terça-feira, 23 de agosto de 2016

Do livro em códice ao mundo digital: historiadores pensam as transformações da forma, da técnica e da cultura

Assisti hoje no SESC Palladium ao evento da série Literaturas: questões do nosso tempo, com Robert Darnton (EUA) e Roger Chartier (FR), mediado por Guiomar de Grammont. Historiadores de peso, das mais importantes referências para a história cultural e os estudos sobre livro, edição e leitura, ambos com vasta obra e carreiras coroadas de mérito, dispensando maiores apresentações. O formato da mesa me pareceu bastante interessante, um respiro ante o que estamos acostumados. Ao invés de falas razoavelmente longas seguidas de debate, algumas perguntas lançadas pela mediadora, que ambos responderam com concisão sem perder densidade, por vezes complementando e pontuando a fala do outro, embora de fato tenha sido a pergunta comum o principal modo de atar a conversa. E qualquer historiador sabe o valor de boas perguntas para estabelecer os rumos de uma reflexão histórica. As questões lançadas giraram em torno das mutações da cultura escrita no mundo ocidental: Devemos enfatizar as continuidades fundamentais ou as rupturas radicais, e qual o efeito de eventos como o nascimento do códex, a invenção da imprensa, as inovações nas práticas de leitura ou a alfabetização universal? Resistirá o livro, ante as inovações tecnológicas como o kindle, o e-book? A digitalização favorecerá a salvaguarda dos registros do conhecimento, ou seu modus operandi facilitará seu esquecimento num infindável e indiferenciado mar de bites? Qual o peso da intervenção da censura sobre a produção de um texto? O conhecimento histórico é útil para compreender mais acuradamente as transformações do nosso tempo? Pode o historiador ser objetivo? Qual a pertinência atual de conceitos de autoria, direitos autorais e propriedade intelectual? Quais as responsabilidades de pesquisadores, instituições e cidadãos ante esse quadro atual?

É digno de nota que Chartier tenha tomado antes a palavra para, em claro português com talvez algumas pitadas de portunhol, fazer, em seu nome e também no de Darnton, uma declaração contundente diante da grave situação política no Brasil. O público lançou um Fora, Temer, talvez de forma até bem tímida, o que considero preocupante se levarmos em conta que a maioria, sem muito medo de errar, era composta por estudantes universitários das áreas ligadas às Humanidades, Letras e Artes. Eu entre os que gritamos, logo a seguir nos deleitamos com uma linha de Chartier sobre motivos a temer que foi claramente seu modo de insinuar o próprio Fora, Temer.
Não tenho, nesse momento, como transcrever e aprimorar todas as notas que tomei durante as falas. Na medida do possível e do horário, espero trazer aqui uma síntese orientada pelas questões que são de recorrente pauta deste blog, aproveitando também um ou outro apontamento que me ocorra, considerando que hoje mesmo a aula da disciplina Memória, Sociedade e Informação que leciono na pós tratou justamente das interseções entre História, Literatura, Narrativa e Memória a partir da obra de Walter Benjamin, que aliás acabou sendo alvo de uma menção muito rápida numa fala de Darnton.
Tudo isso tem muito a ver com o modo como os historiadores interpretam a mudança, inclusive quando se trata de aspectos tecnológicos. Lembrando aqui a velha discussão entre apocalípticos e integrados proposta por Umberto Eco, a história nos dá perspectiva para ficar fora dessa dicotomia. Como assinalou Darnton, fala-se em era da informação mas toda "era" tem "informação", ainda que os suportes sejam outros. Da mesma forma quando falamos em tecnologia é preciso ir além do senso comum e compreender que historicamente as sociedades sempre transformam o mundo que habitam usando diversas tecnologias. Paralelamente, Chartier apontou que se o livro resiste e coexiste no atual cenário de digitalização profunda - inclusive das relações sociais - entre permanências e mudanças constatamos mortes quando certos objetos desaparecem - ou eu poderia acrescentar, são deslocados para outros espaços sociais, como as máquinas de escrever que vão para os acervos dos museus. Aqui pontuo que Benjamin, no verbete sobre o colecionador no trabalho das Passagens, já percebera a operação colecionadora que desligava o objeto de suas funções originais para inseri-lo em outra relação.
A posição crítica ante ante esse novo cenário, que cumpre ao pesquisador da História adotar mediante um trabalho rigoroso e as regras que definem um método a partir do qual ele (re)apresenta o passado no presente, representa um ganho na medida em que permite superar leituras esquemáticas, simplificadoras, em que é perdida a natureza mesma das mudanças e de seu complexo entrelaçamento. Chartier sistematizou muito bem uma análise tipológica das mutações em torno do texto, do livro e da leitura, separando as mudanças de ordem morfológica (que dizem respeito ao suporte do texto), tecnológica (recursos de edição e reprodução), e cultural (modos de leitura e circulação). Ao distinguir, nos modos de leitura, a mudança na relação entre fragmento e totalidade do texto, quando se passa da forma manuscrita ou impressa, em que a forma material impõe uma percepção tátil da totalidade à qual pertence qualquer trecho que lemos, para o formato digital em que o fragmento se autonomiza, talvez ele não estivesse muito longe das discussões propostas por Benjamin sobre declínio da experiência, perda da aura, ou mesmo entre a narração e a informação. São tópicos a serem desenvolvidos ainda. Também seria indispensável pensar aí proposições de estudiosos latino-americanos como García Canclini e Martín-Barbero, tão atentos aos gestos de descoleção e recoleção, às mediações dos meios e papel ativo dos ditos receptores. Chartier e Darnton, mesmo sem aprofundar, foram enfáticos em reconhecer a diferença da experiência histórica das gerações mais novas que já se formam como "nativos digitais" [alguns desses apontamentos nessa entrevista de Chartier ao jornal Hoje em dia]. Mesmo quando não mudam necessariamente os livros, mudam os leitores e as práticas de leitura. Nesse sentido, as últimas considerações de ambos me pareceram bastante inspiradoras para pensar as práticas no contexto próprio dos museus. Darnton concentrou sua fala na democratização da riqueza cultural e do conhecimento, alertando para os perigos da censura nos regimes autoritários e da comercialização desenfreada da sociedade de mercado. Chartier destacou o papel das políticas públicas na formação de um cidadão leitor e de um leitor cidadão - o que igualmente é válido para o cidadão público de museu - e condenou o equívoco de se estabelecer qualquer equivalência entre as diferentes formas de escrita, constatando sua convivência e possível complementariedade. Seria de bom alvitre que os profissionais do campo da Museologia incorporassem esse raciocínio para pensar a política de acervo e os programas de exposições das instituições, pois o que enseja é o entendimento que o digital e as manifestações da cultura material de épocas as mais diversas não são mutuamente excludentes ou se sucedem numa ordem cronológica e evolutiva, mas coexistem historicamente e cumpre ao museu prover inclusive as evidências que permitam compreender essa coexistência. 

sábado, 13 de agosto de 2016

Diversas musas: As estátuas também morrem (1953)

Encontrei esse documentário/ensaio enquanto pesquisava por um curta sobre o qual havia lido. Imediatamente percebi que era material de primeira, pela qualidade do trabalho de direção, fotografia, texto e pela temática. Certamente um precioso acréscimo para instigar as discussões sobre museus em geral e museus etnográficos em particular no âmbito da disciplina "Tipologia de Museus", este semestre na UFMG. Acrescentei alguns trechos de boas resenhas para contextualizar um pouco o material.


"Este raro documentário de Resnais e Marker é um ensaio critico sobre as relações entre a cultura ocidental e a africana. Não possui diálogos, apenas uma narração em off, sobre três fontes distintas, imagens de arquivo produzidas pelos filmes de propaganda colonial na África, imagens de arte africana realizadas pelos autores nos principais museus da Europa e imagens sobre o negro na diáspora. (...) O filme pode ser lido segundo nosso entender sobre dois modos principais: O primeiro seria a apreciação critica das imagens, ou seja, por se tratar de um ensaio sobre arte, o filme possibilita ao espectador uma discussão em torno da própria arte africana em seus diversos contextos. Por exemplo, na sociedade de origem e na vitrine do museu, da criação artística à fabricação industrial e etc. Também possibilita vislumbrar alguns trechos de filmes de propaganda do colonialismo, raríssimos hoje em dia por serem demasiadamente agressivos ao olhar contemporâneo. A segunda possibilidade seria a de discutir o texto da narração que é montado sobre as imagens, que possui ainda hoje uma extraordinária força critica e que viabiliza um olhar direto sobre o pensamento pan-africanista da década de cinqüenta no tocante ao colonialismo, o eurocentrismo, o racismo e o papel do afro-descendente na diáspora africana e na contra-cultura contemporânea."
Rafael Galante


"O filme As estátuas também morrem [Les statues meurent aussi], de Alain Resnais, Chris Marker e Ghislain Cocquet é fruto da encomenda ao primeiro dos três cineastas, por parte da revista Présence Africaine, de um filme sobre a dita “arte negra”. A Présence Africaine, fundada, em Paris, em 1947, afirmou uma geração de novos escritores africanos, entre os quais Aimé Césaire e Léopold Senghor, que seriam autores decisivos da segunda metade do século XX. (...) Uma das ideias-mestras do filme a realizar era esta: o escândalo que é o simples facto da arte africana não estar, à época, representada no Museu do Louvre (onde as grandes tradições artísticas não-ocidentais foram incluídas), mas no Museu do Homem. Inicialmente intitulado “L’art nègre”, o projecto chamar-se-ia finalmente “Les statues meurent aussi” e resulta num documentário que, mais do que sobre a “arte negra”, reflecte sobre a museologização dos objectos extraídos a uma cultura onde não há museus e, por consequência, sobre as relações de poder – económico, político e simbólico – entre a cultura europeia e as culturas africanas, sob a organização colonial. (...) Em As estátuas também morrem, o ânimo da cultura africana é o rosto da morte do imperialismo europeu: donde, as imagens das estátuas neoclássicas, corroídas pela chuva e pelos ventos, no início do filme. Mas também da morte e de como o labor das formas inteligentes lhe faz frente. “O povo das estátuas é mortal” e, um dia, também elas se decompõem. Retenhamos o lamento cravado no coração da Europa do século XX e que este filme nos repete: “Um objecto está morto quando o olhar vivo que pousava sobre ele, desapareceu. E quando nós desaparecermos, os nosso objectos irão para onde nós enviamos os dos negros: para o museu.” João Sousa Cardoso
 



Ficha dos filme:
Título em português: As Estátuas Também Morrem
Título Original: Les Statues Meurent Aussi
Realização: Chris Marker e Alain Resnais
Ano: 1953
Argumento: Chris Marker
Fotografia: Ghislain Cloquet
Música: Guy Bernard
Voz: Jean Négroni
Género: documentário
Origem: França
Duração: 30 min
Cor: P/B

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Memória, Sociedade e Informação - DISCIPLINA OPTATIVA PPGCI

Este semestre, por um bom motivo, não vou ofertar optativa na graduação. Finalmente, depois de longo e tenebroso inverno, vou atuar novamente em Pós Graduação. O Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação da ECI/UFMG passa por intensa reformulação e passará a contar com linhas de pesquisa e disciplinas alinhadas com um projeto de investigação dos campos da Cultura, do Patrimônio, da Memória Social e da Museologia, com o qual estou comprometido. 
Eis aí a ementa da disciplina:

Partindo da distinção traçada por Aristóteles entre lembrança (mneme) e recordação (anamnesis), a disciplina propõe um estudo dos usos sociais da memória. Traça um panorama que considera as transformações históricas e as diferentes perspectivas conceituais adotadas por variadas correntes de pensamento, incluindo a memória social e os estudos de patrimônio, a tradição da mnemônica, as relações entre memória e narrativa, as relações entre memória e teoria crítica, e as recentes discussões sobre a chamada memória cultural. Esse aparato teórico embasará um debate sobre a memória e a informação na sociedade contemporânea, envolvendo as relações entre passado/presente e a comodificação da nostalgia; as políticas de patrimônio e de rememoração/esquecimento de experiências históricas traumáticas; o impacto das NTICs no contexto da sociedade do espetáculo e das redes sociais em meio digital; seja em contextos institucionais de bibliotecas, arquivos e museus ou em espaços não intitucionalizados que estejam envolvidos nas disputas públicas em torno da memória. 

 



Algumas das leituras são velhas conhecidas. Mas claro, ter a oportunidade de debater com maior densidade alguns clássicos e textos de referência é algo digno de comemorar. Além dos principais estudiosos brasileiros e das figuras consagradas com quem sempre podemos aprender, teremos ainda o que para muitos poderá ser novidade, como trabalhos de estudiosos latino-americanos e uma vasta bibliografia em inglês, perpassando especialmente os Estudos de Museu, antropologia, geografia cultural e trabalhos mais recentes sobre Memória. Uma pequena amostra:

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BENJAMIN, Walter.  Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG / São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3a ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
RICOEUR, Paul. A Memória, a Historia, o Esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007. 
SAMUEL, Raphael.  Theatres of Memory: Past and Present in Contemporary Culture v. 1. London: Verso, 1994.

Alguns destaques da 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ANDERSON, Gail (Ed.). Reinventing the Museum: historical and contemporary perspectives on the paradigm shift. Walnut Creek: Altamira Press, 2004.  
ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011, 453p.
BARRETT, Jennifer. Museums and the Public Sphere. Wiley-Blackwell, 2012.
DICKINSON, Greg; BLAIR, Carole; OTT, Brian L. (eds.). Places of Public Memory: The Rhetoric of Museums and Memorials. University Alabama Press, 2010.
ERLL, Astrid. Memory in Culture. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.
HOOPER-GREENHILL, E. Museums and the shaping of knowledge. London: Routledge, 1992.
HUYSSEN, Andreas . Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Standford: Stanford University Press, 2003.
HERZFELD, Michael. A place in History. Princeton: Princeton University Press , 1991.
KARP, Ivan.; LAVINE, Steven, ROCKEFELLER FOUNDATION. Exhibiting cultures: the poetics and politics of museum display. Washington: Smithsonian Institution Press, 1991.
KIRSHENBLATT-GIMBLETT, Barbara. Destination Culture: Tourism, Museums, and Heritage. California: University of California Press; First Printing edition, 1998.
LOWENTHAL, David. The Past is a Foreign Country Cambridge and. New York: Cambridge University Press, 1985.
PEARCE, Susan M. On collecting: an investigation into collecting in the European tradition. London: Routledge, 1995.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. SP: Editora Companhia das Letras, 2003.
SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.
SARLO, Beatriz. Tiempo presente. Buenos Aires: Siglo XXI, 2003.
SPENCE, J. D. O palácio da memória de Matteo Ricci. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
SIMINE, Silke ARNOLD-de.Mediating Memory in the Museum: Trauma, Empathy, Nostalgia. Palgrave Macmillan, 2013.
VIDAL-NAQUET. Pierre. Os Assassinos da Memória. Campinas: Papirus, 1988.
YATES, Frances A. A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.


Como de costume, são abertas vagas para estudantes que queiram fazê-la como isolada. A princípio posso oferecer 3 vagas, e sugiro que quem se interessar procure se informar o quanto antes. Vai ser uma concorrência apertada.

Contatos da Secretaria da Pós:
Fone: (31) 3409-5207 (Seção de ensino) - (31) 3409-6103 (Colegiado)
e-mail: ppgci@eci.ufmg.br

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os museus na literatura

Acabo de ler o romance O pintassilgo, da escritora estadunidense Donna Tartt. Sem a pretensão de fazer uma resenha completa [aqui uma cópia do texto de orelha], quero recomendar fortemente a leitura e explorar ainda de forma bem inicial esse tema dos museus na literatura. O romance, apesar de não deixar de arriscar pequenas inovações aqui e ali ( como emular a mensagem de texto por celular, usando tipografia destacada ) é herdeiro direto da tradição dos grandes romances dezenovistas, sobretudo por sua tonalidade dickensiana. As 700 e algumas páginas fluem deliciosamente, seja na narrativa em primeira pessoa do protagonista, seja nos diálogos vivos entre personagens bem construídos e bastante carismáticos. Me impressiona isso virar assunto de resenhas e matérias, já li livros menores que eram bem mais árduos de percorrer (e não piores por isso, claro). Além de escrever bem, fica claro que Tartt tem uma excelente formação - e certamente, como ocorre com os romancistas best sellers de atualmente, tem uma grande equipe trabalhando e pesquisando para ela (como fica claro pelos agradecimentos finais). Obviamente isso não diminui em nada seu mérito para dar corpo a esse estofo todo, com palavras de tirar o fôlego. 

Luís Miguel Queirós fez um boa síntese para o Público, explicando a partir do título:

Já a pintura de Fabritius está no epicentro da intrincada intriga do romance The Goldfinch, de Donna Tartt, que depois de dois best-sellers, A História Secreta (1992) e O Pequeno Amigo (2002) – ambos publicados em Portugal pela D. Quixote –, esteve 11 anos a escrever este seu terceiro livro. Theo, o protagonista, é um adolescente que vê a sua mãe morrer, vítima de um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, onde esta o levara a ver uma exposição de obras-primas da pintura holandesa. Num momento de pânico – e por razões que não vêm ao caso –, Theo rouba O Pintassilgo de Fabritius, que era a pintura favorita da sua mãe.   
Como diz a orelha : O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino. O jogo entre a morte, o desfazer do tempo, e as possibilidades de busca de transcendência, mesmo que inúteis - pois, diz Tartt pela voz de Theo, "a vida é catástrofe" - estão no cerne do romance, e também nas nossas preocupações quando tentamos entender porque guardamos certos objetos e tentamos enfrentar a irrefreável voragem do tempo. Demandaria um ensaio muito mais bem acabado destrinchar as profundas e variadas inter-relações traçadas ao longo do livro entre os museus, a experiência de vida dos personagens, o fio da narrativa e as reflexões conceituais que ensejam. A autora nos deixa, ao final, preciosos pensamentos que tangem as relações entre arte, vida, colecionismo, memória, cultura. Uma parte das suas observações sobre o quadro de Fabritius são aquelas que certamente diversos historiadores da arte já fizeram, mas, provavelmente, expressas de uma forma mais descompromissada com maneirismos dos textos acadêmicos típicos. Da boca de seu sócio, mentor e pai adotivo, por assim dizer, ele ouve que "se uma pintura realmente afeta  e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'ah, eu amo essa pintura porque ela é universal'. 'Eu amo essa pintura porque ela fala com toda a humanidade'. Não é por isso que você ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. Psst, você. Ei, garoto. Sim, você." 

A matéria do Público versa justamente sobre o impacto desse e de outro best-seller baseado em obra de sua coleção (Moça com brinco de pérola) no aumento da frequência de público no Museu Mauritshuis [conheça], em Haia, Holanda [vale ler toda]. O assédio às obras motiva alterações inclusive na expografia, como comenta Queirós no trecho: 

E os responsáveis do museu de Haia parecem partilhar a sua convicção, uma vez que já mudaram o seu Fabritius (o único que possuem) da parede lateral de uma escadaria, onde sempre estivera, para um lugar de honra na sala Jan Steen, onde passará a figurar isolado, num generoso espaço entre duas janelas.
Tal fenômeno guarda um nó interessante a ser desdado, que implica em buscar tanto a compreensão de como, nesse tempo que privilegia o texto curto, a assimilação rápida, um romance como O pintassilgo vira campeão de vendas, e, consequentemente, eleva o público de um museu. O livro, de certa forma - e claro, sem escapar da ambígua condição produzida por tomar corpo no contexto de produção, circulação e consumo em escala massiva - realiza assim o próprio leitmotiv que permeia suas páginas, o de que a arte - ou toda forma humana de impingir uma imortalidade, por mais ameaçada que seja - encontra um modo de perpetuar-se, até quando parece improvável:

"Ela existe; e continua existindo. E eu acrescento meu próprio amor à história das pessoas que amaram coisas belas, e cuidaram delas, e tentaram preservá-las e salvá-las enquanto as passavam literalmente de mão em mão, cantando de forma brilhante pelos destroços do tempo para a próxima geração de amantes, e a próxima".

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano

Este semestre ofertarei a disciplina optativa Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano, às sextas. Fugindo um pouco do padrão, ela está estruturada a partir da leitura completa do seminal livro Culturas Híbridas, de Néstor García Canclini. A partir das formas de entrar e sair da modernidade, como ele mesmo diz, estabeleceremos roteiros possíveis para pensar sobre as implicações da história latino-americana para o cenário museológico no continente e no mundo, as relações entre história, tradição e memória contextualizadas pela dinâmica cultural híbrida, a questão do(s) lugar(es) da cultura popular considerando o fenômeno da globalização e a emergência de objetos culturais híbridos, buscando entender como são produzidos e circulam, como seus sentidos são disputados e transformados, como são escolhidos os monumentos e colecionados os acervos, e como finalmente, podemos entender melhor nossas complexidades e atuar em cenários institucionais ou informais, desenvolvendo políticas culturais nas áreas da museologia e do patrimônio condizentes com os desafios que essas complexidades impõem. 


Uma amostra da bibliografia proposta para auxiliar as discussões. A intenção é abranger diferentes temas, tipologias museológicas e contextos locais, na busca de uma disposição panorâmica que possa complementar o roteiro de leitura do livro e permitir aprofundamento em questões específicas.






P.S. 2018
Após 2 anos vou novamente ofertar a disciplina Museologia, patrimônio e cultura no pensamento latino-americano (código TGI061 - TOPICOS EM INFORMAÇÃO E CULTURA D  ) às sextas-feiras no 1ºsem. de 2019. Acho que poderei fazer muitos incrementos em relação à primeira edição, em razão das viagens a trabalho que me permitiram colher material relevante em Havana, Montevidéu e Buenos Aires, do aproveitamento de pesquisas, especialmente aquelas que venho realizando junto com o grupo ESTOPIM, das disciplinas que ofertei na pós-graduação (em que cheguei a aproveitar textos que descobri montando esse programa aqui também) e do atual investimento que vamos fazendo em internacionalização para participar do Programa Print proposto pela CAPES. Mas sobretudo porque a distância no tempo da perspectiva para pensar o que foi bem sucedido e o que não, além de trazer as urgências dos contextos em transformação. Dentre os planos para estimular os trabalhos incluo realizar uma exposição sobre arte e engajamento político na América Latina, provavelmente tendo como carro-chefe a obra do uruguaio Joaquín Torres Garcia, autor, entre outros, de América Invertida (1943).



Bibliografia auxiliar

BERRÍOS, Pablo Salvador. El arte latinoamericano a través de la curadoría: políticas de representación y modos de inserción. PragMATIZES-Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura, n. 9, 2015.

BIALOGORSKI, Mirta. Artesanías y patrimonialización en el Museo de Arte Popular José Hernández: el Banco de la Memoria del Campo Artesanal. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 31, 2004.

BURÓN DÍAZ, Manuel. Los museos comunitarios mexicanos en el proceso de renovación museológica. Revista de Indias, v. 72, n. 254, p. 177-212, 2012.

CARNOVALE, Vera. Memorias, espacio público y Estado: la construcción del Museo de la Memoria. Estudios AHILA de Historia Latinoamericana, v. 2, 2006.

COUSILLAS, Ana. El ciclo De la Feria al Museo: notas sobre la expe-riencia de exposiciones de artesanías urbanas curadas por artesanos en el Museo de Arte Popular del GCBA. Temas de Patrimonio Cultural 8, p. 47, 2004.

DE CARLI, Georgina. Vigencia de la Nueva Museología en América Latina: conceptos y modelos. Revista ABRA, v. 24, n. 33, p. 55-75, 2004.

ISE, María Laura. Arte Latinoamericano en los ochenta y noventa: una mirada desde algunas exhibiciones y catálogos. Nómadas, n. 35, p. 31-47, 2011.

LLOSA, Vargas. El Perú no necesita museos. El Comercio, March, v. 8, 2009.

NAVARRO, Óscar. Museos y museología: apuntes para una museología crítica. Museología e historia: un campo de conocimiento, XXIX Encuentro Anual del ICOFOM/XV Encuentro Regional del ICOFOM LAM, v. 5, p. 385-394, 2006.

PONCE, Ariel Guillermo. LA INFLUENCIA DE LOS CONTEXTOS INTERCULTURALES EN UN MUSEO DE LA ARGENTINA. Revista del Centro de Investigaciones Precolombinas, p. 63.

SABATÉ BEL, Joaquín et al. De la preservación del patrimonio a la ordenación del paisaje: intervenciones en paisajes culturales en Latinoamérica. 2011.

SALGADO, Mireya. Museos y patrimonio: fracturando la estabilidad y la clausura. Íconos-Revista de Ciencias Sociales, n. 20, p. 73-81, 2013.

SERVIDDIO, Fabiana. Ser latinoamericano: lo precolombino como herramienta del discurso latinoamericanista en los años setenta.

SUESCÚN POZAS, María del Carmen. Los museos de Arte Moderno y la reconfiguración de lo local a través de lo foráneo: Transformando a Colombia en un País" abierto". Memoria y Sociedad, v. 3, n. 6, p. 135-142, 1999.

TAGÜEÑA, Julia. Los museos latinoamericanos de ciencia y la equidad Latin American science museums and equity. História, Ciencias, Saúde–Manguinhos, v. 12, p. 419-27, 2005.

VIÑUALES, Rodrigo Gutiérrez. Museos y espacios para el arte contemporáneo en Buenos Aires. Notas de actualidad. In: Museología crítica y arte contemporáneo. Prensas Universitarias de Zaragoza, 2003. p. 351-373.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Acervos públicos, sentidos do patrimônio e interpretação da História

A notícia de que o atual governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), mandou retirar do gabinete de governo o quadro "Alegoria da morte de Estácio de Sá" (Antônio Parreiras, 1911), alegando que a mesma traz má sorte ou está "carregada" (palavras que teriam sido ditas pelo músico Jorge Ben Jor), produz espanto e uma série de inquietações. Antes de tudo,  assombra um gesto público dessa natureza, da parte de um político ocupando uma cadeira importante, que intenta criar algum tipo de distração ante problemas de gestão e finanças do estado que governa, apelando para esse tipo de interpelação pela irracionalidade, superstição. Ao mesmo tempo, tal gesto absolutamente criticável faz pensar também sobre os diferentes sentidos do patrimônio e as possíveis interpretações da História das quais participam. Retrato alegórico da empreitada colonial, com toda sua violência e imposição de modelo civilizacional, a pintura, figurava no gabinete do governador como elemento integrado à construção simbólica de identidade, inicialmente do Estado-Nação, uma vez que encomendada pelo então Prefeito do o Rio de Janeiro Inocêncio Serzedelo Corrêa no tempo em que a cidade era a Capital Federal. Nesse sentido é como o atestado de que o embate entre "civilização" e "barbárie" teve nos colonizadores os vencedores, dos quais o moderno estado brasileiro se colocava como continuador. Estácio de Sá, desse modo, apresenta-se como mártir da conformação de um Estado Nacional do qual não teve em vida a menor ciência. Posteriormente podemos considerar que a obra foi ressignificada para compor a narrativa iconográfica que constrói a identidade do Rio como estado sem deixar de afirmar sua centralidade para a nação brasileira. Mas, em algum momento, surge a dúvida:  que sentidos alegorias como essa, que demandam uma atitude contemplativa e conhecimento de certos códigos culturais, podem ganhar, nos tempos em que o oculocentrismo combinou-se à circulação acelerada de imagens no espaço público, nas múltiplas mídias e nas redes internéticas? Quão público é o gabinete do governador - o que implica perguntar - quem ultimamente olhava esse quadro?
O deslocamento da pintura - indiferentemente da motivação aparentemente irracionalista ou calcada numa pueril tentativa do governador de angariar a simpatia do eleitorado supersticioso que ele acredita representar, ou eventualmente de desviar o debate público no momento em que se questiona justamente sua capacidade de governar - acaba por paradoxalmente lançar a mesma na rede e nas mídias, talvez reacendendo um potencial de ressonância que estava adormecido enquanto estava na parede enquanto cumpria uma função residual se comparada à que exerceu nos tempos em que certos artefatos significavam muito nesse tipo de espaço através do qual se narrava uma certa história e se afirmava uma dada forma de poder. Se por um lado um motivo patético traz o quadro à baila, por outro às vezes só assim o que esquecido se coloca novamente no horizonte de nossas atenções.
Hoje nossa interpretação da colonização é bastante diversa daquela do início do século XX, e por aí podemos tomar certamente "Alegoria da morte de Estácio de Sá" desde um ângulo crítico que revela a lógica de violência e imposição, as contradições e assimetrias nas quais se ergueu a Colônia, e as implicações disso na formação do território e da nação brasileira nos séculos seguintes. A pintura portanto pode representar um testemunho relevante dessa história, e ao mesmo tempo instigar reflexões sobre temas e tensões distintivas e intestinas de nossa sociedade. Se o governador a retira da parede e esconde numa sala ainda menos frequentada do palácio de governo, parece, sintomaticamente, um gesto produtor de amnésia. Se decidir transferi-lo a algum museu, acena a possibilidade de torná-lo acessível a um público maior. Nesse último caso, me coloco favorável, desde que seja feitas a pesquisa e comunicação museológica condizentes para que a trajetória do quadro seja considerada elemento chave para pensar seu sentido contemporâneo.