Mostrando postagens com marcador Gabinetes de curiosidades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gabinetes de curiosidades. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

SERIAM OS MUSEUS ATUAIS APENAS UMA CONTINUIDADE DOS GABINETES DE CURIOSIDADES?

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

DEPARTAMENTO DE TEORIA E GESTÃO DA INFORMAÇÃO

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

BACHARELADO EM MUSEOLOGIA

DISCIPLINAS DA GRADUAÇÃO

TIPOLOGIA DE MUSEUS

 
Prof. Dr. Luiz Henrique Assis Garcia

Discentes: Beatriz Barbosa Cavalcanti; Bruna Ribeiro Diniz; Cecília Ferreira de Almeida e Silva; Ingrid Duboc Ferreira Dias do Santos Brandão; Yan Nicholas Sauâne De Benedetti

SERIAM OS MUSEUS ATUAIS APENAS UMA CONTINUIDADE DOS GABINETES DE CURIOSIDADES?

Entender os museus, mesmo que de contextos históricos, tipologias ou localidades diferentes, pode depender de conhecimentos prévios sobre os gabinetes de curiosidade, já que estes são compreendidos por alguns autores como uma forma embrionária da formulação dos museus - ou seja, um fenômeno que deu origem aos museus como conhecemos hoje.


Você sabe o que são gabinetes de curiosidade? Como esse fenômeno, que teve seu auge na Europa dos séculos XV ao XVII, pode influenciar os museus nos dias de hoje? Além disso, como os museus podem dialogar com estas raízes sem repetir suas problemáticas?


O “MICROCOSMOS” DO SÉCULO XV


Frequentemente, o colecionismo do século XV ao XVII é ilustrado em livros didáticos com as clássicas figuras dos gabinetes de curiosidades de grandes colecionadores, como Manfredo Settala e Ole Worm (Imagens 1 e 2). Essas ilustrações retratam efetivamente a elaboração conceitual de que os gabinetes de curiosidades funcionavam como “microcosmos”. Essa definição expõe que as coleções do período em questão tinham como objetivo principal a representação máxima do mundo e da natureza em um só cômodo.

 


 

 





Estas coleções pertenciam a aristocratas, que as reuniam através de relações comerciais, proporcionadas pelo avanço naval da época. Os diversos tipos de objetos se dividiam em: Naturalia (objetos da natureza); Artificialia (objetos produzidos por pessoas) e Mirabilia (Objetos “maravilhosos”, “miraculosos” e “misteriosos”).


Justamente por buscarem abranger o mundo todo em um cômodo, para nós, essas imagens podem se mostrar, em um primeiro momento, como espaços bagunçados e confusos. No entanto, os gabinetes de curiosidades tratavam-se de métodos extremamente didáticos e, portanto, organizados, acerca do funcionamento da natureza e das relações humanas. Os objetos seguiam uma linha de pensamento e uma ordem lógica em sua exposição, diferente do que o imaginário popular supõe.


É necessário abordar, também, as questões sociais envolvidas no universo dos gabinetes de curiosidade. Os gabinetes possuíam uma tendência recorrente a estabelecer relações hierárquicas entre povos culturalmente distintos, sustentando uma narrativa de superioridade Europeia. Estas narrativas interessavam muito aos Estados Nacionais que se formavam na época, que precisavam se sustentar, e utilizavam da estratégia do nacionalismo para isso.



QUESTIONANDO OS MUSEUS


Atualmente, é comum encontrarmos instituições museológicas que passaram por transformações em seu caráter administrativo que, no passado, representavam ideologias totalizadoras e, nos dias de hoje, buscam por um maior percentual de participação e/ou representação social. Se antes traziam narrativas unilaterais que contavam uma história única, agora buscam por encontrar um equilíbrio entre os estudos acadêmicos e as vivências daqueles que são abordados em suas exposições, investindo em atividades interativas e acessíveis para diferentes públicos.


Um desses casos clássicos é o Museu Paulista, recorrentemente referido pelo nome Museu do Ipiranga (até mesmo pela própria instituição). Ele teve sua criação pautada em uma visão generalista da nação brasileira. Inclusive, sua abertura teve foco em processos educativos para a própria população brasileira, como forma de moldar a ótica popular sobre a sua própria identidade. Ainda hoje, é possível observar resquícios dessas escolhas realizadas no passado, ressaltando ainda a apresentação mantida do saguão, das escadarias e salão nobre; desde as ânforas dos rios do país, até as esculturas de bronze dos “grandes ícones nacionais”.


Apesar disso, algumas das exposições buscam transformar esse acervo em algo mais dinâmico e com reflexões que buscam contar outras histórias além da tradicional, como por exemplo a “Territórios em disputa” e a “Passados imaginados”.


https://museudoipiranga.org.br/exposicoes/



Se as sociedades se transformam, se as discussões sociais avançam e se nossas visões se ampliam, porque os museus também não podem sofrer esta metamorfose? Ao refletir sobre os gabinetes de curiosidade e sua influência nos museus de hoje, é possível notar de onde alguns elementos museais vêm, mas isso não pode se tornar um determinismo sobre para onde os museus vão. O que, hoje, nos ajuda a escapar da narrativa unilateral dos gabinetes? O que podemos aprender com eles, em questão de catalogação de objetos?


Analisando algum museu ou espaço museal, o que podemos discutir?



REFERÊNCIAS

Imagem 1 (Disponível em: https://boudewijnhuijgens.getarchive.net/amp/topics/manfredo+settala+s+cabinet)


Imagem 2 (Disponível em: https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/G.-Wingendorp/200866/Frontisp%C3%ADcio-do-gabinete-de-curiosidades-de-Ole-Worm-do-&39;Museum-Wormianum&39;-de-Ole-Worm,-publicado-em-1655.html)


BIBLIOGRAFIA


CHAGAS, Mário de Souza. Os museus e os sonhos: panorama museológico brasileiro no século XIX e início do século XX. In: Há uma gota de sangue em todo museu: a ótica museológica de Mário de Andrade/Mário de Souza Chagas. Chapecó: Argos, 2006. 135 p.

BLOM, Philipp. O dragão e o carneiro tártaro. In: Ter e Manter. Uma história íntima de coleções e colecionadores. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 29-42.

BREFE, Ana Cláudia Fonseca. O Museu Paulista: Affonso de Taunay e a memória nacional. São Paulo: UNESP; Museu Paulista, 2005.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Os Gabinetes de Curiosidades e a formação das coleções particulares

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - UFMG

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO - ECI

CURSO DE MUSEOLOGIA

ATIVIDADE ACADÊMICA CURRICULAR: ECI 097 - Tipologia de Museus

PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia

GRUPO: Anna Carolina Oliveira Souza Santos, Deise Joana Tomé da Silveira, Laura Braga Melo, Sâmela Campos Miranda Alves Andrade, Sofia Prado de Andrade 

Os Gabinetes de Curiosidades e a formação das coleções particulares


Os Gabinetes de Curiosidades, também chamados de Câmara das Maravilhas, são uma tradução da forma do colecionismo que ocorreu entre os séculos XVI e XVIII. Era uma prática realizada por estudiosos e, principalmente, homens da elite social, seja ela do clero ou da aristocracia. A formação dos Gabinetes evidenciava o poder, tanto financeiro quanto intelectual, da pessoa que o constituía, além de ser uma forma de afirmação do seu status.

Os criadores dos Gabinetes eram geralmente polímatas, pessoas especializadas em áreas diferentes, uma vez que não havia uma clara distinção entre os campos do saber. Os objetos presentes eram da categoria naturalia – feitos pela natureza – e artificialia – objetos feitos pelo homem.

Sua formação vinha em parte por causa da curiosidade, especialmente incitada pelo descobrimento das Américas, que produziu um questionamento quanto ao conhecimento até então familiar e incontestado por mais de mil anos. A necessidade de se provar, enxergar e crer nas novas espécies de fauna e flora desse novo território intensificava este interesse. 

A produção científica por trás dos Gabinetes de Curiosidades ocorria da seguinte forma: uma “maravilha” era descoberta gerando uma necessidade de explicação do fenômeno presente nesse objeto. O estudo científico surge da percepção de algo novo e fora do comum, Blom ao discorrer a respeito do “dragão” encontrado na região da Bolonha e levado a Aldrovandi, naturalista e importante colecionador da região, menciona que este elaborou um livro com os estudos conduzidos no corpo do animal que tinham como fim a compreensão do que ele era.

A dicotomia entre real e mito também estava presente na formação dos Gabinetes. Não era raro encontrar chifres de unicórnios, rabos de sereia, cabeças de gigantes nas coleções. Esse fenômeno pode ser explicado pela falta de conhecimento dos objetos vindos do resto do mundo, juntamente com o fato de que o Método Científico estava em processo de desenvolvimento, procurando explicar cientificamente muitos desses mitos. 

Por causa de sua natureza privada, as coleções tinham um acesso restrito. Os donos que permitiam o contato de outras pessoas com os seus Gabinetes, na maioria das vezes eram artistas, cientistas, colecionadores de uma classe semelhante. Era por meio deste contato que o conhecimento era compartilhado. 

Diversas questões contribuíram para a criação de um ambiente favorável à explosão dos gabinetes no século XVI, podemos citar as mudanças religiosas. O forte controle exercido pela Igreja na sociedade européia impactou o caráter das coleções, que estiveram inicialmente restritas ao campo religioso. Com a Reforma Protestante, muitos dogmas se enfraqueceram, abrindo espaço para o aumento significativo dos Gabinetes no século XVI. Outra questão foi o Renascimento que acabou criando uma cultura da curiosidade, onde o "espírito de indagação” do homem fez com que houvesse uma expansão do conhecimento que demanda novas abordagens e novos métodos investigativos, a curiosidade move o conhecimento.   

Os Gabinetes de Curiosidades assumiam diversas formas de acordo com a composição das coleções, podendo ser colocadas dentro de maletas, armários ou até dentro de salas privadas, como ocorria com os studioli. Além disso, as suas características poderiam se alterar conforme o país de origem do colecionador. Na região da atual Alemanha havia o Kunstkammer, o gabinete de arte, o Schatzkammer, o gabinete de curiosidades da natureza, e o Rüstkammer, um armário que continha itens bélicos, desde armaduras e escudos a armas utilizadas em batalhas, muito típico do mundo germânico.

Na Itália o studiolo se apresentava como um cômodo privado, algumas vezes anexado ao quarto do colecionador, ao qual os objetos, especialmente artísticos, ficavam expostos. Outro país que apresentava características próprias eram os Países Baixos, que em teoria por serem uma República sem uma aristocracia dominante e pela presença de uma forte Marinha Mercante, fez com o que o colecionismo se popularizasse na região. 

Um dos exemplos da formação de Gabinetes de Curiosidades no Brasil é o caso do Conde de Nassau-Siegen, que durante o seu governo no Brasil Holandês formou uma vasta coleção de itens brasileiros. Ao retornar para os Países Baixos deu vários desses objetos de presente para políticos e pessoas influentes, dentre elas o Rei Luis XIV da França, a fim de ganhar espaço e influência na corte do país. As dádivas de Nassau evidenciam como os Gabinetes de Curiosidades eram um indicador de status social.  

Outro exemplo ocorrido no Brasil foi durante o Período Joanino, que patrocinados pela Coroa, os colecionadores portugueses focavam em coleções artísticas, numismáticas, arqueológicas e naturalistas. A chegada da Família Real Portuguesa em meados do século XIX, trouxe consigo, dentre muitas coisas, o forte caráter do colecionismo. O acervo dos membros da família era composto por uma variação considerável de espécimes. Muitas das instituições construídas durante esse período, trazem a narrativa de instrumentos sociais no processo de reafirmação política e cultural para formação da nação com características próprias, apesar de ter um referencial europeu. 

A prática do colecionismo não é nova na humanidade, e se os Gabinetes do século XVI eram compostos por itens curiosos e restritos a uma determinada elite social, as coleções modernas, por outro lado, estão inseridas nos mais diversos grupos da sociedade e não possuem, necessariamente, o caráter de pesquisa presente na maioria dos Gabinetes. É fato que alguns tipos de coleções, como as de arte, ainda são restritas a uma camada muito pequena, no entanto, existem outras facetas e particularidades que foram adquiridas por tal prática na contemporaneidade. E são as questões socioeconômicas pautadas pelo sistema capitalista que estão no cerne dessas mudanças.

No decorrer da cultura colecionista, acervos formados pelo interesse acadêmico, científico e histórico foram abrindo espaço para coleções motivadas pela nostalgia, saudosismo e encantamento estético, que fazem parte da memória e construção identitária dos indivíduos. Assim, essas práticas foram se tornando mais acessíveis, na medida em que itens aparentemente banais poderiam adquirir grande significado como selos, cartas, moedas e miniaturas. Com o crescimento da sociedade industrial e da popularização do consumo de bens industrializados, empresas começaram a se beneficiar da prática colecionista, criando brindes e embalagens limitadas que passaram a ser guardadas devido a seu apelo estético e ideia de exclusividade, mostrando como a indústria cultural atua nesse meio.


REFERÊNCIAS 


BASCOPE, Kezia Freitas et al. A reforma protestante e seus desdobramentos. Revista Terra & Cultura: Cadernos de Ensino e Pesquisa, [S.l.], v. 38, n. especial, p. 160-180, abr. 2022. ISSN 2596-2809. Disponível em: <http://periodicos.unifil.br/index.php/Revistateste/article/view/2499>. Acesso em: 04 set. 2022.


BLOM, Philipp. O dragão e o carneiro tártaro. In: Ter e manter. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003, p. 29-42.


BRIGOLA, João Carlos Pires. O colecionismo joanino. In: Colecções, gabinetes e museus em Portugal no século XVIII.Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.


FRANÇOZO, Mariana de Campos. De Olinda a Holanda: o gabinete de curiosidades de Nassau. Campinas: Editora da Unicamp, 2014, p.169-229.


HERNÁNDEZ, Francisca Hernández. Manual de museología. Madrid: Síntesis, 1998. 


JANEIRA, A. L. A configuração epistemológica do coleccionismo moderno (séculos XV-XVIII). Episteme, Porto Alegre, n.20, janeiro/junho 2005, pp 23-36.


LINDBERG, Carter. História da Reforma. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.


LITTLE, Lester K. Religious Poverty and the Profit Economy in Medieval Europe [Pobreza religiosa e a economia do lucro na Europa medieval]. Ithaca: Cornell University Press, 1978


quarta-feira, 22 de junho de 2022

GABINETES DE CURIOSIDADES: HÁ ORDEM NA DESORDEM

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

CURSO: Museologia

DISCIPLINA: Tipologia de Museus

PROFESSOR: Luiz Henrique Assis Garcia

ALUNAS: Cristiane Lei, Esther Inácio, Hellen Batista, Kezia Miguel, Núbia Gonçalves e Thais de Souza.

GABINETES DE CURIOSIDADES: HÁ ORDEM NA DESORDEM

      

A coleção, compreendida como um somatório de objetos de toda espécie, escolhidos, reunidos e preservados por um protagonista com uma finalidade particular própria, tem por vocação apresentar ao olhar um conjunto de objetos. Lugar que questiona a percepção e também um espaço de celebração da memória dos homens e da memória do tempo através dos olhos. Os gabinetes de curiosidades surgem na época onde o mundo se expandiu por intermédio das Grandes Navegações.  “Nesse período, o homem vivia uma verdadeira revolução do olhar resultado do espírito científico e humanista do Renascimento e da expansão marítima, que revelou à Europa um novo mundo.” (JULIÃO, 2006, p.20). O imaginário medieval foi atingido por um saber cientificamente estabelecido e seu horizonte geográfico ampliava-se a cada nova descoberta.  

 

01 - Gravura do Gabinete de Ole Worm datada de 1655 (foto à direita) e reprodução do mesmo gabinete no Museu Wormianum (foto à esquerda).

Os gabinetes de curiosidades não eram homogêneos e nem padronizados. As mais diferentes coleções eram apresentadas nos mais variados formatos que podiam se restringir a uma peça de mobiliário ou até ocupar uma sala inteira para expor uma grande quantidade de objetos coletados, nos mais distintos locais, reunidos e exibidos em um só lugar. Para Pomian: “Um gabinete é então o universo inteiro que se pode ver de um só golpe, é o universo reduzido, por assim dizer a dimensão dos olhos” (1982, p.342 apud RAFFAINI, 1993, p. 160). Paredes, estantes, gavetas e até mesmo tetos abrigavam objetos que representavam o exótico e as terras longínquas numa forma de colecionar que inseria a peça em uma rede de sentidos e de correspondências a partir de um paralelismo único em cada coleção.  

Apesar do que possa parecer atualmente, os gabinetes não eram como um amontoado de curiosidades dispostas a esmo. Muitos princípios organizadores, que parecem sempre terem existido, na verdade não datam de antes do Iluminismo. O sistema usado na organização e na disposição desses objetos está intrinsecamente ligado ao entendimento de como o homem daquela época compreendia o mundo. É preciso entender que a ordem nesses locais refletia a riqueza, a instrução, e o gosto do seu proprietário. Desta forma, os sistemas classificatórios eram bem variados e baseavam-se em características, associações e similaridade sempre relacionadas ao conhecimento e à vivência de quem expunha. Apesar das diferenças na forma de organizar, todas as coleções expressavam um microcosmo reunido em um único espaço. Entre as organizações utilizadas, a mais citada na literatura é a que ordenava a coleção em naturalia e artifitialia. O primeiro item englobava todos os elementos encontrados na natureza e o segundo tudo aquilo criado ou modificado pelo homem. Alguns acrescentavam um terceiro tópico a essa classificação, a mirabilia, que dizia respeito às maravilhas do mundo.  



02 - As estantes do Gabinete do Museu Wormianum mostram a classificação escolhida pelo seu proprietário.

Ainda cabe a observação que é preciso ter cuidado ao apresentarmos os museus como uma evolução dos gabinetes de curiosidades. Essa espécie de atalho pode ser atraente, todavia, os museus possuem uma outra lógica e organização uma vez que surgiram como iniciativas governamentais ou universitárias baseadas no saber científico e abertos ao público, tornando assim a ideia de progressão um tanto imprecisa. É necessário contemplar os gabinetes com outra extensão do olhar sem a atitude que se implantou a partir do século XVIII onde não se queria ou não se podia mais entendê-los.



03 - Gabinete de Curiosidades - Domenico Remps, 1690

Referências:
 

BLOM, Philipp. O dragão e o carneiro tártaro. In: Ter e manter. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003, p. 29-42.


JANEIRA, A. L. A configuração epistemológica do colecionismo moderno (séculos XV-XVIII). Episteme, Porto Alegre, n.20, janeiro/junho 2005, pp 23-36.

JULIÃO, Letícia. Apontamentos sobre a história do museu. Caderno de diretrizes museológicas, v. 1, n. 2, p.19-32, 2006.

RAFFAINI, P. T. Museu Contemporâneo e os Gabinetes de Curiosidades. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, S. Paulo, 3: 159-164, 1993.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Os gabinetes de curiosidades e a formação das coleções particulares - Tipologia de Museus 2020

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação
Curso de Museologia
Tipologia de Museus
Prof.: Luiz Henrique Assis Garcia

Discentes: Ana Cristina Matias, Anita Helena Vieira de Souza, Júnia Mara Alves de Souza, Layla Merli Antonio Costa Coimbra, Maria Bernadete de Almeida Assis, Maria Raquel Diamante Dias


Gravura do gabinete de curiosidades do naturalista Ferrante Imperato, em Nápoles, 1599.
Os gabinetes de curiosidades ou câmaras de maravilhas podem ser definidos como locais que reuniam fragmentos do mundo, microcosmo ou ainda por coleções de objetos raros e diversos, uma forma de acumulação. No século XV as viagens marítimas e o conhecimento de novas terras impulsionam o colecionismo, em busca de objetos raros, exóticos. O ato de colecionar era privilégio dos príncipes, que aguardavam por conhecer e principalmente possuir objetos antigos de civilizações distantes. Os studiolos espaço para abrigar objetos antigos surgem nesse momento, locais particulares em que eram utilizados para apreciação do belo e do precioso. Os gabinetes de curiosidades que eram formados por coleções particulares, evoluíram a partir do renascimento europeu, do humanismo e da curiosidade pelo naturalismo exótico dos trópicos. Com as grandes navegações o colecionismo estimulou a circulação de objetos, produtos, plantas, artesanias, técnicas, informações e a difusão do saber.Armazenavam e exibiam uma grande variedade de objetos e artefatos raros que contavam uma história particular. Antiguidades, objetos de história natural (como animais empalhados, insetos secos, conchas, esqueletos, herbários, fósseis) e mesmo obras de arte. Chegando a especializar suas coleções entre os três reinos naturais: animalia, vegetalia e mineralia.

Eram mantidos em sua maioria por burgueses, membros da realeza, artistas, permitiam-se visitas públicas e poderiam ser considerados até mesmo como pontos turísticos de acordo com a fama do colecionador. Os gabinetes clássicos existiam para serem vistos, tinham um público mais vasto, eram citados em viagens, descrições de cidades e até jornais. O grau de abertura dependia do seu proprietário e da época, eram até mesmo usados por professores e eruditos para suas aulas (*). Podemos citar aqui gabinetes importante e bem conhecidos como Gabinete dos Médicis em Florença, as coleções do imperador Rodolpho (1576-1612), em Praga, a coleção do arquiduque Ferdinando, no castelo de Ambras, em Viena, e a Câmara de Curiosidades do duque Alberto V, da Baviera. Outro importante nome foi o de Ulisses Aldrovandi (1522-1605) que mantinha uma coleção que em parte sobrevive até hoje no Museo d’Storia Nationale em Bolonha. Foi colecionista, dos reinos da natureza, reino vegetal e animal, Professor do curso de Medicina na Universidade de Bolonha onde construiu um herbário e o utilizava para dar aulas. Metódico, mantinha registro de visitantes e sua coleção era muito visitada, sua coleção chegou a ter 20 mil itens. O colecionismo tornou-se popular e o ser humano tornou o ato de recolher objetos e colecioná-los uma prática para recordar, contar histórias, mostrar bom gosto, poder, educação e entendimento sobre certo assunto. Importante ressaltar a função social dos colecionadores que atuavam como fomentadores e patrocinadores de produtos das artes e da ciência. Objetos operativos destinados ao olhar-ver (observar-experimentar e comparar).

Georg Hainz - óleo sobre tela - 115 x 93 cm - 1666 - Kunsthalle (Hamburg, Germany). 

No Brasil podemos citar a coleção de João Maurício de Nassau-Siegen, que foi governador-geral do Brasil holandês de 1637 a 1644, investiu no colecionismo de peças de espécies tropicais da flora e da fauna. Os itens da coleção são enviados à Europa com o retorno do conde e presenteados a pessoas influentes da sociedade europeia. Consta na literatura que o primeiro Gabinete de Curiosidades foi constituído em Salvador em 1835. Outro marco foi a Casa dos Pássaros ou Museu dos Pássaros (RJ), que antecede o Museu Nacional e era considerado um entreposto de produtos para Lisboa. Os Gabinetes de Curiosidades foram de extrema importância para o desenvolvimento científico uma vez que a coleta de espécimes da fauna, flora, e minerais faziam com que os colecionadores e estudiosos pesquisassem sobre o assunto com o material em mãos, sendo que alguns desses gabinetes foram a gênese de museus de história natural. Os Gabinetes deram origem a museus e seu formato ainda pode ser encontrado nos dias atuais. Em Belo Horizonte temos o museu do cotidiano que se assemelha aos gabinetes por sua riqueza e diversidade de objetos. Contudo, o fundador do museu não gosta do termo colecionador para referir a sua atividade, prefere a denominação de objeteiro.


Links: Objeteiro - https://www.youtube.com/watch?v=4JmGEiqt17o

 
 
 
Referências:

JANEIRA, A. L. A configuração epistemológica do coleccionismo moderno (séculos XV-XVIII). Episteme, Porto Alegre, n.20, janeiro/junho 2005, pp 23-36.

BLOM, Philipp. O dragão e o carneiro tártaro. In: Ter e manter. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003, p. 29-42.

BRIGOLA, João Carlos Pires. O colecionismo joanino. In: Colecções, gabinetes e museus em Portugal no século XVIII.Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

YATES, Frances A. A memória no renascimento: o Teatro da Memória de Giulio Camillo. In: A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007, p.171-204.

Nota do editor:
(*) Vale deixar claro que a abertura de Gabinetes foi paulatina e cheia de critérios por parte dos proprietários, e a ampliação do público foi tardia, mais frequentemente a partir do século XVIII.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Os gabinetes de curiosidades e a formação das coleções particulares [Tipologia de Museus 2019]

Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação – Graduação em Museologia
Disciplina: Função Social dos Museus - Atividade: Trabalho Final
Professor: Luiz Henrique Garcia de Assis

Autores: Antonio Marcus, Beatriz Figueiredo, Carolina Rocha, Erika Mendonça, Karla Esther e Natália Rocha.

     O colecionismo é uma característica inerente à diversas sociedades ao longo da história. Entretanto, é a partir do século XVI que esse fenômeno começa a ser realizado de forma sistemática, ocasionado pela quebra do paradigma epistemológico dominante, tendo a racionalização medieval teocêntrica dado lugar ao antropocentrismo, onde o homem passou a ser considerado o detentor da razão e capaz de realizar suas próprias escolhas no mundo.

     As coleções particulares representam, uma maneira de sobreviver até mesmo à própria morte. É a memória, do colecionador, seu legado. Tal fato se torna intrinsecamente essencial, principalmente por se tratar de um período no qual a medicina ainda não era tão avançada e as pessoas morriam muitas vezes, bastante jovens. É um fenômeno “Carpe Diem”, do Latim, termo que, em tradução livre significa tanto “aproveite o dia” no sentido belo do termo, viver cada dia para aproveitar bem, quanto aproveitar o dia pois este pode ser o último que você vive. Ou seja, a compreensão da efemeridade da vida faz com que o homem colecione. Com o tempo, este surto colecionista se espalha, deixando de fazer parte somente da rotina da nobreza.

     O período das coleções faz com que muitas pessoas passem a ter armários que abrigam coleções em suas casas (até mesmo as casas de boneca tinham tais móveis com pequenas conchas e objetos). Se destacaram na Holanda, em decorrência da ascensão do Calvinismo, onde era vista com maus olhos a ostentação de bens terrenos. Assim, esses proprietários expunham suas maravilhas em armários que se localizavam no interior de suas residências.

     As coleções surgem, portanto, do interesse humano pelo belo e pelo emblemático, a sede de conhecimento que foi alimentada pelas navegações. Contudo, o fenômeno da peste negra e o medo da morte fazem também parte do processo de consolidação dos chamados gabinetes de curiosidades, que ao contrário do que muitos acreditam possui sim um método lógico de organização (e possuía no modo de organização dos artefatos, a “assinatura do seu idealizador, de seu dono).

     A Europa foi o berço dessa faceta do colecionismo em decorrência das Grandes Navegações, causadas pelas inovações tecnológicas, que colaboraram na expansão do comércio, possibilitando assim a troca não só de bens, como tecidos e alimentos, mas também de objetos considerados como “maravilhas”, que representavam o “invisível”, ou seja, países exóticos e sociedades diferentes.

     Em decorrência desse fenômeno, a criação de novos espaços para abrigar essas coleções torna-se imperativa, iniciando assim o aparecimentos de locais como os gabinetes de curiosidades e os studiolos.

Studiolo que pertenceu a Francesco I de Medici, século XVI.

     Esses espaços surgiram como uma forma mais privada para a apreciação dos objetos, onde colecionadores, cada vez mais curiosos e desejosos de obter itens belos e emblemáticos, como também de objetos que para eles eram incompreensíveis, guardavam seus bens, que lhes serviam para a demonstração de seu poder aquisitivo e também intelectual.

     Contudo, com a expansão da atividade colecionista, os studiolos já não eram suficientes para abrigar todos os itens que eram coletados, e alguns colecionadores começaram a se especializar de acordo com suas preferências, formando coleções de naturalia e mirabilia. No século seguinte, essas divisões foram se alargando, fazendo surgir coleções artísticas, de numismática e medalhística, até o século XVIII, com o aparecimento de coleções arqueológicas.

     Com tudo isso, é possível discutir a importância do colecionismo para a formação dos museus, visto que essas primeiras coleções fazem parte do acervo de muitos deles, independente de suas tipologias. Entretanto, não se pode considerar os museus como uma evolução de gabinetes e studiolos, já que esses espaços possuíam sua própria organização e epistemologia, diferente do contexto de criação dos museus, usados para a criação das identidades nacionais no século XIX.

     Outro ponto importante se refere à possibilidade de haver fruição nos gabinetes de curiosidades, o que se confirma pela constatação de que a fruição seria a função primordial desses espaços. Os colecionadores os construíam justamente com a função de apreciação. Nesse aspecto, a estética era extremamente valorizada, visto que esses espaços eram expositores de objetos, pinturas, plantas, animais empalhados, com cada gabinete trazendo em si a característica de seu proprietário.

     Posteriormente, muitas destas coleções particulares são realocadas nos chamados museus modernos. Porém, é errôneo dizer que os museus são evoluções dos gabinetes, pois estes são instituições distintas que, muitas vezes, inclusive coexistiram. Com a passagem das coleções particulares para os museus, pelo menos, em teoria, com a abertura da instituição para o público e com a “perda das marcas do dono da coleção, da força de seu nome nesta”, as coleções ficam um pouco mais neutras. Porém, convém lembrar que nenhuma exposição é efetivamente neutra. A expografia, quem é o curador, o diretor, o tipo de coleção e as empresas ou o governo vigente, são alguns dos muitos fatores que acabam marcando as exposições. Deve-se, contudo, trabalhar com o ideal de museu polifônico, efetivamente democrático e representativo, para que as instituições museais cumpram sua missão de preservar e dar acesso público ao patrimônio não somente em um documento, também de forma efetiva.

     Deixaremos a título de aprofundamento e curiosidade sugestões de vídeos que ilustram o interior desses gabinetes, assim como uma outra modalidade desse fenômeno, os armários de curiosidades.

     Vídeos: https://youtu.be/_NDTSe4Y5JE; https://youtu.be/FM5xSyb5EP4. (Ressaltamos que esses dois vídeos são uma sequência, sendo que ambos foram produzidos em língua inglesa e a plataforma de streaming oferece legendas apenas em língua inglesa).

 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLOM, Philipp. O dragão e o carneiro tártaro. In: Ter e manter. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003, p. 29-42.

BRIGOLA, João Carlos Pires. O colecionismo joanino. In: Colecções, gabinetes e museus em Portugal no século XVIII.Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

JANEIRA, A. L. A configuração epistemológica do coleccionismo moderno (séculos XV-XViii). Episteme, Porto Alegre, n.20, janeiro/junho 2005, pp 23-36.

YATES, Frances A. A memória no renascimento: o Teatro da Memória de Giulio Camillo. In: A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007, p.171-204.

VIAGGIOINBAULE. Studiolo di Francesco I de’ Medici in Palazzo Vecchio, 2019, Disponível em:<https://www.viaggioinbaule.it/studiolo-di-francesco-i-palazzo-vecchio/>. Acessado: em 11 de novembro de 2019 às 13:13 horas.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Coleções inusitadas: Herança dos Gabinetes de Curiosidades [Tipologia 2017]

Universidade Federal de Minas Gerais Escola de Ciência da Informação 
Disciplina Tipologia de Museus Curso Museologia 

Prof. Luiz Henrique Assis Garcia 
Alunos: Rita Carvalho e Raphael Oliveira 


Existe diferença entre colecionador e acumulador? O dicionário Aurélio da língua portuguesa define coleção como a “Reunião de objetos da mesma natureza.” e colecionador
como “Indivíduo que coleciona.” O colecionador é aquele indivíduo que ao longo de sua vida incorpora bens com valor atribuído por ele ao seu patrimônio, bens esses que se encaixam nos seus interesses pessoais e assim são incorporados e cuidados  por ele. Ele seleciona os objetos que vão fazer parte da sua coleção, diferente do acumulador que no geral agrupa objetos sem um tratamento ou organização e muitas vezes espera que este ainda tenha alguma função para desempenhar. No campo da museologia de acordo com a definição do ICOM (Conselho Internacional de Museus) para evitar banalização do uso do termo “coleção” no contexto dos museus, é entendida como “um conjunto de objetos materiais ou imateriais que um indivíduo, ou um estabelecimento, se responsabilizou por reunir, classificar, selecionar e conservar seja
está uma coleção pública ou privada.”
Nos séculos XVI e XIX existiam colecionadores que mantinham coleções com uma variedade de objetos organizados em grandes salas, como no Museum Wormianum de propriedade do nobre dinamarquês Ole Worm. Esse acervo era composto por elementos de várias culturas, o qual ficou conhecido como um exemplo de gabinetes de curiosidades.
Os gabinetes de curiosidade eram grandes coleções de fósseis, plantas, objetos e animais empalhados que eram exibidos para outros nobres como troféus e representavam o poder do conhecimento daqueles que o possuíam.

Atualmente temos grandes colecionadores que a partir de seus acervos pessoais fundam museus como o colecionador Antônio Carlos Figueiredo que fundou o Museu do Cotidiano, em uma área de mais de 600 metros quadrados, próximo do Circuito Liberdade. Sua coleção possui milhares de itens que vão desde primeiros carros vendidos no Brasil a brinquedos do Parque Municipal de Belo Horizonte.

Seu idealizador acumula objetos relacionados ao cotidiano da cidade como placas de lojas e objetos que narram a evolução tecnológica no Brasil como a chegada da televisão e dos celulares. Um colecionador peculiar com interesse nos mais diversos temas e que tem a missão de transformar os objetos que recebeu de doadores ou foram comprados em acervo documentado e identificado de forma que atenda às exigências do instituto brasileiro de museus.

Links:
Museu do cotidiano-BH  https://www.youtube.com/watch?v=RTFnXYmWb4o

Referências bibliográficas:

BRIGOLA, João Carlos Pires. Coleções, gabinetes e museus em Portugal no século XVIII. Textos universitários de Ciências sociais e humanas 2003

Facta

Dicionário Aurélio
Disponível em: ‹https://dicionariodoaurelio.com Acesso em: 26 nov. 2017

Gabinete de curiosidade
Disponível em http://gabinetedecuriosidades.org/o-gabinete/ Acesso em: 26 nov. 2017

Conceitos Chaves de Museologia Disponível em

Museu Do Cotidiano


segunda-feira, 13 de março de 2017

A INFLUÊNCIA DOS GABINETES DE CURIOSIDADES NO SÉCULO XXI [Tipologia 2016]

disciplina: Tipologia de Museus (2º semestre 2016)
professor: Luiz H. Garcia
Alunos responsáveis: Boris Christoff; Jéssica Tôrres; Letícia Zignago; Viviane Ferreira

A influência dos Gabinetes de Curiosidades no século XXI

Os Gabinetes de Curiosidades nos séculos XVI e XVII proporcionaram o encontro de mecenas, artistas, aprendizes, cientistas e colecionadores de uma forma nunca vista antes. Para estar no gabinete bastava ser um apreciador de peças como taxidermia, botânica, indumentária, instrumentos variados, obras de arte entre outros.

Apesar do caráter elitista, os gabinetes não eram apenas agentes da admiração estática: eram ateliês para jovens pintores e seus mestres, e uma ampla pesquisa de campo para cientistas das mais diversas áreas, espaços de produção de conhecimento. Para os proprietários de gabinetes de artes plásticas havia ainda o privilégio de serem presenteados com um quadro evocativo, elevando a sua posição a classe dos clérigos e nobres que eram sempre retratados. O homem confere significância diversa a objetos, com intuito de preservar a memória do seu caráter efêmero. Assim, ele proporciona o resgate da memória, que nos permite quitar as dívidas do presente com o passado, dando vida ao que estava condenado ao esquecimento e fornecendo subsídios para construir e aprofundar outras histórias esquecidas, trazendo à tona a imagem do que foi sepultado pela história, porém nunca pelos seus participantes.




“Musei Wormiani Historia”, gabinete retratado no Museu Wormianum, publicado no século XVII.

Ao embarcar nesse mundo, é difícil não mencionar a exposição “Gabinete de Obras Máximas e Singulares” na Biblioteca Nacional [site oficial aqui “https://www.bn.gov.br/”] no Rio de Janeiro, que aconteceu de 22 de agosto de 2016 a 30 de novembro do mesmo ano. A exposição possui cerca de 507 obras originais, distribuídas pelos corredores. O método utilizado para expor as peças foi inspirado nos Gabinetes de Curiosidades, com vitrines que remeteram as tradicionais expositoras horizontais, oriundas dos séculos XVI e XVII, confrontando o horizontal padronizado nos museus atualmente.



Parte da exposição “Gabinetes de Obras Máximas e Singulares”, Biblioteca Nacional.
O resgate desse modelo nos leva a refletir sobre a constante mutação dos museus. De um lugar exclusivo e com excesso de conteúdo não trabalhado, os museus se tornaram um espaço de convivência e aprendizado democrático. Com o surgimento da Nova Museologia e suas medidas sociais, além de novas tecnologias, os museus tiveram de abandonar antigos modelos e se assumirem também como espaço da memória das culturas. Desta forma, podemos refletir sobre a forma como o público busca e recupera a informação representada e organizada, bem como se apropria da memória, cultura e conhecimentos. Uma democratização desses espaços os torna laboratórios empíricos, culturalmente e didaticamente. Essa mediação cultural estaria a serviço de promover acessibilidade de grupos (muitas vezes, excluídos), recriando sua cultura e permitindo a criação e apropriação de bens simbólicos.

A museologia social se preocupa com o público visitante, oferecendo um espaço dinâmico, de interação entre ele e o objeto. Os museus atuais, para cumprir esta função interacional de forma ampla, aliam-se às tecnologias de informação e comunicação. Essas tecnologias estão ligadas intrinsecamente às práticas sociais, pois surgem a partir de uma necessidade da sociedade, refletindo sua realidade.

Os Museus enquanto organizações culturais geram e têm à sua guarda um manancial de informação vastíssimo (Kavakli&Bakogianni, n.d.), sendo aqueles, de todas as unidades documentais (bibliotecas, arquivos e museus), os que reúnem em simultâneo o tratamento de vários tipos de informação (Peset Mancebo, 2002).

Sobre a perspectiva museológica, dada a “malha” de informação que circula e o conhecimento necessário para a tratar, torna-se essencial identificar as diferentes tipologias e centros produtores de informação, para articular e gerir de forma integrada, estabelecendo as relações necessárias entre a mesma, quer se trate de informação sobre as coleções, sobre os visitantes ou sobre alguma tecnologia multimídia, uma vez que, toda ela tem um papel representativo, num todo que é o museu e nas suas metas e objetivos a alcançar (Orna &Pettit, 1998).
[acesse www.bad.pt/noticia/2013/04/17gestao-da-informacao-em-museus-uma-abordagem-pela-importancia-do-acesso-integrado-a-informacao/ ]


Considerando o museu como espaço de memória, comunicação, mediação e apropriação, ao invés de simplesmente contemplação, avançam as reflexões na Ciência da Informação (CI), assim com na Museologia. Os estudos nessas áreas permitem a perspectiva dos museus como produtores de informação. Na visão de Mario Chagas:

selecionar, reunir, guardar e expor coisas num determinado espaço, projetando-as de um tempo a outro, com o objetivo de evocar lembranças, exemplificar e inspirar comportamentos, realizar estudos e desenvolver determinadas narrativas parecem constituir as ações que, num primeiro momento, estariam nas raízes dessas práticas sociais chamadas, convencionalmente, de museus (CHAGAS, 2009, p. 22)
CONCLUSÃO

O museu além de um espaço de cultura, no sentido de informar o público sobre o acervo de bens culturais - material e imaterial, é também um espaço de memória que pode possibilitar a recriação de narrativas culturais. Assim, a coleção é em si um material rico de memória, uma forma de diálogo entre espaços e tempos diferentes.

Vale salientar que os objetos constantes nos acervos ganham certo valor a partir do discurso ideológico que o museu vai estabelecer e delimitar, segundo os seus próprios critérios e as suas tipologias. Entendendo as coleções como um testemunho de uma dada realidade, é inegável a sua importância enquanto elemento de registro e pesquisa do espaço e tempo histórico no qual foram produzidos.

Os museus possuem um papel relevante para a mudança social e desenvolvimento e devem cumprir sua missão educativa e transformadora, envolvendo e integrando a sociedade nesse processo. Essas instituições devem oferecer atrativos para o público, fazendo com que este se aproprie do conhecimento proporcionado pela proposta da exposição dos objetos nesses espaços.

REFERÊNCIAS:

CHAGAS, Mário de Souza. A imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Rio de Janeiro: MinC/ IBRAM, 2009. 258 p.
JANEIRA, Ana Luísa. “A configuração epistemológica do coleccionismo moderno (séculos XV-XVIII). Matriz da Conferência Inaugural do Colóquio Internacional O Espírito do Coleccionismo, Porto Alegre, Agosto de 2005.
LE GOFF, Jacques. História e memória: escrita e literatura. Campinas: Ed. Unicamp, 2003.
ORNA, E., & Pettit, C. (1998). Information management in museums (2nd ed.). Hampshire: Gower.


Sites (consultados entre novembro 2016 e fevereiro de 2017)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Colecionismo, ciência e a institucionalização da curiosidade [Tipologia 2015]


Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Escola de Ciência da Informação - Curso de Museologia
Disciplina: Tipologia de Museus - Professor: Luiz Henrique Assis Garcia
Alunos: Gabriel Carneiro, Hawiza Banheza, Soraia Vasconcelos

Colecionismo, ciência e a institucionalização da curiosidade


                                 Vincent, Levinus (1715) Wondertooneel der natuur [Tome 1]


Entre as muitas conquistas do homem a partir do século XV, com o Renascimento e o Iluminismo , figura o direito à curiosidade frente à natureza e a si próprio. Direito de fazer perguntas e de procurar respostas, de questionar e de duvidar de verdades absolutas.

A explicação das dádivas ou punições divinas não era mais compatível com o crescente espírito científico. Os avanços tecnológicos, as Grandes Navegações e a extensão do mundo conhecido para muito além do imaginado, passada a surpresa, desafiavam as ideias e a compreensão. A curiosidade significava o desejo “de ver, saber, de informar-se, de desvendar e alcançar; o desejo irreprimível de conhecer os segredos”*.

E, no exercício da curiosidade, o homem se deparava a todo momento com novas curiosidades, “objetos raros e/ou interessante; raridades”*, naturalia, artificilia, mirabilia. A consciência da própria individualidade, da morte e do fim das coisas aguçava o desejo de ter, reter e manter tantas maravilhas. Sentimento que encontrou ressonância na prática do colecionismo, antiga, mas revigorada.

O conceito de gabinete estendeu-se de um móvel para o cômodo inteiro. Gabinete de Maravilhas ou, mais propriamente, de Curiosidades, sugerindo o desejo também de “aprender, conhecer, investigar determinados assuntos”.* E à contemplação das maravilhas, muitas vezes, sobrepunha-se o esforço de investigação. Em 1554, o farmacêutico, botânico e herbalista italiano Francesco Calzolari já fazia viagens para recolher plantas, animais, fósseis e amostras geológicas. Em 1566, publicou um diário com os registros. Parte do material foi reunida em quartos, conforme o tipo. O site Museu de História Natural de Verona  fala em “gavetas contendo fósseis de peixes, quase certamente Bolca, modelado com uma forma elíptica característica”. Um desses espécimes ainda está preservado no Museu.

Também na Itália, em 1599, Ferrante Imperato, boticário de Nápoles, na Itália, publicava Dell'Hifoi storia Naturale. O catálago foi ilustrado com imagens do gabinete do próprio Imperato que possuia conchas, pássaros, criaturas do mar, fósseis, argilas, minerais e minérios metálicos, mármore, espécies de gema, além de um herbário. Na Dinamarca, o médico e naturalista Ole Worm mantinha um gabinete que itinha desde espécies e artefatos do Novo Mundo a animais dissecados e fósseis. Worm defendia que o conhecimento era fruto da observação da natureza – do empirismo e da experiência – e não do estudo de textos. Àquela altura, faltava campo para observação, graças, principalmente, à conquista de novas terras. Um catálogo de 1655 - Worm's Museum, or the History of Very Rare Things, Natural and Artificial, Domestic and Exotic – traz no frontespício uma imagem do gabinete de Worm recriado por pesquisadores, em 2014. ( Leia mais )

Portugal alcançaria, nos século XVII e XVIII, a posição de “fornecedor” de laboratórios naturais e de curiosidades, com suas colônias atraindo a atenção de naturalistas de diferentes nacionalidades. E se o dicionário define curiosidade também como “tendência de amador a procurar coisas raras e originais”, é fato que, naquele momento, amadores tornaram-se profissionais, frequentando cursos, inclusive na Universidade de Coimbra, e recebendo instruções minuciosas sobre métodos de recolher, preparar, remeter, e conservar produtos naturais das colônias para a Corte. Desse e de outros esforços pioneiros surgiram normas que fundaram uma metodologia de classificação e ordenação. É o caso da taxonomia desenvolvida pelo botânico sueco Carl von Linné ((1707 - 1778), como mostra o vídeo do Museu de História Natural de Londres, Naming nature, putting life in order

Assim, a curiosidade e as curosidades contribuíram para a constituição das Ciências Naturais e para a formação de muitos acervos , evidenciando a sintonia entre a prática colecionista com o tempo em que se insere. Aos poucos, tais acervos contribuíram também para a conformação de uma das principais tipologias de museus - de história natural - que ainda preservam e pesquisam muitas dessas coleções pelo mundo afora.

Dos tempos dos gabinetes ficaram registros ainda nos museus de arte, em pinturas que retratam os antigos ármarios e a importância social dos colecionadores de curiosidades. Em destaque, a série Alegoria dos Cinco Sentidos, de Jan Brueghel el Viejo e Rubens, do Museu do Prado, em Madri, e cujas obras , especialmente “La vista”, são consideradas exemplos do colecionismo eclético e das compilações enciclopédicas.


       Alegoría de los cinco sentidos – La vista Jan Brueghel el Viejo e Rubens - 1617 - 1618

Passados seis séculos, o esforço de tantos pesquisadores que se debruçam sobre esses temas mostra a relevância deles para a Museologia, as Ciências Naturais e a História, entre diversas áreas. Mostra também que a curiosidade, no amplo significado de investigar/conhecer é direito inalienável do homem em qualquer tempo e está definitivamente institucionalizada no campo das ciências e dos museus.


Referências:
BLOM, Philipp. Ter e manter. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003. 303 p.
BRIGOLA, João Carlos Pires. Colecções, gabinetes e museus em Portugal no século XVIII. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. HOOPER-GREENHILL, Eilean.
ECO, Umberto. A Vertigem das listas. Rio de Janeiro: Record, 2010.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Curitiba. Editora Positivo, 2009.
JANEIRA, A. L. A configuração epistemológica do coleccionismo moderno (séculos XV-XViii). Episteme. Porto Alegre, n.20, janeiro/junho 2005, pp 23-36.
MAURIÈS, Patrick. Cabinets de curiositès. Paris: Gallimard, 2011.
YATES, Frances A. A memória no renascimento: o Teatro da Memória de Giulio Camillo. In: A arte da memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.

Sites (consultados entre setembro e novembro de 2015)
http://www.rubenshuis.be/Museum_Rubenshuis_NL