segunda-feira, 13 de março de 2017

MUSEUS ETNOGRÁFICOS: O CASO DE ISHI [Tipologia 2016]

disciplina: Tipologia de Museus (2º semestre 2016)
professor: Luiz H. Garcia
Alunas responsáveis:Ana Clara Souza Antunes; Isabella Andrade Oliveira Melo Proença

 MUSEUS ETNOGRÁFICOS: O CASO DE ISHI

Os museus etnográficos surgiram como uma forma de consolidação das expansões coloniais, época onde os europeus acumularam muitos fragmentos de suas viagens, e a manutenção da hegemonia eurocentrista. Com isso, observamos como as culturas consideradas primitivas eram objetificadas e, por isso, tratadas como inferiores.

Imagem (negativo fotográfico): Ishi. Fonte: Acervo Phoebe Hearst Museum of Anthropology
(Disponível em https://webapps.cspace.berkeley.edu/pahma/imageserver/blobs/49c02212-c8f4-4078-b804/derivatives/OriginalJpeg/content)

A história de Ishi foi contada por um livro de Theodora Kroeber, a partir dos relatos de seu marido, o antropólogo Alfred Kroeber, e serviu de inspiração para a criação de dois filmes: “Ishi, the last of his tribe” e “The last of his tribe”. Ishi foi considerado o último de seu povo yahi, que foi massacrado por colonizadores no norte da Califórnia. O índio foi encontrado em 1911 faminto e em situação precária e levado para o Museu de Etnografia de São Francisco aos cuidados de Alfred Kroeber. Por cinco anos, Ishi viveu como objeto de estudo e de visitação pública até morrer de tuberculose. O corpo de Ishi foi autopsiado, contrariando a cultura de seu povo e seu cérebro preservado. O caso exemplifica como os museus etnográficos tinham em sua essência o papel de mostrar a superioridade dos brancos sem dar voz e autonomia para que outras culturas se representassem. Atualmente vemos a necessidade da pluralidade de vozes e de auto-representação de grupos dentro dessas instituições para a legitimação de suas identidades. Clifford defende os museus etnográficos como zonas de contato, onde há efetiva relação e processos mútuos entre museu e sociedade. Deve-se buscar a alteridade e trabalhar em uma maior valorização das diferenças.

Link do filme O Último Selvagem (The Last of his Tribe) completo:

 

REFERÊNCIAS

GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte "primitiva": o caso do Musée Branly.
Horiz. antropol. , Porto Alegre , v. 14, n. 29, p. 279-314, June 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832008000100012&lng=en&nrm=iso>. access on 08 Feb. 2017.
CLIFFORD, James . Itinerarios transculturales .Barcelona: Gedisa, 1999. 493 p.
KERSTEN, Márcia Scholz de Andrade, & BONIN, Anamaria Aimoré. Para pensar os museus, ou quem deve controlar a representação do significado dos outros? MUSAS - Revista Brasileira de Museus e Museologia. Rio de Janeiro, n. 3, 2007.
VASCONCELLOS, Camilo de Mello. Museus antropológicos na contemporaneidade: perfil, perspectivas e novos desafios. Anais.. Buenos Aires: ICOM/ICOFOM, 2011

Museólogo, guerras simbólicas invisíveis [Tipologia 2016]



disciplina: Tipologia de Museus (2º semestre 2016)
professor: Luiz H. Garcia
Alunos responsáveis: Rosiane da Silva Nunes; Maria Celina Machado ; Ana Luiza Dias

Museólogo, guerras simbólicas invisíveis.

Qual a função do bem cultural e/ou obra de arte? São inúmeras as tentativas de respostas. No entanto, proponho realizarmos algumas reflexões. Será a arte tão dispensável? Napoleão em suas invasões saqueava testemunhos da história (objetos de obras de arte) levava para França com uma das finalidades, ‘educar’ a nobreza. Consideramos a empenho de Adolf Hitler em destruir obras de arte, durante o ‘Terceiro Reich’ na Segunda Guerra Mundial, como ato displicente e perca de tempo? Será que Hitler não sabia o que estava fazendo? E o governo Temer, primeiro Ministério a ser desconstituído, Ministério da Cultura, redução de custos?




(https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=IH%2fL1kyK&id=61B2E8D6ECF9FACDE8234D3D861F8FFD90CCC030&q=europa+saqueada+a+influ%c3%aancia+nazista&simid=607996636929067093&selectedIndex=165&ajaxhist=0)


A institucionalização e democratização da Cultura no Brasil é um trabalho incansável. Desde o movimento modernista até os dias atuais passou por recorrentes tentativas de esfacelamento ou mesmo de apagamento. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo_no_Brasil )

Observa-se que o Museu, consciente de sua função social, que possibilita informar, formar e influenciar pessoas e pode ser uma ferramenta para governos voltados para interesses difusos.

Pergunto, qual o papel do Museólogo, sendo ele ciente do seu compromisso social? Segundo Lourenço (1999:37) os Museus geralmente carecem de tudo (ou quase tudo) , principalmente de pesquisas e remuneração a altura dos profissionais, que geralmente são altamente qualificados. Os salários são simbólicos e o pessoal dedicado, os salários são equivalentes às dificuldades, trabalho “só pode ser entendido como extrema paixão, vontade de mudar, idealismo, sonhos e espírito público, pois, não há compensação material”.

(https://www.facebook.com/MuseologiadaZoeira/photos/a.870082809689479.1073741829.870030003028093/922952264402533/?type=3&theater)



Enfim, os Museus são espelho da sociedade, as instituições modernas/atuais refletem o legado herdado e a complexidade dos conflitos ideológicos e de interesse pessoais, de determinado grupo ou do Estado que está inserido. Ser museólogo de um museu ligado ao poder público, seja ele municipal, estadual ou federal, além das dificuldades diárias de escassez de tudo (especialmente desinteresse em resolver problemas estruturais) é estar à mercê de diversas negociações, onde muitas vezes, vêm de cima para baixo.

No Brasil, acreditar no poder transformador da Cultura democrática é trabalhar contra diversas forças e com isso, as vezes travar guerras simbólicas inimagináveis.



Bibliografia


LOURENÇO, Maria Cecilia França. Museus acolher moderno. São Paulo: EDUSP, 1999.293p.

NICHOLAS, Lynn H. , Europa Saqueada: o destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial; São Paulo: Companhia das Letras.

BALDASSARRE, Maria Isabel. As origens do colecionismo de arte pública e privada e, Buenos Arires. In: Souza, Eneida Maria de; MIRANDA, Wander Melo (Orgs.). 2008, vol.16, n.2, pp.131-173.

COSTA, Helouise. Da fotografia como arte à arte como fotografia: a experiência do Museu de Arte Contemporânea da USP na década de 1970.An. mus. Paul [online] 2008, vol 16, n.2, pp. 131-173.

HERNÁNDEZ, Francisca. Manual de Museologia, Madrid.


Museu Território [Tipologia 2016]

disciplina: Tipologia de Museus (2º semestre 2016)
professor: Luiz H. Garcia
Alunos responsáveis: Lucas Gabriel Ataíde, Maria Eduarda de Carvalho, Silvia Maria

Museu Território
Apropriar-se de seu patrimônio é identificar-se nele, é fortalecer o senso de pertencimento ao grupo do qual ele representa simbolicamente a identidade. Significa construir uma identidade a partir de traços de um passado comum. (IPAC, BA)

Apropriar-se de sua história, significa reconhecer sua existência identificando-se como uma parte infinita e contínua da mesma. Logo, passa-se a compreender a necessidade de preservação e conservação tanto da história oral quanto dos bens tombados, contribuindo assim para manter a história memorada, postergando-a para futuras gerações. 


O museu (uma metonímia das Minas Gerais) constituí um lugar de diálogo entre linguagens e memórias que visa a construir espaços possíveis e resgatar identidades esfaceladas. O projeto (Territórios) quer reconfigurar, sobre os territórios institucionalizados, um movimento que os desestabilize, apontando outros espaços, outras beiradas, outros limites, outras passagens. (Melendi, 2006 p.83)

Em 1895, era criado o Museu Mineiro (MM), mediante decreto, o mesmo que determinava a criação do Arquivo Público Mineiro, parte do qual futuramente integraria o acervo da instituição. O Museu, que se localiza na capital mineira, fora concebido a fim de resguardar a história do Estado de Minas Gerais, logo seu acervo atual é composto por peças de mobiliário, pinturas, numismática, armas, artigos religiosos, esculturas e elementos da vida cotidiana local.

Em 2006 o Museu Mineiro lançou o Projeto Território como parte de um compêndio de ações que aplicavam o conceito do Museu como guardião da memória e da cultura mineira, logo, levavam o público a apropriar-se de sua história. Borges e Pena afirmam: [...] Vivenciar o museu no Projeto Território nos permitiu ver além do que o olhar/guia nos oferecia enquanto visitantes. (2006, p.251). Clique para saber mais (http://territoriomuseumineiro.blogspot.com.br/)

Algumas das primeiras ações de apropriação de seu espaço musealizado propostas pelo MM foram resultado de intervenções no interior dos espaços expositivos do museu, assim como no espaço externo, tento como exemplo o Desenho Museografado, que consistiu em uma mesa onde haviam queijos em pratos brancos e as pessoas eram convidadas a se reunir em volta dela tornando-se oficiantes ou participantes.
O ritual da decoração do queijo permite que os distantes se unam e os desconhecidos se conheçam ante a mesa escura, os queijos redondos e as facas afiadas. ”(Melendi, 2006 p.82)


 
 
 
 
Mais um exemplo da apropriação de um espaço museal é a Folia de Reis, no mês da festividade uma imagem sagrada é deslocada para um dos espaços expositivos do Museu Mineiro, dando origem assim a um altar. Os Grupos de Reinados, suas Irmandades e Guardas do Congo vem de diversas cidades mineira e são convidados pelo museu para celebrar a Folia de Reis.


Naquela tarde, não distinguíamos quem eram os foliões de reis, quem eram os artistas. Não havia mesmo – e lá haverá? – diferença alguma entre quem vencia a matéria e a morte cantando e dançando ancestralmente, e quem fazia no momento recentíssimo em que a essência de goiabada subia a nossos narizes, [...] Nem distinguíamos quem eram os artistas, quem eram os funcionários. [...], os artistas mao-tsé-tunguianamente, ou, antes, sergioferramente, amassavam o pão de queijo servido quentinho aos visitantes, e todos, indistintamente, eram convidados àquela mesa; todos, livres obreiros daquela obra. (Penna, 2006 p.33)
Clique aqui para saber mais (http://museuguardas.blogspot.com.br/)
O museu através de inúmeras ações de apropriação do patrimônio, educação patrimonial vem mantendo viva as tradições e culturas do Estado de Minas Gerais, preservando tanto bens matérias quanto a história oral e o saber fazer de um povo, contribuindo assim para que a cultura mineira se postergue para as próximas gerações e demonstrando à geração atual, turistas e demais interessados a riqueza cultural mineira e sua importância para a formação do patrimônio do estado.  
 

Referências Bibliográficas:


MAGALHÃES, Francisco. Desenho Museografado: sobre a mesa de queijos e outras apropriações de um museu estadual: Museu Mineiro, 2006/2011.Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, Superintendência de Museus e Artes Visuais. Belo Horizonte,2011. 347 p.

Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Conceitos Gerais – Educação Patrimonial. Disponível em: http://www.ipac.ba.gov.br/preservacao/conceitos-gerais. Acessado em: 2 de fev 2017.

A INFLUÊNCIA DOS GABINETES DE CURIOSIDADES NO SÉCULO XXI [Tipologia 2016]

disciplina: Tipologia de Museus (2º semestre 2016)
professor: Luiz H. Garcia
Alunos responsáveis: Boris Christoff; Jéssica Tôrres; Letícia Zignago; Viviane Ferreira

A influência dos Gabinetes de Curiosidades no século XXI

Os Gabinetes de Curiosidades nos séculos XVI e XVII proporcionaram o encontro de mecenas, artistas, aprendizes, cientistas e colecionadores de uma forma nunca vista antes. Para estar no gabinete bastava ser um apreciador de peças como taxidermia, botânica, indumentária, instrumentos variados, obras de arte entre outros.

Apesar do caráter elitista, os gabinetes não eram apenas agentes da admiração estática: eram ateliês para jovens pintores e seus mestres, e uma ampla pesquisa de campo para cientistas das mais diversas áreas, espaços de produção de conhecimento. Para os proprietários de gabinetes de artes plásticas havia ainda o privilégio de serem presenteados com um quadro evocativo, elevando a sua posição a classe dos clérigos e nobres que eram sempre retratados. O homem confere significância diversa a objetos, com intuito de preservar a memória do seu caráter efêmero. Assim, ele proporciona o resgate da memória, que nos permite quitar as dívidas do presente com o passado, dando vida ao que estava condenado ao esquecimento e fornecendo subsídios para construir e aprofundar outras histórias esquecidas, trazendo à tona a imagem do que foi sepultado pela história, porém nunca pelos seus participantes.




“Musei Wormiani Historia”, gabinete retratado no Museu Wormianum, publicado no século XVII.

Ao embarcar nesse mundo, é difícil não mencionar a exposição “Gabinete de Obras Máximas e Singulares” na Biblioteca Nacional [site oficial aqui “https://www.bn.gov.br/”] no Rio de Janeiro, que aconteceu de 22 de agosto de 2016 a 30 de novembro do mesmo ano. A exposição possui cerca de 507 obras originais, distribuídas pelos corredores. O método utilizado para expor as peças foi inspirado nos Gabinetes de Curiosidades, com vitrines que remeteram as tradicionais expositoras horizontais, oriundas dos séculos XVI e XVII, confrontando o horizontal padronizado nos museus atualmente.



Parte da exposição “Gabinetes de Obras Máximas e Singulares”, Biblioteca Nacional.
O resgate desse modelo nos leva a refletir sobre a constante mutação dos museus. De um lugar exclusivo e com excesso de conteúdo não trabalhado, os museus se tornaram um espaço de convivência e aprendizado democrático. Com o surgimento da Nova Museologia e suas medidas sociais, além de novas tecnologias, os museus tiveram de abandonar antigos modelos e se assumirem também como espaço da memória das culturas. Desta forma, podemos refletir sobre a forma como o público busca e recupera a informação representada e organizada, bem como se apropria da memória, cultura e conhecimentos. Uma democratização desses espaços os torna laboratórios empíricos, culturalmente e didaticamente. Essa mediação cultural estaria a serviço de promover acessibilidade de grupos (muitas vezes, excluídos), recriando sua cultura e permitindo a criação e apropriação de bens simbólicos.

A museologia social se preocupa com o público visitante, oferecendo um espaço dinâmico, de interação entre ele e o objeto. Os museus atuais, para cumprir esta função interacional de forma ampla, aliam-se às tecnologias de informação e comunicação. Essas tecnologias estão ligadas intrinsecamente às práticas sociais, pois surgem a partir de uma necessidade da sociedade, refletindo sua realidade.

Os Museus enquanto organizações culturais geram e têm à sua guarda um manancial de informação vastíssimo (Kavakli&Bakogianni, n.d.), sendo aqueles, de todas as unidades documentais (bibliotecas, arquivos e museus), os que reúnem em simultâneo o tratamento de vários tipos de informação (Peset Mancebo, 2002).

Sobre a perspectiva museológica, dada a “malha” de informação que circula e o conhecimento necessário para a tratar, torna-se essencial identificar as diferentes tipologias e centros produtores de informação, para articular e gerir de forma integrada, estabelecendo as relações necessárias entre a mesma, quer se trate de informação sobre as coleções, sobre os visitantes ou sobre alguma tecnologia multimídia, uma vez que, toda ela tem um papel representativo, num todo que é o museu e nas suas metas e objetivos a alcançar (Orna &Pettit, 1998).
[acesse www.bad.pt/noticia/2013/04/17gestao-da-informacao-em-museus-uma-abordagem-pela-importancia-do-acesso-integrado-a-informacao/ ]


Considerando o museu como espaço de memória, comunicação, mediação e apropriação, ao invés de simplesmente contemplação, avançam as reflexões na Ciência da Informação (CI), assim com na Museologia. Os estudos nessas áreas permitem a perspectiva dos museus como produtores de informação. Na visão de Mario Chagas:

selecionar, reunir, guardar e expor coisas num determinado espaço, projetando-as de um tempo a outro, com o objetivo de evocar lembranças, exemplificar e inspirar comportamentos, realizar estudos e desenvolver determinadas narrativas parecem constituir as ações que, num primeiro momento, estariam nas raízes dessas práticas sociais chamadas, convencionalmente, de museus (CHAGAS, 2009, p. 22)
CONCLUSÃO

O museu além de um espaço de cultura, no sentido de informar o público sobre o acervo de bens culturais - material e imaterial, é também um espaço de memória que pode possibilitar a recriação de narrativas culturais. Assim, a coleção é em si um material rico de memória, uma forma de diálogo entre espaços e tempos diferentes.

Vale salientar que os objetos constantes nos acervos ganham certo valor a partir do discurso ideológico que o museu vai estabelecer e delimitar, segundo os seus próprios critérios e as suas tipologias. Entendendo as coleções como um testemunho de uma dada realidade, é inegável a sua importância enquanto elemento de registro e pesquisa do espaço e tempo histórico no qual foram produzidos.

Os museus possuem um papel relevante para a mudança social e desenvolvimento e devem cumprir sua missão educativa e transformadora, envolvendo e integrando a sociedade nesse processo. Essas instituições devem oferecer atrativos para o público, fazendo com que este se aproprie do conhecimento proporcionado pela proposta da exposição dos objetos nesses espaços.

REFERÊNCIAS:

CHAGAS, Mário de Souza. A imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Rio de Janeiro: MinC/ IBRAM, 2009. 258 p.
JANEIRA, Ana Luísa. “A configuração epistemológica do coleccionismo moderno (séculos XV-XVIII). Matriz da Conferência Inaugural do Colóquio Internacional O Espírito do Coleccionismo, Porto Alegre, Agosto de 2005.
LE GOFF, Jacques. História e memória: escrita e literatura. Campinas: Ed. Unicamp, 2003.
ORNA, E., & Pettit, C. (1998). Information management in museums (2nd ed.). Hampshire: Gower.


Sites (consultados entre novembro 2016 e fevereiro de 2017)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Visita ao Museu Nacional de Belas Artes - Havana, Cuba

Há quase um ano estive em Cuba para participar de um evento acadêmico e como sempre procuro fazer nessas ocasiões encontrei algum tempo para conhecer museus. Como o tempo era curto eu privilegiei aqueles que poderiam oferecer algum material para as aulas, como o Museu da Revolução - um museu histórico - e o Museu Nacional de Belas Artes, obviamente um museu de arte, mas é interessante notar que seu acervo não corresponde apenas ao período que antecede a Arte Moderna, como muitas vezes é o caso nos museus que utilizam a nomenclatura "Belas Artes", estendendo-se pelo século XX e incluindo aquilo que se convenciona considerar Arte Moderna e também Arte Contemporânea. A permanência de seu nome provavelmente é em razão de manter algo consolidado e tradicional [site oficial, aqui. É possível ler os textos, muitos deles ainda dispostos no sistema de encartados plastificados posicionados à entrada das salas]. Estava em cartaz uma exposição temporária de retratos, Os rostos da modernidade [aqui algumas das obras e um pequeno ensaio fotográfico a respeito]
Como segui à risca a determinação de sua direção de não tirar fotos nas salas de exposição, fiquei com anotações de obras e artistas sempre aguardando um momento oportuno para arregimentar imagens via internet e fazer uma postagem ou apresentação. Momento que, claro, não veio nunca. Acabei resolvendo na marra cumprir parcialmente o que imaginei, estimulado pelo fato de que irei retomar as aulas da disciplina Tipologia de museus amanhã para repor o que falta do cronograma, devido à ocupação e subsequente greve de professores do final do ano passado. Após alguma busca, encontrei um álbum de viagens que alguém publicou - coisa de turista mesmo - que ajuda a dar uma primeira impressão sobre o prédio e algumas obras de destacados modernistas cubanos, como Antonio Gattorno e Eduardo Abela [fotos 60-69, aqui]. Agrego também essa postagem do blog Cores Primárias, motivado por exposição de arte cubana que esteve em cartas no Museu Niemeyer, bastante informativa [aqui] . 
Encontrei também esse site da Coleção Farber de arte contemporânea cubana, onde se encontra material adicional sobre artistas e obras que estão presentes na coleção e alguns, igualmente, no acervo do Museu. Escolhi ainda um ou outro trabalho que me marcou especialmente, como esse mosaico acima da entrada principal, pelo lado de dentro.





Wifredo Lam, "The Third World" (1965, oil on canvas).












Eduardo Abela Guajiros 1937


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ComCiência no CCBB - uma apreciação

Acabei de voltar de uma visita ao CCBB-BH para conferir a exposição ComCiência, de Patricia Piccinini. O site da instituição tem uma apresentação bastante completa, da qual reproduzo apenas a apresentação geral e deixo o link aos leitores:

Para trazer a questão das mutações genéticas para o território da arte, a artista australiana Patricia Piccinini se utiliza do realismo como linguagem, apresentando ao espectador um universo de criaturas desconhecidas, porém palpáveis e surpreendentemente afetuosas. ComCiência, um neologismo que carrega sentido duplo, conectando consciente e ciência, propõe ao público um percurso narrativo entre esculturas, desenhos, fotografias e vídeos. Curadoria: Marcello Dantas.

Como sempre manda o figurino, antes de qualquer coisa fui à cata de material para não fazer uma apreciação fundada apenas nas minhas próprias impressões e reações. Achei desde matérias que são pouco mais que press releases mais recheados (G1) , chiliquinhos curtos e grossos de críticos que esperam que suas opiniões impactantes nos façam relevar a preguiça de uma análise mais atenta (Folha) e até um texto bastante generoso, até demais (JB). Quando se trata de arte contemporânea ou trabalhos que a margeam, fico com a sensação de que se o conceito for minimamente instigante, nem precisa de muito desenvolvimento ou coerência, pois há um batalhão de críticos e meios prontos a lhe conceder uma consistência que muitas vezes o próprio trabalho não apresenta. Sinto que é bem o caso, como pretendo mostrar mais adiante.
Bem, sem mais delongas, passemos ao assunto da postagem. O conceito e a proposta estética são, a meu ver, bastante óbvios. As criaturas do mundo imaginário de sua criadora seriam aparentemente surpreendentes e eventualmente repulsivos, mas no fundo são bastante familiares e capazes de despertar empatia. Fica fácil percebê-las como pertencentes ao conjunto de uma mesma obra e a esse suposto mundo intermediário entre o presente e o futuro. Nas palavras de Piccinini "O mundo que crio existe em algum lugar entre o que conhecemos e o que está quase sobre nós (a imaginação, ou o futuro).". Sim, mas de fato nesse sentido são homogêneas até demais, ou seja, podemos dizer que pertencem a um mesmo set de filmagem. Isso se reflete nas escolhas de formas, de cores e até mesmo dos certos bichos que servem de inspiração para os devaneios genéticos bastante limitados que apresentam. Uma das primeiras sensações que me causou foi justamente de enfado pela monotonia das cores das peles dos seres, quebrada aqui e ali numa ou noutra sala, exceções fazendo valer a regra. Diz a matéria do JB "O incômodo provocado por esses monstrengos de silicone concebidos por Patricia nos mostra sobre nossos próprios sentimentos, ampliando nossa compreensão sobre questões complexas e delicadas como a imposição de padrões de beleza, o racismo e a xenofobia". Será mesmo? Se a tônica é a da aceitação, sem qualquer sugestão do conflito entre as possibilidades de interação entre as criaturas e as invariáveis crianças - aliás, pasteurizadas numa suposta postura sem pré-conceitos. Falta humanidade às crianças.
As esculturas, destaque entre as diversas linguagens artísticas empregadas, em seu hiper-realismo "pseudo-mágico" - já que representam um universo imaginado, ainda que não propriamente imaginativo - não alcançam nem de longo a visão especulada nos melhores trabalhos da ficção científica. Pense aí por exemplo na visão de H.G. Wells em A ilha do Dr. Moreau, há mais de cem anos. Fábio Cypriano, na Folha, ao menos intuiu a falta de originalidade ao comparar as obras aos personagens hollywoodianos de E.T. e Guerra nas Estrelas da vida. Essa comparação é reforçada pela informação de que seu estúdio de Melbourne "(...) em muito se assemelha a um espaço de criação de efeitos especiais para o cinema, com seus ateliês de pele, unha ou cabelo" (JB, 24/04/2016). Aliás, por relatos que obtive da apresentação que a própria artista fez na casa quando da inauguração, há um trabalho em série industrializado e standartizado, emprego ad nausea dos mesmos materiais, em que qualquer apuro técnico fica diluído. O hiper-realismo aí, longe de dar asas à imaginação, a prende a um universo referencial já esgarçado,do cinema blockbuster e do videogame, eventualmente do desenho animado e dos quadrinhos - a própria artista parece, inadvertidamente, dar a pista da banalidade que cerca hoje temas como bioengenharia e tecnologia: "Somos cercados por modificações genéticas escondidas em nossos alimentos e animais, sem ao menos dar conta! Eu não induzo o visitante a pensar qualquer coisa sobre engenharia genética, mas pergunto como eles se sentem frente a essas possibilidades". Ora, me parece que ela não entendeu bem que isso está é naturalizado. Aquele filminho manjado de microrganismos se reproduzindo que o diga. Aliás, tratando-se de animais domésticos, plantas, já estamos brincando de deus há milênios. Assim, fica evidente essa retórica pós-moderna de que tenho enorme preguiça, em que o desconhecimento mínimo de história faz as pessoas se sentirem à vontade para apresentar como uma sacada surpreendente algo óbvio, ou fenômenos antiquíssimos como novidades ou, no mínimo, famigeradas "releituras". Parece estar aí parte da explicação para o grande sucesso da exposição entre jovens e crianças, parcelas do público acostumadas a consumir essa estética, que portanto lhes é completamente familiar e confortável. Os jovens também se divertem com as fixações anais, sexuais, corporais. Também pode estar nessa correspondência com a experiência de transformação de seus corpos a empatia com a exposição - de resto, com o tema da mutação, como já nos ensinou o mestre Stan Lee ao criar os X-Men, algumas décadas atrás. Aliás, num dos poucos pontos em que a monotonia é quebrada de fato, na sala que expõe as "máquinas orgânicas", mais uma vez é fácil reconhecer a remissão à cultura de massa, desde a proposta dos robôs emocionais de Guerra nas Estrelas, Carangos e Motocas (esse só quem tem de 40 pra cima saberá...) aos onipresentes Transformers. Não vejo problema em que se estabeleça diálogo com essa estética da cultura massificada, seja qual seu formato. A arte tem bebido nessa fonte faz tempo, mas os bons trabalhos são os que não se limitam a emulá-la. 
Falo por fim alguma coisa de expografia. Basicamente, me pareceu em primeiro lugar que o discurso do curador Marcelo Dantas não encontra ressonância no que nossos sentidos nos informam. “É como se você tivesse entrado nesse circo, nessa casa mal-assombrada”. Hein? Teria sido interessante brincar com o conceito dos Freak Shows, mostras itinerantes de aberrações que povoaram o imaginário de outras gerações num tempo em que o espanto não era fornecido em lata pelo cinema. Mas isso iria chocar-se frontalmente com o conceito de aceitação proposto na fala da autora. Não há horror algum, e sim uma empolgação que se reflete no comportamento do público, sempre soltando exclamações e interrogando alguém se já viu isso ou aquilo. Pra não falar das recorrentes fotos e selfies. O outro ponto que destaco, que me causou profundo incômodo, foram os textos de parede, da autora ou do curador, excessivamente descritivos e explicativos. Não deixam nenhum espaço à interpretação, mastigando demais. Passam do ponto. Isso vindo de mim, eterno crítico das paredes lacônicas, é de se notar. Nisso concordo com o Cypriano, ainda que deixe pra ele o tom bombástico. Acho que se tem que explicar tanto é porque a obra não tem tanta capacidade de comunicação. Pra muita coisa basta um título bem bolado, ou poucas frases. Nem sei se é populista, porque afinal sem dados não podemos saber quanto do público lê os textos. Parece que alguns foram substituídos ou melhorados desde as mostras anteriores em CCBBs de outras cidades.  Que o CCBB tem sido eficiente em apresentar exposições de atração de público em massa, estamos cansados de saber. O que falta é ir além dos números. Essa afluência de um público que não está acostumado a frequentar museus e centros culturais deve ser celebrada, mas não acriticamente. Nesse sentido seria salutar que as instituições promovessem pesquisas qualitativas de público para gerar um conhecimento relevante sobre a forma como são percebidas as exposições e se é pertinente ou não a suspeita de que as obras são "diminuídas" quando a proposta adere a essa perspectiva de consumo cultural.


sábado, 17 de setembro de 2016

A volta ao mundo em 80 museus - 1. Museu da História da Catalunha.

Finalmente, daquela forma inesperada que às vezes é a única, comecei hoje a coluna "A volta ao mundo em 80 museus", proposta antiga de recolher junto a diversos colaboradores material e comentários de viagens e visitas a museus pelo mundo.  

Há pouco realizamos, na disciplina Tipologia de Museus, um seminário sobre Museus Históricos, modernidade e nação, cujas leituras básicas foram as seguintes:

SANTOS, Myrian Sepulveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.
SCHWARCZ, Lilia Moritz  e  DANTAS, Regina. O Museu do Imperador: quando colecionar é representar a nação. Rev. Inst. Estud. Bras. 2008, n.46 , p. 123-164.
BREFE, Ana Cláudia Fonseca. História nacional em São Paulo: o Museu Paulista em 1922. An. mus. paul.,  São Paulo ,  v. 10-11, n. 1, 2003, p. 79-103.  
L`ESTOILE, Benoît de. Museus nacionais como paradigma. In:  NACIONAL (BRASIL). Museus nacionais e os desafios do contemporâneo. Rio de Janeiro: Museu Historico Nacional, 2011. 295 p.
 

Caiu, portanto, como uma luva, o registro realizado pelo Flávio Marcus da Silva, um colega historiador muito prezado, dos tempos de graduação e mestrado. Escritor de mão cheia, apreciador da melhor literatura, e professor da FAPAM (Pará de Minas), daqueles que os alunos cobrem de merecidos elogios. Em sua passagem por Barcelona, visitou o Museu da História da Catalunha:


"Excelente passeio pela história de uma região singular, partindo do período romano (séculos III, IV e V), passando pelo domínio visigodo, pela época em que Barcelona e outras cidades da região eram governadas por condes independentes de qualquer autoridade superior (entre os séculos X e XV), pelos conflitos com a Coroa Espanhola nos séculos XVII e XVIII, até chegar à ditadura de Franco (e sua violenta perseguição aos catalães) e à atualidade. Fantástico!"









O texto de apresentação e as fotos são do próprio Flávio.

Deixo aqui meu agradecimento a ele pela contribuição, e considero que foi um ótimo começo para a coluna, que daqui pra frente deverá crescer a olhos vistos.

Faltam 79!