alegoria da morte de Estácio de Sá" (Antônio Parreiras, 1911), alegando que a mesma traz má sorte ou está "carregada" (palavras que teriam sido ditas pelo músico Jorge Ben Jor), produz espanto e uma série de inquietações. Antes de tudo,  assombra um gesto público dessa natureza, da parte de um político ocupando uma cadeira importante, que intenta criar algum tipo de distração ante problemas de gestão e finanças do estado que governa, apelando para esse tipo de interpelação pela irracionalidade, superstição. Ao mesmo tempo, tal gesto absolutamente criticável faz pensar também sobre os diferentes sentidos do patrimônio e as possíveis interpretações da História das quais participam. Retrato alegórico da empreitada colonial, com toda sua violência e imposição de modelo civilizacional, a pintura, figurava no gabinete do governador como elemento integrado à construção simbólica de identidade, inicialmente do Estado-Nação, uma vez que encomendada pelo então Prefeito do o Rio de Janeiro Inocêncio Serzedelo Corrêa no tempo em que a cidade era a Capital Federal. Nesse sentido é como o atestado de que o embate entre "civilização" e "barbárie" teve nos colonizadores os vencedores, dos quais o moderno estado brasileiro se colocava como continuador. Estácio de Sá, desse modo, apresenta-se como mártir da conformação de um Estado Nacional do qual não teve em vida a menor ciência. Posteriormente podemos considerar que a obra foi ressignificada para compor a narrativa iconográfica que constrói a identidade do Rio como estado sem deixar de afirmar sua centralidade para a nação brasileira. Mas, em algum momento, surge a dúvida:  que sentidos alegorias como essa, que demandam uma atitude contemplativa e conhecimento de certos códigos culturais, podem ganhar, nos tempos em que o oculocentrismo combinou-se à circulação acelerada de imagens no espaço público, nas múltiplas mídias e nas redes internéticas? Quão público é o gabinete do governador - o que implica perguntar - quem ultimamente olhava esse quadro?
O deslocamento da pintura - indiferentemente da motivação aparentemente irracionalista ou calcada numa pueril tentativa do governador de angariar a simpatia do eleitorado supersticioso que ele acredita representar, ou eventualmente de desviar o debate público no momento em que se questiona justamente sua capacidade de governar - acaba por paradoxalmente lançar a mesma na rede e nas mídias, talvez reacendendo um potencial de ressonância que estava adormecido enquanto estava na parede enquanto cumpria uma função residual se comparada à que exerceu nos tempos em que certos artefatos significavam muito nesse tipo de espaço através do qual se narrava uma certa história e se afirmava uma dada forma de poder. Se por um lado um motivo patético traz o quadro à baila, por outro às vezes só assim o que esquecido se coloca novamente no horizonte de nossas atenções.
Hoje nossa interpretação da colonização é bastante diversa daquela do início do século XX, e por aí podemos tomar certamente "Alegoria da morte de Estácio de Sá" desde um ângulo crítico que revela a lógica de violência e imposição, as contradições e assimetrias nas quais se ergueu a Colônia, e as implicações disso na formação do território e da nação brasileira nos séculos seguintes. A pintura portanto pode representar um testemunho relevante dessa história, e ao mesmo tempo instigar reflexões sobre temas e tensões distintivas e intestinas de nossa sociedade. Se o governador a retira da parede e esconde numa sala ainda menos frequentada do palácio de governo, parece, sintomaticamente, um gesto produtor de amnésia. Se decidir transferi-lo a algum museu, acena a possibilidade de torná-lo acessível a um público maior. Nesse último caso, me coloco favorável, desde que seja feitas a pesquisa e comunicação museológica condizentes para que a trajetória do quadro seja considerada elemento chave para pensar seu sentido contemporâneo.
  






terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Comentários sobre a exposição Zeitgeist no CCBB

"A exposição “Zeitgeist – Arte da nova Berlim”  reúne, pela primeira vez no Brasil, um panorama consistente da respeitada comunidade artística de Berlim, traduzindo o espírito de uma época marcada por contradições e reinvenções. A mostra reúne pintura, fotografia, videoarte, performance, instalação e a cultura dos clubs berlinenses, na visão de 29 renomados artistas.
Marcada por duas guerras mundiais e dividida pelo Muro durante quase três décadas, a capital da Alemanha se reergueu das cinzas.  Da vida improvisada dos anos 1990, as contradições que caracterizaram a cidade, reinventada a partir de dois mundos, acabaram por formar, pouco a pouco, o Zeitgeist – espírito de uma época, a partir do qual a arte, a cultura e as relações humanas evoluem – que hoje projeta sua influência muito além da Europa Central e atrai artistas do mundo todo com seu magnetismo.
O percurso concebido para a mostra Zeitgeist é uma oportunidade de vivenciar alguns dos aspectos que fazem de Berlim um lugar encantado entre extremos, e que são recorrentes no modo de existir da metrópole. Como observadores atentos da vida da cidade, do mesmo modo que o pintor Adolph von Menzel (1815-1905), um dos maiores representantes do realismo alemão, os artistas da mostra exibem aspectos marcantes da capital da Alemanha."



Eu particularmente confesso que esperava mais. Em alguns módulos fiquei com a sensação de que a exposição não conseguiu traduzir tão bem a diversidade e a dinâmica que se atribui ao cenário artísticos berlinense contemporâneo, e até evidencia como o "alternativo" pode ser monótono e homogêneo. A única seção que me cativou especialmente foi a que expunha os panfletos com as programações das casas noturnas - emblematicamente em contraste com os fragmentos alusivos às trilhas sonoras e espaços, que em geral me pareceram indecisos entre a reconstituição e a insinuação, sem definitivamente estabelecer uma ponte sensível com os lugares, pois faltou história, contada com palavras ou com imagens. Claro, são as opiniões de um historiador de cidade e de música popular, não de um estudioso das artes, por exemplo. Estou mais que curioso para saber o que vocês acharam...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Passado-presente: ecomuseus e discussões contemporâneas [Tipologia 2015]



Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Escola de Ciência da Informação
Curso de Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus - 2015/2
Professor: Luiz Henrique Assis Garcia

Alunos: Daniel Xavier, Janderson Rosa, Pedro Krettli, Vinicius Santos


 

“(...) o museu normal, qualquer que seja sua definição, é feito com as coisas; o museu comunitário é feito com as pessoas” (VARINE, 2005).





https://ecomuseuribeirao.files.wordpress.com/2011/07/fotos-nereu-0031.jpg


Na esteira de grandes questionamentos e embates dentro e fora dos museus na segunda metade do século XX surgiu a Nova Museologia, tendo no Ecomuseu a força das experiências em diferentes contextos para o desenvolvimento de uma museologia voltado ao homem e suas múltiplas realidades. A homogeneização não estava mais em pauta, mas sim a inovação e a criatividade, frente às insatisfações geradas por um museu de poucos e que silenciava muitos. Para ver os conceitos base dos ecomuseus e alguns exemplos aqui no blog, veja UMA NOVA MUSEOLOGIA: Os Ecomuseus e Ecomuseus: Patrimônio a serviço da sociedade.

O ecomuseu expande os limites da tradicional relação objeto-museu para comunidade-museu, abrindo-se para o debate das contradições e lutas que antes não eram colocadas. A relação passa a ser passado-presente, pois as questões do “hoje” trazem a necessidade de repensar o passado, sendo este não mais algo fechado em si mesmo que é dado a ver, mas sim como algo que pode ser repensado constantemente sob a luz da atualidade. Segundo afirma Mario Chagas,

O diferencial, neste caso, não está no reconhecimento do poder da memória, mas sim na colocação desse poder ao serviço do desenvolvimento social, bem como na compreensão teórica e no exercício prático da apropriação da memória e do seu uso como ferramenta de intervenção social. (2000, p.14)

A partir de uma visão mais voltada às diferenças, surgem ações mais envolvidas com seus contextos e que para além da comunicação para o público, o museu passa a voltar-se para seu entorno.


Projeto Descartógrafos em que foram produzidas cartografias participativas, criativas e afetivas, com população da região sul de Curitiba. Fonte: https://jardinagemterritorialidade.wordpress.com/newton-goto/

 




Cuauhtémoc Camarena Ocampo e Teresa Morales Lersch, colocam as mudanças proporcionadas por esse fenômeno chamado Ecomuseu:


El museo así se convierte em um instrumento para enfrentar el cambio. A través del museo la comunidad busca conservar La posesión de elementos de su patrimônio, por ejemplo El arqueológico, y de esta manera enfrentar el proceso de expropiación. Busca a La vez ofrecer um testimonio de los câmbios que han habido, muchas veces a través de la representación de un pasado o de conocimientos tradicionales que son fuente de orgullo. Busca abrir un contacto com otras personas, instituciones y comunidades, a través de um espacio donde puede presentarse em sus propios términos. Busca valorar su propia experiência, interpretarse a si misma, y así tener más elementos de juicio sobre los caminos que tiene hacia el futuro. Así, el museo se convierte em herramienta de desarrollo y de conservación dentro de la transformación. (OCAMPO; LERSCH, 2002, p. 132-133).







DEBATES

Para além da transformadora experiência dos ecomuseus, alguns debates dentro da museologia colocam questões que devem ser pensadas para que estes não entrem em processo de desgaste. Teresa C. Scheiner (2012) coloca algumas situações que os ecomuseus podem passar a longo prazo:

- se institucionalizam, adquirindo características próximas aos dos museus tradicionais, com lideranças assumindo para si o norte das ações destes museus;
- se compartimentam, seguindo a mesma lógica acima, deixando-se as escolhas feitas em grupo de lado e abrangendo somente parte das discussões da comunidade;
- se autoconsumem, fechando-se em si mesmos e não utilizando sua potente fonte de debates para ações reais;
- se extinguem, seja por falta de lideranças ao não conseguir se atualizar frente às novas questões do grupo, ou na dificuldade de fazer com que a geração mais jovem aproprie-se das questões do grupo.

Essas reflexões são importantes para não perder as excelentes ferramentas proporcionadas pela Nova Museologia, a de transformação social, de fuga da indústria cultural, partindo para um museu dinâmico e que sirva como espaço para reflexão.

Os museus tradicionais podem também utilizar-se de bases teóricas dos Ecomuseus para atualizarem-se, através de ações e discussões com seu entorno, um claro discurso que possibilite enxergar o “local de fala”, proporcionar a reflexão sobre verdades fechadas, inquestionáveis. Mas enquanto isso não é uma realidade facilmente encontrada, os ecomuseus percorrem seu caminho descobrindo cada vez novas possibilidades e permitindo à museologia a revisão de seus conceitos.



Museu de Território Caminhos Drummondianos. Fonte: http://www.fccda.mg.gov.br/40festival/index.php/component/content/article/2-uncategorised/6-dicas-turisticas


REFERÊNCIAS

BARBUY, Heloísa. A conformação dos ecomuseus: elementos para compreensão e análise. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Ser. v.3 p.209.236 jan./dez. 1995.

BRULON, B. Entendendo o Ecomuseu: uma nova forma de pensar a museologia. Revista eletrônica Jovem Museologia: estudos sobre museus, museologia e patrimônio. Rio de Janeiro, n. 2, 2006. Disponível em: <http://www.unirio.br/jovemmuseologia/documentos/2/artigobruno.pdf>.

CHAGAS, Mario. Memória e Poder: Contribuição para a teoria e a prática nos ecomuseus. II Encontro Internacional de Ecomuseus. Santa Cruz. p.12-19. 2000.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. O porvir do passado. Culturas híbridas. São Paulo: Editora USP, 1997.

OCAMPO, Cuauhtémoc Camarena; LERSCH, Teresa Morales. Los museos comunitários como una estratégia de desarrollo y conservación. In: POSSAMAI, Zita Rosane; ORTIZ, Vitor. Cidade e memória na globalização. Porto Alegre: Unidade Editorial da Secretaria Municipal da Cultura, 2002. p. 131-140.

RIVIERE, Georges Henri. La museologia: curso de museologia / textos y testimonios. Madrid: Akal, 1993 533 p.

SCHEINER, Tereza Cristina. Repensando o Museu Integral: do conceito às práticas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 7, n. 1, p. 15-30, jan.-abr. 2012.
 

VARINE, Hugues de. O Ecomuseu. Ciências e Letras: Revista da Faculdade Porto Alegrense de Educação, Ciências e Letras, Porto Alegre , n. 27, p.61-90, jan. 2000.